Talmud Bavli · Massechet Shabbat · Perek Bet · Bameh Madlikin
כּוֹכָב אֶחָד

A resposta sobre a halachá quanto a teruma, a definição de bein hashmashot por estrelas, o costume de Rava com seu servo, e a baraita das seis toqueadas de shofar na véspera de Shabat

Shabbat 35b — a conclusão direta da pergunta de Rabi Yochanan interrompida no limite de 35a

O daf abre respondendo à pergunta suspensa no fim de 35a: a halachá que segue Rabi Yosei quanto a teruma refere-se não à imersão, mas à permissão de comer teruma, que só se dá depois de completado inteiramente o bein hashmashot de Rabi Yosei — regra que Rabi Yochanan aplica como estringência também quanto à saída de Shabat. Em seguida, Shmuel oferece a definição prática mais conhecida do bein hashmashot: uma estrela visível é dia, duas é bein hashmashot, três é noite — ensinamento que uma baraita confirma, com a ressalva de Rabi Yosei de que se trata de estrelas médias, nem grandes (visíveis de dia) nem pequenas (visíveis só à noite). Rabi Yosei bar Zevida ensina que quem trabalha durante os dois bein hashmashot (de véspera e saída de Shabat) é culpado de um sacrifício de chatat de qualquer modo que se resolva a dúvida, e Rava instrui seu próprio servo, que não domina as medidas rabínicas, a acender a vela quando o sol chega ao topo das tamareiras — com sinais alternativos para dias nublados: as galinhas empoleiradas, os corvos ou a planta adáni. O daf passa em seguida a uma baraita extensa sobre as seis toqueadas de shofar que anunciam a véspera de Shabat na Babilônia, o costume explicado por Rabban Shimon ben Gamliel, a versão que Rav Yehuda ensina a seu filho Rav Yitzchak, e a baraita paralela da escola de Rabi Yishmael, que detalha o efeito de cada toqueada sobre lavradores, lojistas e donas de casa. O daf fecha com o ensinamento de Rabi Yosei bar Chanina sobre o horário de acender depois das seis toqueadas, a objeção quanto à "medida" implícita nisso, a solução do lugar reservado no telhado do chazan da sinagoga, e a contradição final entre duas baraitot sobre se o shofar pode ser transportado — resolvida por Rav Yosef com a distinção entre uso individual e uso comunitário, e justificada por Abaye pela possibilidade de beber água nele.

A resposta: a halachá de Rabi Yosei quanto a teruma refere-se à comida, não à imersão · אֶלָּא לַאֲכִילַת תְּרוּמָה

01A resposta: refere-se à permissão de comer teruma, só depois de completado o bein hashmashot de Rabi Yosei
Guemará
אֶלָּא לַאֲכִילַת תְּרוּמָה, דְּלָא אָכְלִי כֹּהֲנִים תְּרוּמָה עַד דְּשָׁלֵים בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת דְּרַבִּי יוֹסֵי.

(A Guemará responde à pergunta suspensa no fim de 35a:) antes, (refere-se) à comida de teruma, pois os cohanim não comem teruma até que se complete inteiramente o bein hashmashot de Rabi Yosei.

Nota

O daf abre respondendo diretamente à dificuldade deixada em aberto no fim de 35a. Rabi Yochanan havia ensinado que a halachá segue Rabi Yosei quanto ao assunto de teruma, e a Guemará perguntara em que sentido concreto isso se aplicaria, já que a questão da imersão fora tratada como situação de dúvida, não de decisão halachica clara. A resposta esclarece que o ensinamento não trata da imersão em si, mas do momento em que os cohanim, já imersos, podem efetivamente comer sua teruma: essa permissão só se dá depois que todo o breve bein hashmashot de Rabi Yosei (o instante fugaz que ele considera crepúsculo) já tiver transcorrido por completo — isto é, quando já é noite com certeza segundo todas as opiniões. Trata-se, portanto, de uma aplicação estringente: para comer teruma, exige-se esperar o ponto mais tardio possível de incerteza.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "para a comida" e a estringência de Rabi Yochanan
אלא לאכילה - וכולה מילתא דר' יוחנן לחומרא דלא תימא כי שלים בין השמשות דר' יהודה ליליא הוא וניכול וממילא נמי לענין מוצאי שבת לא אמרינן כר' יהודה דנימא דר' יוסי ליליא הוא ושרי:

"Antes, (refere-se) à comida" — e todo o ensinamento de Rabi Yochanan é para a estringência, para que não digas: quando se completa o bein hashmashot de Rabi Yehuda, já é noite, e (os cohanim) comam (a teruma logo ali); e, do mesmo modo, quanto à saída de Shabat, também não dizemos como Rabi Yehuda, de modo a dizer que, (assim que termina o bein hashmashot) de Rabi Yosei, já é noite e (o trabalho) é permitido (mas se exige esperar mais, até o bein hashmashot mais longo de Rabi Yehuda).

