Talmud Yerushalmi · Massechet Sheviit · Perek Vav · Halachá 3
בְּצָלִים

Cebolas que receberam chuva no ano sabático: a cor das folhas e o crescimento novo

Perek Vav, Halachá 3, no Talmud Yerushalmi, Massechet Sheviit

Terceira halachá do Perek Vav de Massechet Sheviit: a Mishná trata de cebolas sobre as quais caiu chuva (no ano sabático) e que brotaram — se as suas folhas ficaram escuras, são proibidas; se verdejaram, são permitidas —, e traz a distinção de Rabi Chanina ben Antignos: se não podem ser arrancadas pelas próprias folhas, são proibidas; na medida inversa, no pós-sabático são permitidas. A guemará abre esclarecendo a leitura da Mishná — escuras proibidas, verdes permitidas — e traz o ensino de Rabi Yosei e de Rabi Chiya, ambos em nome de Rabi Yochanan, sobre a cebola arrancada e replantada, que se dizima por inteiro assim que escurece ou enraíza. Discute então, longamente, a disputa entre Rabi Zeira — que permite a cebola assim que o crescimento novo predomina sobre o velho — e Rabi La com Rabi Imi, que proíbem; cruza essa disputa com a regra geral de Rabi Shimon em nome de Rabi Yehoshua sobre coisas que têm ou não têm "quem as permita", com a objeção de que o próprio ano sabático não tem quem o permita e ainda assim os Sábios não lhe deram medida, com a resposta que distingue o biur da comida, e com a resolução final que distingue misturas de crescimento novo, ilustrada pelo caso da cebola de kilaí hakerem e pela mishná sobre o crescimento da teruma. Fecha com o episódio de Rabi Abahu em Arbel, que primeiro permitiu as cebolas seguindo a opinião de Rabi Zeira, viu que se apoiavam demais nela e restringiu sua palavra apenas às cebolas tombadas, e com o comentário de Rabi Yuda bar Pazi, que sabia que Rabi Zeira recuara de sua opinião ao ouvir a discordância de Rabi La e Rabi Imi.

A Mishná · מַתְנִיתִין

בְּצָלִים שֶׁיָּרְדוּ עֲלֵיהֶן גְּשָׁמִים וְצִימְחוּ אִם הָיוּ הֶעָלִין שֶׁלָּהֶן שְׁחוֹרִים אֲסוּרִין. הוֹרִיקוּ הֲרֵי אֵילּוּ מוּתָּרִין. רִבִּי חֲנִינָא בֶּן אַנְטִיגְנָס אוֹמֵר אִם אֵינָן יְכוֹלִין לְהִיתָּלֵשׁ בֶּעָלִין שֶׁלָּהֶן אֲסוּרִין כְּנֶגֶד כֵּן מוֹצָאֵי שְׁבִיעִית מוּתָּרִין.

Mishná: Cebolas sobre as quais caiu chuva e brotaram — se as suas folhas estavam escuras, são proibidas. Se verdejaram, eis que estas são permitidas. Diz Rabi Chanina ben Antignos: se elas não podem ser arrancadas pelas suas folhas, são proibidas; na medida inversa a essa, no pós-sabático são permitidas.

A Halachá · הֲלָכָה ג

01A leitura da Mishná: escuras proibidas, verdes permitidas
Yerushalmi · Sheviit 6:3
כֵּינִי מַתְנִיתָא שְׁחוֹרִין אֲסוּרִין וִירוֹקִין מוּתָּרִין.

Halachá: Assim se ensina na Mishná: as (folhas) escuras são proibidas, e as verdes são permitidas.

