Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Guimel · Kirah
מוּתָּר לִנְטוֹתָהּ

A conclusão da barraca do noivo e a distinção do candelabro de peças articuladas; a objeção do carrinho da cama; a dúvida de Diospera sobre a menorá; os relatos sobre mover a lâmpada por respeito a Rabi Yochanan; a lâmpada de óleo e a de nafta; e o desafio de Rav Avya a Rava

Shabbat 46a — completa a citação interrompida no fim de 45b sobre a barraca do noivo; prossegue a discussão sobre os limites do muktzeh na menorá e na lâmpada; termina em texto interrompido, que prossegue em 46b

O daf abre completando a citação que ficara interrompida no fim de 45b: Shmuel, em nome de Rabi Chiya, ensinara que é permitido estender a barraca do noivo e é permitido desmontá-la em Shabat — o que pareceria contradizer a razão dada para proibir mover o candelabro, já que a pessoa também fixa um lugar determinado para a barraca. A Guemará responde retificando a própria objeção de Abaye: tratava-se ali de um candelabro feito de peças articuladas, que se teme desmontar e depois remontar, o que equivaleria a fabricar um utensílio — motivo diferente do "lugar fixo". Isso levanta nova pergunta sobre a razão de Reish Lakish permitir mover um candelabro pequeno com uma mão só; a resposta esclarece que "peças articuladas" significa peças com encaixes visíveis, e que tanto o candelabro grande quanto o pequeno feitos dessa forma são proibidos — o grande, mesmo que apenas pareça articulado, por decreto rabínico, para não confundir com o verdadeiro; a disputa entre os sábios limita-se ao pequeno com encaixes aparentes, onde um decreta proibição e o outro não. A Guemará então objeta à própria transmissão de que Rabi Yochanan segue Rabi Yehudá: mas não disse Rabi Yochanan que a halachá segue a Mishná anônima? E não ensinamos, sobre o carrinho de uma cama, que quando é destacável não se considera ligado a ela, não se mede com ela, não a socorre sob uma tenda de morto, e não se pode arrastá-lo em Shabat quando há moedas sobre ele — implicando que, sem moedas, seria permitido, mesmo tendo lugar fixo, à semelhança da posição permissiva de Rabi Shimon? Rabi Zeira responde ajustando o caso da Mishná: que não havia moedas sobre o carrinho durante todo o crepúsculo, para não contradizer as palavras de Rabi Yochanan. Rabi Yehoshua ben Levi transmite então que certa vez Rabi foi a Diospera e ali ensinou sobre o candelabro como Rabi Shimon ensinara sobre a lâmpada — ficando em dúvida se a permissão valia igualmente para o candelabro, ou se, pelo contrário, Rabi proibira o candelabro e apenas repetira, à parte, a permissão de Rabi Shimon quanto à lâmpada; a dúvida permanece sem solução. Seguem-se três relatos: Rav Malkia moveu uma lâmpada apagada na casa de Rabi Simlai, que se indignou; Rabi Yosei HaGelili fez o mesmo na terra de Rabi Yosei filho de Rabi Chanina, que também se indignou; e Rabi Abahu movia a lâmpada quando visitava o território de Rabi Yehoshua ben Levi, mas não a movia quando visitava o de Rabi Yochanan — o que leva a perguntar: seja qual for sua opinião, deveria agir sempre da mesma forma! A resposta é que Rabi Abahu sempre sustentava como Rabi Shimon, e só deixava de mover a lâmpada na presença de Rabi Yochanan por respeito a ele, não por convicção haláchica. Rav Yehudá então distingue entre a lâmpada de óleo, permitida, e a de nafta, proibida por seu mau cheiro; mas Rabá e Rav Yosef, ambos, permitem mover também a de nafta, pois serve para cobrir um utensílio. O daf termina com o relato de Rav Avya, que chegou à casa de Rava com os pés sujos de lama e sentou-se na cama diante dele; Rava, incomodado, quis atormentá-lo com perguntas, e indagou a razão pela qual Rabá e Rav Yosef permitiam mover a lâmpada de nafta; Rav Avya respondeu que era por servir para cobrir um utensílio, ao que Rava replicou: então todas as pedrinhas do pátio também deveriam poder ser movidas, pois também servem para cobrir um utensílio! Rav Avya respondeu que a lâmpada tem sobre si a categoria de utensílio, o que as pedras não têm — e o daf termina de forma interrompida, no meio de uma pergunta retórica introduzindo uma baraita ("não se ensinou...?"), cuja continuação aparece apenas no início de 46b.