A definição prática por estrelas: uma é dia, duas é bein hashmashot, três é noite · כּוֹכָב אֶחָד יוֹם

02Shmuel: uma estrela é dia, duas é bein hashmashot, três é noite; a baraita concorda, com a ressalva de Rabi Yosei sobre estrelas médias
Rav Yehuda em nome de Shmuel; Baraita; Rabi Yosei
אָמַר רַב יְהוּדָה אָמַר שְׁמוּאֵל: כּוֹכָב אֶחָד — יוֹם, שְׁנַיִם — בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת, שְׁלֹשָׁה — לַיְלָה. תַּנְיָא נָמֵי הָכִי: כּוֹכָב אֶחָד יוֹם, שְׁנַיִם בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת, שְׁלֹשָׁה לַיְלָה. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, לֹא כּוֹכָבִים גְּדוֹלִים הַנִּרְאִין בַּיּוֹם, וְלֹא כּוֹכָבִים קְטַנִּים שֶׁאֵין נִרְאִין אֶלָּא בַּלַּיְלָה — אֶלָּא בֵּינוֹנִים.

Disse Rav Yehuda, disse Shmuel: uma estrela(é ainda) dia; duas — (é) bein hashmashot; três — (é já) noite. Ensinou-se também assim (numa baraita): uma estrela (é) dia, duas (é) bein hashmashot, três (é) noite. Disse Rabi Yosei: não (se trata de) estrelas grandes, que são visíveis (já) de dia, nem estrelas pequenas, que não são visíveis senão de noite — antes, (trata-se de) (estrelas) médias.

Nota

Depois de resolvida a questão da halachá quanto a Shabat e teruma, a Guemará traz a definição prática mais amplamente conhecida do bein hashmashot, transmitida por Shmuel: o critério visual do número de estrelas visíveis no céu. Enquanto apenas uma estrela é visível, ainda é considerado dia pleno; quando duas estrelas se tornam visíveis, entra-se no período incerto do bein hashmashot; quando três estrelas já estão visíveis, é certamente noite. Uma baraita paralela confirma exatamente esse mesmo critério. Rabi Yosei acrescenta uma ressalva importante para que o critério seja aplicado com precisão: não se deve contar estrelas excepcionalmente grandes e brilhantes, que às vezes já são visíveis mesmo à luz do dia, nem estrelas muito pequenas e fracas, que só se tornam visíveis bem depois de escurecido; o critério vale apenas para estrelas de brilho médio, cujo aparecimento acompanha fielmente a transição real entre dia e noite.

03Rabi Yosei bar Zevida: culpado de chatat de qualquer modo; o costume de Rava com seu servo e os sinais do dia nublado
Rabi Yosei bar Zevida; Rava
אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי זְבִידָא: הָעוֹשֶׂה מְלָאכָה בִּשְׁנֵי בֵּין הַשְּׁמָשׁוֹת — חַיָּיב חַטָּאת מִמָּה נַפְשָׁךְ. אֲמַר לֵיהּ רָבָא לְשַׁמָּעֵיהּ: אַתּוּן דְּלָא קִים לְכוּ בְּשִׁיעוּרָא דְרַבָּנַן, אַדְּשִׁימְשָׁא אַרֵישׂ דִּיקְלֵי אַתְלוֹ שְׁרָגָא. בְּיוֹם הַמְעוּנָּן מַאי? בְּמָתָא — חֲזִי תַּרְנְגוֹלָא. בְּדַבְרָא — עוֹרְבֵי, אִי נָמֵי — אֲדָאנֵי.

