Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Zayin · Halachá 7
דְּמַאי

Cem tevel em cem chulin, cem tevel em cem maasser — quando o tevel é maioria, não se perde nada

Perek Zayin, Halachá 7, no Talmud Yerushalmi, Massechet Demai

Nova Mishná dentro do Perek Zayin: cem tevel (produto ainda não dizimado) misturado com cem chulin (produto comum, já dizimado) — toma-se cento e um (figos, medidas ou unidades, conforme o caso); cem tevel com cem maasser (dízimo) — toma-se também cento e um; cem chulin já consertado (dizimado corretamente) com cem maasser — toma-se cento e dez; mas cem tevel com noventa maasser, ou noventa tevel com oitenta maasser, não se perde nada (não é preciso tomar quantidade adicional alguma), sendo esta a regra geral: sempre que o tevel for a quantidade maior, não se perde nada. A guemará abre com a condição dupla que Reish Lakish exige ao separar a porção excedente — "se o que caiu em minhas mãos for tevel, que seja dízimo; e se for dízimo, que seja feito teruma do dízimo" —, a exigência de Rabi Yona de duplicar a condição também em sua forma negativa, a posição de Rabi Yochanan de que a condição simples já basta, e o caso de dois montes de grão com teruma indefinida entre um deles, em que Rabi Yochanan e Reish Lakish discordam se ambos ficam proibidos como demai. Segue a leitura de Rabi Mana, que liga a disputa à baraita de Rabi Elazar ben Arach sobre tevel misturado a chulin quando não há de onde suprir por proporção — com a explicação de Rabi Aba bar Mamal sobre nozes e romãs que, por sua natureza, não se separam, e a pergunta de Rabi Hillel ben Pazi sobre quebrar as cascas, respondida por Rabi Yona. Fecha com a reformulação de Rabi Yona restringindo a regra da Mishná apenas ao próprio dízimo, o esclarecimento de Rabi Levinti em nome de Rabi Yona de que todo tevel mencionado aqui refere-se ao primeiro e ao segundo dízimo, e a discordância registrada por Rabi Abahu entre Rabi e Rabi Dostai bar Rabi Yanai sobre se, no caso de tevel excedendo o maasser, se toma o segundo dízimo de outro lugar ou se torna tudo segundo dízimo, com os cálculos exatos para cem tevel e noventa, ou cem tevel e oitenta, maasser.

A Mishná · מַתְנִיתִין

מֵאָה טֵבֵל מֵאָה חוּלִין נוֹטֵל מֵאָה וְאַחַת. מֵאָה טֵבֵל מֵאָה מַעֲשֵׂר נוֹטֵל מֵאָה וְאַחַת. מֵאָה חוּלִין מְתוּקָּנִין מֵאָה מַעֲשֵׂר נוֹטֵל מֵאָה וְעֶשֶׂר. מֵאָה טֵבֵל וְתִשְׁעִים מַעֲשֵׂר תִּשְׁעִים טֵבֵל וּשְׁמוֹנִים מַעֲשֵׂר לֹא הִפְסִיד כְּלוּם. זֶה הַכְּלָל כָּל זְמַן שֶׁהַטֵּבֵל מְרוּבָּה לֹא הִפְסִיד כְּלוּם.

Mishná: Cem tevel (figos ou grãos ainda não dizimados) misturados em cem chulin (produto comum, já corretamente dizimado) — toma-se da mistura cento e um (cem para restituir o tevel que se tornou indistinguível, e mais um para servir de teruma do dízimo sobre esse cem, já que o chulin, ao se misturar com tevel não identificável, volta ele próprio a precisar de teruma do dízimo). Cem tevel em cem maasser (dízimo já levantado, do qual já se tirou teruma do dízimo) — toma-se também cento e um (pois esse dízimo, uma vez que a teruma do dízimo já foi retirada dele, é, para este efeito, equivalente ao chulin). Cem chulin já consertado (sabidamente dizimado por completo, e não apenas presumido como tal, isto é, não segundo a regra do demai) misturado em cem maasser (este ainda sem teruma do dízimo retirada) — toma-se cento e dez (cem para o próprio dízimo, mais dez de teruma do dízimo sobre ele, de modo que toda a teruma do dízimo chegue a vinte, somando a que já havia). Cem tevel e noventa maasser, ou noventa tevel e oitenta maasser — não se perdeu nada (não há necessidade de tomar quantidade adicional alguma além da proporção simples, pois o tevel é sempre maior que o maasser). Esta é a regra: sempre que o tevel for a quantidade maior (que o maasser misturado a ele), não se perde nada.

