Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Zayin · Halachá 8 (última do perek)
דְּמַאי

Dez fileiras de dez jarros de vinho — dízimo em local desconhecido dentro de cada configuração

Perek Zayin, Halachá 8, no Talmud Yerushalmi, Massechet Demai

Última halachá do Perek Zayin: nova Mishná sobre quem tinha dez fileiras de dez jarros de vinho (cem jarros ao todo, dispostos em quadrado) e disse que a fileira externa contém um jarro de maasser (dízimo), sem saber qual — toma-se dois jarros na diagonal; se disse que meia fileira externa o contém — toma-se quatro jarros dos quatro cantos; se disse que uma fileira qualquer o contém — toma-se uma fileira inteira na diagonal; se disse que meia fileira qualquer o contém — toma-se duas fileiras na diagonal; e se disse que um jarro qualquer o contém, sem especificar onde — toma-se de cada jarro individualmente. A guemará explica por que, no primeiro caso, se toma exatamente dois jarros, com a leitura de Rabi Cohen em nome dos rabanan de Cesareia sobre separar a metade de outro lugar, e traz uma baraita extensa sobre duas jarras de dízimo com estatuto de tevel, uma pura e uma impura: a disputa entre Rabi e Rabi Elazar bei Rabi Shimon sobre declarar a teruma do dízimo logo ao erguer cada jarra ou apenas ao final, com as razões de cada lado quanto ao receio de já se ter bebido líquido impuro antes ou depois da declaração, o consenso de que líquido certamente impuro proíbe até mesmo teruma duvidosa, e de que líquido de estatuto duvidoso permite até mesmo teruma certa, e o fechamento de Rabi Yossei beRabi Bun, que resume os dois receios como a única leitura possível da disputa.

A Mishná · מַתְנִיתִין

מִי שֶׁהָיוּ לוֹ עֲשָׂרָה שׁוּרוֹת שֶׁל עֶשֶׂר כַּדֵּי יַיִן וְאָמַר שׁוּרָה הַחִיצוֹנָה אַחַת מַעֲשֵׂר וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵיזוֹ הִיא נוֹטֵל שְׁתֵּי חָבִיּוֹת לוֹכְסוֹן. חֲצִי שׁוּרָה הַחִיצוֹנָה אַחַת מַעֲשֵׂר וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵיזוֹ הִיא נוֹטֵל אַרְבַּע חָבִיּוֹת מֵאַרְבַּע זָוִיּוֹת. שׁוּרָה אַחַת מַעֲשֵׂר וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵיזוֹ הִיא נוֹטֵל שׁוּרָה אַחַת לוֹכְסוֹן. חֲצִי שׁוּרָה אַחַת מַעֲשֵׂר וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵיזוֹ הִיא נוֹטֵל שְׁתֵּי שׁוּרוֹת לוֹכְסוֹן. חָבִית אַחַת מַעֲשֵׂר וְאֵינוֹ יוֹדֵעַ אֵיזוֹ הִיא נוֹטֵל מִכָּל חָבִית וְחָבִית.

Mishná: Quem tinha dez fileiras de dez jarros (cântaros) de vinho (cem jarros ao todo, dispostos em quadrado de dez por dez) e disse: "a fileira externa (uma das quatro fileiras que formam o perímetro do quadrado) contém um jarro de maasser (dízimo)" — sem saber qual das quatro fileiras externas é, nem qual jarro dentro dela — toma-se apenas dois jarros na diagonal (dois jarros de canto, situados na diagonal do quadrado, cuja posição cobre, por proximidade, todas as quatro fileiras externas possíveis). Se disse que meia fileira externa (a metade de uma das quatro fileiras do perímetro) o contém, sem saber qual — toma-se quatro jarros, um de cada uma das quatro esquinas (dos quatro cantos do quadrado, cobrindo assim toda meia-fileira externa possível). Se disse que uma fileira qualquer, não necessariamente externa, o contém, sem saber qual — toma-se uma fileira inteira na diagonal (a fileira que atravessa o quadrado na diagonal, cruzando todas as dez fileiras e todas as dez colunas). Se disse que meia fileira qualquer o contém, sem saber qual — toma-se duas fileiras na diagonal (as duas fileiras diagonais opostas, cobrindo toda meia-fileira possível em qualquer direção). Se disse que um jarro qualquer o contém, sem saber qual é, nem em que fileira se encontra — toma-se uma porção de cada jarro individualmente (pois, sem nenhuma indicação de posição, apenas a retirada de todos os cem jarros garante contemplar o jarro de dízimo, ainda que em proporção mínima de cada um).

