Talmud Yerushalmi · Massechet Demai · Perek Guimel · Halachá 6
דְּמַאי

Quem dá à sogra dizima o que lhe dá e o que dela recebe, pois ela é suspeita de trocar o que se estraga; Rabi Yehuda explica o motivo e discorda quanto ao ano sabático

Perek Guimel, Halachá 6 — última halachá do capítulo, no Talmud Yerushalmi, Massechet Demai

Esta última halachá do Perek Guimel traz uma nova Mishná: quem dá produto à sua chamot (sogra) dizima tanto o que lhe dá quanto o que dela recebe, pois ela é suspeita de trocar o que se estraga (a comida que a filha prepara e estraga, substituindo-a por outra de sua própria despensa, para não envergonhar a filha). Disse Rabi Yehuda: ela quer o bem-estar e o bom nome de sua filha, e tem vergonha diante do genro. E Rabi Yehuda concorda que quem dá à sogra produto do ano sabático, ela não é suspeita de trocar, para não alimentar sua filha com produto sabático (que ela mesma não usaria como mercadoria). A guemará observa que, segundo Rabi Yochanan, também a primeira frase da Mishná é a opinião de Rabi Yehuda — pois foi ele quem disse que quem dá à sogra é como quem dá à pundakit — enquanto os demais sábios dizem que quem dá à sogra é como quem dá ao vizinho, citando a baraita sobre quem dá pão ou prato ao vizinho para assar ou cozinhar, isento de dízimo e do ano sabático somente se lhe deu também o fermento e os temperos. A guemará então pergunta se a regra sobre a sogra vale tanto para a sogra por noivado quanto para a sogra após o casamento consumado, e resolve, por comparação com a regra do ano sabático — que também não distingue entre as duas —, que aqui tampouco há diferença.

A Mishná · מַתְנִיתִין

הַנּוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ מְעַשֵּׂר אֶת שֶׁהוּא נוֹתֵן לָהּ וְאֶת שֶׁהוּא נוֹטֵל מִמֶּנָּה מִפְּנֵי שֶׁהִיא חֲשׁוּדָה לְחַלֵּף אֶת הַמִּתְקַלְקֵל. אָמַר רִבִּי יוּדָה רוֹצָה הִיא בְּתַקָּנַת בִּתָּהּ וּבוּשָׁה מֵחֲתָנָהּ. וּמוֹדֶה רִבִּי יוּדָה בְנוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ שְׁבִיעִית שֶׁאֵינָהּ חֲשׁוּדָה לְהַחֲלִיף לְהַאֲכִיל אֶת בִּתָּהּ שְׁבִיעִית.

Mishná: Quem dá produto à sua chamot (sogra — trata-se do chaver casado com a filha de um am haaretz, que dá alimentos à sogra para ela preparar) dizima tanto o que lhe dá quanto o que dela recebe, pois ela é suspeita de trocar o que se estraga (se algo que a filha cozinha na cozinha da mãe se estraga, a mãe toma de suas próprias reservas, não dizimadas, para produzir uma refeição perfeita para o genro). Disse Rabi Yehuda: ela quer o bem-estar de sua filha (que a refeição saia perfeita) e tem vergonha diante do genro (por isso troca o que se estraga, e não por qualquer outro motivo — Rabi Yehuda não discorda da primeira frase, apenas explica a razão da regra). E Rabi Yehuda concorda que quem dá à sua sogra produto do ano sabático (shevi'it), ela não é suspeita de trocar, para alimentar sua filha com produto sabático (pois o produto sabático não pode ser tratado como mercadoria de troca; a própria sogra não haveria de substituir por ele).

A Halachá · הֲלָכָה ו

01Segundo Rabi Yochanan, também a primeira frase da Mishná é a opinião de Rabi Yehuda; os sábios equiparam a sogra à vizinha
Yerushalmi · Demai 3:6
אָמַר רִבִּי יוֹחָנָן אוּף קַדְמִיתָא עַל דַּעְתֵּיהּ דְּרִבִּי יְהוּדָה הִיא דְּרִבִּי יוּדָה אָמַר הַנּוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ כְּנוֹתֵן לְפוּנְדָּקִית. וְרַבָּנִין אָמְרִין הַנּוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ כְּנוֹתֵן לִשְׁכֵינָתוֹ. כְּהָדָא דְתַנִּי הַנּוֹתֵן לִשְׁכֵינָתוֹ פַּת לַאֲופוֹת בּוֹ תַּבְשִׁיל לַעֲשׂוֹת לוֹ אֵינוֹ חוֹשֵׁשׁ לֹא מִשּׁוּם שְׁבִיעִית וְלֹא מִשּׁוּם מַעְשְׂרוֹת. אֵימָתַי בִּזְמָן שֶׁנָּתַן לָהּ שְׂאוֹר וְתַבְלִין. אֲבָל אִם לֹא נָתַן לָהּ שְׂאוֹר וְתַבְלִין חוֹשֵׁשׁ מִשּׁוּם שְׁבִיעִית וּמִשּׁוּם מַעְשְׂרוֹת.

