Talmud Bavli · Massechet Sheviit · Perek Yud
פֶּרֶק עֲשִׂירִי

Mishná de Sheviit, décimo perek — adaptada à trilha Bavli

9 mishnayot · sem Guemará no Talmud Bavli
Nota

Massechet Sheviit não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná 1"A shevi'it remite o empréstimo, com documento ou sem documento"
Abre-se o Perek Yud, último capítulo do tratado, com a regra central da shemitat kesafim — a remissão das dívidas ao final do ano sabático — e os casos em que ela se aplica ou não: a conta aberta na loja, o salário do assalariado

A shevi'it remite o empréstimo, com documento (um contrato escrito de dívida) e sem documento (dívida de boca, sem registro) (ao encerrar-se o ano sabático, todo credor perde o direito de cobrar o que emprestou, qualquer que seja a forma da dívida). A conta aberta na loja (a compra feita por confiança, ainda sem se converter formalmente em dívida) não remite, mas se a converteu em empréstimo (somando a conta e lançando-a como dívida formal), eis que esta remite. Rabi Yehudá diz: a primeira, a primeira remite (quando o freguês volta à loja repetidas vezes sem pagar, cada compra anterior à mais recente torna-se dívida remissível, pois deveria ter sido paga antes da compra seguinte). O salário do assalariado não remite, mas se o converteu em empréstimo, eis que este remite. Rabi Yossei diz: todo trabalho que cessa na shevi'it, remite (torna-se como dívida, pois é um trabalho proibido de continuar no ano sabático, como a lavoura), e o que não cessa na shevi'it, não remite (permanecendo mero salário por serviço prestado, não uma dívida propriamente dita).

שְׁבִיעִית, מְשַׁמֶּטֶת אֶת הַמִּלְוָה בִּשְׁטָר וְשֶׁלֹּא בִשְׁטָר. הַקָּפַת הַחֲנוּת, אֵינָהּ מְשַׁמֶּטֶת, וְאִם עֲשָׂאָהּ מִלְוָה, הֲרֵי זֶה מְשַׁמֵּט. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הָרִאשׁוֹן הָרִאשׁוֹן מְשַׁמֵּט. שְׂכַר שָׂכִיר, אֵינוֹ מְשַׁמֵּט, וְאִם עֲשָׂאוֹ מִלְוָה, הֲרֵי זֶה מְשַׁמֵּט. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, כָּל מְלָאכָה שֶׁפּוֹסֶקֶת בַּשְּׁבִיעִית, מְשַׁמֶּטֶת, וְשֶׁאֵינָהּ פּוֹסֶקֶת בַּשְּׁבִיעִית, אֵינָהּ מְשַׁמֶּטֶת:
Mishná 2"O que abate a vaca e a reparte em Rosh HaShaná"
O caso do mês de Elul intercalado, que determina se a venda a prazo da carne ocorreu ainda dentro da shevi'it ou já no ano seguinte; e os casos que nunca são remitidos, por não serem propriamente empréstimos: as multas de agressão sexual e difamação, toda sentença de tribunal, o empréstimo garantido por penhor, e os documentos entregues ao tribunal

O que abate a vaca e a reparte (vendendo a carne a prazo, fiado) em Rosh HaShaná (no primeiro dos dois dias de Rosh HaShaná, que se guardam por dúvida): se o mês (de Elul, o mês anterior) foi intercalado (tendo trinta dias, o que faz do dia em questão ainda o último dia de Elul, dia comum, e portanto ainda dentro do ano sabático que se encerra), remite (pois a venda ocorreu ainda na shevi'it, antes de seu término). E se não (sendo aquele dia já Rosh HaShaná do ano seguinte), não remite (pois a dívida já nasceu depois do encerramento da shevi'it). O estuprador (que deve pagar a multa de cinquenta shekalim), e o sedutor (sujeito à mesma multa), e o difamador (que paga cem shekalim), e toda sentença de tribunal (qualquer valor que os juízes determinaram que alguém deve pagar), não são remitidos (pois não são empréstimos, mas obrigações legais diretas). O que empresta sobre penhor (tomando um objeto do devedor como garantia), e o que entrega seus documentos ao tribunal (transferindo ao tribunal o encargo de cobrar), não são remitidos.