A conclusão da barraca do noivo: o candelabro de peças articuladas · כִּילַּת חֲתָנִים

01"É permitido estendê-la e desmontá-la em Shabat" — mas Abaye retifica: tratava-se de um candelabro de peças articuladas
Shmuel em nome de Rabi Chiya; Abaye
מוּתָּר לִנְטוֹתָהּ וּמוּתָּר לְפָרְקָהּ בְּשַׁבָּת. אֶלָּא אָמַר אַבָּיֵי: בְּשֶׁל חוּלְיוֹת. אִי הָכִי, מַאי טַעְמָא דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן לָקִישׁ דְּשָׁרֵי?

"...é permitido estendê-la e é permitido desmontá-la em Shabat." Mas então disse Abaye: tratava-se ali de um (candelabro) feito de peças articuladas. Se assim é, qual é a razão de Rabi Shimon ben Lakish, que permite (mover um candelabro pequeno com uma mão só)?

Nota

Completa-se aqui a citação que ficara interrompida no fim de 45b: Shmuel, em nome de Rabi Chiya, ensinara que a barraca armada para o noivo pode ser estendida e desmontada livremente em Shabat — o que pareceria refutar a razão dada por Rabá e Rav Yosef para proibir mover o candelabro, pois a pessoa também fixa um lugar determinado para a barraca, e ainda assim ela é permitida. Mas Abaye retifica sua própria objeção: o motivo pelo qual aquele candelabro fora proibido não era, afinal, o "lugar fixo" — motivo que de fato se aplicaria igualmente à barraca —, mas sim que se tratava de um candelabro feito de peças destacáveis, que se teme desmontar e depois remontar, o que equivaleria a fabricar um utensílio novo, uma melachá muito mais grave. Isso, porém, levanta nova dificuldade: se a proibição é por causa do receio de desmontagem e remontagem, por que Reish Lakish permite mover um candelabro pequeno com uma mão só, se ele também poderia ser de peças articuladas?

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mutar linto'tah" e "be-shel chuliyot"
מותר לנטותה - דסתם כילת חתנים אין לה גג טפח שנקליטין יוצאין לשני ראשי המטה באמצעה אחד לכאן ואחד לכאן ונותן כלונס' מזה לזה ומשליך האהל עליה והוא שופע לכאן ולכאן וכיון שאינו רחב טפח אינו אהל ואין בו לא בנין ולא סתירה:

"É permitido estendê-la" — pois a barraca comum do noivo não tem um teto de um palmo de largura, já que as varas saem para as duas cabeceiras da cama, ao centro, uma para cada lado, e se coloca uma trave de uma à outra, lançando-se a cobertura sobre ela, que se inclina para os dois lados; e, como não tem um palmo de largura, não é considerada uma "tenda", e não há nela nem construção nem demolição.

בשל חוליות - במנורה של פרקים שמא תפול ותתפרק ויחזירנה ונמצא עושה כלי:

"Feita de peças articuladas" — trata-se de um candelabro de partes destacáveis; teme-se que caia, se desmonte, e a pessoa a remonte, e assim acabe fazendo um utensílio.

02"O que são 'peças articuladas'?" — as com encaixes visíveis; a disputa limita-se ao pequeno com encaixes
Guemará
מַאי ״חוּלְיוֹת״ — כְּעֵין חוּלְיוֹת, דְּאִית בַּהּ חִידְקֵי. הִלְכָּךְ: חוּלְיוֹת, בֵּין גְּדוֹלָה בֵּין קְטַנָּה — אֲסוּרָה לְטַלְטְלָהּ. גְּדוֹלָה נָמֵי דְּאִית בָּהּ חִידְקֵי — גְּזֵירָה אַטּוּ גְּדוֹלָה דְּחוּלְיוֹת. כִּי פְּלִיגִי בִּקְטַנָּה דְּאִית בָּהּ חִידְקֵי: מָר סָבַר גָּזְרִינַן, וּמָר סָבַר לָא גָּזְרִינַן.