02A cebola arrancada e replantada: dízima-se por inteiro assim que escurece ou enraíza
Yerushalmi · Sheviit 6:3
רִבִּי יוֹסֵי בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן בָּצֵל שֶׁעֲקָרוֹ וּשְׁתָלוֹ מִכֵּיוָן שֶׁהִשְׁחִיר מִתְעַשֵּׂר לְפִי כוּלּוֹ. רִבִי חִיָיה בְשֵׁם רִבִּי יוֹחָנָן בָּצֵל שֶׁעֲקָרוֹ וּשְׁתָלוֹ מִכֵּיוָן שֶׁהִשְׁרִישׁ מִתְעַשֵּׂר לְפִי כוּלּוֹ. וְלֹא שַׁנְיָיא בֵּין שֶׁעֲקָרוֹ בַשְּׁבִיעִית וּשְׁתָלוֹ לְמוּצָאֵי שְׁבִיעִית בֵּין שֶׁעֲקָרוֹ בַשְּׁבִיעִית.

Halachá: Rabi Yosei, em nome de Rabi Yochanan: uma cebola que se arrancou e se replantou — assim que escureceu, dizima-se de acordo com o todo. Rabi Chiya, em nome de Rabi Yochanan: uma cebola que se arrancou e se replantou — assim que enraizou, dizima-se de acordo com o todo. E não há diferença entre a que se arrancou no sétimo ano e se replantou no pós-sabático, e a que se arrancou no sétimo ano (e se replantou ainda nele).

03A disputa de Rabi Zeira com Rabi La e Rabi Imi, e a regra sobre o que "tem quem o permita"
Yerushalmi · Sheviit 6:3
רִבִּי זְעִירָא אָמַר מִכֵּיוָן שֶׁרָבָה עָלָיו הֶחָדָשׁ מוּתָּר. רִבִּי לָא רִבִּי אִימִּי תְּרַוֵּיהוֹן אָמְרֵי אָסוּר. מַתְנִיתִין פְלִיגָא עַל רִבִּי לָא וְעַל רִבִּי אִימִּי. דְּתַנֵי זֶה הַכְּלָל שְׁהָיָה רִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר מִשּׁוּם רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ כָּל דָּבָר שֶׁיֵּשׁ לוֹ מַתִּירִין כְּגוֹן טֵבֵל וּמַעֲשֵׂר שֵׁינִי וְהֶקְדֵּשׁ וְחָדָשׁ לֹא נָתְנוּ לָהֶן חֲכָמִים שִׁיעוּר אֶלָּא מִין בְּמִינוֹ בְּכָל שֶּׁהוּא וּשֶׁאֵינוֹ בְמִינוֹ בְּנוֹתֵן טַעַם. וכָל דָּבָר שֶׁאֵין לוֹ מַתִּירִין כְּגוֹן תְּרוּמָה וְחַלָּה וְעָרְלָה וְכִלְאַיִם נָתְנוּ לָהֶן חֲכָמִים שִׁיעוּר מִין בְּמִינוֹ וּשֶׁלֹּא בְמִינוֹ בְּנוֹתֵן טַעַם. הָתִיבוּן הֲרֵי שְׁבִיעִית הֲרֵי אֵין לָהּ מַתִּירִין וְלֹא נָתְנוּ לָהּ חֲכָמִים שִׁיעוּר. אָמַר לָהֶן לֹא אִם אָמַרְתֶּם בַּשְּׁבִיעִית שֶׁאֵינָהּ אוֹסֶרֶת כָּל שֶׁהוּא אֶלָּא בְבִיעוּר אֲבָל לַאֲכִילָה בְנוֹתֵן טַעַם.

