Sexta e última halachá do Perek Guimel de Massechet Bikurim — e também a última halachá de todo o tratado, que tem três perakim e vinte e uma halachot ao todo, e, com ele, de todo o Seder Zeraim no Talmud Yerushalmi. A Mishná ensina que o acréscimo dos bikurim só é como os bikurim quando vem da Terra de Israel; que os bikurim são como os bens particulares do cohen, que com eles compra escravos, terras e animais impuros, e que o credor e a mulher, pela sua ketubá, podem tomá-los, como se faz com um sefer Torá; e traz a disputa entre Rabi Yehudá, para quem os bikurim só se dão a um chaver, e os sábios, para quem se dão aos cohanim da guarda. A guemará, partindo da menção ao sefer Torá, discute com Raban Shimon ben Gamliel se se pode vender um sefer Torá para casar, para estudar Torá e para o próprio sustento; trata do pai que se proíbe, por voto, de ter benefício do filho que estuda Torá, com o caso levado a Rabi Yossi ben Chalafta; e encerra o tratado com a baraita sobre quem vende o sefer Torá de seu pai e quem o guarda em casa.
Mishná: Quando disseram os sábios que o tossefet habikurim (o acréscimo dos bikurim) é como os bikurim propriamente ditos? No tempo em que ele vem da Terra de Israel. E, se não vem da Terra, não é como os bikurim, e não tem a sua santidade.
E por que disseram que os bikurim são como os bens particulares do cohen? Porque ele compra com eles escravos, terras e um animal impuro; e um credor os toma em pagamento por sua dívida, e a mulher, por sua ketubá (o valor que o contrato de casamento lhe garante), assim como se faz com um sefer Torá. E Rabi Yehudá diz: não se dão os bikurim senão a um chaver (um cohen escrupuloso na pureza e nos dízimos), como favor de quem os traz. E os sábios dizem: dão-se aos anshei mishmar (os cohanim da guarda que serve no Templo naquela semana), e eles os dividem entre si, como se dividem as coisas consagradas do Santuário.
Halachá: Rabi Yanai, em nome de Rabi Chiya bar Ba, disse: perguntaram a Raban Shimon ben Gamliel: pode uma pessoa vender um sefer Torá para casar com uma mulher? Disse-lhes: sim. E para estudar Torá? Disse-lhes: sim. E por causa do seu sustento? E a isso não lhes respondeu. Rabi Yoná, em nome de Rabi Chiya bar Ba, disse: perguntaram a Raban Shimon ben Gamliel: pode uma pessoa vender um sefer Torá para casar com uma mulher? Disse-lhes: sim. E para estudar Torá? Disse-lhes: sim. Quanto a vendê-lo por causa do seu sustento, não lhe perguntaram e ele não lhes respondeu. Segundo a opinião de Rabi Yoná, está bem que não haja resposta: não lhe perguntaram, e por isso não lhes respondeu. Mas segundo a opinião de Rabi Yossi, que transmitiu a primeira versão: se lhe perguntaram, por que não lhes respondeu? Quando veio Rabi Chananiá, trouxe a tradição de Rabi Pinchas, em nome de Rabi Yochanan, em nome de Raban Shimon ben Gamliel: uma pessoa pode vender um sefer Torá para casar com uma mulher e para estudar Torá, e com mais razão por causa do seu sustento, isto é, para não morrer de fome.
Foi ensinado: quem faz um voto a respeito de seu filho, proibindo-se de ter qualquer benefício dele, para que o filho se dedique ao estudo da Torá, o filho pode encher para ele um barril de água e acender-lhe a lamparina, pois são serviços pequenos. Rabi Yaakov bar Idi, em nome de Rabi Yonatan, disse: também pode comprar para ele as suas coisas no mercado. E será que discordam? Não: aqui, Rabi Yonatan fala de um homem; ali, a baraita fala de uma mulher, para quem ir ao mercado seria um serviço de peso. Se o pai era uma pessoa de destaque, trataram-no como uma mulher, e o filho não lhe faz compras. Houve um caso de um homem que fez um voto a respeito de seu filho, para que este se dedicasse ao estudo da Torá, e o caso veio diante de Rabi Yossi ben Chalafta, e ele lhe permitiu encher para o pai um barril de água e acender-lhe a lamparina.