O que são "peças articuladas"? Algo semelhante a peças articuladas, que têm encaixes visíveis. Portanto: (um candelabro) de peças articuladas, seja grande, seja pequeno, é proibido movê-lo. Mesmo o grande que apenas tenha encaixes (sem ser de fato desmontável)(é proibido) por decreto, para não confundir com o grande verdadeiramente de peças articuladas. Quando discordam, é a respeito do pequeno que tem encaixes (aparentes): um sábio entende que decretamos (a proibição), e o outro entende que não decretamos.

Nota

A Guemará esclarece o termo "peças articuladas": trata-se de um candelabro com encaixes ou ranhuras visíveis nas juntas, sinal de que pode ser desmontado e remontado. A regra resultante: qualquer candelabro assim construído, grande ou pequeno, é proibido de mover, pelo receio de que se desmonte e seja refeito. Até um candelabro grande que apenas tenha a aparência de encaixes, sem realmente se desmontar, é proibido por decreto rabínico, para que não se confunda com o verdadeiro candelabro grande de peças articuladas. A disputa entre os sábios — refletida na permissão de Reish Lakish para o pequeno movido com uma mão — restringe-se apenas ao candelabro pequeno com encaixes aparentes: um sábio teme que se confunda com o grande e decreta a proibição também para ele, enquanto o outro não vê necessidade desse decreto e permite.

A objeção do carrinho da cama (mukhni) · מוּכְנִי שֶׁלָּהּ

03"Rabi Yochanan segue a Mishná anônima" — mas a Mishná do carrinho da cama soa como Rabi Shimon
Guemará; Rabi Yochanan; Mishná
וּמִי אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן הָכִי? וְהָאָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: הֲלָכָה כִּסְתָם מִשְׁנָה. וּתְנַן, מוּכְנִי שֶׁלָּהּ בִּזְמַן שֶׁהִיא נִשְׁמֶטֶת — אֵין חִיבּוּר לָהּ, וְאֵין נִמְדֶּדֶת עִמָּהּ, וְאֵין מַצֶּלֶת עִמָּהּ בְּאֹהֶל הַמֵּת, וְאֵין גּוֹרְרִין אוֹתָהּ בְּשַׁבָּת בִּזְמַן שֶׁיֵּשׁ עָלֶיהָ מָעוֹת.

Mas será que Rabi Yochanan disse mesmo isso (que a halachá segue Rabi Yehudá quanto ao muktzeh)? Ora, não disse Rabi Yochanan: a halachá segue a Mishná anônima? E não ensinamos: o carrinho (de rodas sob a cama), quando é destacável, não se considera ligado a ela, não se mede junto com ela, não a socorre (da impureza) sob uma tenda de morto, e não se pode arrastá-lo em Shabat quando há moedas sobre ele?

Nota

Surge nova objeção contra a transmissão de que Rabi Yochanan fixara a halachá como Rabi Yehudá: Rabi Yochanan também ensinara, como princípio geral, que a halachá segue sempre a opinião anônima de uma Mishná, sem atribuição a um sábio específico. Ora, há uma Mishná anônima sobre o carrinho de rodas que sustenta uma cama: quando é destacável da cama, não se considera parte dela para diversos efeitos — não se mede em conjunto com ela, não a protege da impureza sob uma tenda de morto — e, quanto a Shabat, só se proíbe arrastá-lo quando há moedas sobre ele. Isso parece implicar que, sem moedas, seria permitido arrastá-lo livremente, mesmo tendo a pessoa fixado nele um lugar determinado sob a cama — posição que soa como a de Rabi Shimon, o mais permissivo, e não como a de Rabi Yehudá.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "u-mi amar Rabi Yochanan hachi"
ומי אמר רבי יוחנן הכי - הלכה כר' יהודה:

"Mas será que Rabi Yochanan disse mesmo isso" — que a halachá segue Rabi Yehudá.

