Bechinat Olam · Yedaiah haPenini · Capítulo IV

A fonte de vida e o punhado de sol

מְקוֹר חַיִּים הֵכִין לָנוּ הַטֶּבַע בְּחָכְמַת בּוֹרְאוֹ
Yedaiah ben Avraham haPenini (c. 1270–1340) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

Resposta ao luto do capítulo anterior: a alma é uma fonte de vida que sobrevive à morte do corpo, e esse é o consolo. Os deleites do mundo, por contraste, são uma emboscada — desenvolvidos numa série de trocadilhos (vv. 8–11) — e o capítulo fecha com a imagem do jovem que aperta um raio de sol e, ao abrir a mão, a encontra vazia.

vv. 1–6

1 Uma fonte de vida nos preparou a natureza, pela sabedoria do seu Criador; deixou-nos uma bênção, fazendo que as nossas almas permaneçam depois dela.

2 Nela podemos consolar-nos da obra da vaidade e do pesar das privações.

3 Salvação eterna temos na casa do Rei; e por que te queixas, ó filho da terra, por haveres cavado aqui para ti um sepulcro?

4 O trono de D'us esperas habitar, tranquilo e seguro; e por que te afliges, aqui, por seres munido de armas de guerra?

5 Imaginaste-te entre os filhos das alturas; e em que te empobrecerá deixar o que é baixo e decadente?

6 Ainda mais que os deleites do mundo que buscas são, para nós, espinhos e abrolhos.

מְקוֹר חַיִּים הֵכִין לָנוּ הַטֶּבַע בְּחָכְמַת בּוֹרְאוֹ הִשְׁאִיר לָנוּ בְּהַשְׁאִיר נַפְשׁוֹתֵינוּ אַחֲרָיו בְּרָכָה: בָּהּ נוּכַל הִתְנַחֵם מִמַּעֲשֵׂה הַהֶבֶל וּמֵעִצְבוֹן הַהֶעֱדָרִים: תְּשׁוּעַת עוֹלָמִים יֵשׁ־לָנוּ בְּבֵית הַמֶּלֶךְ וּמַה תִּתְאוֹנֵן בֶּן אֲדָמָה כִּי חָצַבְתָּ לְּךָ פֹּה קָבֶר: מוֹשַׁב אֱלֹהִים תְּקַוֶּה לָשֶׁבֶת שׁוֹקֵט וּבוֹטֵחַ וּמַה תִּדְאַג פֹּה לְהִפָּקֵד כְּלֵי מִלְחָמָה: דִּמִיתָ הֱיוֹת מִבְּנֵי עֲלִיָּה וּמָה יְחַסֶּרְךָ עֲזִיבַת שָׁפֵל וּמוֹרָד: אַף כִּי מַחֲמַדֵּי תֵבֵל אֲשֶׁר תְּבַקֵּשׁ סַלּוֹנִים וְסָרָבִים הֵם אִתָּנוּ:
vv. 7–12

7 Desde o dia em que o Eterno incumbiu a terra de encerrar em seus torrões este espírito de vida, e ele se fez homem — eis que esses deleites emboscaram o seu sangue e foram os seus perdedores.

8 Os desejos, trevas; e os apetrechos de guerra, sacos.

9 As pérolas, espinhos; e os lírios, urtigas.

10 Os faustos, labaredas; e os ouros, moscas.

11 E os prazeres dos filhos do homem — shidá veshidatin, demônios e demônias.

12 E tu buscas para ti abominações tão grandes como estas? Não as busques!

מִיּוֹם אֲשֶׁר פָּקַד יְיָ אֶת הָאֲדָמָה לְהַסְגִּיר בְּגוּשֶׁיהָ רוּחַ חַיִּים הַלֵּזוּ וַתְּהִי לְאָדָם. הֵן הֵמָּה אָרְבוּ לְדָמוֹ וְהֵם הָיוּ בְּעוֹכְרָיו: הַחֲשָׁקִים מַחֲשַׁכִּים וּכְלֵי הַנְּשָׁקִים שַׂקִּים: הַפְּנִינִים צְנִינִים וְהַשּׁוֹשַׁנִּים קִמְּשׁוֹנִים: הָרְהָבִים לְהָבִים וְהַזְּהוּבִים זְבוּבִים: וְתַעֲנוּגוֹת בְּנֵי אָדָם שִׁדָּה וְשִׁדָּתִין: וְאַתָּה תְּבַקֵּשׁ לְךָ תוֹעֵבוֹת גְּדוֹלוֹת כָּאֵלֶּה אַל תְּבַקֵּשׁ:
vv. 13–17

13 E que há a fazer senão lidar com o tempo como se lida com um companheiro perverso e tortuoso?

14 Ama-o, porém conforme as suas medidas; repreende-o, porém conforme as suas disposições.

15 Alegra-te com o pouco que se obtém dos seus proveitos e da sua posse; e os olhos do escrutínio fecharás, para não ver aquilo em que ele falha em ser útil, ou em que prejudica.