A Halachá · הֲלָכָה ח

01Por que se toma exatamente dois jarros na fileira externa — a leitura de Rabi Cohen em nome dos rabanan de Cesareia
Yerushalmi · Demai 7:8
וְיִטּוֹל שְׁתַּיִם. רִבִּי כֹהֵן בְּשֵׁם רַבָּנִין דְּקֵיסָרִין בְּשֶׁהִפְרִישׁ חֶצְיָין מִמָּקוֹם אַחֵר.

A guemará pergunta: por que a Mishná manda tomar precisamente dois jarros, e não mais? Responde-se: que se tome apenas dois (pois dois jarros de canto na diagonal já bastam para cobrir toda a extensão da fileira externa suspeita, sem necessidade de tomar mais). Rabi Cohen, em nome dos sábios rabanan de Cesareia (explica esta suficiência): quando o dono já separou a metade correspondente de outro lugar (isto é, a Mishná pressupõe que metade da quantidade de teruma do dízimo devida sobre esses dois jarros já foi separada à parte, de outra fonte, e por isso os dois jarros tomados aqui bastam para completar o restante, sem exigir uma quantidade maior).

02A baraita das duas jarras de dízimo-tevel, uma pura e uma impura: quando declarar a teruma do dízimo
Yerushalmi · Demai 7:8
תַּנִּי הָיוּ לְפָנָיו שְׁתֵּי חָבִיּוֹת אַחַת שֶׁל מַעֲשֵׂר טֵבֵל טָהוֹר וְאַחַת שֶׁל מַעֲשֵׂר טֵבֵל טָמֵא הֲרֵי זֶה מֵבִיא שְׁנֵי לָגִינִין וְנוֹטֵל מִזּוּ כְדֵי תְרוּמַת מַעֲשֵׂר מִשְּׁתֵּיהֶן וּמִזּוּ כְדֵי תְרוּמַת מַעֲשֵׂר מִשְּׁתֵּיהֶן. וְחוֹזֵר וּמַגְבִּיהַּ אֶת הַלָּגִין וְאוֹמֵר. אִם זֶהוּ טָהוֹר הֲרֵי הוּא עָשִׂיתִיו תְּרוּמַת מַעֲשֵׂר. וְאִם לָאו לֹא עָשִׂיתִי כְלוּם. וְחוֹזֵר וְעוֹשֶׂה כֵן בַּשֵּׁנִי וְטוֹבֵל וְשׁוֹתֶה דִּבְרֵי רִבִּי. רִבִּי לָעְזָר בֵּי רִבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר אֵינוֹ נוֹטֵל אֶלָּא בְסוֹף.

Ensina-se numa baraita: tinha diante de si duas jarras (de vinho), uma de maasser tevel (dízimo ainda com estatuto de tevel, do qual não se retirou a teruma do dízimo) pura, e outra de maasser tevel impura — eis que traz dois recipientes pequenos (dois vasos de medida menor, um para cada jarra) e toma desta (a primeira jarra) o suficiente para a teruma do dízimo de ambas (a quantidade de teruma do dízimo devida sobre as duas jarras juntas), e daquela (a segunda jarra) o suficiente para a teruma do dízimo de ambas (também aqui, uma quantidade equivalente à devida sobre as duas juntas — pois não se sabe qual das duas é a pura). E volta a erguer o recipiente pequeno e diz: "se esta (porção que tomei desta jarra) é a pura, eis que a fiz teruma do dízimo (para ambas as jarras); e se não (se esta não for a pura), não fiz nada." E volta a fazer o mesmo com o segundo recipiente, tomado da outra jarra, e então mergulha (se imerge para purificação, no caso de ter tocado a impura) e bebe — estas são as palavras de Rabi. Rabi Elazar bei Rabi Shimon diz: não se toma a teruma do dízimo de fato, retirando-a e designando-a definitivamente, senão ao final (depois de já ter erguido e declarado sobre ambos os recipientes, e não jarra por jarra, uma de cada vez).

03A razão de cada opinião: o receio de beber líquido impuro antes ou depois
Yerushalmi · Demai 7:8
מַה טַעֲמָא דְרִבִּי אֲנִי אוֹמֵר שֶׁמָּא שָׁתָה מַשְׁקִין טְמֵאִין תְּחִילָּה. וּמַה טַעֲמָא דְרִבִּי לָעְזָר בַּר שִׁמְעוֹן אֲנִי אוֹמֵר שֶׁמָּא שָׁתָה מַשְׁקִין טְמֵאִין בְּסוֹף.

