Talmud Bavli · Massechet Negaim · Perek Tet
פֶּרֶק תְּשִׁיעִי

Mishná de Negaim, nono perek — adaptada à trilha Bavli

3 mishnayot · sem Guemará no Talmud Bavli
Nota

Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Mishná 1O que define o furúnculo e a queimadura
Abre o Perek Tet definindo, com precisão, o que é o furúnculo (shechin) e o que é a queimadura (michvá), a partir da origem do calor que causou a ferida

O furúnculo e a queimadura tornam-se impuros numa semana, por dois sinais: por pelo branco e por alastramento. Qual é o furúnculo? O que foi ferido por madeira, ou por pedra, ou por bagaço de azeitona, ou pelas águas de Tiberíades — tudo o que não é por causa do fogo, este é o furúnculo. Qual é a queimadura? O que foi queimado por brasa ou por cinza quente — tudo o que é por causa do fogo, esta é a queimadura.

Com esta mishná, abre-se o Perek Tet, que continua a tratar das pragas do furúnculo (shechin) e da queimadura (michvá), já mencionadas de passagem nos perakim anteriores. Diferentemente da pele sã do corpo, que se torna impura por três sinais — pelo branco, alastramento e carne viva —, o furúnculo e a queimadura tornam-se impuros por apenas dois: pelo branco e alastramento, sem a carne viva, pois um ferimento já cicatrizado não é considerado carne viva no sentido exigido pela lei. A mishná então distingue os dois tipos de ferida pela origem do calor que os causou: o furúnculo é toda lesão provocada por um objeto cujo calor não vem do fogo — como um golpe de madeira ou pedra, o atrito do bagaço quente de azeitonas prensadas, ou as águas termais de Tiberíades, que são quentes por sua própria origem subterrânea; a queimadura, por sua vez, é toda lesão causada por algo cujo calor vem diretamente do fogo, como uma brasa acesa ou cinza quente de um forno. Essa distinção entre “furúnculo” e “queimadura” não é meramente descritiva: ela determina, como se verá na mishná seguinte, se as duas lesões podem se combinar ou influenciar o julgamento uma da outra.

הַשְּׁחִין וְהַמִּכְוָה מִטַּמְּאִין בְּשָׁבוּעַ אֶחָד, בִּשְׁנֵי סִימָנִים, בְּשֵׂעָר לָבָן וּבְפִשְׂיוֹן. אֵיזֶה הוּא הַשְּׁחִין. לָקָה בְעֵץ אוֹ בְאֶבֶן אוֹ בְגֶפֶת אוֹ בְמֵי טְבֶרְיָא, כֹּל שֶׁאֵינוֹ מֵחֲמַת הָאֵשׁ, זֶה הוּא שְׁחִין. אֵיזוֹ הִיא מִכְוָה. נִכְוָה בְגַחֶלֶת אוֹ בְרֶמֶץ, כֹּל שֶׁהוּא מֵחֲמַת הָאֵשׁ, זוֹ הִיא מִכְוָה:
Mishná 2Furúnculo e queimadura não se combinam
O furúnculo e a queimadura permanecem categorias isoladas, sem se combinar nem alastrar um sobre o outro nem sobre a pele da carne; e a crosta como casca de alho é a cicatriz mencionada na Torá

O furúnculo e a queimadura não se combinam um com o outro, e não alastram um para o outro, e não alastram para a pele da carne, e a pele da carne não alastra para dentro deles. Se estavam supurantes, são puros. Se formaram uma crosta como casca de alho, esta é a cicatriz do furúnculo mencionada na Torá. Se voltaram e revitalizaram-se, ainda que o lugar deles seja uma cicatriz, são julgados como pele da carne.

Depois de definir, na mishná anterior, o que é o furúnculo e o que é a queimadura, esta mishná estabelece a relação entre essas duas categorias e entre elas e a pele sã do corpo. Primeiro, quanto à combinação: se há meia mancha do tamanho de um grão no furúnculo e meia mancha do tamanho de um grão na queimadura vizinha, elas não se somam para completar o tamanho mínimo de um grão inteiro, pois são categorias distintas de ferida. Depois, quanto ao alastramento: se há uma mancha do tamanho de um grão no furúnculo e ela cresce até alcançar a queimadura vizinha, ou a pele da carne ao redor, isso não é considerado alastramento válido para fins de certificação — e o mesmo vale no sentido inverso, quando uma mancha na pele da carne cresce em direção ao furúnculo ou à queimadura. Em seguida, a mishná trata do próprio processo de cicatrização do furúnculo e da queimadura: enquanto a ferida ainda está supurante — isto é, ainda não formou pele nova e continua exsudando líquido —, ela é pura, pois a Torá exige que o furúnculo tenha “sarado” e a queimadura tenha “carne viva” para poderem tornar-se impuras. Quando, por fim, forma-se sobre a ferida uma crosta firme, da espessura da casca externa de um dente de alho, essa é precisamente a “cicatriz do furúnculo” mencionada na Torá — o estágio a partir do qual a área pode, de fato, contrair impureza por pelo branco ou alastramento. E se, depois disso, a área cicatrizada voltar a regenerar-se e viver como pele comum, ela passa a ser julgada inteiramente como pele da carne, mesmo que ainda se distinga visualmente como uma cicatriz.