Disse Rabi Yosei ben Zevida: quem faz trabalho (proibido) nos dois bein hashmashot (o da véspera e o da saída de Shabat, no mesmo período de esquecimento) — é culpado de um chatat (sacrifício expiatório) de qualquer modo (que se resolva a dúvida sobre qual dos dois era, de fato, Shabat). Disse Rava a seu servo: vós, que não dominais a medida (exata) dos sábios, quando o sol (ainda estiver) no topo das tamareiras, acendei a vela (de Shabat, por segurança). (E) num dia nublado, o que (fazer)? Na cidade — observa (o comportamento d)as galinhas (que já se empoleiram para dormir); no campo — (observa) os corvos, ou então, (a planta) adáni (cujas folhas se voltam conforme o sol).

Nota

Rabi Yosei ben Zevida traz uma consequência prática severa da existência de dois períodos distintos de dúvida (bein hashmashot): quem realizar um mesmo trabalho proibido tanto na véspera quanto na saída de Shabat, dentro do mesmo período contínuo de esquecimento, é considerado culpado de um sacrifício expiatório de qualquer maneira que a dúvida se resolva — pois, se o bein hashmashot da véspera já era noite (Shabat), o trabalho da véspera foi proibido; e, se o bein hashmashot da saída ainda era dia (Shabat), o trabalho da saída foi proibido; um dos dois atos, necessariamente, violou o Shabat. A Guemará então ilustra, com um episódio doméstico, como a halachá teórica se traduzia em orientação prática simples para quem não dominava os cálculos rabínicos: Rava instrui seu próprio servo a acender a vela de Shabat assim que o sol, ao entardecer, chegar à altura do topo das palmeiras — um sinal visual seguro e antecipado, por segurança, mesmo antes do verdadeiro bein hashmashot. Para dias nublados, em que o sol não é visível, oferecem-se sinais alternativos: na cidade, o comportamento das galinhas que já se recolhem para dormir; no campo, o comportamento dos corvos, ou a planta chamada adáni, cujas folhas se voltam ao longo do dia na direção do sol.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "os dois bein hashmashot", "de qualquer modo" e os sinais do dia nublado
בשני בין השמשות - ערב שבת ומוצאי שבת בהעלם אחד אין כאן עוד אשם תלוי אלא חטאת:

"Nos dois bein hashmashot" — (o d)a véspera de Shabat e (o d)a saída de Shabat, num único (período de) esquecimento; não há aqui mais (lugar para trazer apenas) um asham talui (sacrifício de dúvida), mas (sim) um chatat (certo).

ממה נפשך - אי ליליא הוא חייב על ערב שבת ושל מוצאי שבת אינו כלום ואי יממא הוא חייב על מוצאי שבת ואין של ערב שבת כלום וכגון דעבד ליה כל בין השמשות דליכא לספוקי להאי בתחילתו ולהאי בסופו:

"De qualquer modo" — se é noite, é culpado pelo (trabalho feito na) véspera de Shabat, e o (feito na saída) de Shabat não é nada; e se é dia, é culpado pelo (trabalho feito na) saída de Shabat, e o (feito na) véspera não é nada; e trata-se de um caso em que (o trabalho) foi feito durante todo o bein hashmashot, de modo que não há como duvidar que (o momento exato do trabalho ocorreu) para este (bein hashmashot) em seu início e para aquele em seu fim (ou seja, cobriu ambos por inteiro).

בשיעורי דרבנן - בין השמשות:

"A medida (exata) dos sábios" — (quanto ao) bein hashmashot.

אתלו - הדליקו את הנר מבעוד יום:

"Acendei" — acendei a vela ainda de dia.

חזו תרנגולין - היושבים על הקורות מבעוד יום וכן העורבים בשדה:

"Observa (o comportamento d)as galinhas" — que se sentam sobre as vigas (para dormir) ainda de dia; e, do mesmo modo, os corvos no campo.

אדאני - עשב הקרוי מלוו"א ועלין שלו נוטין לצד החמה שחרית כפופין למזרח ובחצי היום זקופין ולערב כפופים מאד למערב:

"Adáni" — uma erva chamada malva, cujas folhas se voltam na direção do sol: pela manhã, curvam-se para o oriente; ao meio-dia, ficam eretas; e ao entardecer, curvam-se fortemente para o ocidente.