Qual é a razão de Rabi (por que exige declarar e fixar a teruma do dízimo logo ao erguer cada recipiente, um de cada vez)? Eu digo (a razão é): para que não fique em dúvida se talvez tenha bebido líquidos impuros no início (se a declaração fosse deixada só para o final, haveria o receio de que, ao beber da primeira jarra logo depois de erguer o primeiro recipiente mas antes de fixar a segunda declaração, já tivesse bebido do líquido que, por vir a ser identificado depois como o impuro, teria contaminado essa bebida inicial). E qual é a razão de Rabi Elazar bar Shimon (por que permite adiar a fixação da teruma do dízimo até o final, depois de erguer ambos os recipientes)? Eu digo (a razão é): para que não fique em dúvida se talvez tenha bebido líquidos impuros no final (se a fixação fosse feita logo na primeira jarra, e depois se revelasse que a primeira era, na verdade, a impura, o líquido que já se tomou entre a primeira e a segunda declaração ficaria retroativamente sob suspeita de impureza).

04O consenso: líquido certamente impuro proíbe até a teruma duvidosa; líquido duvidoso permite até a teruma certa
Yerushalmi · Demai 7:8
הַכֹּל מוֹדִין בְּשׁוֹתֶה מַשְׁקִין טְמֵאִין שֶׁהוּא אָסוּר לוֹכַל אֲפִילוּ סָפֵק תְּרוּמָה. סָפֵק מַשְׁקִין כָּל עַמָּא מוֹדֵיי שֶׁהוּא מוּתָּר לוֹכַל אֲפִילוּ תְרוּמָה וַדַּאי.

Todos os sábios concordam que quem bebe líquidos certamente impuros fica proibido de comer até mesmo teruma de estatuto duvidoso em seguida (pois o corpo de quem ingeriu impureza líquida certa transmite impureza de segundo grau, o que já basta para desqualificar até a teruma cuja condição é apenas duvidosa). Mas quando o líquido é de estatuto duvidoso, todo o mundo concorda que quem o bebeu está autorizado a comer até mesmo teruma certamente pura, em seguida (pois a dúvida sobre a impureza do líquido, por si só, não basta para impedir o consumo de algo de estatuto certo).

05Onde então se situa a disputa, e o fechamento de Rabi Yossei beRabi Bun
Yerushalmi · Demai 7:8
אֶלָּא כָא אֲנָן קַיָימִין כְּהָדָא מַתְנִיתָא. מַה טַעֲמָא דְרִבִּי אֶלְעָזָר בַּר שִׁמְעוֹן מֵאַחַר שֶׁעַל יְדֵי זֶה וְעַל יְדֵי זֶה נִתְבָּרְרָה הַטּוּמְאָה טָעוּן טְבִילָה. מַה טַעֲמָא דְרִבִּי שֶׁלֹּא יָבוֹא לִידֵי רְבִיעִית. לְמַה טַעֲמָא דְרִבִּי לָעְזָר בֵּי רִבִּי שִׁמְעוֹן בְּשׁוֹתֶה פָּחוֹת מֵרְבִיעִית. וְלֵית לֵיהּ לְרִבִּי לָעְזָר בֵּי רִבִּי שִׁמְעוֹן שֶׁלֹּא יָבוֹא לִידֵי רְבִיעִית. אָמַר רִבִּי יוֹסֵי בֵּרִבִּי בּוּן אֵין לָךְ אֶלָּא כְהָדֵין פִּיתְרָא קַדְמָיָא. דְּרִבִּי חָשַׁשׁ שֶׁמָּא שָׁתָה מַשְׁקִין טְמֵאִין תְּחִילָּה. וְרִבִּי לָעְזָר בֵּי רִבִּי שִׁמְעוֹן חָשַׁשׁ שֶׁמָּא שָׁתָה מַשְׁקִין טְמֵאִין בְּסוֹף.

