Resposta ao luto do capítulo anterior: a alma é uma fonte de vida que sobrevive à morte do corpo, e esse é o consolo. Os deleites do mundo, por contraste, são uma emboscada — desenvolvidos numa série de trocadilhos (vv. 8–11) — e o capítulo fecha com a imagem do jovem que aperta um raio de sol e, ao abrir a mão, a encontra vazia.
1 Uma fonte de vida nos preparou a natureza, pela sabedoria do seu Criador; deixou-nos uma bênção, fazendo que as nossas almas permaneçam depois dela.
2 Nela podemos consolar-nos da obra da vaidade e do pesar das privações.
3 Salvação eterna temos na casa do Rei; e por que te queixas, ó filho da terra, por haveres cavado aqui para ti um sepulcro?
4 O trono de D'us esperas habitar, tranquilo e seguro; e por que te afliges, aqui, por seres munido de armas de guerra?
5 Imaginaste-te entre os filhos das alturas; e em que te empobrecerá deixar o que é baixo e decadente?
6 Ainda mais que os deleites do mundo que buscas são, para nós, espinhos e abrolhos.
7 Desde o dia em que o Eterno incumbiu a terra de encerrar em seus torrões este espírito de vida, e ele se fez homem — eis que esses deleites emboscaram o seu sangue e foram os seus perdedores.
8 Os desejos, trevas; e os apetrechos de guerra, sacos.
9 As pérolas, espinhos; e os lírios, urtigas.
10 Os faustos, labaredas; e os ouros, moscas.
11 E os prazeres dos filhos do homem — shidá veshidatin, demônios e demônias.
12 E tu buscas para ti abominações tão grandes como estas? Não as busques!
13 E que há a fazer senão lidar com o tempo como se lida com um companheiro perverso e tortuoso?
14 Ama-o, porém conforme as suas medidas; repreende-o, porém conforme as suas disposições.
15 Alegra-te com o pouco que se obtém dos seus proveitos e da sua posse; e os olhos do escrutínio fecharás, para não ver aquilo em que ele falha em ser útil, ou em que prejudica.
16 Só que a convivência com o tempo é, como as sombras da tarde, veloz em declinar.
17 Como um jovem que recolhe na sua mão um raio de sol, a mão cheia, e, ao abri-la, fica tremendo — pois não vê coisa alguma na sua mão.
Os versículos 8 a 10 são um tour de force de paronomásia (tzimud): cada par hebraico rima e quase se espelha, esvaziando a coisa elevada na sua versão vil. Ha-chashakim macha-shakim (os desejos / trevas); kelei ha-neshakim sakim (as armas / sacos); ha-peninim tzeninim (as pérolas / espinhos); ha-shoshanim kimshonim (os lírios / urtigas); ha-rehavim lehavim (os faustos / labaredas); ha-zehuvim zevuvim (os ouros / moscas). O efeito sonoro é intraduzível: em português conserva-se apenas o contraste de sentido, perdendo-se a rima. O leitor de hebraico percebe que o vício está, por assim dizer, embutido na própria palavra que nomeia o objeto desejado. O v. 11 fecha a série com shidá veshidatin, expressão de Kohelet 2:8 que o Talmud (Gittin 68a) lê como "demônios e demônias" — os prazeres como espíritos malignos.
v.1 funde "fonte de vida" (Mishlei 14:27) e "deixa atrás de si uma bênção" (Yoel 2:14). v.3 combina "salvação eterna" (Yeshayahu 45:17) e "cavar para si um sepulcro no alto" (Yeshayahu 22:16). v.4 ecoa "tranquilo e confiante" (Shoftim 18:7). v.5 usa "os filhos das alturas" (benei aliyah, expressão talmúdica, Sucá 45b). v.6 ecoa "espinhos e abrolhos" de Yechezkel 2:6. v.12 reescreve Yirmiyahu 45:5, "e tu buscas grandezas para ti? Não as busques!", trocando "grandezas" por "abominações". v.13 retoma "perverso e tortuoso" de Devarim 32:5. v.15 ecoa "fecha os olhos para não ver o mal" de Yeshayahu 33:15. v.16 alude a "as sombras da tarde se inclinam" de Yirmiyahu 6:4. v.17 usa "a mão cheia" (melo kumtzo) do rito da oferta de Vayikra 2:2.
A imagem que encerra o capítulo é uma das mais delicadas do livro: o jovem fecha a mão sobre um raio de sol, sentindo havê-lo capturado, e quando a abre, treme ao encontrá-la vazia. É a parábola exata do prazer mundano — luminoso enquanto se aproxima, inexistente quando se tenta retê-lo. A tradução procura preservar o gesto exato do original (recolher, fechar, abrir, tremer) sem antecipar a interpretação, que o leitor extrai por si.