A baraita das seis toqueadas de shofar na véspera de Shabat · שֵׁשׁ תְּקִיעוֹת

04A baraita: seis toqueadas anunciam a véspera de Shabat, cada uma suspendendo uma atividade; a divergência entre Rabi Natan e Rabi Yehuda HaNassi
Baraita; Rabi Natan; Rabi Yehuda HaNassi
תָּנוּ רַבָּנַן: שֵׁשׁ תְּקִיעוֹת תּוֹקְעִין עֶרֶב שַׁבָּת. רִאשׁוֹנָה — לְהַבְטִיל אֶת הָעָם מִמְּלָאכָה שֶׁבַּשָּׂדוֹת. שְׁנִיָּה — לְהַבְטִיל עִיר וַחֲנוּיוֹת. שְׁלִישִׁית — לְהַדְלִיק אֶת הַנֵּר, דִּבְרֵי רַבִּי נָתָן. רַבִּי יְהוּדָה הַנָּשִׂיא אוֹמֵר: שְׁלִישִׁית — לַחֲלוֹץ תְּפִילִּין. וְשׁוֹהֶה כְּדֵי צְלִיַּית דָּג קָטָן אוֹ כְּדֵי לְהַדְבִּיק פַּת בַּתַּנּוּר, וְתוֹקֵעַ וּמֵרִיעַ וְתוֹקֵעַ, וְשׁוֹבֵת.

Ensinaram os sábios: seis toqueadas (de shofar) se tocam na véspera de Shabat. A primeira — para suspender o povo do trabalho que (se faz) nos campos. A segunda — para suspender a cidade e as lojas. A terceira — para acender a vela, (são estas as) palavras de Rabi Natan. Rabi Yehuda HaNassi diz: a terceira — para remover os tefilin. E (o toqueador) aguarda (um intervalo) equivalente ao tempo de assar um peixe pequeno, ou de colar um pão no forno, e toca (uma toqueada), e faz (o som) tremido, e toca (de novo), e (então) descansa (entra em Shabat).

Nota

A Guemará abre uma nova unidade temática com uma baraita extensa sobre o costume, praticado especialmente na Babilônia, de tocar seis toqueadas de shofar na véspera de Shabat para anunciar progressivamente a chegada do dia sagrado e suspender, em etapas, as diferentes atividades cotidianas. A primeira toqueada avisa os que trabalham nos campos a suspenderem o trabalho e se prepararem para retornar à cidade; a segunda avisa a suspensão do movimento comercial na própria cidade, com o fechamento das lojas; quanto à terceira, há uma divergência: para Rabi Natan, ela marca o momento de acender a vela de Shabat; para Rabi Yehuda HaNassi, ela marca o momento de remover os tefilin (que não se usam em Shabat). Depois da terceira toqueada, aguarda-se um breve intervalo — o tempo aproximado de assar um peixe pequeno ou de colar uma massa de pão à parede interna do forno — e então se realiza a sequência final de son que efetivamente inicia o Shabat.

05Rabban Shimon ben Gamliel explica o costume babilônico das cinco toqueadas aparentes; a contagem correta
Rabban Shimon ben Gamliel
אָמַר רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל: מַה נַּעֲשֶׂה לָהֶם לַבַּבְלִיִּים, שֶׁתּוֹקְעִין וּמְרִיעִין וְשׁוֹבְתִין מִתּוֹךְ מְרִיעִין. תּוֹקְעִין וּמְרִיעִין? הָווּ לְהוּ חֲמִשָּׁה! אֶלָּא: שֶׁתּוֹקְעִין וְחוֹזְרִין וְתוֹקְעִין וּמְרִיעִין, וְשׁוֹבֵת מִתּוֹךְ מְרִיעִין. מִנְהַג אֲבוֹתֵיהֶן בִּידֵיהֶן.

Disse Rabban Shimon ben Gamliel: o que faremos com os babilônios, que tocam (uma toqueada) e fazem (o som) tremido e descansam (logo) no meio do (som) tremido? (Mas, se assim fosse: apenas) "tocam e fazem o tremido" — seriam cinco (toqueadas, e não seis)! Antes, (deve-se entender:) tocam, e voltam a tocar, e fazem o tremido, e descansam no meio do tremido. (É) costume de seus pais em suas mãos (que se deve manter, ainda que pareça incompleto).