Se assim, se em ambos os casos o líquido puramente duvidoso não proíbe nada, a disputa entre Rabi e Rabi Elazar bar Shimon não pode ser sobre pureza e impureza da bebida em si. Mas é aqui que nós estamos de fato, conforme esta baraita (a disputa recai sobre outro ponto: se, depois de já ter bebido de uma das jarras antes da designação final, é preciso imersão purificadora, dado que o líquido, embora bebido em estado de dúvida, pode retroativamente revelar-se impuro por outra via). Qual é a razão de Rabi Elazar bar Shimon (que exige adiar a fixação para o final)? Visto que, tanto por este caminho quanto por aquele, a impureza acaba por se esclarecer (no fim, uma das duas jarras é identificada com certeza como a impura), requer-se imersão (de qualquer modo, quer se declare cedo, quer se declare tarde, será necessário imergir; logo, o receio de Rabi não se sustenta como razão suficiente para exigir a declaração antecipada). Qual é a razão de Rabi (então, se a imersão de qualquer forma seria exigida)? Ainda assim insiste em declarar cedo, para que a bebida ingerida antes da purificação não chegue à medida de um reviit (um quarto de log — medida mínima a partir da qual o líquido impuro é capaz de tornar impuro por si mesmo o que a ele se junta; declarando cedo, limita-se a quantidade bebida em estado potencialmente impuro a menos que essa medida). E, segundo a razão de Rabi Elazar bei Rabi Shimon, isso se resolveria apenas quando se bebe menos de um reviit de cada vez. Mas não tem também Rabi Elazar bei Rabi Shimon a preocupação de que a bebida não chegue à medida de um reviit? Sim, também ele a tem — a diferença entre os dois não está nessa preocupação em si, mas em qual momento cada um teme que essa medida seja atingida. Disse Rabi Yossei beRabi Bun: não tens senão esta primeira explicação (a diferença entre Rabi e Rabi Elazar bar Shimon resume-se exatamente a isto): que Rabi temeu que talvez se tivesse bebido líquidos impuros no início (antes da declaração, e por isso exige declarar logo), e Rabi Elazar bei Rabi Shimon temeu que talvez se tivesse bebido líquidos impuros no final (depois da primeira declaração precipitada, caso ela se revelasse equivocada, e por isso prefere adiar a declaração até que ambas as jarras já tenham sido erguidas).

Nota

Esta é a última halachá do Perek Zayin, trazendo uma nova Mishná: quem tinha dez fileiras de dez jarros de vinho e disse que a fileira externa contém um jarro de dízimo, sem saber qual, toma dois jarros na diagonal; se disse que meia fileira externa o contém, toma quatro jarros dos quatro cantos; se disse que uma fileira qualquer o contém, toma uma fileira inteira na diagonal; se disse que meia fileira qualquer o contém, toma duas fileiras na diagonal; e se disse que um jarro qualquer o contém, sem indicar posição alguma, toma de cada jarro individualmente.

A guemará explica por que, no primeiro caso, bastam exatamente dois jarros: segundo Rabi Cohen em nome dos rabanan de Cesareia, a Mishná pressupõe que metade da teruma do dízimo devida já foi separada de outro lugar, de modo que os dois jarros tomados na diagonal completam apenas o que falta.

Segue uma baraita sobre duas jarras de dízimo com estatuto de tevel, uma pura e uma impura: toma-se de cada uma a quantidade de teruma do dízimo devida por ambas, ergue-se cada recipiente e declara-se condicionalmente qual delas é a pura, repetindo o procedimento na segunda e imergindo antes de beber — assim ensina Rabi. Rabi Elazar bei Rabi Shimon discorda quanto ao momento: a designação definitiva só deve ser feita ao final, depois de erguidos ambos os recipientes, não jarra por jarra.

A guemará explica a razão de cada um pelo receio de ter bebido líquido impuro — Rabi teme tê-lo bebido no início, antes da declaração; Rabi Elazar bar Shimon teme tê-lo bebido no final, depois de uma declaração precipitada que se revele equivocada. Estabelece-se o consenso de que líquido certamente impuro proíbe até a teruma duvidosa, e de que líquido de estatuto duvidoso permite até a teruma certa — o que obriga a localizar a disputa real não na pureza da bebida em si, mas no momento da declaração e na necessidade de imersão. A guemará explora ainda a medida do reviit como limiar da impureza contaminante, perguntando se Rabi Elazar bei Rabi Shimon também partilharia dessa preocupação, e fecha com Rabi Yossei beRabi Bun, que resume a disputa exatamente nesses termos: o receio de Rabi voltado para o início, e o de Rabi Elazar bei Rabi Shimon voltado para o final — encerrando, com este ensinamento, o Perek Zayin de Massechet Demai.

Perek Zayin concluído

Com esta halachá encerra-se o Perek Zayin de Massechet Demai — do problema de dizimar em Shabat às condições sobre vinho, figos e jarros de vinho em fileiras, até esta última disputa sobre o momento certo de declarar a teruma do dízimo.