A Halachá · הֲלָכָה ז

01A condição dupla de Reish Lakish, a exigência de Rabi Yona, e a discordância de Rabi Yochanan sobre os dois montes
Yerushalmi · Demai 7:7
רִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר צָרִיךְ לְהַתְנוֹת וְלוֹמַר אִם טֵבֵל עָלָה בְיָדִי הוּא מַעֲשֵׂר. וְאִם מַעֲשֵׂר עָלָה בְיָדִי הֲרֵי הוּא עָשׂוּי תְרוּמַת מַעֲשֵׂר. אָמַר רִבִּי יוֹנָה צָרִיךְ לִכְפּוֹל תְּנָייוֹ וְלוֹמַר וְאִם לָאו לֹא עָשִׂיתִי כְּלוּם. רִבִּי יוֹחָנָן אָמַר אֵינוֹ צָרִיךְ לִכְפּוֹל תְּנָייוֹ. דֵּין כְדַעְתֵּיהּ וְדֵין כְדַעְתֵּיהּ. וְאִיתְפַּלְּגוּן שְׁנֵי כְרִיִּים וְאֶחָד מֵהֶן. רִבִּי יוֹחָנָן אָמַר קִדְּשׁוּ מְדוּמָעִין וְרִבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ אָמַר לֹא קִדְּשׁוּ.

Disse Rabi Shimon ben Lakish: é preciso condicionar e dizer ao separar a porção excedente: "se o que subiu (veio) em minha mão for tevel, ele é dízimo; e se dízimo subiu em minha mão, eis que ele é feito teruma do dízimo" (a designação precisa cobrir as duas possibilidades, já que não se sabe ao certo qual parcela da mistura era originalmente tevel e qual já era dízimo). Disse Rabi Yona: é preciso dobrar a condição e dizer também: "e se não (se nenhuma das duas hipóteses se confirmar), não fiz nada" (pois toda condição válida segundo a lei judaica precisa ser formulada tanto no caso afirmativo quanto no negativo, à semelhança da condição de Moshé com as tribos de Gad e Reuven). Rabi Yochanan disse: não é preciso dobrar a condição (uma simples declaração basta, sem necessidade de fórmula condicional completa). Este sábio ensina conforme sua opinião, e aquele conforme a sua (cada um seguindo o princípio geral que já sustenta alhures sobre a natureza das condições). E discordaram também a respeito de dois montes de grão (recém debulhado, antes da separação da teruma), com teruma indefinida em um deles (quando alguém diz que a teruma de ambos os montes está em um deles, sem especificar qual): Rabi Yochanan disse que ambos ficam proibidos como medumaim (mistura de teruma com chulin, sujeita às restrições próprias, pois qualquer um dos dois montes pode conter a teruma ainda não retirada), mas Rabi Shimon ben Lakish disse que não ficam proibidos (pois, para ele, sem designação de um local específico, a declaração não produz efeito algum sobre nenhum dos dois montes).

02Rabi Mana liga a disputa à baraita de Rabi Elazar ben Arach: tevel em chulin sem proporção disponível
Yerushalmi · Demai 7:7
אָמַר רִבִּי מָ[נָא] חוֹלְקִין עַל רִבִּי לָעְזָר בֶּן עֲרָךְ דְּתַנִּי מַעֲשֵׂר טֵבֵל שֶׁנִּתְעָרֵב בְּחוּלִין אִם יֵשׁ לוֹ פַרְנָסָה מִמָּקוֹם אַחֵר מוֹצִיאוֹ לְפִי חֶשְׁבּוֹן. וְאִם לָאו רִבִּי לָעְזָר בֶּן עֲרָךְ אוֹמֵר יִקְרָא שֵׁם לִתְרוּמַת מַעֲשֵׂר שֶׁבּוֹ וְיַעֲלֵם בְּאֶחָד וּמֵאָה. אָמַר רִבִּי בָּא בַּר מָמָל תִּיפְתָּר בִּדְבָרִים שֶׁאֵין לָהֶן עֲלִיָיה. רִבִּי הִלֵּל בֶּן פָּזִי בְּעֵי וְיִפְצַע. אָמַר רִבִּי יוֹנָה מוּתָּר לְפַצֵּעַ. לֹא כֵן תְּנִינָן נִתְפַּצְּעוּ הָאֶגּוֹזִין בְּשֶׁעָבַר. הָא בִתְחִילָּה לֹא.

