Talmud Yerushalmi · Massechet Berachot · Perek Heh · Halachá 5 (última do capítulo)
בְּרָכוֹת

Quem reza e erra é mau sinal; Rabi Chanina ben Dosa e a fluência da oração como sinal de que foi aceita

Perek Heh, Halachá 5 (completa) — quinta e última halachá do capítulo

A Mishná ensina que quem reza e erra é mau sinal para si mesmo, e que, se é o enviado da congregação, é mau sinal para quem o enviou, pois o enviado de alguém é como ele mesmo — ilustrando isso com Rabi Chanina ben Dosa, que rezava pelos doentes e dizia, sem hesitar, "este vive" e "este morre"; perguntado como sabia, respondia que a fluência de sua própria oração lhe indicava se fora aceita. A halachá abre com a ressalva de Rav Acha bar Yaacov de que o sinal só vale no erro cometido nas bênçãos dos Patriarcas, e prossegue com o caso de Rabán Gamliel, que enviou dois discípulos dos sábios a Rabi Chanina ben Dosa quando seu filho adoeceu, e com dois ensinamentos complementares — de Rabi Shemuel beRabi Nachmani, sobre o coração voltado na oração como sinal de que ela foi ouvida, e de Rabi Yehoshua ben Levi, sobre os lábios que produzem fruto como o mesmo sinal —, encerrando assim o Perek Heh de Berachot.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

הַמִּתְפַּלֵּל וְטָעָה סִימָן רַע לוֹ. וְאִם שְׁלִיחַ צִיבּוּר הוּא סִימָן רַע לְשׁוֹלְחָיו שֶׁשְּׁלוּחוֹ שֶׁל אָדָם כְּמוֹתוֹ. אָמְרוּ עָלָיו עַל רִבִּי חֲנִינָא בֶּן דוֹסָא שֶׁהָיָה מִתְפַּלֵּל עַל הַחוֹלִים וְאוֹמֵר זֶה חַי וְזֶה מֵת. אָמְרוּ לוֹ מְנַיִין אַתָּה יוֹדֵעַ. אָמַר לָהֶן אִם שְׁגוּרָה תְפִילָּתִי בְּפִי יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁהוּא מְקוּבָּל. וְאִם לָאו יוֹדֵעַ אֲנִי שֶׁהוּא מְטוּרָף.

Quem reza e erra (comete um engano na oração) é mau sinal para si mesmo. E se é o enviado da congregação (quem reza em voz alta em nome do público), é mau sinal para quem o enviou, pois o enviado de uma pessoa é como ela mesma. Disseram a respeito de Rabi Chanina ben Dosa que rezava pelos doentes e dizia: "este vive" e "este morre". Disseram-lhe: "de onde sabes?" Disse-lhes: "se minha oração sai fluente em minha boca, sei que o doente é aceito (que a súplica por ele foi acolhida); e se não, sei que ele está rejeitado (literalmente, 'transtornado' — condenado)".

A Halachá · הֲלָכָה ה

01Rav Acha bar Yaacov: o mau sinal só se aplica ao erro cometido nas bênçãos dos Patriarcas
Yerushalmi · Berachot 5:5
רַב אַחָא בַּר יַעֲקֹב אָמַר וּבִלְבַד בְּאָבוֹת.

Rav Acha bar Yaacov disse: e isso (o mau sinal atribuído a quem reza e erra)se aplica quando o erro ocorre na bênção dos Patriarcas (a primeira bênção da Amidá, que estabelece a base de toda a oração; um erro ali é sinal mais grave do que num ponto qualquer).