Nota

Rabban Shimon ben Gamliel comenta, com certa perplexidade inicial, o costume observado entre os judeus da Babilônia, que parecia encerrar a sequência de toqueadas de modo abrupto, interrompendo o som tremido final sem completá-lo. A Guemará esclarece a própria observação: se a contagem fosse apenas "tocam e fazem o tremido", isso somaria cinco toqueadas, não seis, contradizendo a baraita anterior. A explicação correta é que a sequência inclui uma repetição da toqueada simples antes do tremido final — tocam, tocam novamente, fazem o som tremido, e então descansam no meio do tremido, interrompendo-o propositalmente. Ainda que essa interrupção pareça estranha, Rabban Shimon ben Gamliel reconhece que se trata de um costume herdado dos antepassados, a ser mantido tal como praticado.

06Rav Yehuda ensina a seu filho Rav Yitzchak: a terceira toqueada é para acender a vela, segundo Rabi Natan
Rav Yehuda; Rav Yitzchak
מַתְנֵי לֵיהּ רַב יְהוּדָה לְרַב יִצְחָק בְּרֵיהּ: שְׁנִיָּה לְהַדְלִיק אֶת הַנֵּר. כְּמַאן? לָא כְּרַבִּי נָתָן, וְלָא כְּרַבִּי יְהוּדָה הַנָּשִׂיא! — אֶלָּא: שְׁלִישִׁית לְהַדְלִיק אֶת הַנֵּר. כְּמַאן — כְּרַבִּי נָתָן.

Ensinava Rav Yehuda a Rav Yitzchak, seu filho: a segunda (toqueada é) para acender a vela. Como quem (seria essa opinião)? Não é como Rabi Natan, nem como Rabi Yehuda HaNassi! Antes, (deve-se corrigir:) a terceira (toqueada é) para acender a vela. Como quem (é essa opinião agora)? Como Rabi Natan.

Nota

A Guemará registra um episódio de transmissão e correção pedagógica dentro da própria baraita: Rav Yehuda, ao ensinar a seu filho Rav Yitzchak, teria dito inicialmente que era a segunda toqueada que marcava o momento de acender a vela — uma formulação que a Guemará imediatamente rejeita, por não corresponder a nenhuma das duas opiniões da baraita (nem a de Rabi Natan, que fala da terceira toqueada para a vela, nem a de Rabi Yehuda HaNassi, que fala da terceira toqueada para os tefilin). A correção é apresentada em seguida: o ensinamento correto de Rav Yehuda é que a terceira toqueada — não a segunda — é para acender a vela, o que a alinha precisamente com a opinião de Rabi Natan na baraita original.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "seis toqueadas", "suspender" e o intervalo antes do Shabat
שש תקיעות - אף התרועות במנין דסדר שלהן תקיעה תרועה ותקיעה:

"Seis toqueadas" — também os (sons) tremidos entram na contagem, pois a ordem deles é: toqueada, tremido, toqueada.

להבטיל ממלאכה שבשדות - ויהא להן שהות ליכנס לעיר:

"Para suspender do trabalho que (se faz) nos campos" — para que tenham tempo de entrar na cidade.

להבטיל העיר - ממלאכה:

"Para suspender a cidade" — do trabalho.

והחנויות - ממקח וממכר:

"E as lojas" — da compra e da venda.

לחלוץ תפילין - והדלקת נר ברביעית:

"Para remover os tefilin" — e o acender da vela (nesta opinião, seria) na quarta (toqueada, embora não explicitado na baraita).

להדביק פת בתנור - ועדיין יש שהות כדי שיקרמו פניה שהיו ממהרים התקיעות כדי להוסיף מחול על הקדש:

"De colar um pão no forno" — e ainda há tempo para que sua superfície se forme (uma crosta), pois apressavam as toqueadas para acrescentar do profano ao sagrado.

ותוקע ומריע ותוקע - הרי שש:

"E toca, e faz o tremido, e toca" — eis seis (no total, somando as três anteriores).

ושובת - חל שבת עליו:

"E descansa" — o Shabat recai sobre ele.