16 Só que a convivência com o tempo é, como as sombras da tarde, veloz em declinar.

17 Como um jovem que recolhe na sua mão um raio de sol, a mão cheia, e, ao abri-la, fica tremendo — pois não vê coisa alguma na sua mão.

וּמַה לַעֲשׂוֹת רַק לְהַנְהִיג הַזְּמָן כְּהַנְהִיגְךָ חָבֵר עִקֵּשׁ וּפְתַלְתֹּל: תְּאָהֳבֵהוּ אֲבָל עַל פִּי מִדּוֹתָיו תְּיַסְּרֵהוּ אֲבָל כְּפִי תְכוּנוֹתָיו: תִּשְׂמַח בִּמְעַט הַמֻּשָׂג מִתּוֹעֲלוֹתָיו וְהַשָּׂגָתוֹ וְעֵינֵי הַבְּחִינָה תַּעֲצִים מֵרְאוֹת בְּמַה שֶׁיִּתְרַשֵּׁל מֵהוֹעִיל אוֹ שֶׁיַּזִּיק: אֶפֶס כִּי חֶבְרַת הַזְּמָן מִצִּלְלֵי עֶרֶב מְהִירַת הַנְּטִיָּה: כְּעֶלֶם יֶאֱסוֹף אֶל יָדוֹ נִיצוֹץ הַשֶּׁמֶשׁ מְלֹא קֻמְצוֹ וּכְפִתְחוֹ עוֹמֵד מַרְעִיד כִּי אֵינֶנּוּ רוֹאֶה אֶת כָּל מְאוּמָה בְּיָדוֹ:

Sobre a tradução e as fontes · מְקוֹרוֹת

A série de trocadilhos (vv. 8–11)

Os versículos 8 a 10 são um tour de force de paronomásia (tzimud): cada par hebraico rima e quase se espelha, esvaziando a coisa elevada na sua versão vil. Ha-chashakim macha-shakim (os desejos / trevas); kelei ha-neshakim sakim (as armas / sacos); ha-peninim tzeninim (as pérolas / espinhos); ha-shoshanim kimshonim (os lírios / urtigas); ha-rehavim lehavim (os faustos / labaredas); ha-zehuvim zevuvim (os ouros / moscas). O efeito sonoro é intraduzível: em português conserva-se apenas o contraste de sentido, perdendo-se a rima. O leitor de hebraico percebe que o vício está, por assim dizer, embutido na própria palavra que nomeia o objeto desejado. O v. 11 fecha a série com shidá veshidatin, expressão de Kohelet 2:8 que o Talmud (Gittin 68a) lê como "demônios e demônias" — os prazeres como espíritos malignos.

Os ecos bíblicos

v.1 funde "fonte de vida" (Mishlei 14:27) e "deixa atrás de si uma bênção" (Yoel 2:14). v.3 combina "salvação eterna" (Yeshayahu 45:17) e "cavar para si um sepulcro no alto" (Yeshayahu 22:16). v.4 ecoa "tranquilo e confiante" (Shoftim 18:7). v.5 usa "os filhos das alturas" (benei aliyah, expressão talmúdica, Sucá 45b). v.6 ecoa "espinhos e abrolhos" de Yechezkel 2:6. v.12 reescreve Yirmiyahu 45:5, "e tu buscas grandezas para ti? Não as busques!", trocando "grandezas" por "abominações". v.13 retoma "perverso e tortuoso" de Devarim 32:5. v.15 ecoa "fecha os olhos para não ver o mal" de Yeshayahu 33:15. v.16 alude a "as sombras da tarde se inclinam" de Yirmiyahu 6:4. v.17 usa "a mão cheia" (melo kumtzo) do rito da oferta de Vayikra 2:2.

O punhado de sol (v. 17)

A imagem que encerra o capítulo é uma das mais delicadas do livro: o jovem fecha a mão sobre um raio de sol, sentindo havê-lo capturado, e quando a abre, treme ao encontrá-la vazia. É a parábola exata do prazer mundano — luminoso enquanto se aproxima, inexistente quando se tenta retê-lo. A tradução procura preservar o gesto exato do original (recolher, fechar, abrir, tremer) sem antecipar a interpretação, que o leitor extrai por si.