Talmud Yerushalmi · Massechet Sheviit · Perek Vav · Halachá 2
סוּרִיָּא

Trabalhar em Suria com o que está destacado, mas não com o que está preso à terra

Perek Vav, Halachá 2, no Talmud Yerushalmi, Massechet Sheviit

Segunda halachá do Perek Vav de Massechet Sheviit: a Mishná ensina que em Suria se trabalha o que já está destacado da terra, mas não o que ainda está preso a ela — debulha-se, joeira-se, pisa-se (as uvas) e amontoa-se em feixes, mas não se colhe o cereal, nem se vindima, nem se colhe a azeitona —, e traz a regra geral de Rabi Akiva: tudo o que é semelhantemente permitido na Terra de Israel, faz-se em Suria. A guemará explica, com Rabi Abahu, que a proibição visa impedir que os que vão trabalhar em Suria ali se estabeleçam de vez, e que o que está destacado é permitido justamente porque o pequeno lucro não induz ninguém a se mudar para lá. Discute a pergunta de Rabi Yosei, filho de Rabi Bun, diante de Rabi Mana, sobre moer grão junto com um gentio na própria Terra de Israel — respondida a partir da mesma Mishná, por argumento a fortiori; a pergunta sobre alugar o próprio animal a um gentio num lugar onde se come o produto mas não se cultiva a terra, com a proibição de Rabi Yitzchak e Rabi Imi a Rabi Levi de Tzinabaria, e a prática cautelar de Rabi Hoshaia, que preferia pagar aos próprios gentios a deixar seu animal a sós com eles; a distinção entre produto do sexto ano que entrou no sétimo — permitido mesmo na Terra — e produto do sétimo ano que saiu para o pós-sabático — permitido lavrar mas proibido colher —, esclarecendo que a Mishná trata apenas do produto do próprio ano sabático dentro dele; e fecha com o episódio de Rabi Chuna, que foi a Tiro e proibiu uma certa forma de irrigação, e a discussão entre Rabi Yosei, Rabi Yudan e Rabi Mana sobre se isso se harmoniza com a permissão, já ensinada, de regar hortas de irrigação intensiva tanto em dia intermediário de festa quanto no ano sabático.

A Mishná · מַתְנִיתִין

עוֹשִׂין בְּתָלוּשׁ בְּסוּרִיָּא אֲבָל לֹא בִמְחוּבָּר. דָּשִׁים וְזוֹרִים וְדוֹרְכִים וּמְעַמְּרִין אֲבָל לֹא קוֹצְרִים וְלֹא בוֹצְרִין וְלֹא מוֹסְקִין. כְּלָל אָמַר רִבִּי עֲקִיבָה כָּל שֶׁכְּיוֹצֵא בוֹ מוּתָּר בָּאָרֶץ עוֹשִׂין אוֹתוֹ בְסוּרִיָּא.

Mishná: Trabalha-se em Suria com o que está destacado (da terra), mas não com o que está preso a ela. Debulha-se, joeira-se, pisa-se (as uvas) e amontoa-se em feixes, mas não se colhe o cereal, nem se vindima, nem se colhe a azeitona. Estabeleceu Rabi Akiva uma regra geral: tudo o que, de modo semelhante, é permitido na Terra (de Israel), faz-se isso em Suria.

A Halachá · הֲלָכָה ב

01Por que se proíbe o que está preso à terra, e se permite o que está destacado
Yerushalmi · Sheviit 6:2
עוֹשִׂין בְּתָלוּשׁ בְּסוּרִיָּא כו׳. אָמַר רִבִּי אַבָּהוּ שֶׁלֹּא יְהוּ הוֹלְכִין הוֹלְכִין וּמִשְׁתַּקְעִין שָׁם. בְּתָלוּשׁ לָמָּה הוּא מוּתָּר מִן גַו דוּ חָמֵי רַוְוחָא קְרִיב לָא נְפִיק.

Halachá: "Trabalha-se em Suria com o que está destacado" etc. Disse Rabi Abahu: para que (os que ali trabalham) não fiquem indo e se estabelecendo lá de vez. Com o que está destacado, por que é permitido? Porque, vendo que o lucro é pequeno, (o trabalhador) não sai (não se muda de vez para lá).

02A pergunta de Rabi Yosei bar Bun: moer grão com um gentio na própria Terra
Yerushalmi · Sheviit 6:2
רִבִּי יוֹסֵי בֵּי רִבִּי בּוּן בְּעָא קוֹמֵי רִבִּי מָנָא מַהוּ לִטְחוֹן עִם הַגּוֹי בָּאָרֶץ. אָמַר לֵיהּ מַתְנִיתָא אָמַר שֶׁהוּא אָסוּר דְּתַנִּינָן עוֹשִׂין בְתָלוּשׁ בְּסוּרִיָּא אֲבָל לֹא בִמְחוּבָּר הָא בָאָרֶץ אֲפִילוּ בְתָלוּשׁ יְהֵא אָסוּר.

Halachá: Rabi Yosei, filho de Rabi Bun, perguntou diante de Rabi Mana: qual é a lei quanto a moer (grão) junto com o gentio na Terra (de Israel)? Disse-lhe: a Mishná já o diz, que é proibido, pois ensinamos: "trabalha-se em Suria com o que está destacado, mas não com o que está preso à terra" — segue-se que na Terra, mesmo com o que está destacado, há de ser proibido.