הַשּׁוֹחֵט אֶת הַפָּרָה וְחִלְּקָהּ בְּרֹאשׁ הַשָּׁנָה, אִם הָיָה הַחֹדֶשׁ מְעֻבָּר, מְשַׁמֵּט. וְאִם לָאו, אֵינוֹ מְשַׁמֵּט. הָאוֹנֵס, וְהַמְפַתֶּה, וְהַמּוֹצִיא שֵׁם רָע, וְכָל מַעֲשֵׂה בֵית דִּין, אֵין מְשַׁמְּטִין. הַמַּלְוֶה עַל הַמַּשְׁכּוֹן, וְהַמּוֹסֵר שְׁטָרוֹתָיו לְבֵית דִּין, אֵינָן מְשַׁמְּטִין:
Mishná 3"O pruzbul não remite"
A instituição do pruzbul por Hilel, o Zaken — um dos decretos rabínicos que ele estabeleceu ao ver que o povo se retraía de emprestar dinheiro uns aos outros, por temor de perder o crédito com a chegada da shemitá, transgredindo o alerta explícito da Torá

O pruzbul (documento formal que transfere ao tribunal o poder de cobrar a dívida) não remite (sendo uma exceção à regra geral da shemitat kesafim). Esta é uma das coisas que Hilel, o Zaken, instituiu, quando viu que o povo se retraía de emprestar uns aos outros (por medo de que a dívida fosse remitida antes de ser paga), e transgrediam o que está escrito na Torá (Devarim 15:9): "Guarda-te, para que não haja em teu coração pensamento vil" etc. — instituiu Hilel o pruzbul (como remédio para este problema, permitindo que o credor continuasse a cobrar mesmo após a shevi'it).

פְּרוֹזְבּוּל, אֵינוֹ מְשַׁמֵּט. זֶה אֶחָד מִן הַדְּבָרִים שֶׁהִתְקִין הִלֵּל הַזָּקֵן, כְּשֶׁרָאָה שֶׁנִּמְנְעוּ הָעָם מִלְּהַלְווֹת זֶה אֶת זֶה וְעוֹבְרִין עַל מַה שֶּׁכָּתוּב בַּתּוֹרָה (דברים טו) הִשָּׁמֶר לְךָ פֶּן יִהְיֶה דָבָר עִם לְבָבְךָ בְּלִיַּעַל וְגוֹ', הִתְקִין הִלֵּל לַפְּרוֹזְבּוּל:
Mishná 4"Este é o corpo do pruzbul"
O texto formal do documento do pruzbul, no qual o credor declara transferir seus créditos ao tribunal local, autorizado a cobrá-los a qualquer momento; e a assinatura dos juízes ou das testemunhas ao pé do documento

Este é o corpo do pruzbul (seu texto essencial e formulário fixo): "Entrego a vós, fulano e fulano, os juízes do lugar tal, que todo débito que eu tenha, poderei cobrá-lo em todo momento que eu quiser" (declarando ao tribunal que transfere a ele a autoridade de cobrança, de modo que a dívida deixe de ser algo "que ele tem com seu irmão", e passe a ser crédito do próprio tribunal). E os juízes assinam abaixo, ou as testemunhas (sendo válido tanto que os próprios juízes subscrevam o documento como testemunhas de sua entrega, quanto que outras testemunhas o façam).

זֶהוּ גוּפוֹ שֶׁל פְּרוֹזְבּוּל. מוֹסֵר אֲנִי לָכֶם אִישׁ פְּלוֹנִי וּפְלוֹנִי הַדַּיָּנִים שֶׁבְּמָקוֹם פְּלוֹנִי, שֶׁכָּל חוֹב שֶׁיֶּשׁ לִי, שֶׁאֶגְבֶּנּוּ כָּל זְמַן שֶׁאֶרְצֶה. וְהַדַּיָּנִים חוֹתְמִין לְמַטָּה, אוֹ הָעֵדִים:
Mishná 5"O pruzbul adiantado é válido"
A regra sobre a data do pruzbul — adiantada é válida, atrasada é inválida — em paralelo (e sentido invertido) com a regra sobre documentos de dívida comuns; e o número de documentos necessários quando há múltiplos credores ou múltiplos devedores

O pruzbul de data adiantada (escrito com data anterior à real, prejudicando o próprio credor, que assim abre mão do direito de cobrar dívidas contraídas no intervalo) é válido. E o de data atrasada (escrito com data posterior à real, o que daria ao credor um poder maior do que efetivamente tem) é inválido. Documentos de dívida de data adiantada (escritos com data anterior à do empréstimo real, o que prejudicaria terceiros compradores) são inválidos, e os de data atrasada (que prejudicam apenas o próprio credor, ao restringir seu poder de execução) são válidos. Um só que toma emprestado de cinco (credores diferentes), escreve um pruzbul para cada um deles (pois cada credor precisa entregar individualmente seu crédito ao tribunal). Cinco que tomam emprestado de um só (devedores diferentes, de um único credor), este não escreve senão um único pruzbul para todos eles (pois é o mesmo credor que entrega ao tribunal a totalidade de seus créditos, ainda que sobre pessoas diversas).

