Do retrato exaltado do homem (cap. 2) nasce a perplexidade do cap. 3: como pode uma criatura de safira, talhada por compasso divino, estar sujeita ao acaso, ao opróbrio e à morte? O capítulo é uma sequência de perguntas indignadas que culmina na constatação de que a única falha da criatura humana é a mortalidade.
1 Para o homem a quem pertencem estas coisas — eu concebi labuta e desgosto.
2 Será bom que uma forma de safira como esta fique exposta ao acaso e ao acidente, como alvo para a flecha?
3 Será justo que se predisponha ao escárnio e à vergonha, como um dos homens vãos?
4 Será conveniente que carregue jugo e opróbrio na sua mocidade e na sua velhice?
5 Como aquele que se assenta no assento da sabedoria há de sentar-se solitário e calar-se — ele, que é semelhante a um filho dos deuses?
6 O que apascenta a fé — como há de apascentar-se de vento? O que difunde sabedoria e disciplina — como há de jazer prostrado sob a sua carga?
7 Apoiado em seu discernimento para escapar — como não lhe resistiu a sua sabedoria? Aferrado à sua integridade — como hão de afrouxar-se-lhe as mãos?
8 Ou, se sob as voltas do destino ele se transtorna — por que então o homem expira, e onde fica? Como os animais do campo e as feras da mata?
9 Por que as pedras sagradas hão de colar-se entre torrões e derramar-se sob os lotos?
10 Como a um corpo delineado por compasso divino — do qual o Eterno disse que nele habitaria na névoa espessa?
11 Mau me parece este feito, e não há consolador — que a obra do Eterno, ao tornar ao pó, seja desprezada e se dissolva.
12 Que sobre cedros plantados pelo dedo de D'us venha a subir o lenhador!
13 Busquei entender o homem, examinei a sua formação, e não encontrei nela falha alguma — exceto esta morte.
v.1 ecoa Bemidbar 11:12 ("acaso fui eu que concebi este povo?") e a "labuta e desgosto" (amal vacha'as) de Tehillim. v.2 retoma "a forma de safira" de Eichah 4:7 e o "alvo para a flecha" de Iyov 16:12. v.3 cita "um dos homens vãos" de Shmuel II 6:20. v.4 ecoa "que carregue o jugo na sua mocidade" de Eichah 3:27. v.5 tece três fontes: "o que se assenta no assento" de Shmuel II 23:8, "sentar-se solitário e calar-se" de Eichah 3:28, e "semelhante a um filho dos deuses" de Daniel 3:25. v.6 combina "apascentar-se de vento" de Hoshea 12:2 e "prostrado sob a sua carga" de Shemot 23:5. v.7 ecoa "não te apoies no teu discernimento" de Mishlei 3:5 e "aferrado à sua integridade" de Iyov 2:3. v.8 cita "o homem expira, e onde fica?" de Iyov 14:10. v.9 reescreve Eichah 4:1, "derramam-se as pedras sagradas nas esquinas". v.10 funde "delineia com o compasso" de Yeshayahu 44:13 e "o Eterno disse que habitaria na névoa espessa" de Melachim I 8:12. v.11 ecoa "mau me parece o feito" de Kohelet 2:17. v.12 alude ao "dedo de D'us" de Shemot 8:15 e ao "lenhador" de Yeshayahu 14:8.
O capítulo conclui com uma das frases mais citadas de Yedaiah: examinando a constituição do homem, o autor declara não achar nela "falha alguma — exceto esta morte". A formulação é deliberadamente paradoxal: a criatura é perfeita em sua estrutura intelectual e moral, e contudo carrega uma única, decisiva imperfeição — a mortalidade. Esse será o nó que os capítulos seguintes procuram desatar: não negando a morte do corpo, mas mostrando que a parte intelectual do homem, sua verdadeira "porção da parte de D'us" (cap. 1, v. 11), não está sujeita a ela.
A imagem do versículo 9 — "as pedras sagradas" derramadas "entre torrões" e "sob os lotos" — vem de Eichah (Lamentações), onde descreve os jovens nobres de Jerusalém aviltados na destruição. Yedaiah transpõe o luto nacional para um luto metafísico: a alma humana, pedra preciosa do santuário, jaz misturada à matéria perecível, como gema atirada ao barro. A força da tradução literal está justamente em preservar essa colisão de registros — o vocabulário do Templo aplicado à condição existencial do indivíduo.