Foi ensinado: quem vende o sefer Torá de seu pai nunca verá sinal de bênção. E todo aquele que mantém um sefer Torá dentro de sua casa, sobre ele o versículo diz: “Riqueza e abundância há em sua casa, e a sua justiça permanece para sempre” (Tehilim 112:3), pois a Torá guardada em casa é, ela mesma, a sua riqueza.
Esta é a sexta e última halachá do Perek Guimel de Massechet Bikurim. A halachá anterior tratou do enfeite que se põe nos cestos e das três categorias de Rabi Shimon: os bikurim, o acréscimo e o enfeite. Esta Mishná completa o assunto: o acréscimo só tem a santidade dos bikurim quando vem da Terra de Israel; e os bikurim, uma vez entregues, são propriedade plena do cohen, que pode usá-los como dinheiro, assim como se pode vender um sefer Torá. Rabi Yehudá e os sábios discordam sobre a quem se entregam: a um cohen chaver, à escolha de quem os traz, ou aos cohanim da guarda, que os repartem entre si. Corresponde às Mishnayot Bikurim 3:11 e 3:12 da Mishná avulsa, as últimas do capítulo.
A guemará parte da comparação com o sefer Torá. Em duas versões, transmitidas em nome de Rabi Chiya bar Ba, Raban Shimon ben Gamliel permite vender um sefer Torá para casar e para estudar Torá; numa versão ele se cala sobre o sustento, na outra a pergunta nem foi feita, e a tradição trazida por Rabi Chananiá conclui que, com mais razão, se pode vendê-lo por causa do sustento. No Talmud Bavli (Meguilá 27a), Rabi Yochanan, em nome de Rabi Meir, ensina que não se vende um sefer Torá senão para estudar Torá e para casar. Segue-se a baraita do pai que faz um voto em favor do estudo do filho, com a distinção entre o homem e a mulher e o caso de Rabi Yossi ben Chalafta; e a baraita final, sobre quem vende o sefer Torá de seu pai e quem o mantém em casa, com o versículo de Tehilim.
Observações de leitura. Na seção 01, o hebraico atribui a primeira versão a Rabi Yanai; Guggenheimer, seguindo R. M. Margaliot, entende que deve ser Rabi Yossi, o colega de Rabi Yoná, pois logo adiante a guemará contrapõe “a opinião de Rabi Yoná” e “a opinião de Rabi Yossi”; mantivemos o nome do hebraico e explicamos a referência em itálico. No mesmo trecho, o hebraico traz “perguntaram a” com a preposição entre colchetes no texto original, e a cadeia “Rabi Chananiá, Rabi Pinchas, Rabi Yochanan” vem sem verbos; completamos o sentido em itálico. Na seção 02, o hebraico diz que a compra no mercado foi ensinada em nome de Rabi Yonatan, enquanto a tradução de Guggenheimer traz Rabi Yochanan; seguimos o hebraico. Ainda na seção 02, a explicação “aqui de um homem, ali de uma mulher” é lida, com Guggenheimer, como referência ao pai e à mãe que fizeram o voto: para uma mulher, ou para um homem de destaque, ir ao mercado seria impróprio, e a compra feita pelo filho seria um benefício de peso. Na Mishná, o texto deste Yerushalmi tem pequenas diferenças em relação à Mishná avulsa (por exemplo, “e por que disseram” com a conjunção, e a grafia הַבִּיכּוּרִים), sem mudança de sentido.
Com esta halachá, encerra-se o Perek Guimel e toda a Massechet Bikurim do Talmud Yerushalmi — três perakim, vinte e uma halachot, do início ao fim — e, com ela, todo o Seder Zeraim.