פְּרוֹזְבּוּל הַמֻּקְדָּם, כָּשֵׁר, וְהַמְאֻחָר, פָּסוּל. שִׁטְרֵי חוֹב הַמֻּקְדָּמִים, פְּסוּלִים, וְהַמְאֻחָרִים, כְּשֵׁרִים. אֶחָד לֹוֶה מֵחֲמִשָּׁה, כּוֹתֵב פְּרוֹזְבּוּל לְכָל אֶחָד וְאֶחָד. חֲמִשָּׁה לֹוִין מֵאֶחָד, אֵינוֹ כוֹתֵב אֶלָּא פְּרוֹזְבּוּל אֶחָד לְכֻלָּם:
Mishná 6"Não se escreve pruzbul senão sobre a terra"
A exigência de que haja terra vinculada ao devedor para que o pruzbul seja válido; o expediente de ceder-lhe uma parcela mínima; o caso de terra empenhada na cidade; e a opinião de Rabi Chutzpit sobre escrever pruzbul com base nos bens da esposa ou dos órfãos

Não se escreve pruzbul senão sobre a terra (é necessário que o devedor possua algum terreno, para que a dívida se equipare a uma dívida garantida por hipoteca, que a Torá não remite). Se ele não tem (terra alguma), o credor lhe cede alguma coisa dentro de seu próprio campo (por menor que seja a parcela). Se ele tinha um campo empenhado na cidade (dado como penhor a terceiros, mas ainda formalmente seu), escreve-se sobre ele o pruzbul. Rabi Chutzpit diz: escreve-se para o marido sobre os bens de sua esposa (mesmo que ele próprio não tenha terra, valendo-se dos bens dela), e para os órfãos sobre os bens do tutor (mesmo que os órfãos não tenham terra própria, valendo-se da terra de seu responsável legal).

אֵין כּוֹתְבִין פְּרוֹזְבּוּל אֶלָּא עַל הַקַּרְקַע. אִם אֵין לוֹ, מְזַכֶּה הוּא בְּתוֹךְ שָׂדֵהוּ כָּל שֶׁהוּא. הָיְתָה לוֹ שָׂדֶה מְמֻשְׁכֶּנֶת בָּעִיר, כּוֹתְבִין עָלֶיהָ פְּרוֹזְבּוּל. רַבִּי חֻצְפִּית אוֹמֵר, כּוֹתְבִין לָאִישׁ עַל נִכְסֵי אִשְׁתּוֹ, וְלַיְתוֹמִים עַל נִכְסֵי אַפּוֹטְרוֹפִּין:
Mishná 7"A colmeia de abelhas"
A disputa entre Rabi Eliezer e os sábios sobre se a colmeia de abelhas se equipara à terra para três efeitos distintos: escrever pruzbul sobre ela, sua suscetibilidade à impureza ritual, e a proibição de colher favos de mel em Shabat

A colmeia de abelhas (pousada sobre o solo, sem estar fixada com barro): Rabi Eliezer diz: eis que é como a terra (para todos os efeitos legais), e escreve-se sobre ela o pruzbul (caso o devedor não tenha outra terra), e ela não recebe impureza em seu lugar (assim como a terra fixa não é suscetível de impureza ritual, também a colmeia, equiparada a ela, não a recebe enquanto permanece em seu lugar), e o que colhe dela em Shabat é culpado (pelo trabalho de "colher" — como quem arranca algo preso ao solo). Mas os sábios dizem: ela não é como a terra, e não se escreve sobre ela o pruzbul, e ela recebe impureza em seu lugar (como qualquer utensílio móvel, suscetível de impureza mesmo parado), e o que colhe dela em Shabat está isento (da pena de morte por lapidação, embora ainda proibido pelos sábios).

כַּוֶּרֶת דְּבוֹרִים, רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, הֲרֵי הִיא כְקַרְקַע, וְכוֹתְבִין עָלֶיהָ פְּרוֹזְבּוּל, וְאֵינָהּ מְקַבֶּלֶת טֻמְאָה בִּמְקוֹמָהּ, וְהָרוֹדֶה מִמֶּנָּה בְּשַׁבָּת חַיָּב. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵינָהּ כְּקַרְקַע, וְאֵין כּוֹתְבִין עָלֶיהָ פְּרוֹזְבּוּל, וּמְקַבֶּלֶת טֻמְאָה בִּמְקוֹמָהּ, וְהָרוֹדֶה מִמֶּנָּה בְּשַׁבָּת, פָּטוּר:
Mishná 8"O que devolve uma dívida na shevi'it"
O dever do devedor de avisar ao credor que a dívida já foi remitida, mesmo desejando pagá-la por vontade própria; o dever correspondente do credor de aceitar tal pagamento; e o paralelo notável com o caso do homicida involuntário exilado à cidade de refúgio, que os moradores locais desejam honrar