02O filho doente de Rabán Gamliel, os dois discípulos enviados a Rabi Chanina ben Dosa, e os ensinamentos de Rabi Shemuel beRabi Nachmani e de Rabi Yehoshua ben Levi sobre os sinais de que a oração foi ouvida
Yerushalmi · Berachot 5:5
מַעֲשֶׂה בְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל שֶׁחָלָה בְנוֹ וְשָׁלַח שְׁנֵי תַלְמִידֵי חֲכָמִים אֵצֶל רִבִּי חֲנִינָא בֶּן דוֹסָא בְּעִירוֹ. אָמַר לוֹן הַמְתִּינוּ לִי עַד שֶׁאֶעֱלֶה לַעֲלִיָיה וְעָלָה לַעֲלִיָיה וְיָרַד אָמַר לָהֶן בָּטוּחַ אֲנִי שֶׁנִּינוּחַ בְּנוֹ שֶׁל רַבָּן גַּמְלִיאֵל מֵחָלְייוֹ וְסִיְימוּ בְּאוֹתֶהּ שָׁעֶה תָּבַע מָזוֹן. אָמַר רִבִּי שְׁמוּאֵל בֵּרִבִּי נַחְמָנִי אִם כִּוָונְתָּה אֶת לִבְּךָ בִתְפִילָּה תְּהֵא מְבוּשָּׂר שֶׁנִּשְׁמְעָה תְפִילָּתָךְ. וּמַה טַעַם תָּכִין לִבָּם תַּקְשִׁיב אָזְנֶיךָ. אָמַר רִבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי אִם עָשׂוֹ שִׂפְתוֹתָיו שֶׁל אָדָם תְּנוּבָה יְהֵא מְבוּשָּׂר שֶׁנִּשְׁמְעָה תְפִילָּתוֹ. מַה טַעַם בּוֹרֵא נִיב שְׂפָתַיִם שָׁלוֹם שָׁלוֹם לָרָחוֹק וְלַקָּרוֹב אָמַר יי וּרְפָאתִיו.

Aconteceu com Rabán Gamliel que seu filho adoeceu, e ele enviou dois discípulos dos sábios a Rabi Chanina ben Dosa, em sua cidade (pedindo que rezasse pelo doente). Disse-lhes Rabi Chanina: "esperai por mim até que eu suba ao andar superior (o cenáculo, lugar reservado para a oração em particular)". E subiu ao andar superior e desceu, e disse-lhes: "estou certo de que o filho de Rabán Gamliel descansou (se recuperou) de sua doença". E, quando terminaram de falar, naquela mesma hora, ele (o filho) pediu comida (sinal de que já estava curado).

Disse Rabi Shemuel beRabi Nachmani: se dirigiste teu coração na oração, sê tu anunciado de que tua oração foi ouvida. E qual é a razão (o versículo que ensina isso)? "Tu prepararás o coração deles, farás teus ouvidos atentos (Salmos 10:17 — a preparação do coração precede e garante a atenção divina)". Disse Rabi Yehoshua ben Levi: se os lábios de uma pessoa produziram fruto (fluíram sem tropeço, como árvore que frutifica), seja ela anunciada de que sua oração foi ouvida. Qual é a razão? "Aquele que cria o fruto dos lábios: paz, paz para o que está longe e para o que está perto, disse o Eterno, e o sararei (Isaías 57:19 — o "fruto dos lábios" fluente é sinal da paz e da cura concedidas)".

Nota

Esta quinta e última halachá do Perek Heh comenta a Mishná final do capítulo, que ensina ser mau sinal para quem reza cometer um erro na oração — e, se o orante é o enviado da congregação, mau sinal para quem o enviou, pois o enviado de alguém equivale a ele mesmo —, ilustrando essa regra com Rabi Chanina ben Dosa, que discernia pela fluência de sua própria oração se o doente por quem rezava viveria ou morreria. A halachá abre com a ressalva de Rav Acha bar Yaacov, restringindo o mau sinal ao erro cometido especificamente na primeira bênção da Amidá, a das bênçãos dos Patriarcas. Segue-se o caso de Rabán Gamliel, cujo filho adoeceu e que enviou dois discípulos dos sábios a Rabi Chanina ben Dosa; este, após subir ao cenáculo para rezar em particular, desceu já seguro da recuperação do menino — confirmada no mesmo instante quando o filho pediu comida. A halachá — e o Perek Heh como um todo — encerra-se com dois ensinamentos irmãos sobre os sinais de que uma oração foi aceita: o de Rabi Shemuel beRabi Nachmani, que vincula a certeza de ter sido ouvido ao coração devidamente voltado na oração, apoiado no versículo dos Salmos sobre preparar o coração e inclinar o ouvido divino; e o de Rabi Yehoshua ben Levi, que vê nos lábios fluentes, comparados a uma árvore frutífera, o mesmo sinal de que a súplica foi acolhida, apoiado no versículo de Isaías sobre o "fruto dos lábios" que anuncia paz e cura.