Disse Rabi Mana: os sábios da Mishná discordam de Rabi Elazar ben Arach, pois ensina-se numa baraita, em nome dele: dízimo com estatuto de tevel que se misturou com chulin — se ele tem sustento (suprimento) de outro lugar, retira-o (o equivalente à mistura) na devida proporção (simples, sem exigir cento e um); e, se não tem de onde suprir, diz Rabi Elazar ben Arach: dará nome à teruma do dízimo que há nele e a retirará por um em cem (um a mais do que o total, isto é, retira cento e um do total de cem, a mesma proporção da Mishná). Disse Rabi Aba bar Mamal: explica-se essa exigência de Rabi Elazar ben Arach tratando-se de coisas que não têm possibilidade de suprimento proporcional, isto é, certos frutos que, por sua natureza, não se separam nem se substituem por outros, como certas nozes e romãs contadas por unidade. Rabi Hillel ben Pazi perguntou: e que o dono quebre as cascas delas para poder separá-las? Disse Rabi Yona: é permitido quebrá-las (a pergunta pressupõe que sim)? Não ensinamos nós alhures: "se as nozes já foram quebradas no passado (antes de se misturarem com a teruma), podem então ser separadas por proporção" — eis que, para começar (de propósito, apenas para poder separá-las), não é permitido quebrá-las (pois seria uma ação proibida, tomada apenas para contornar a regra).

03Rabi Yona reformula a Mishná: a regra vale apenas para o próprio dízimo
Yerushalmi · Demai 7:7
אָמַר רִבִּי יוֹנָה כֵּינִי מַתְנִיתָא כָּל זְמַן שֶׁהַטֵּבֵל מְרוּבָּה עַל הַמַּעֲשֵׂר מַעֲשֵׂר לֹא הִפְסִיד כְּלוּם.

Disse Rabi Yona: assim deve ser lida a Mishná: sempre que o tevel for mais numeroso do que o maasser, o próprio maasser (e não o tevel misturado a ele) não perde nada (a regra da Mishná — de que nada se perde quando o tevel é maioria — refere-se especificamente ao estatuto do dízimo em si, e não se estende ao chulin ou a outra categoria de produto).

04Rabi Levinti em nome de Rabi Yona: todo tevel aqui refere-se ao primeiro e ao segundo dízimo
Yerushalmi · Demai 7:7
רִבִּי לְוִינְטִי בְשֵׁם רִבִּי יוֹנָה כָּל טֵבֵל דַּאֲנָן קָיְימִינַן הָכָא טֵבֵל לָרִאשׁוֹן וְלַשֵּׁנִי.

Rabi Levinti, em nome de Rabi Yona: todo tevel do qual estamos tratando aqui (em toda esta Mishná e nesta discussão) é tevel tanto para o primeiro quanto para o segundo dízimo (isto é, trata-se sempre de produto do qual já se retirou a teruma grande, e a única questão em aberto é a do dízimo e da teruma do dízimo).

05Rabi Abahu: Rabi e Rabi Dostai bar Rabi Yanai discordam sobre tomar o segundo dízimo de outro lugar — os cálculos exatos
Yerushalmi · Demai 7:7
רִבִּי אַבָּהוּ אָמַר אִיתְפַּלְּגוּן רִבִּי וְרִבִּי דּוֹסְתַּי בֵּי רִבִּי יַנַּאי. חַד אָמַר עוֹשֶׂה אוֹתוֹ שֵׁנִי לְמָקוֹם אַחֵר. וְחָרָנָה אָמַר עוֹשֶׂה כּוּלּוֹ שֵׁנִי לְמָקוֹם אַחֵר וּמַפְרִישׁ עָלָיו רִאשׁוֹן לְמָקוֹם אַחֵר. מַה נָן קַיָימִין מֵאָה טֵבֵל וְתִשְׁעִים מַעֲשֵׂר נוֹטֵל תִּשְׁעִים וּשְׁתַּיִם חָסֵר עִישּׂוּר אֶחָד. מֵאָה טֵבֵל וּשְׁמוֹנִים מַעֲשֵׂר נוֹטֵל שְׁמוֹנִים וְשָׁלֹשׁ חָסֵר שְׁנֵי עֶשְׂרוֹנִים. מִיכָּן וְהֵילָךְ לְפִי חֶשְׁבּוֹן.