03Alugar o próprio animal a um gentio, e a cautela de Rabi Hoshaia
Yerushalmi · Sheviit 6:2
מָקוֹם שֶׁהוּא נֶאֱכָל וְלֹא נֶעֱבָד. מַהוּ לְהַשְׂכִּיר בְּהֶמְתּוֹ שָׁם. רִבִּי לֵוִי צִנַּבְּרִיָּא שָׁאַל לְרִבִּי יִצְחָק וּלְרִבִּי אִימִּי וְאָסְרוּן. רִבִּי הוֹשַׁעְיָה יְהַב לְעַמְמַיָּא פְרִיטִין לֹא מִשּׁוּם דְהוּא אָסוּר אֶלָּא שֶׁלֹּא לְיַיחֵד בְּהֶמְתּוֹ עִם הַגּוֹי.

Halachá: Num lugar onde se come (o produto), mas não se cultiva (a terra) — qual é a lei quanto a alugar o próprio animal ali (a um gentio)? Rabi Levi de Tzinabaria perguntou a Rabi Yitzchak e a Rabi Imi, e eles proibiram. Rabi Hoshaia dava dinheiro aos próprios gentios (para que contratassem seus animais em vez do dele), não porque (alugar o animal) fosse proibido, mas para não deixar seu animal a sós com o gentio.

04De que produto se trata: do sexto ano, ou do próprio ano sabático
Yerushalmi · Sheviit 6:2
וּמַה נָן קַיָימִין. אִם בְּפֵירוֹת שִׁשִּׁית שֶׁנִּכְנְסוּ לַשְּׁבִיעִית אֲפִילוּ בָאָרֶץ מוּתָּר. אִם בְּפֵירוֹת שְׁבִיעִית שֶׁיָּצְאוּ לְמוֹצָאֵי שְׁבִיעִית לַחֲרוֹשׁ מוּתָּר וְלִקְצוֹר אָסוּר. אֶלָּא כִּי נָן קַיָימִין בְּפֵירוֹת שְׁבִיעִית בַּשְּׁבִיעִית.

Halachá: E de que estamos tratando (na Mishná)? Se de produto do sexto ano que entrou no sétimo (ano sabático) — mesmo na Terra é permitido. Se de produto do sétimo ano que saiu para o pós-sabático — é permitido lavrar, mas proibido colher. Antes, estamos tratando de produto do sétimo ano dentro do próprio sétimo ano.

05Rabi Chuna proíbe uma irrigação em Tiro, e a objeção de Rabi Yosei
Yerushalmi · Sheviit 6:2
רִבִּי חוּנָא אֲזַל לְצוֹר וְאָסַר לוֹן הָדָא אַשְׁקִיָיתָה. שָׁמַע רִבִּי יוֹסֵי וְאָמַר וְיֵאוּת וְהָדָא לֹא בִמְחוּבָּר הִיא. וְהָא תַנִּינָן מַשְׁקִין בֵּית הַשַּׁלְּחִין בְּמוֹעֵד וּבַשְּׁבִיעִית. אָמַר רִבִּי יוּדָן לִזְרָעִים שֶׁבּוֹ. רִבִּי מָנָא בָּעֵי מֵעַתָּה יְהֵא מוּתָּר לַחֲרוֹשׁ לָהֶן.

Halachá: Rabi Chuna foi a Tiro e proibiu-lhes esta certa (forma de) irrigação. Ouviu Rabi Yosei e disse: e está correto — pois isto não é (produto) preso à terra? E eis que ensinamos: "rega-se um campo de irrigação intensiva tanto em dia intermediário de festa quanto no ano sabático"! Disse Rabi Yudan: (essa permissão vale) para as hortaliças que há nele. Rabi Mana perguntou: segundo isso, deveria ser permitido lavrar para elas!

Nota

Esta é a segunda halachá do Perek Vav de Massechet Sheviit. A Mishná ensina que em Suria se trabalha o produto já destacado da terra, mas não o que ainda está preso a ela — permitindo-se debulhar, joeirar, pisar as uvas e amontoar em feixes, mas não colher o cereal, vindimar ou colher a azeitona —, e fecha com a regra geral de Rabi Akiva: tudo o que é permitido na Terra de Israel de modo semelhante, faz-se em Suria.

A guemará abre explicando, com Rabi Abahu, que a distinção entre o que está preso e o que está destacado da terra visa impedir que os que vão trabalhar em Suria ali se estabeleçam permanentemente: o trabalho com o produto já destacado é permitido justamente porque o lucro é pequeno demais para induzir alguém a se mudar de vez. Traz então a pergunta de Rabi Yosei, filho de Rabi Bun, diante de Rabi Mana, sobre moer grão junto com um gentio na própria Terra de Israel, respondida por argumento a fortiori a partir da própria Mishná. Discute a pergunta sobre alugar o próprio animal a um gentio num lugar onde se come o produto mas não se cultiva a terra — proibido segundo Rabi Yitzchak e Rabi Imi —, e a prática cautelar de Rabi Hoshaia, que preferia dar dinheiro aos próprios gentios a deixar seu animal a sós com eles. Esclarece a distinção entre produto do sexto ano que entrou no sétimo, permitido mesmo na Terra, e produto do sétimo ano que saiu para o pós-sabático, quando é permitido lavrar mas proibido colher — deixando claro que a Mishná trata apenas do produto do próprio ano sabático dentro dele. Fecha com o episódio de Rabi Chuna, que foi a Tiro e proibiu uma certa forma de irrigação, e a discussão entre Rabi Yosei, Rabi Yudan e Rabi Mana sobre se essa proibição se harmoniza com a permissão, já ensinada alhures, de regar hortas de irrigação intensiva tanto em dia intermediário de festa quanto no ano sabático — discussão que a guemará deixa em aberto, como pergunta retórica de Rabi Mana.