Halachá: Rabi Zeira disse: assim que o novo (crescimento) predominou sobre ele, é permitido. Rabi La e Rabi Imi, ambos dizem: é proibido. A Mishná discorda de Rabi La e de Rabi Imi, pois se ensina: esta é a regra geral que Rabi Shimon costumava dizer em nome de Rabi Yehoshua: toda coisa que tem quem a permita — como o tevel, o segundo dízimo, o consagrado e o produto novo (chadash) — os Sábios não lhes deram medida, mas sim: da mesma espécie, em qualquer quantidade; e não sendo da mesma espécie, quando dá sabor. E toda coisa que não tem quem a permita — como a teruma, a chalá, a orlá e o kilaim — os Sábios lhes deram medida: da mesma espécie e não sendo da mesma espécie, quando dá sabor. Objetaram: eis o (produto do) sétimo ano — eis que não tem quem o permita, e não obstante os Sábios não lhe deram medida! Disse-lhes: não; se dissestes isso quanto ao sétimo ano, é porque ele não proíbe em qualquer quantidade senão quanto ao biur (a obrigação de eliminação); mas quanto à comida, é conforme dá sabor.

04A resolução final: misturas e crescimento novo, e o caso da cebola de kilaí hakerem
Yerushalmi · Sheviit 6:3
מַה עָבְדִין לָהּ. רִבִּי הִילָא וְרִבִּי אִימִּי פָּתְרִין לָהּ בְּעֵירוּבִין אֲבָל בְּגִידּוּלִין חוֹמֶר הוּא בְגִידּוּלִין. דְּאָמַר רִבִּי זְעִירָא בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָתָן בָּצָל שֶׁל כִּלְאֵי הַכֶּרֶם שֶׁעֲקָרוֹ וּשְׁתָלוֹ אֲפִילוּ הוֹסִיף כַּמָּה אָסוּר שֶׁאֵין גִידּוּלֵי אִיסּוּר מַעֲלִין אֶת הָאִיסּוּר. מַתְנִיתָא פְלִיגָא עַל רִבִּי זְעִירָא דְּתַנִּינָן גִּידּוּלֵי תְרוּמָה תְרוּמָה וְגִידוּלֵי גִידוּלֵיהֶן חוּלִין אֲבָל טֵבֵל וּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וּסְפִיחֵי שְׁבִיעִית וּתְרוּמַת מַעֲשֵׂר וְהַמְּדוּמַע וְהַבִּיכּוּרִין גִידוּלֵיהֶן חוּלִין. וְתַנֵּי עֲלָהּ בְּמַה דְבָרִים אֲמוּרִים בְּדָבָר שֶׁזַּרְעוֹ כָלָה. אֲבָל בְּדָבָר שֶׁאֵין זַרְעוֹ כָלָה גִידוּלֵי גִידוּלִין אֲסוּרִין. מַה עֲבַד לָהּ רִבִּי זְעִירָא. פָּתַר לָהּ בִּקְדּוּשַׁת שְׁבִיעִית בְּבִיעוּר אֲבָל לָאֲכִילָה כֵּיוָן שֶׁרָבָה עָלָיו הֶחָדָשׁ מוּתָּר.

Halachá: O que se faz com essa dificuldade? Rabi Hila e Rabi Imi a resolvem quanto a misturas, mas quanto ao crescimento novo, há um rigor no crescimento. Pois disse Rabi Zeira em nome de Rabi Yonatan: uma cebola de kilaí hakerem (mistura proibida na vinha) que se arrancou e se replantou — mesmo que tenha aumentado o quanto for, é proibida, pois o crescimento do que é proibido não neutraliza a proibição. A Mishná discorda de Rabi Zeira, pois ensinamos: o crescimento da teruma é teruma, e o crescimento do crescimento delas é chulin (comum); mas do tevel, do primeiro dízimo, dos brotos espontâneos do sétimo ano, da teruma do dízimo, do medumá e dos bikurim, o crescimento é chulin. E ensina-se a respeito: a que se referem estas palavras? A uma coisa cuja semente se consome; mas numa coisa cuja semente não se consome, o crescimento do crescimento é proibido. O que faz com isso Rabi Zeira? Resolve-o quanto à santidade do sétimo ano no tocante ao biur; mas quanto à comida, assim que o novo predominou sobre ele, é permitido.