04"Sem moedas, é permitido — mesmo que houvesse moedas no crepúsculo?" — Rabi Zeira ajusta o caso da Mishná
Guemará; Rabi Zeira
הָא אֵין עָלֶיהָ מָעוֹת — שַׁרְיָא, וְאַף עַל גַּב דַּהֲווֹ עָלֶיהָ בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת? אָמַר רַבִּי זֵירָא: תְּהֵא מִשְׁנָתֵינוּ שֶׁלֹּא הָיוּ עָלֶיהָ מָעוֹת כׇּל בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת, שֶׁלֹּא לִשְׁבּוֹר דְּבָרָיו שֶׁל רַבִּי יוֹחָנָן.

Ora, sem moedas sobre ele, é permitido (arrastá-lo) — mesmo que houvesse moedas sobre ele durante o crepúsculo (no início do Shabat)? Disse Rabi Zeira: que a nossa Mishná se refira a um caso em que não havia moedas sobre ele durante todo o crepúsculo, para não contradizer as palavras de Rabi Yochanan.

Nota

A Guemará aguça a objeção: segundo Rabi Yehudá, a condição de um objeto no crepúsculo que introduz o Shabat determina seu estatuto para todo o dia — se havia moedas sobre o carrinho nesse momento, ele deveria permanecer muktzeh mesmo depois removidas as moedas. A Mishná, porém, parece implicar que basta não haver moedas agora para permitir arrastá-lo, independentemente do que havia no crepúsculo — o que soaria como a posição de Rabi Shimon, que não fixa o estatuto pelo momento de entrada do Shabat. Rabi Zeira resolve reinterpretando o caso da própria Mishná: ela trata apenas da situação em que não havia moedas sobre o carrinho durante todo o período do crepúsculo, de modo que não há, de fato, contradição alguma com a posição de Rabi Yehudá transmitida por Rabi Yochanan.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "tehei mishnateinu"
תהא משנתינו - דמוכני דקתני הא אין עליה מעות שריא כגון שלא היו עליה בין השמשות והכי תידוק מינה טעמא דיש עליה מעות כשקדש היום הא אין עליה כשקדש היום שריא:

"Que a nossa Mishná se refira" — a do carrinho, que ensina que sem moedas sobre ele é permitido, refere-se a um caso em que não havia moedas sobre ele durante o crepúsculo; e assim se deduz dela precisamente: a razão é que havia moedas quando entrou o dia (do Shabat, e por isso proibido); mas, sem moedas quando entrou o dia, é permitido.

A dúvida de Diospera; os relatos sobre mover a lâmpada · הוֹרָה בִּמְנוֹרָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן

05"Rabi ensinou sobre o candelabro como Rabi Shimon ensinara sobre a lâmpada" — dúvida não resolvida: teiku
Rabi Yehoshua ben Levi; Rabi
אָמַר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי: פַּעַם אַחַת הָלַךְ רַבִּי לִדְיוֹסְפָרָא, וְהוֹרָה בִּמְנוֹרָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בְּנֵר. אִיבַּעְיָא לְהוּ: הוֹרָה בִּמְנוֹרָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בְּנֵר — לְהֶיתֵּרָא, אוֹ דִילְמָא: הוֹרָה בִּמְנוֹרָהּ לְאִיסּוּרָא — וּכְרַבִּי שִׁמְעוֹן בְּנֵר לְהֶיתֵּרָא. תֵּיקוּ.

Disse Rabi Yehoshua ben Levi: certa vez foi Rabi a Diospera, e ali ensinou sobre o candelabro como (ensinara) Rabi Shimon sobre a lâmpada. Ficou em dúvida para eles: "ensinou sobre o candelabro como Rabi Shimon ensinou sobre a lâmpada" — para permitir (igualmente o candelabro)? Ou talvez: ensinou sobre o candelabro para proibir, e, à parte, como Rabi Shimon, sobre a lâmpada, para permitir? Fica sem solução (teiku).

Nota

Rabi Yehoshua ben Levi transmite um relato sobre uma visita de Rabi a Diospera, onde teria ensinado sobre o candelabro "como Rabi Shimon (ensinara) sobre a lâmpada" — frase ambígua o bastante para gerar dúvida entre os próprios sábios da academia. Poderia significar que Rabi estendeu ao candelabro a mesma permissão que Rabi Shimon dava à lâmpada apagada, permitindo movê-lo livremente; ou poderia significar que Rabi, quanto ao candelabro, ensinou a proibição (como já seria de se esperar, dado o "lugar fixo"), e que a menção a Rabi Shimon se refere apenas, à parte, à permissão da lâmpada — duas leituras gramaticalmente possíveis da mesma frase transmitida. A Guemará não resolve a dúvida, e ela permanece como teiku, questão sem solução.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "li-Diospera" e "ibaeya lehu"
לדיוספרא - מקום:

"A Diospera" — nome de um lugar.

איבעיא להו - חדא הוראה הואי והכי קאמר הורה במנורה להיתר כדרך שהיה ר' שמעון מתיר בנר ישן או דילמא שתי הוראות הוה הורה במנורה לאיסור כדאמרן בדחידקי וגזרינן אטו חוליות וכר"ש הורה בנר להיתר:

"Ficou em dúvida para eles" — (será que) houve um único ensinamento, e o sentido é: ensinou sobre o candelabro para permitir, do mesmo modo que Rabi Shimon permitia quanto à lâmpada apagada? Ou talvez houve dois ensinamentos: ensinou sobre o candelabro para proibir, como dissemos a respeito das que têm encaixes e decretamos por causa das de peças articuladas, e, como Rabi Shimon, ensinou sobre a lâmpada para permitir.

06Três relatos sobre mover a lâmpada apagada; a conclusão: sempre como Rabi Shimon, salvo por respeito a Rabi Yochanan
Rav Malkia; Rabi Simlai; Rabi Yosei HaGelili; Rabi Yosei bar Rabi Chanina; Rabi Abahu; Rabi Yehoshua ben Levi; Rabi Yochanan
רַב מַלְכִּיָּא אִיקְּלַע לְבֵי רַבִּי שִׂמְלַאי וְטַילְטֵל שְׁרָגָא, וְאִיקְּפַד רַבִּי שִׂמְלַאי. רַבִּי יוֹסֵי גָּלִילָאָה אִיקְּלַע לְאַתְרֵיהּ דְּרַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא, טַילְטֵל שְׁרָגָא וְאִיקְּפַד רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי חֲנִינָא. רַבִּי אֲבָהוּ כִּי אִיקְּלַע לְאַתְרֵיהּ דְּרַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן לֵוִי הֲוָה מְטַלְטֵל שְׁרָגָא. כִּי אִיקְּלַע לְאַתְרֵיהּ דְּרַבִּי יוֹחָנָן לָא הֲוָה מְטַלְטֵל שְׁרָגָא. מָה נַפְשָׁךְ? אִי כְּרַבִּי יְהוּדָה סְבִירָא לֵיהּ — לֶיעְבַּד כְּרַבִּי יְהוּדָה. אִי כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן סְבִירָא לֵיהּ — לֶיעְבַּד כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן! — לְעוֹלָם כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן סְבִירָא לֵיהּ, וּמִשּׁוּם כְּבוֹדוֹ דְרַבִּי יוֹחָנָן הוּא דְּלָא הֲוָה עָבֵיד.

Rav Malkia chegou de visita à casa de Rabi Simlai e moveu uma lâmpada (apagada), e Rabi Simlai se indignou. Rabi Yosei HaGelili chegou de visita ao território de Rabi Yosei filho de Rabi Chanina, moveu uma lâmpada, e Rabi Yosei filho de Rabi Chanina se indignou. Rabi Abahu, quando chegava de visita ao território de Rabi Yehoshua ben Levi, movia a lâmpada; quando chegava de visita ao território de Rabi Yochanan, não movia a lâmpada. Seja qual for o caso: se ele sustentava como Rabi Yehudá, que aja sempre como Rabi Yehudá; se sustentava como Rabi Shimon, que aja sempre como Rabi Shimon! Na verdade, ele sempre sustentava como Rabi Shimon, e era por respeito a Rabi Yochanan que não o fazia (em seu território).

Nota

Três relatos ilustram a prática corrente quanto a mover a lâmpada apagada em Shabat. Rav Malkia e Rabi Yosei HaGelili moveram a lâmpada em territórios alheios e provocaram a indignação de seus anfitriões — sinal de que, nesses lugares, prevalecia a posição restritiva de Rabi Yehudá. Já Rabi Abahu tinha um comportamento variável: movia a lâmpada no território de Rabi Yehoshua ben Levi, mas se abstinha no território de Rabi Yochanan. A Guemará questiona essa inconsistência aparente — se ele tem uma opinião haláchica definida, deveria mantê-la em toda parte. A resposta esclarece que não havia inconsistência de convicção: Rabi Abahu sempre sustentava, pessoalmente, como Rabi Shimon, a posição permissiva; apenas se abstinha de movê-la na presença ou no território de Rabi Yochanan por deferência e respeito ao seu mestre, sabendo que este sustentava diferente, e não porque duvidasse da própria posição.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ve-tiltel sheraga" e "le-olam ke-Rabi Shimon"
וטלטל שרגא - נר שכבה:

"E moveu uma lâmpada" — uma lâmpada que se apagara.

לעולם כרבי שמעון סבירא ליה - דאי סבירא ליה דאסור לא הוה מטלטל ליה לכבוד ר' יהושע בן לוי דליעבד איסורא:

"Na verdade, ele sempre sustentava como Rabi Shimon" — pois, se sustentasse que é proibido, não o moveria em respeito a Rabi Yehoshua ben Levi, a ponto de cometer uma transgressão.

A lâmpada de óleo e a de nafta; o desafio de Rav Avya a Rava · שְׁרָגָא דְּמִשְׁחָא, שְׁרָגָא דְּנַפְטָא

07"A lâmpada de óleo é permitida; a de nafta, proibida" — mas Rabá e Rav Yosef permitem também a de nafta, por servir para cobrir um utensílio
Rav Yehudá; Rabá; Rav Yosef
אָמַר רַב יְהוּדָה: שְׁרָגָא דְּמִשְׁחָא שְׁרֵי לְטַלְטוֹלַהּ, דְּנַפְטָא — אֲסִיר לְטַלְטוֹלַהּ. רַבָּה וְרַב יוֹסֵף דְּאָמְרִי תַּרְוַיְיהוּ: דְּנַפְטָא נָמֵי שְׁרֵי לְטַלְטוֹלַהּ, דְּהוֹאִיל וַחֲזֵי לְכַסּוֹת בֵּיהּ מָנָא.

Disse Rav Yehudá: a lâmpada de óleo é permitido movê-la (depois de apagada); a de nafta, é proibido movê-la. Rabá e Rav Yosef, ambos disseram: a de nafta também é permitido movê-la, pois, uma vez que serve para cobrir com ela um utensílio, (mantém seu estatuto de utensílio).

Nota

Rav Yehudá distingue, dentro da permissão geral para mover a lâmpada apagada, entre o tipo de combustível: uma lâmpada de óleo comum, uma vez apagada, não tem mau cheiro nem repugnância, e é permitido movê-la; já uma lâmpada que queimou nafta — cujo cheiro residual é desagradável, tornando-a repugnante para qualquer outro uso — seria proibida, por se assemelhar a um objeto rejeitado, como figos secos e passas. Rabá e Rav Yosef discordam dessa distinção: mesmo a lâmpada de nafta permanece permitida de mover, pois, apesar do mau cheiro, ela ainda serve a um propósito prático — cobrir outro utensílio, protegendo-o —, o que basta para mantê-la na categoria de utensílio útil, e não de objeto totalmente descartado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "sheraga de-mishcha", "sharei le-taltulah" e "aval be-nafta"
שרגא דמשחא - שדלק נר של שמן:

"A lâmpada de óleo" — que queimou um azeite de óleo.

שרי לטלטולה - אחר שכבה כר' שמעון דלא מאיס:

"É permitido movê-la" — depois de apagada, como (a posição de) Rabi Shimon, pois não é repugnante.

אבל בנפטא - דמסרח אפילו רבי שמעון מודה דלא חזי אלא למלאכתו:

"Mas na de nafta" — que exala mau cheiro, até Rabi Shimon concorda que só serve para sua própria função (anterior, não para outra).