07A baraita da escola de Rabi Yishmael: o efeito detalhado de cada toqueada sobre lavradores, lojistas e donas de casa
Escola de Rabi Yishmael
תָּנָא דְּבֵי רַבִּי יִשְׁמָעֵאל: שֵׁשׁ תְּקִיעוֹת תּוֹקְעִין עֶרֶב שַׁבָּת. הִתְחִיל לִתְקוֹעַ תְּקִיעָה רִאשׁוֹנָה — נִמְנְעוּ הָעוֹמְדִים בַּשָּׂדֶה מִלַּעֲדוֹר וּמִלַּחְרוֹשׁ וּמִלַּעֲשׂוֹת כׇּל מְלָאכָה שֶׁבַּשָּׂדוֹת. וְאֵין הַקְּרוֹבִין רַשָּׁאִין לִיכָּנֵס עַד שֶׁיָּבוֹאוּ רְחוֹקִין, וְיִכָּנְסוּ כּוּלָּם כְּאֶחָד. וַעֲדַיִין חֲנוּיוֹת פְּתוּחוֹת וּתְרִיסִין מוּנָּחִין. הִתְחִיל לִתְקוֹעַ תְּקִיעָה שְׁנִיָּה, נִסְתַּלְּקוּ הַתְּרִיסִין וְנִנְעֲלוּ הַחֲנוּיוֹת, וַעֲדַיִין חַמִּין מוּנָּחִין עַל גַּבֵּי כִּירָה וּקְדֵירוֹת מוּנָּחוֹת עַל גַּבֵּי כִּירָה. הִתְחִיל לִתְקוֹעַ תְּקִיעָה שְׁלִישִׁית — סִילֵּק הַמְסַלֵּק, וְהִטְמִין הַמַּטְמִין, וְהִדְלִיק הַמַּדְלִיק. וְשׁוֹהֶה כְּדֵי צְלִיַּית דָּג קָטָן, אוֹ כְּדֵי לְהַדְבִּיק פַּת בַּתַּנּוּר, וְתוֹקֵעַ וּמֵרִיעַ וְתוֹקֵעַ וְשׁוֹבֵת.

Ensinou (a baraita d)a escola de Rabi Yishmael: seis toqueadas se tocam na véspera de Shabat. (Quando) começava a tocar a primeira toqueada, suspendiam-se os que estavam no campo de cavar, de arar, e de fazer qualquer trabalho que (se faz) nos campos. E os que estavam próximos (da cidade) não tinham permissão de entrar até que chegassem os que estavam distantes, e todos entrassem juntos, como um só. E ainda (estavam) as lojas abertas e as portas de venda colocadas (no lugar de exposição). (Quando) começava a tocar a segunda toqueada, removiam-se as portas de venda e fechavam-se as lojas, e ainda (havia) água quente posta sobre o fogão, e panelas postas sobre o fogão. (Quando) começava a tocar a terceira toqueada — removia quem tinha de remover, e escondia (para preservar o calor) quem tinha de esconder, e acendia quem tinha de acender. E (o toqueador) aguarda (um intervalo) equivalente ao tempo de assar um peixe pequeno, ou de colar um pão no forno, e toca, e faz (o som) tremido, e toca, e descansa.

Nota

A Guemará traz uma baraita paralela, da escola de Rabi Yishmael, que confirma a mesma estrutura de seis toqueadas, mas a detalha com riqueza narrativa, descrevendo passo a passo o efeito de cada toqueada sobre diferentes grupos da população. À primeira toqueada, os trabalhadores do campo suspendem toda atividade agrícola, mas os que já estão próximos da entrada da cidade aguardam os que ainda estão distantes, para que todos entrem juntos — evitando que os últimos a entrar sejam mal vistos, como se tivessem continuado trabalhando propositalmente. Nesse momento, lojas e bancas ainda estão abertas. À segunda toqueada, o comércio se encerra: retiram-se as portas expositoras e fecham-se as lojas, mas ainda há água quente e panelas sobre o fogo, sendo preparadas para a refeição de Shabat. À terceira toqueada, cada um remove do fogo o que precisa remover, esconde (em um recipiente isolante) o que precisa manter quente sem violar a proibição de deixar sobre fogo aberto, e acende quem precisa acender a vela — e, depois de um breve intervalo, soa-se a sequência final que efetivamente inicia o Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "cavar", "entrarem juntos", "as portas de venda" e o que se removia e escondia
מלעדור - מלחפור:

"De cavar" — de escavar.

ויכנסו כולם כאחד - שלא יחשדו הנכנסים באחרונה לומר שעסקו במלאכתן אחר ששמעו קול השופר שאין הכל מכירין מי קרובים ומי רחוקים:

"E entrassem todos como um só" — para que não suspeitassem dos que entrassem por último, dizendo que se ocuparam de seu trabalho depois de ouvirem o som do shofar, pois nem todos sabem quem estava próximo e quem estava distante.