05Rabi Abahu em Arbel: a permissão restrita às cebolas tombadas, e o recuo de Rabi Zeira
Yerushalmi · Sheviit 6:3
רִבִּי אַבָּהוּ עָל לְאַרְבֵּל וְאִיתְקַבֵּל גַּבֵּי אַבָּא בַּר בִּנְיָמִן אָתוּן וּשְׁאָלוּן לֵיהּ בְּאִילֵּין בְּצָלַיָיא וְהוֹרֵי לוֹן כְּהָדָא דְרִבִּי זְעִירָא מִכֵּיוָן שֶׁרָבָה עָלָיו הֶחָדָשׁ מוּתָּר. חָמְתוֹן סְמִיכִין עֲלוֹי. אָמַר לוֹן. אֲנִי לֹא אָמַרְתִּי אֶלָּא בְּמוּרְכָנִין. אָמַר רִבִּי יוּדָה בַר פָּזִי אֲנָא יְדַע רֹאשָׁהּ וְסוֹפָהּ כַּד דְּשָׁמַע רִבִּי לָא וְרִבִּי אִימִּי פְלִיגִין שְׁרַע מִינָהּ.

Halachá: Rabi Abahu entrou em Arbel e foi recebido na casa de Abba bar Binyamin. Vieram e lhe perguntaram sobre estas cebolas, e ele lhes ensinou conforme aquilo que (disse) Rabi Zeira: assim que o novo predominou sobre ele, é permitido. Viu que se apoiavam demais nisso. Disse-lhes: eu não disse senão quanto às (cebolas) tombadas. Disse Rabi Yuda bar Pazi: eu conheço o começo e o fim disto — quando ele (Rabi Zeira) ouviu que Rabi La e Rabi Imi discordavam, afastou-se disso.

Nota

Esta é a terceira halachá do Perek Vav de Massechet Sheviit. A Mishná trata de cebolas sobre as quais caiu chuva no ano sabático e que brotaram: se as folhas ficaram escuras, são proibidas; se verdejaram, são permitidas — com a distinção de Rabi Chanina ben Antignos entre as que já podem ser arrancadas pelas próprias folhas, que são proibidas, e as que não podem, que no pós-sabático são permitidas na medida inversa.

A guemará esclarece primeiro a leitura da Mishná — escuras proibidas, verdes permitidas — e traz o ensino de Rabi Yosei e de Rabi Chiya, ambos em nome de Rabi Yochanan, sobre a cebola arrancada e replantada, que se dizima por inteiro assim que escurece ou enraíza, sem diferença conforme o momento da replantação. Discute então longamente a disputa entre Rabi Zeira, que permite a cebola assim que o crescimento novo predomina sobre o velho, e Rabi La com Rabi Imi, que proíbem — apontando que a própria Mishná parece discordar destes últimos. Cruza essa disputa com a regra geral de Rabi Shimon em nome de Rabi Yehoshua sobre coisas que têm ou não têm "quem as permita", com a objeção de que o sétimo ano não tem quem o permita e ainda assim os Sábios não lhe deram medida, e com a resposta que distingue a proibição de qualquer quantidade quanto ao biur da regra do sabor quanto à comida. Resolve, por fim, a dificuldade distinguindo misturas de crescimento novo — ilustrando o rigor do crescimento com o caso da cebola de kilaí hakerem, cujo crescimento nunca neutraliza a proibição, em contraste com a mishná sobre o crescimento da teruma, e com a distinção entre coisas cuja semente se consome e as que não. Fecha com o episódio de Rabi Abahu em Arbel, que ensinou a permissão de Rabi Zeira aos moradores locais, viu que dela se apoiavam em excesso e restringiu sua palavra apenas às cebolas tombadas, e com o comentário de Rabi Yuda bar Pazi, que sabia que o próprio Rabi Zeira recuara de sua opinião ao ouvir a discordância de Rabi La e Rabi Imi.