O que devolve uma dívida na shevi'it (pagando voluntariamente uma dívida já remitida por lei), deve dizer-lhe (ao devedor dizer ao credor): "Eu remito" (informando que legalmente já não é obrigado a pagar, para que o credor não pense que ainda tem direito à cobrança). Se lhe disse (o credor ao devedor): "Mesmo assim" (desejo que pagues, e aceito de bom grado), receba dele (é permitido ao credor aceitar o pagamento voluntário), pois está dito (Devarim 15:2): "E esta é a norma da remissão" (bastando a mera declaração verbal "eu remito" para que a shevi'it cumpra sua função — sem impedir que o devedor, por generosidade, pague de qualquer forma). Semelhante a isto: o homicida (involuntário) que foi exilado a uma cidade de refúgio, e os habitantes da cidade quiseram honrá-lo (com algum cargo ou distinção), deve dizer-lhes: "Sou um homicida" (revelando sua condição, para que decidam com pleno conhecimento se ainda desejam honrá-lo). Disseram-lhe: "Mesmo assim" (ainda desejamos honrar-te), receba deles, pois está dito (Bamidbar 35:11): "E esta é a norma do homicida" (a mesma expressão "וְזֶה דְּבַר" ensinando, por analogia verbal, que uma única declaração basta em ambos os casos).

הַמַּחֲזִיר חוֹב בַּשְּׁבִיעִית, יֹאמַר לוֹ מְשַׁמֵּט אָנִי. אָמַר לוֹ אַף עַל פִּי כֵן, יְקַבֵּל מִמֶּנּוּ, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים טו) וְזֶה דְּבַר הַשְּׁמִטָּה. כַּיּוֹצֵא בוֹ, רוֹצֵחַ שֶׁגָּלָה לְעִיר מִקְלָט וְרָצוּ אַנְשֵׁי הָעִיר לְכַבְּדוֹ, יֹאמַר לָהֶם, רוֹצֵחַ אָנִי. אָמְרוּ לוֹ, אַף עַל פִּי כֵן, יְקַבֵּל מֵהֶם, שֶׁנֶּאֱמַר (שם יט) וְזֶה דְּבַר הָרוֹצֵחַ:
Mishná 9"O que devolve uma dívida na shevi'it, o espírito dos sábios se agrada dele"
Mishná final de Massechet Sheviit: o louvor moral a quem devolve voluntariamente a dívida remitida; o caso do devedor do convertido cujos filhos se converteram com ele; a aquisição de bens móveis por tração; e o elogio conclusivo a quem cumpre sua palavra — encerrando o tratado com uma nota de integridade ética que transcende a lei estrita

O que devolve uma dívida na shevi'it, o espírito dos sábios se agrada dele (é moralmente louvado, ainda que legalmente já não seja obrigado). O que toma emprestado do convertido cujos filhos se converteram com ele (e depois o pai converso morreu, sem que seus filhos, nascidos ainda gentios, herdassem seus bens segundo a lei estrita): não devolva a seus filhos (o devedor não é legalmente obrigado a pagar aos filhos, pois não são seus herdeiros legítimos conforme a lei da Torá). Mas se devolveu, o espírito dos sábios se agrada dele (também aqui, o gesto voluntário é moralmente louvado). Todos os bens móveis (objetos transportáveis, não fixados ao solo) se adquirem por tração (meshichá — o ato de puxar ou movimentar o objeto, que finaliza juridicamente a compra, mesmo sem ainda ter havido pagamento). E todo aquele que cumpre sua palavra (honrando um acordo verbal, mesmo sem ainda ter havido o ato formal de aquisição), o espírito dos sábios se agrada dele.

הַמַּחֲזִיר חוֹב בַּשְּׁבִיעִית, רוּחַ חֲכָמִים נוֹחָה מִמֶּנּוּ. הַלֹּוֶה מִן הַגֵּר שֶׁנִּתְגַּיְּרוּ בָנָיו עִמּוֹ, לֹא יַחֲזִיר לְבָנָיו. וְאִם הֶחֱזִיר, רוּחַ חֲכָמִים נוֹחָה מִמֶּנּוּ. כָּל הַמִּטַּלְטְלִין, נִקְנִין בִּמְשִׁיכָה. וְכָל הַמְקַיֵּם אֶת דְּבָרוֹ, רוּחַ חֲכָמִים נוֹחָה מִמֶּנּוּ: