Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Guimel · Kirah
מִצְטַמֵּק

A questão de mitztamek veyafeh lo (encolher e ficar melhor), as tradições paralelas de Rabá bar bar Chana, Rav Sheshet e Rav Shmuel bar Yehuda em nome de Rabi Yochanan, o debate entre Rav e Shmuel, os relatos práticos de Rav Yehuda, Rav Nachman bar Yitzchak e Rav Huna, e a regra final de Rav Nachman

Shabbat 37b — a continuação direta do ensinamento de Rabi Yitzchak bar Nachmani no fim de 37a

O daf abre extraindo uma dedução do ensinamento de Rabi Yitzchak bar Nachmani citado no fim de 37a: como este permitiu deixar sobre o fogareiro reacendido apenas o que já cozinhou por completo, seria possível deduzir que também "encolher e ficar melhor" (continuar cozinhando de modo que o prato apenas melhore, encolhendo) seria permitido — dedução que a Guemará rejeita, pois ali o fogareiro já havia sido coberto de cinza, o que muda o caso. A Guemará traz então as tradições paralelas de Rabá bar bar Chana e de Rav Sheshet, ambas em nome de Rabi Yochanan, com pequenas variações que Rava reconcilia mostrando que a Mishná já continha implicitamente as duas leis (deixar e devolver). Segue-se o ensinamento de Rav Shmuel bar Yehuda, também em nome de Rabi Yochanan, que permite inclusive "encolher e ficar melhor" — o que gera uma objeção de um dos sábios, citando Rav e Shmuel em sentido oposto, respondida com a distinção de que se tratava da opinião de Rabi Yochanan, não da de Rav e Shmuel. Vêm então relatos práticos sobre Rav Yehuda (cuja saúde debilitada justificava exceção), sobre o costume de Sura transmitido por Rav Nachman bar Yitzchak, e sobre um episódio com Rav Huna e um prato de peixe (kasa deharsana) deixado sobre o fogo, contado por Rav Ashi sem certeza quanto ao fundamento. O daf se encerra com a regra prática final de Rav Nachman — "encolher e ficar melhor" é proibido, "encolher e piorar" é permitido — detalhada com exceções sobre o guisado de nabo, sobre pratos com carne, sobre convidados e sobre mingau de tâmaras, e é interrompido, sem resposta, por uma nova pergunta dirigida a Rabi Chiya bar Abba.

A dedução rejeitada sobre "encolher e ficar melhor" · שְׁמַע מִינָּה מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ מוּתָּר

01A tentativa de deduzir do ensinamento anterior que "encolher e ficar melhor" é permitido, e sua rejeição
Guemará
שְׁמַע מִינָּה מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ מוּתָּר! שָׁאנֵי הָכָא דְּקַטְמַהּ. אִי הָכִי מַאי לְמֵימְרָא?! הוּבְעֲרָה אִיצְטְרִיכָא לֵיהּ, מַהוּ דְּתֵימָא כֵּיוָן דְּהוּבְעֲרָה הָדְרָא לָהּ לְמִילְּתָא קַמַּיְיתָא, קָמַשְׁמַע לַן.

(A Guemará propõe:) Ouve-se disso (do ensinamento de Rav Oshaya no fim de 37a, que permite deixar sobre o fogareiro reacendido apenas o que já cozinhou por completo) que mitztamek veyafeh lo (um prato que, continuando a cozinhar, apenas encolhe e melhora de sabor) é permitido (mesmo que ainda não tenha terminado de cozinhar por completo, desde que o processo restante seja apenas de melhora)! (Rejeição:) É diferente aqui, pois (o fogareiro) foi coberto de cinza (o que já basta, por si, para permitir deixar mesmo algo não totalmente pronto, sem que isso prove a permissão geral de mitztamek veyafeh lo). (Objeção:) Se assim é, o que há a dizer (de novo neste ensinamento? Por que Rav Oshaya precisaria ensiná-lo, se já se sabia que um fogareiro coberto de cinza permite deixar mesmo comida não terminada)?! (Resposta:) (O caso de a brasa ter) se reacendido é que precisava (ser ensinado), (pois) poderias dizer que, uma vez que se reacendeu, (o fogareiro) volta ao seu estado anterior (de não coberto, e a permissão deveria ser revogada)(por isso Rav Oshaya) nos ensina (que não é assim, e a permissão original de deixar continua valendo mesmo depois de reacender).

Nota

A Guemará tenta extrair do ensinamento de Rabi Yitzchak bar Nachmani em nome de Rav Oshaya, citado no final de 37a, uma conclusão mais ampla sobre a questão de "mitztamek veyafeh lo" — um alimento que, se deixado sobre o fogo, apenas encolhe e melhora de sabor, sem que isso constitua um novo cozimento propriamente dito. Como Rav Oshaya permitiu deixar sobre o fogareiro reacendido água e comida já totalmente prontas, poder-se-ia pensar que a permissão se estenderia também a um prato ainda em processo de "encolher e melhorar". A Guemará rejeita essa dedução: o caso de Rav Oshaya trata de um fogareiro que já foi corretamente coberto de cinza, uma condição que basta, por si só, para permitir deixar até mesmo comida não totalmente pronta — sem que isso tenha relação com a questão mais ampla de mitztamek veyafeh lo. A Guemará então explica o verdadeiro propósito do ensinamento de Rav Oshaya: evitar que se pensasse que o simples reacender da brasa anula a preparação anterior (cobertura de cinza), fazendo o fogareiro reverter ao estado de não preparado.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "mitztamek", "mutar" e "sha'ani hacha dekatmah"
מצטמק - מתמעט וכויץ, לשון שדים צומקי (הושע ט), כמו שאתה אומר בלשון צווי נצטוה, ובלשון צדק נצטדק, וכן כל תיבה שראש יסודה צד"י כשהיא מתפעלת נותן ט' אחר צד"י:

"Mitztamek" — diminui e encolhe, expressão (análoga a) "seios que encolheram" (Oseias 9), assim como se diz na forma de imperativo nitzstavah, e na forma de "justiça" nitztadek; e assim, toda palavra cuja raiz começa com tzadi, quando está na forma reflexiva, coloca-se um tet depois do tzadi.

מותר - להשהותן בכירה, דאי לא במצטמק ויפה לו קאמר, מאי אתא לאשמעינן? אלא על כרחך במצטמק ויפה לו קאמר, ואפילו הכי לא גזרו משום חיתוי, הואיל ונתבשל כל צרכו; ותנא חמין לאשמעינן דבעינן שהוחמו כל צרכן מבעוד יום:

"É permitido" — deixá-los (água e comida) sobre o fogareiro; pois, se não estivesse (o ensinamento) falando de mitztamek veyafeh lo, o que viria (Rav Oshaya) nos ensinar (de novo)? Antes, por força, (o ensinamento) fala de mitztamek veyafeh lo, e, ainda assim, não decretaram (proibição) por causa de mexer nas brasas, uma vez que (o alimento) já cozinhou por completo (no momento em que a brasa se reacendeu); e ensinou-se (o caso de) água quente para nos ensinar que se exige que (a água) já tenha se aquecido por completo desde antes de escurecer (o dia).

שאני הכא דקטמה - וגלי דעתיה דלא ניחא ליה בצמוקי:

"É diferente aqui, pois (o fogareiro) foi coberto de cinza" — e (a pessoa) revelou sua intenção de que não lhe interessa (o alimento) encolher (mais, ao cobri-lo de cinza, o que por si só já demonstra que a preocupação com mexer nas brasas não se aplica).

As tradições paralelas de Rabá bar bar Chana e Rav Sheshet em nome de Rabi Yochanan · אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן

02Rabá bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan: mesmo brasas de giesta, e a mesma rejeição da dedução sobre mitztamek
Rabá bar bar Chana; Rabi Yochanan
אָמַר רַבָּה בַּר בַּר חָנָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: קְטָמָהּ וְהוּבְעֲרָה, מְשַׁהִין עָלֶיהָ חַמִּין שֶׁהוּחַמּוּ כׇּל צוֹרְכָּן וְתַבְשִׁיל שֶׁבִּישֵּׁל כׇּל צוֹרְכּוֹ, וַאֲפִילּוּ גֶּחָלִים שֶׁל רוֹתֶם. שְׁמַע מִינָּה מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ מוּתָּר! — שָׁאנֵי הָכָא דְּקַטְמַהּ. אִי הָכִי מַאי לְמֵימְרָא?! הוּבְעֲרָה אִצְטְרִיכָא לֵיהּ. הַיְינוּ הָךְ! — גֶּחָלִים שֶׁל רוֹתֶם אִצְטְרִיכָא לֵיהּ.

Disse Rabá bar bar Chana, disse Rabi Yochanan: (um fogareiro cuja brasa) foi coberta de cinza e (depois) se reacendeu — deixa-se sobre ele água quente que já se aqueceu por completo, e comida cozida que já cozinhou por completo, e mesmo (se as brasas forem) brasas de giesta (que ardem com calor especialmente intenso e duradouro). (Novamente a Guemará propõe:) Ouve-se disso que mitztamek veyafeh lo é permitido! (Rejeição, como antes:) É diferente aqui, pois (o fogareiro) foi coberto de cinza. (Objeção:) Se assim é, o que há a dizer (de novo)?! (Resposta:) (O caso de) ter se reacendido é que precisava (ser ensinado). (Nova objeção:) Isso é o mesmo (que já foi dito antes, no ensinamento de Rav Oshaya — por que repeti-lo)! (Resposta final:) (O caso das) brasas de giesta é que precisava (ser ensinado, pois estas ardem por muito mais tempo e com calor muito mais intenso do que brasas comuns, e poder-se-ia pensar que, mesmo cobertas de cinza e reacendidas, a permissão não se aplicaria a elas).

Nota

A Guemará traz uma segunda versão, quase idêntica, do mesmo ensinamento, agora transmitida por Rabá bar bar Chana em nome de Rabi Yochanan, com um acréscimo relevante: a permissão se aplica mesmo quando as brasas originais eram de giesta (rotem), um arbusto do deserto cuja madeira produz brasas notavelmente duradouras e intensamente quentes, mantendo o calor por muito mais tempo que brasas comuns. A sequência de perguntas e respostas se repete de modo similar ao ensinamento anterior — a tentativa de deduzir a permissão geral de mitztamek veyafeh lo é rejeitada pela mesma razão (o fogareiro já estava coberto de cinza), e o propósito do ensinamento é justificado pela necessidade de tratar do caso da brasa reacesa. Mas surge uma nova dificuldade: se esse ensinamento é essencialmente idêntico ao anterior (de Rav Oshaya), por que repeti-lo? A resposta final identifica o elemento verdadeiramente novo: a menção específica de brasas de giesta, cujo calor excepcionalmente forte e duradouro poderia levar a pensar que, mesmo com a cinza e o reacender, a permissão não se sustentaria — e este ensinamento vem esclarecer que ela se sustenta também nesse caso extremo.

03Rav Sheshet em nome de Rabi Yochanan: a Mishná ensina "devolver", mas "deixar" é permitido mesmo sem remover ou cobrir
Rav Sheshet; Rabi Yochanan
אָמַר רַב שֵׁשֶׁת אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כִּירָה שֶׁהִסִּיקוּהָ בְּגֶפֶת וּבְעֵצִים מְשַׁהִין עָלֶיהָ חַמִּין שֶׁלֹּא הוּחַמּוּ כׇּל צוֹרְכָּן וְתַבְשִׁיל שֶׁלֹּא בִּישֵּׁל כׇּל צוֹרְכּוֹ. עָקַר — לֹא יַחֲזִיר עַד שֶׁיִּגְרוֹף אוֹ עַד שֶׁיִּתֵּן אֵפֶר. קָסָבַר: מַתְנִיתִין ״לְהַחֲזִיר״ תְּנַן, אֲבָל לְשַׁהוֹת — מְשַׁהִין אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ גָּרוּף וְאֵינוֹ קָטוּם.

Disse Rav Sheshet, disse Rabi Yochanan: um fogareiro que se acendeu com bagaço e com lenha — deixa-se sobre ele água quente que ainda não se aqueceu por completo, e comida cozida que ainda não cozinhou por completo (pois, como o fogareiro não foi preparado, todo o processo de deixar se sustenta apenas se não houver mexer nas brasas, o que aqui não constitui problema). (Se a panela) foi retirada — não se devolva até que se remova (as brasas) ou até que se ponha cinza. (Rabi Yochanan) sustenta: a Mishná "devolver" ensinamos, mas para deixar — deixa-se, ainda que (o fogareiro) não esteja removido nem coberto.

Nota

A Guemará traz agora uma terceira versão do mesmo tema geral, transmitida por Rav Sheshet em nome do mesmo Rabi Yochanan, mas desta vez tratando não do fogareiro já coberto de cinza e reacendido, e sim do fogareiro original, aceso com bagaço de azeitona e lenha, nunca removido nem coberto. Aqui, surpreendentemente, Rabi Yochanan permite deixar sobre ele até mesmo água e comida que ainda não terminaram de se aquecer ou cozinhar — o oposto do que se poderia esperar, já que nos ensinamentos anteriores a preocupação era justamente restringir a alimentos já totalmente prontos. Rav Sheshet explica que essa posição de Rabi Yochanan reflete precisamente a leitura da Mishná original que a Guemará adotou ao longo da sugya: que a primeira cláusula da Mishná trata do ato de "devolver" (que exige remoção das brasas ou cobertura de cinza), mas que o ato de simplesmente "deixar" a comida desde véspera é permitido mesmo sem essa preparação, sem restrição quanto ao alimento ainda não estar totalmente pronto.

04Rava reconcilia as duas versões: ambas as leis já estão implícitas na própria Mishná
Rava
אָמַר רָבָא: תַּרְוַויְיהוּ תְּנַנְהִי. לְשַׁהוֹת תְּנֵינָא: אֵין נוֹתְנִין אֶת הַפַּת בְּתוֹךְ הַתַּנּוּר עִם חֲשֵׁיכָה וְלֹא חֲרָרָה עַל גַּבֵּי גֶּחָלִים אֶלָּא כְּדֵי שֶׁיִּקְרְמוּ פָּנֶיהָ. הָא קָרְמוּ פָּנֶיהָ — שְׁרֵי. לְהַחֲזִיר נָמֵי תְּנֵינָא: בֵּית הִלֵּל אוֹמְרִים אַף מַחְזִירִין. וְעַד כָּאן לָא קָשָׁרוּ בֵּית הִלֵּל אֶלָּא בִּגְרוּפָה וּקְטוּמָה, אֲבָל בְּשֶׁאֵינָהּ גְּרוּפָה וּקְטוּמָה לָא! וְרַב שֵׁשֶׁת נָמֵי דִּיּוּקָא דְמַתְנִיתִין קָמַשְׁמַע לַן.

Disse Rava: ambas (as leis) já as ensinamos (implicitamente na própria Mishná, sem necessidade de novo ensinamento). Quanto a deixar, já ensinamos (em outra Mishná): não se coloca o pão dentro do forno ao escurecer (o dia, perto da entrada do Shabat), nem um bolo achatado sobre as brasas, a menos que suas superfícies já tenham endurecido (formado uma crosta). Eis que, (se) suas superfícies já endureceram — é permitido (deixá-los, mesmo que o cozimento ainda não esteja completo — mostrando que a permissão de deixar não exige alimento totalmente pronto). E quanto a devolver, também já ensinamos: Bet Hilel dizem: até se devolve (a panela). E, até aqui, Bet Hilel não vincularam (essa permissão) senão a (um fogareiro) removido e coberto, mas a um (fogareiro) que não está removido e coberto — não (permitem devolver; o que já mostra a distinção entre devolver e deixar)! E Rav Sheshet também veio nos ensinar apenas a interpretação precisa da Mishná (sem introduzir halachá nova).

Nota

Rava resolve a aparente tensão entre as diferentes versões trazidas em nome de Rabi Yochanan mostrando que ambas as leis mencionadas por Rav Sheshet — a permissão de deixar mesmo alimento não totalmente pronto, e a proibição de devolver sem remover ou cobrir — já estavam implícitas em outras fontes da própria Mishná, sem que Rav Sheshet precisasse ensinar algo genuinamente novo. Quanto a "deixar", Rava cita uma Mishná paralela (de Massechet Pessachim) sobre colocar pão no forno perto da entrada do Shabat, que permite deixá-lo desde que sua superfície já tenha formado uma crosta — mesmo sem estar totalmente assado —, provando que o critério para deixar não exige que o alimento esteja completamente pronto. Quanto a "devolver", a própria formulação de Bet Hilel, que apenas permite devolver quando o fogareiro está removido e coberto, já implica que, sem essa preparação, a devolução é proibida. Assim, Rav Sheshet não trouxe uma halachá nova, mas apenas articulou explicitamente o que já se podia deduzir da Mishná.

Rav Shmuel bar Yehuda e a permissão de mitztamek veyafeh lo · מְשַׁהִין עָלֶיהָ תַּבְשִׁיל שֶׁבִּישֵּׁל כׇּל צוֹרְכּוֹ

05Rav Shmuel bar Yehuda em nome de Rabi Yochanan: permitido mesmo mitztamek veyafeh lo; a objeção citando Rav e Shmuel
Rav Shmuel bar Yehuda; Rabi Yochanan
אָמַר רַב שְׁמוּאֵל בַּר יְהוּדָה אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כִּירָה שֶׁהִסִּיקוּהָ בְּגֶפֶת וּבְעֵצִים מְשַׁהִין עָלֶיהָ תַּבְשִׁיל שֶׁבִּישֵּׁל כׇּל צוֹרְכּוֹ וְחַמִּין שֶׁהוּחַמּוּ כׇּל צוֹרְכָּן וַאֲפִילּוּ מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ. אֲמַר לֵיהּ הָהוּא מִדְּרַבָּנַן לְרַב שְׁמוּאֵל בַּר יְהוּדָה: הָא רַב וּשְׁמוּאֵל דְּאָמְרִי תַּרְוַויְיהוּ מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ אָסוּר!

Disse Rav Shmuel bar Yehuda, disse Rabi Yochanan: um fogareiro que se acendeu com bagaço e com lenha — deixa-se sobre ele comida cozida que já cozinhou por completo, e água quente que já se aqueceu por completo, e mesmo mitztamek veyafeh lo (um prato que, se deixado, apenas continuará encolhendo e melhorando, mesmo que ainda não tenha atingido seu ponto final). Disse-lhe um certo (sábio) dentre os rabinos a Rav Shmuel bar Yehuda: mas eis que Rav e Shmuel, que ambos disseram (que) mitztamek veyafeh lo é proibido (contradizem o que disseste)!

Nota

Rav Shmuel bar Yehuda traz, em nome de Rabi Yochanan, uma posição mais permissiva sobre o fogareiro original (aceso com bagaço e lenha, nunca removido nem coberto): não apenas se pode deixar sobre ele comida e água já totalmente prontas, mas também um prato que se enquadra na categoria de "mitztamek veyafeh lo" — ou seja, que ainda continuará a passar por algum processo de cozimento adicional, mas que esse processo consiste apenas em encolher e melhorar de sabor, sem constituir um novo cozimento proibido. Um dos sábios presentes levanta de imediato uma objeção, citando a posição conhecida e bem estabelecida de Rav e Shmuel — duas das maiores autoridades da Babilônia — segundo a qual mitztamek veyafeh lo é categoricamente proibido em Shabat, já que ainda envolve um processo ativo de cozimento que se beneficia do calor do fogo.

06A resposta: tratava-se da opinião de Rabi Yochanan, não da de Rav e Shmuel; e o costume local de seguir cada autoridade
Rav Shmuel bar Yehuda; Rav Ukva de Meishan; Rav Ashi
אֲמַר לֵיהּ: אַטּוּ לֵית אֲנָא יָדַע דְּאָמַר רַב יוֹסֵף אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ — אָסוּר? כִּי קָאָמֵינָא לָךְ, לְרַבִּי יוֹחָנָן קָאָמֵינָא. אֲמַר לֵיהּ רַב עוּקְבָא מִמֵּישָׁן לְרַב אָשֵׁי: אַתּוּן דִּמְקָרְבִיתוּ לְרַב וּשְׁמוּאֵל — עֲבִידוּ כְּרַב וּשְׁמוּאֵל, אֲנַן נַעֲבֵיד כְּרַבִּי יוֹחָנָן.

Disse-lhe (Rav Shmuel bar Yehuda): acaso não sei eu que disse Rav Yosef, disse Rav Yehuda, disse Shmuel: mitztamek veyafeh lo é proibido? (Mas) quando eu te disse (o ensinamento anterior), sobre (a opinião de) Rabi Yochanan eu te disse (não pretendendo contradizer Rav e Shmuel, apenas relatar uma opinião distinta). Disse-lhe Rav Ukva de Meishan a Rav Ashi: vós, que estais mais próximos (geograficamente e na tradição) de Rav e Shmuel — fazei conforme Rav e Shmuel; nós faremos conforme Rabi Yochanan.

Nota

Rav Shmuel bar Yehuda responde à objeção esclarecendo que não ignorava a posição de Rav e Shmuel; simplesmente estava relatando fielmente uma opinião distinta e diversa, a de Rabi Yochanan, sem pretender resolver a disputa entre as duas tradições ou afirmar que uma delas está errada. Segue-se então uma nota sobre a prática regional: Rav Ukva, da região de Meishan (na Babilônia meridional), observa a Rav Ashi que cada comunidade deveria seguir a autoridade mais próxima de sua própria tradição regional — os que vivem mais perto da tradição de Rav e Shmuel (na Babilônia central) deveriam seguir sua posição mais estrita, proibindo mitztamek veyafeh lo, enquanto os de Meishan, mais distantes dessa tradição e mais próximos da Terra de Israel e de Rabi Yochanan, poderiam seguir a posição mais permissiva deste último. Esse comentário ilustra como diferentes comunidades da diáspora babilônica, por vezes, seguiam autoridades distintas conforme sua proximidade geográfica e cultural.

Relatos práticos: Rav Yehuda, o costume de Sura e o episódio de Rav Huna · מַהוּ לְשַׁהוֹת

07Abaie pergunta a Rav Yosef sobre deixar; o caso excepcional de Rav Yehuda, por causa de sua saúde debilitada
Abaie; Rav Yosef
אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי לְרַב יוֹסֵף: מַהוּ לְשַׁהוֹת? אֲמַר לֵיהּ: הָא רַב יְהוּדָה מְשַׁהוּ לֵיהּ וְאָכֵיל. אָמַר לֵיהּ: בַּר מִינֵּיהּ דְּרַב יְהוּדָה, דְּכֵיוָן דִּמְסוּכָּן הוּא — אֲפִילּוּ בְּשַׁבָּת נָמֵי שְׁרֵי לְמֶעְבַּד לֵיהּ. לִי וְלָךְ מַאי? אֲמַר לֵיהּ: בְּסוּרָא מְשַׁהוּ, דְּהָא רַב נַחְמָן בַּר יִצְחָק מָרֵי דְעוֹבָדָא הֲוָה, וּמְשַׁהוּ לֵיהּ וְאָכַל.

Disse-lhe Abaie a Rav Yosef: qual é a halachá quanto a deixar (um prato de mitztamek veyafeh lo)? Disse-lhe: eis que (para) Rav Yehuda deixavam (esse tipo de prato), e (ele) comia. Disse-lhe (Abaie): (isso não prova nada, pois deve-se excluir) o caso de Rav Yehuda, pois, como ele era (de saúde) frágil, mesmo em Shabat também seria permitido fazer (preparar comida especialmente) para ele (por necessidade médica; não se pode aprender uma regra geral de uma exceção). Para mim e para ti, o que (é a halachá)? Disse-lhe (Rav Yosef): em Sura deixavam (esse tipo de prato), pois eis que Rav Nachman bar Yitzchak era autoridade em (tal) prática, e deixavam (o prato) para ele, e (ele) comia.

Nota

Abaie levanta a pergunta prática central da sugya diretamente a seu mestre, Rav Yosef: qual é, de fato, a halachá sobre deixar um prato de mitztamek veyafeh lo sobre o fogo? Rav Yosef responde citando o costume observado com Rav Yehuda, um dos maiores sábios da geração anterior, para quem se deixava esse tipo de prato e que efetivamente o comia em Shabat. Abaie, porém, rejeita essa prova: Rav Yehuda tinha saúde debilitada, e por isso mesmo uma preparação especial em seu favor poderia ser permitida por razões médicas, mesmo que a halachá geral fosse mais restritiva — não sendo, portanto, prova de uma permissão ampla. Abaie então pergunta especificamente sobre a halachá aplicável a pessoas saudáveis como ele mesmo e Rav Yosef. Este responde citando o costume da cidade de Sura, testemunhado pela prática de Rav Nachman bar Yitzchak, reconhecido como autoridade nesse assunto específico, para quem também se deixava tal prato.

08O relato de Rav Ashi sobre Rav Huna e o prato de peixe, sem certeza quanto ao fundamento
Rav Ashi
אָמַר רַב אָשֵׁי: קָאֵימְנָא קַמֵּיהּ דְּרַב הוּנָא וְשַׁהִין לֵיהּ כָּסָא דְהַרְסָנָא וָאֲכַל, וְלָא יָדַעְנָא אִי מִשּׁוּם דְקָסָבַר מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ מוּתָּר, אִי מִשּׁוּם דְּכֵיוָן דְּאִית בֵּיהּ מִיחָא — מִצְטַמֵּק וְרַע לוֹ הוּא.

Disse Rav Ashi: eu estava de pé diante de Rav Huna, e deixavam para ele um prato de peixe harsana (um prato de peixe picado ou moído, temperado), e (ele) comia; e eu não sei se (isso era) porque ele sustentava que mitztamek veyafeh lo é permitido, ou (se era) porque, como há nele (nesse prato de peixe) molho (líquido), (o caso dele) é de mitztamek verá lo (encolher e piorar — pois o molho, ao encolher demais, prejudica o sabor do prato, ao invés de melhorá-lo, o que é permitido mesmo segundo os mais estritos).

Nota

Rav Ashi relata um episódio pessoal que testemunhou junto a seu mestre Rav Huna: um prato de peixe conhecido como kasa deharsana (provavelmente peixe picado ou moído, preparado com molho) era deixado sobre o fogo para Rav Huna, que depois o comia em Shabat. Rav Ashi, no entanto, admite honestamente sua incerteza quanto ao fundamento halárico dessa prática: não sabe se Rav Huna considerava que mitztamek veyafeh lo é de fato permitido (posição que contradiria Rav e Shmuel), ou se, alternativamente, esse prato específico de peixe com molho se enquadrava na categoria oposta de "mitztamek verá lo" — encolher e piorar —, pois o molho líquido, ao continuar reduzindo com o calor, tende a prejudicar o sabor do prato ao invés de melhorá-lo, e essa categoria é permitida mesmo pelos que proíbem mitztamek veyafeh lo. Essa incerteza de Rav Ashi introduz precisamente a distinção que será formalizada no ensinamento final de Rav Nachman.

A regra final de Rav Nachman: mitztamek veyafeh lo é proibido, mitztamek verá lo é permitido · מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ אָסוּר, מִצְטַמֵּק וְרַע לוֹ מוּתָּר

09A regra geral de Rav Nachman e suas exceções: o guisado de nabo, a presença de carne, e convidados
Rav Nachman
אָמַר רַב נַחְמָן: מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ — אָסוּר, מִצְטַמֵּק וְרַע לוֹ — מוּתָּר. כְּלָלָא דְּמִלְּתָא: כׇּל דְּאִית בֵּיהּ מֵיחָא — מִצְטַמֵּק וְרַע לוֹ, לְבַר מִתַּבְשִׁיל דְּלִיפְתָּא דְּאַף עַל גַּב דְּאִית בֵּיהּ מֵיחָא — מִצְטַמֵּק וְיָפֶה לוֹ הוּא. וְהָנֵי מִילֵּי דְּאִית בֵּיהּ בִּשְׂרָא, אֲבָל לֵית בֵּיהּ בִּשְׂרָא — מִצְטַמֵּק וְרַע לוֹ הוּא. וְכִי אִית בֵּיהּ בִּשְׂרָא נָמֵי לָא אֲמַרַן אֶלָּא דְּלָא קָבָעֵי לֵהּ לְאוֹרְחִין, אֲבָל קָבָעֵי לֵהּ לְאוֹרְחִין — מִצְטַמֵּק וְרַע לוֹ. לַפְדָּא דַּיְיסָא וְתַמְרֵי מִצְטַמֵּק וְרַע לָהֶן.

Disse Rav Nachman: mitztamek veyafeh lo — é proibido; mitztamek verá lo — é permitido. A regra geral do assunto: tudo que tem nele molho (líquido)(encolher é) mitztamek verá lo (pois o molho piora ao reduzir demais), exceto o guisado de nabo, que, ainda que tenha nele molho, mitztamek veyafeh lo é (pois este prato melhora justamente ao encolher e concentrar o sabor). E isto se aplica quando há nele carne; mas, se não há nele carne, mitztamek verá lo é (mesmo o guisado de nabo, sem carne, piora ao encolher). E mesmo quando há nele carne, também não dissemos (que é mitztamek veyafeh lo) senão quando não se destina a convidados; mas quando se destina a convidados, mitztamek verá lo é (pois os anfitriões preferem servir o prato com mais caldo, por respeito aos convidados, e por isso o encolhimento o prejudica aos olhos deles). Para mingau de farinha e tâmaras, mitztamek verá lo é para eles (pois esses pratos pioram quando continuam a cozinhar e a encolher).

Nota

Rav Nachman formula, enfim, a regra final e definitiva que organiza toda a discussão do daf: "mitztamek veyafeh lo" — quando o prosseguimento do cozimento apenas encolhe e melhora o prato — é proibido em Shabat, pois ainda constitui um benefício ativo do processo de cozimento; já "mitztamek verá lo" — quando o prosseguimento prejudica o prato — é permitido, pois ninguém teria interesse em mexer nas brasas para prejudicar sua própria comida. A regra geral prática é que pratos com molho líquido tendem a piorar ao encolher demais (por perderem o caldo desejado), sendo portanto permitidos, com uma exceção notável: o guisado de nabo, que mesmo com molho, na verdade melhora de sabor ao reduzir e concentrar. Rav Nachman refina ainda mais essa exceção: ela só vale quando o guisado contém carne (cujo sabor se intensifica ao reduzir o líquido), e mesmo assim, apenas quando não se destina a convidados — pois para convidados prefere-se servir com mais caldo, por hospitalidade, de modo que o encolhimento seria visto como prejuízo. Por fim, encerra observando que mingau de farinha e tâmaras sempre pioram ao continuar cozinhando, sendo, portanto, sempre permitidos.

10Nova pergunta dirigida a Rabi Chiya bar Abba, interrompida sem resposta no limite do daf
Guemará
בְּעוֹ מִינֵּיהּ מֵרַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא:

(Os sábios) levantaram uma dúvida perante Rabi Chiya bar Abba (o teor da pergunta é apresentado apenas no início do daf seguinte):

Nota

O daf se encerra abruptamente com a abertura de uma nova pergunta dirigida a Rabi Chiya bar Abba, cujo conteúdo específico não é revelado nesta linha — a formulação exata da dúvida, e sua eventual resposta, seguem apenas no início do próximo daf. Esta é uma ocorrência comum na estrutura editorial do Talmud, em que uma sugya é interrompida no limite físico da página (o daf), retomando sua continuação imediatamente no verso seguinte, sem qualquer perda de continuidade temática.