Bechinat Olam · Yedaiah haPenini · Capítulo II

A amplitude da alma

לְבָבוֹ מִנִּי יָם רָחֲבוּ גְדוֹתָיו
Yedaiah ben Avraham haPenini (c. 1270–1340) · hebraico de domínio público (Sefaria) · tradução fiel PT-BR

O segundo capítulo descreve o alcance cósmico do intelecto humano: o homem como um dos exércitos celestes, cujo pensamento, treinado pelo hábito, percorre os céus e os abismos e abarca as naturezas de toda a criação.

vv. 1–4

1 Por isto se assombra todo piedoso, e se apavora — pois a força se foi.

2 Pois quando vejo violência e contenda na cidade, desprezo a minha própria imagem.

3 Pois quando observo as mudanças nas províncias, odeio a mim mesmo.

4 Eu disse: eis que este homem, na terra, era como um dentre o exército do alto, nas alturas.

עַל זֹאת יִשְׁתּוֹמֵם כָּל חָסִיד יִבָּהֵל כִּי אָזְלַת יָד: כִּי אֶרְאֶה חָמָס וְרִיב בָּעִיר צַלְמִי אֶבְזֶה: כִּי אֶתְבּוֹנֵן לַתְּמוּרוֹת בַּמְּדִינוֹת שָׂנֵאתִי נַפְשִׁי: אָמַרְתִּי הֵן הָאָדָם הַלָּז בַּתֵּבֵל הָיָה כְּאַחַד מִצְּבָא הַמָּרוֹם בַּמָּרוֹם:
vv. 5–9

5 Seu coração, mais vasto que o mar; transbordavam as suas margens.

6 Estende as suas asas para o sul; o que está selado em suas câmaras, ele o revela.

7 Eis que avança para o oriente e compreende os arcanos da sabedoria.

8 Sobe aos céus — ali estão as carruagens de sua especulação; estende o seu leito no Sheol — eis que ergue aposentos nos abismos.

9 Eleva-se da baixeza de sua condição ao alto dos seus céus; desce das alturas dos seus céus sobre a sua terra, até que se desobstruam diante dele as veredas do seu mundo.

לְבָבוֹ מִנִּי יָם רָחֲבוּ גְדוֹתָיו: יִפְרֹשׂ כְּנָפָיו לְתֵימָן בַּחֲדָרָיו סָתוּם יְגַלֶּה: הֵן קֶדֶם יַהֲלֹךְ וְיָבִין תַּעֲלוּמוֹת חָכְמָה: יִסַּק שָׁמַיִם שָׁמָּה מַרְכְּבוֹת הִתְחַכְּמוּתוֹ יַצִּיעַ שְׁאוֹל הִנֵּה עֲלִיּוֹת בִּתְהֹמוֹת יְקָרֶה: יַעֲלֶה מִשְּׁפַל מַצָּבוֹ לְרוּם שָׁמָיו יֵרֵד מִגָּבְהֵי שָׁמָיו עַל אַרְצוֹ עַד יְסֻקְּלוּ לְפָנָיו נְתִיבוֹת עוֹלָמוֹ:
vv. 10–13

10 Num ir e vir, até que — pela facilidade do hábito — conduz e traz, eleva e abaixa o seu intelecto e o espírito do seu discernimento pelos confins da criação.

11 Até recolher em seus punhos as regiões da terra, e na sua força e na sua elevação, e na sua majestade, os altos céus.

12 Até que o seu saber abarque as naturezas das criaturas e a sua constituição, e o seu escrutínio reúna a verdade dos seres criados segundo as suas espécies.

13 E sobre o D'us dos deuses profere maravilhas, e dirige palavras ao Altíssimo.

רָצוֹא וָשׁוֹב עַד בְּקַלּוֹת הֶרְגֵּל שִׂכְלוֹ וְרוּחַ בִּינָתוֹ בְּקַצְוֵי הַבְּרִיאָה מוֹלִיךְ וּמֵבִיא מַעֲלֶה וּמוֹרִיד: עַד יֶאֱסוֹף בְּחָפְנָיו גְּלִילוֹת אָרֶץ בְּתַעֲצוּמוֹ וְרוּמוֹ וּבְגַאֲוָתוֹ שְׁחָקִים: עַד יִכְלוֹל מַדָּעוֹ טִבְעֵי הַיְּצוּרִים וּתְכוּנָתָם תְּקַבֵּץ בְּחִינָתוֹ אֲמִתַּת הַנִּבְרָאִים לְמִינֵיהֶם: וְעַל אֵל אֵלִים יְדַבֵּר נִפְלָאוֹת וּמִלִּין לְצַד עִלָּאָה יְמַלֵּל:

Sobre a tradução e as fontes · מְקוֹרוֹת

Os ecos bíblicos verso a verso

v.1 ecoa Devarim 32:36, "ki azlat yad" (porque a força se foi). v.2 retoma Tehillim 55:10, "violência e contenda na cidade". v.4 alude a Yeshayahu 24:21, "o exército do alto, nas alturas" (tzeva hamarom bamarom). v.5 funde Iyov 11:9 ("mais largo que o mar") e Yehoshua 3:15 ("transbordando todas as suas margens"). v.6 cita Iyov 39:26, "estende as asas para o sul". v.7 combina Iyov 23:8 ("eis que avanço para o oriente") e Iyov 11:6 ("os arcanos da sabedoria"). v.8 reescreve Tehillim 139:8, "se subo aos céus, ali estás; se faço o meu leito no Sheol, eis-te". v.9 evoca Yeshayahu 62:10, "desimpedi de pedras" (saklu me'even). v.10 retoma o "ir e voltar" (ratzo vashov) das criaturas viventes de Yechezkel 1:14. v.11 ecoa Mishlei 30:4, "quem recolheu o vento em seus punhos?". v.13 é tecido a partir de Daniel 11:36 ("e contra o D'us dos deuses falará maravilhas") e Daniel 7:25 ("e proferirá palavras contra o Altíssimo").

A inversão de Daniel

O fecho do capítulo (v.13) é um exemplo agudo da técnica de shibbutz. As duas locuções vêm do livro de Daniel, onde descrevem o rei ímpio que blasfema contra D'us. Yedaiah desloca as mesmas palavras para o sentido oposto: o intelecto humano, tendo percorrido a criação, fala maravilhas a respeito de D'us e dirige-Lhe palavras de louvor. A mesma frase que na fonte é arrogância impía torna-se, no novo contexto, o ápice da contemplação. Esse jogo deliberado de recontextualização é parte do prazer literário que o autor espera do leitor que reconhece as fontes.

O movimento do capítulo

Do desânimo diante da corrupção do mundo (vv. 1–3) o autor passa à lembrança da origem celeste do homem (v. 4) e, daí, a uma descrição ascendente do alcance do intelecto: o coração mais vasto que o mar (v. 5), o pensamento que sobe aos céus e desce ao Sheol (v. 8), e que afinal "abarca as naturezas das criaturas segundo as suas espécies" (v. 12) — um percurso que culmina não na ciência por si mesma, mas no discurso sobre D'us (v. 13).