Disse Rabi Abahu: discordaram Rabi e Rabi Dostai bar Rabi Yanai na casa de estudo de Rabi Yanai. Um disse: quando o tevel excede o maasser, toma-se o segundo dízimo correspondente à parcela retirada como tevel de outro lugar (redimindo-o à parte, sem misturá-lo à computação da mistura). E o outro disse: torna-se tudo o que foi tomado segundo dízimo (admite-se que toda a porção retirada seja tratada como se fosse originalmente tevel, sujeita portanto também ao segundo dízimo), e separa-se sobre ele à parte o primeiro dízimo de outro lugar (redimindo o primeiro dízimo correspondente, também ele, de outra fonte). Do que estamos tratando (a que caso, exatamente, se aplicam estes cálculos)? "Cem tevel e noventa maasser": toma-se noventa e dois menos um décimo (91,9 — pois, se tomasse apenas noventa, tudo o que se retirasse poderia ser originalmente tevel, do qual legalmente só se poderia extrair nove como teruma do dízimo; mas é preciso completar até dez inteiros e nove décimos de teruma do dízimo, segundo a regra da Mishná anterior, e por isso se acrescentam dois menos um décimo, chegando a noventa e dois menos um décimo, dos quais dez e nove décimos servem de teruma do dízimo). "Cem tevel e oitenta maasser": toma-se oitenta e três menos dois décimos (82,8 — pelo mesmo cálculo, na proporção correspondente). Daqui em diante, para quaisquer outras quantidades, segundo a mesma proporção (o cálculo se generaliza de modo análogo para qualquer combinação de tevel e maasser).

Nota

Esta halachá traz uma nova Mishná dentro do Perek Zayin: cem tevel misturado em cem chulin, ou cem tevel misturado em cem maasser, exige que se tome cento e um; cem chulin já consertado misturado em cem maasser exige que se tome cento e dez; mas cem tevel com noventa maasser, ou noventa tevel com oitenta maasser, não exige nada além da proporção simples — a regra geral sendo que, sempre que o tevel é a quantidade maior na mistura, não se perde nada.

A guemará abre com a condição que Reish Lakish exige ao separar a porção excedente de cento e um: é preciso dizer "se o que subiu em minha mão for tevel, que seja dízimo, e se for dízimo, que seja feito teruma do dízimo", cobrindo as duas possibilidades da mistura indistinguível. Rabi Yona exige ainda dobrar essa condição, acrescentando a cláusula negativa "e se não, não fiz nada", enquanto Rabi Yochanan sustenta que a condição simples já basta — cada um seguindo sua posição já conhecida sobre a natureza das condições. A mesma discordância reaparece no caso de dois montes de grão com teruma indefinida em um deles: Rabi Yochanan considera ambos proibidos como medumaim, e Reish Lakish, que não.

Rabi Mana liga essa disputa à baraita de Rabi Elazar ben Arach sobre dízimo com estatuto de tevel misturado a chulin: se há de onde suprir por proporção, assim se faz; senão, dá-se nome à teruma do dízimo e retira-se por um em cem. Rabi Aba bar Mamal explica que essa segunda hipótese trata de frutos que, por sua natureza, não podem ser supridos proporcionalmente — como certas nozes e romãs vendidas por unidade —, e Rabi Hillel ben Pazi pergunta se não seria possível apenas quebrar as cascas para viabilizar a separação; Rabi Yona responde que quebrá-las de propósito, só para esse fim, não é permitido, embora nozes já quebradas antes possam ser separadas normalmente.

Rabi Yona então reformula a própria Mishná, restringindo a regra de que "nada se perde" ao estatuto do próprio dízimo, e não ao chulin misturado a ele; e Rabi Levinti, em nome do mesmo Rabi Yona, esclarece que todo tevel mencionado neste contexto refere-se tanto ao primeiro quanto ao segundo dízimo. Fecha com a discordância registrada por Rabi Abahu entre Rabi e Rabi Dostai bar Rabi Yanai: quando o tevel excede o maasser, um sustenta que se toma o segundo dízimo correspondente de outro lugar, redimindo-o à parte, e o outro, que se torna tudo segundo dízimo, separando à parte o primeiro dízimo de outra fonte — com os cálculos exatos demonstrados para cem tevel e noventa maasser (noventa e dois menos um décimo) e para cem tevel e oitenta maasser (oitenta e três menos dois décimos), generalizando-se a mesma proporção para as demais quantidades.