Disse Rabi Yochanan: também a primeira frase (da Mishná, que exige dizimar tanto o que se dá quanto o que se recebe da sogra) segue a opinião de Rabi Yehuda, pois foi Rabi Yehuda quem disse que quem dá à sogra é como quem dá à pundakit (a pousadeira suspeita de trocar o produto, tratada na halachá anterior — ou seja, também a exigência de dizimar ambos os lados vem dele, e não é opinião consensual da Mishná). Mas os sábios dizem: quem dá à sogra é como quem dá ao vizinho (caso em que, tendo o dono fornecido também o fermento e os temperos, ele não precisa se preocupar em dizimar de novo o que recebe de volta). Isso é conforme se ensinou (numa baraita): quem dá pão a seu vizinho para assar, ou um prato para cozinhar, não precisa se preocupar nem com o ano sabático nem com os dízimos (quanto ao que recebe de volta). Quando é isso? Quando lhe deu também fermento e temperos (pois então o pão ou prato devolvido é reconhecível como o mesmo, apenas transformado pelo trabalho da vizinha, e não um substituto). Mas se não lhe deu fermento e temperos, ele deve se preocupar com o ano sabático e com os dízimos (pois então há risco real de que a vizinha tenha trocado o produto por outro seu).

02A sogra por noivado ou por casamento consumado? Resolvido pela comparação com a regra do ano sabático
Yerushalmi · Demai 3:6
מַה חֲמוֹתוֹ מִן הָאֵירוּסִין אוֹ מִן הַנִּישּׂוּאִין. נִשְׁמְעִינָהּ מִן הָדָא מוֹדֶה רִבִּי יוּדָה בְּנוֹתֵן לַחֲמוֹתוֹ שְׁבִיעִית שֶׁאֵינָהּ חֲשׁוּדָה לְהַאֲכִיל אֶת בִּתָּהּ שְׁבִיעִית. שַׁנְיָיא הִיא תַּמָּן בֵּין מִן הָאֵירוּסִין בֵּין מִן הַנִּישּׂוּאִין. אוֹף הָכָא לָא שַׁנְיָיא בֵּין מִן הָאֵירוּסִין בֵּין מִן הַנִּישּׂוּאִין.

A que chamot a Mishná se refere: à sogra a partir do noivado (erussin, o primeiro estágio do casamento), ou à sogra a partir do casamento consumado (nissuin)? Ouçamos disto: Rabi Yehuda concorda que quem dá à sua sogra produto do ano sabático não é suspeita de o trocar, para não alimentar sua filha com produto sabático. Ali (nessa regra do ano sabático) não há diferença entre a sogra a partir do noivado ou a partir do casamento consumado (pois em ambos os casos ela não trocaria produto sabático, já que não é mercadoria de troca); também aqui (na regra geral da Mishná) não há diferença entre a sogra a partir do noivado ou a partir do casamento consumado (a mesma suspeita de troca do que se estraga aplica-se igualmente a ambas).

Nota

Esta sexta halachá — a última do Perek Guimel — traz uma nova Mishná: quem dá produto à sua sogra dizima tanto o que lhe dá quanto o que dela recebe, pois ela é suspeita de trocar o que se estraga, para poupar a filha de vergonha diante do genro, como explica Rabi Yehuda. Este também concorda que, no ano sabático, ela não é suspeita, pois não alimentaria a filha com produto sabático.

A guemará observa, segundo Rabi Yochanan, que também a primeira frase da Mishná é opinião de Rabi Yehuda, que equipara a sogra à pundakit; já os demais sábios equiparam a sogra ao vizinho, cuja regra — isenção de dízimo e do ano sabático quando o dono também forneceu fermento e temperos — vem de uma baraita. Por fim, a guemará resolve, por analogia com a regra do ano sabático, que a Mishná não distingue entre a sogra a partir do noivado e a sogra após o casamento consumado.