תריסין - הן דלתות החנויות ומסלקין אותן ומניחן ע"ג יתדות ומוכרין עליהן תבלין ושאר דברים ולערב מחזירין אותן לפתחים:

"Portas de venda" — são as portas das lojas; e as removem e as colocam sobre estacas, e vendem sobre elas especiarias e outras coisas; e à noite as devolvem às entradas.

חמין - מים חמין למזוג בהן יין לשתות:

"Água quente" — água quente para misturar com ela vinho para beber.

סילק המסלק - קדרות העשויות להסתלק למאכל הלילה:

"Removia quem tinha de remover" — as panelas destinadas a serem removidas (do fogo, para servirem) na refeição da noite.

והטמין המטמין - את הראויות למחרת:

"E escondia quem tinha de esconder" — as (panelas) destinadas (à refeição d)o dia seguinte.

Onde o chazan da sinagoga guarda o shofar: a contradição resolvida por Rav Yosef · לְהוֹלִיךְ שׁוֹפָרוֹ לְבֵיתוֹ

08Rabi Yosei bar Chanina: pode-se acender depois das seis toqueadas; a objeção da "medida" e o lugar reservado no telhado
Rabi Yosei bar Chanina
אָמַר רַבִּי יוֹסֵי בַּר חֲנִינָא: שָׁמַעְתִּי שֶׁאִם בָּא לְהַדְלִיק אַחַר שֵׁשׁ תְּקִיעוֹת — מַדְלִיק. שֶׁהֲרֵי נָתְנוּ חֲכָמִים שִׁיעוּר לְחַזַּן הַכְּנֶסֶת לְהוֹלִיךְ שׁוֹפָרוֹ לְבֵיתוֹ. אָמְרוּ לוֹ, אִם כֵּן נָתַתָּ דְּבָרֶיךָ לְשִׁיעוּרִין. אֶלָּא מָקוֹם צָנוּעַ יֵשׁ לוֹ לְחַזַּן הַכְּנֶסֶת בְּרֹאשׁ גַּגּוֹ, שֶׁשָּׁם מַנִּיחַ שׁוֹפָרוֹ. לְפִי שֶׁאֵין מְטַלְטְלִין לֹא אֶת הַשּׁוֹפָר וְלֹא אֶת הַחֲצוֹצְרוֹת.

Disse Rabi Yosei bar Chanina: ouvi que, se alguém vier a acender (a vela) depois das seis toqueadas — (ainda pode) acender. Pois os sábios deram uma medida (de tempo) ao chazan da sinagoga para (que ele possa) levar seu shofar até sua casa (depois de terminar de tocar, e é durante esse intervalo que ainda se pode acender). Disseram-lhe: se assim (fosse), deste tuas palavras a (depender de) medidas (variáveis e imprecisas)! Antes, (deve-se dizer:) há um lugar reservado que o chazan da sinagoga tem no topo de seu telhado, onde ele deixa (guardado) seu shofar (logo ali, sem precisar percorrer distância até sua casa). Pois (nesse dia) não se transporta nem o shofar, nem as trombetas (depois de soado, por serem consideradas muktzeh).

Nota

A Guemará traz um ensinamento adicional de Rabi Yosei bar Chanina sobre a flexibilidade do momento de acender a vela: mesmo depois de completadas as seis toqueadas, ainda haveria uma margem de tempo em que seria permitido acender, correspondente ao tempo que o próprio chazan (o oficiante que soa o shofar) levaria para carregar o instrumento de volta até sua casa. A Guemará objeta que essa explicação é problemática, pois torna a definição do momento exato de entrada do Shabat dependente de uma medida variável e subjetiva — a distância da casa de cada chazan até a sinagoga não é uniforme, tornando a "halachá" imprecisa. A resposta corrige o ensinamento: não se trata da distância até a casa do chazan, mas de um lugar reservado e fixo, no próprio topo do telhado da sinagoga, onde o chazan guarda o shofar imediatamente após tocá-lo, sem precisar transportá-lo para longe — precisamente porque, uma vez entrado o Shabat, não é mais permitido transportar o shofar (nem as trombetas), por serem objetos sem uso permitido em Shabat.

09A contradição entre duas baraitot sobre transportar o shofar; a distinção de Rav Yosef entre uso individual e comunitário, e a razão de Abaye
Baraita; Rav Yosef; Abaye
וְהָתַנְיָא: שׁוֹפָר מִיטַּלְטֵל וַחֲצוֹצְרוֹת אֵינָם מִיטַּלְטְלִין! אָמַר רַב (יוֹסֵי) [יוֹסֵף], לָא קַשְׁיָא: כָּאן בְּיָחִיד, כָּאן בְּצִבּוּר. אֲמַר לֵיהּ אַבָּיֵי: וּבְיָחִיד לְמַאי חֲזֵי? — הוֹאִיל וְרָאוּי לְגַמֵּעַ בּוֹ מַיִם.

Mas não se ensinou (numa outra baraita): o shofar (pode) se transportar, e as trombetas não (podem) se transportar? (Isso contradiz o que se disse acima!) Disse Rav Yosef: não é (uma real) dificuldade: aqui (a baraita fala) de (um shofar de) uso individual, ali (fala) de (um shofar de) uso comunitário (que, sendo dedicado exclusivamente a esse fim sagrado, é muktzeh). Disse-lhe Abaye: mas, quanto ao (shofar de) uso individual, para que (ainda) serve (a ponto de justificar que se possa transportá-lo em Shabat)? — Visto que é próprio para (dele) sorver água.

Nota

A Guemará encerra o daf com uma última dificuldade textual: uma baraita distinta parece contradizer diretamente o ensinamento anterior, ao afirmar que o shofar pode ser transportado em Shabat (ao contrário das trombetas, que não podem). Rav Yosef resolve a aparente contradição distinguindo dois contextos de uso: a baraita que permite transportar o shofar refere-se a um shofar de posse individual, de uso pessoal e não exclusivamente ritual; já a baraita que proíbe transportá-lo refere-se ao shofar de uso comunitário, dedicado à função sagrada específica de anunciar o Shabat, e por isso tratado como objeto sem utilidade permitida em Shabat (muktzeh). Abaye então questiona a distinção de Rav Yosef: mesmo o shofar de uso individual, sendo primariamente um instrumento sonoro, não parece ter uma função prática cotidiana permitida em Shabat que justificasse seu manuseio — qual seria, então, o uso que o resgata da categoria de muktzeh? A resposta final do daf explica que, por seu formato curvo e estreito, o shofar individual é próprio para servir como um utensílio simples do qual se pode beber ou sorver água, e é esse uso alternativo, mundano e permitido, que lhe garante o estatuto de utensílio manuseável em Shabat.

Rashi · רַשִׁ״י
Sobre "o chazan da sinagoga", "medidas variáveis" e o shofar que se pode transportar
חזן הכנסת - שמש הציבור:

"O chazan da sinagoga" — o servidor da comunidade.

להוליך שופרו לביתו - שהיה גג מיוחד בגובה העיר ואמצעיתה לתקוע שם ומשם מוליכו לביתו אלמא אכתי לא נקיט קדושת שבת עלייהו:

"Para levar seu shofar até sua casa" — pois havia um telhado especial, na parte alta e central da cidade, para tocar ali (o shofar), e dali ele o levava até sua casa; eis que ainda não recaíra sobre eles a santidade de Shabat (nesse intervalo, o que permitia o transporte).

לשיעורין - פעמים שביתו קרוב פעמים שביתו רחוק:

"A (depender de) medidas (variáveis)" — às vezes sua casa (está) próxima, às vezes sua casa (está) distante.

בראש גגו - שתקע שם:

"No topo de seu telhado" — onde tocou ali.

שאין מטלטלין - אפילו ברשות היחיד:

"Pois não se transporta" — mesmo num domínio privado.

והתניא שופר מיטלטל - לפי שכפוף ראשו וראוי לשאוב בו מים ולשתות התינוק:

"Mas não se ensinou: o shofar se transporta" — porque sua ponta é curva, e é próprio para com ele extrair água e a criança beber.

חצוצרות - פשוטה ואינה ראויה אלא לתקוע והוי דבר שמלאכתו לאיסור ואסור משום מוקצה:

"Trombetas" — (são de forma) reta, e não são próprias senão para tocar, e são, portanto, uma coisa cujo uso (principal) é para o (que é) proibido, e é proibida por causa de muktzeh.