08Rav Avya visita Rava com os pés sujos de lama; o desafio das pedrinhas do pátio; a resposta: "categoria de utensílio" — o texto se interrompe
Rav Avya; Rava
רַב אַוְיָא אִיקְּלַע לְבֵי רָבָא. הֲוָה מְאִיסָן (בֵּי) כַּרְעֵיהּ בְּטִינָא. אִתֵּיב אַפּוּרְיָא קַמֵּיהּ דְּרָבָא. אִיקְּפַד רָבָא, בְּעָא לְצַעוֹרֵיהּ. אֲמַר לֵיהּ: מַאי טַעְמָא רַבָּה וְרַב יוֹסֵף דְּאָמְרִי תַּרְוַויְיהוּ שְׁרָגָא דְנַפְטָא נָמֵי שְׁרֵי לְטַלְטוֹלַהּ? אֲמַר לֵיהּ: הוֹאִיל וְחַזְיָא לְכַסּוֹיֵי בַּהּ מָנָא. אֶלָּא מֵעַתָּה, כׇּל צְרוֹרוֹת שֶׁבֶּחָצֵר מִטַּלְטְלִין, הוֹאִיל וְחַזְיִין לְכַסּוֹיֵי בְּהוּ מָנָא. אֲמַר לֵיהּ: הָא אִיכָּא תּוֹרַת כְּלִי עָלֶיהָ. הָנֵי לֵיכָּא תּוֹרַת כְּלִי עֲלֵיהֶן. מִי לָא תַּנְיָא: ...

Rav Avya chegou de visita à casa de Rava. Estavam seus pés sujos de lama. Sentou-se na cama diante de Rava. Rava se indignou, e quis atormentá-lo (com perguntas). Disse-lhe: qual é a razão pela qual Rabá e Rav Yosef, ambos, dizem que a lâmpada de nafta também é permitido movê-la? Respondeu-lhe: porque serve para cobrir com ela um utensílio. (Perguntou Rava:) mas então, todas as pedrinhas do pátio deveriam ser movíveis, pois também servem para cobrir com elas um utensílio! Respondeu-lhe: esta (a lâmpada) tem sobre si a categoria de utensílio; estas (as pedrinhas) não têm sobre si a categoria de utensílio. Não se ensinou…

Nota

O relato final ilustra, de forma quase cômica, o método do estudo talmúdico: Rava, incomodado por Rav Avya ter se sentado à sua frente com os pés enlameados, decide "atormentá-lo" com uma pergunta difícil sobre a disputa recém-mencionada. Rav Avya responde corretamente citando a razão de Rabá e Rav Yosef — a lâmpada de nafta serve para cobrir um utensílio. Rava então desafia essa própria razão: se bastasse "servir para cobrir um utensílio" para manter o estatuto de utensílio útil, até as pedrinhas soltas de um pátio, que também poderiam servir de peso ou proteção para cobrir algo, deveriam ser permitidas de mover — o que evidentemente não é o caso, pois pedras soltas no chão são muktzeh clássico. Rav Avya distingue: a lâmpada já possui, por sua fabricação original, a categoria formal de utensílio (torat keli), e o uso de cobrir apenas prolonga essa condição já existente; já as pedrinhas nunca tiveram, desde o início, a categoria de utensílio, de modo que um uso ocasional não basta para lhes conceder esse estatuto.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "ikpad Rava" e "u-vea le-tza'orei"
איקפד רבא - משום טינוף המטה:

"Rava se indignou" — por causa da sujeira na cama.

ובעה לצעוריה - בשאלות:

"E quis atormentá-lo" — com perguntas.

Nota sobre o texto

O daf 46a termina em plena pergunta retórica, de forma interrompida: "Não se ensinou…" — introduzindo uma baraita cujo conteúdo só aparece no início de 46b. A continuação revela que a baraita trata de braceletes, argolas de nariz e anéis, que têm o mesmo estatuto de todos os utensílios que se pode carregar num pátio em Shabat — e Ula explica que a razão é a mesma: porque também têm sobre si a categoria de utensílio, confirmando a distinção de Rava. A sequência prossegue com uma nova pergunta de Abaye a Rabá sobre o óleo restante numa lâmpada ou tigela, e a discussão sobre o muktzeh de Rabi Shimon continua a se aprofundar.