הַשְּׁחִין וְהַמִּכְוָה אֵין מִצְטָרְפִין זֶה עִם זֶה, וְאֵין פּוֹשִׂין מִזֶּה לָזֶה, וְאֵין פּוֹשִׂין לְעוֹר הַבָּשָׂר, וְלֹא עוֹר הַבָּשָׂר פּוֹשֶׂה לְתוֹכָן. הָיוּ מוֹרְדִין, טְהוֹרִין. עָשׂוּ קְרוּם כִּקְלִפַּת הַשּׁוּם, זוֹ הִיא צָרֶבֶת הַשְּׁחִין הָאֲמוּרָה בַתּוֹרָה. חָזְרוּ וְחָיוּ, אַף עַל פִּי שֶׁמְּקוֹמָן צַלֶּקֶת, נִדּוֹנִין כְּעוֹר הַבָּשָׂר:
Mishná 3A mancha sobre a cicatriz do furúnculo
Encerra o Perek Tet com um debate entre Rabi Eliezer e Rabi Yehuda ben Beteira sobre o sentido do enclausuramento de uma mancha incapaz, por si mesma, de gerar qualquer sinal de impureza

Perguntaram a Rabi Eliezer: aquele em cuja palma da mão surgiu uma mancha do tamanho de um sela, e o lugar dela é a cicatriz de um furúnculo. Disse-lhes: enclausura-se. Disseram-lhe: por quê? Pois não é apta a gerar pelo branco, nem alastra, nem a carne viva a torna impura. Disse-lhes: talvez ela se contraia e alastre. Disseram-lhe: mas o lugar dela já é do tamanho de um grão! Disse-lhes: não ouvi. Disse-lhe Rabi Yehuda ben Beteira: posso ensinar algo sobre isso? Disse-lhe: se é para confirmar as palavras dos sábios, sim. Disse-lhe: talvez nasça dele outro furúnculo fora dele, e alastre para dentro dele. Disse-lhe: grande sábio és tu, pois confirmaste as palavras dos sábios.

A mishná que fecha o Perek Tet traz um caso-limite levado a Rabi Eliezer, e o debate que dele resulta ilustra como a halachá busca fundamento racional mesmo onde a tradição já está fixada. Um homem tem, na palma da mão, uma mancha do tamanho de um sela — uma moeda grande, bem maior que o grão mínimo exigido para as manchas comuns —, e essa mancha ocupa exatamente o lugar de uma cicatriz de furúnculo já cicatrizada havia tempo. Rabi Eliezer determina que ela deve ser enclausurada por uma semana, como qualquer mancha nova. Os sábios questionão o fundamento dessa decisão: a palma da mão nunca faz crescer pelo, de modo que o sinal do pelo branco é impossível ali; o furúnculo e a queimadura, como se estabeleceu na mishná anterior, não alastram para a pele da carne ao redor; e a carne viva não é sequer um dos dois sinais que tornam impuro o furúnculo e a queimadura — apenas o pelo branco e o alastramento o são, como ensinou a primeira mishná do capítulo. Se nenhum dos três caminhos possíveis de impureza está aberto, qual seria a utilidade do enclausuramento? Rabi Eliezer responde que a mancha, sendo do tamanho de um sela, poderia contrair-se até restar apenas do tamanho de um grão — e então, alastrando de volta para além desse grão, dentro da área original da cicatriz, produziria um alastramento válido. Os sábios replicam que essa resposta não resolve o problema: mesmo se a mancha já fosse, desde o início, do tamanho de um grão apenas, a mesma pergunta permaneceria — qual seria a utilidade do enclausuramento nesse caso? A essa réplica mais afiada, Rabi Eliezer admite honestamente não ter ouvido uma resposta de seus mestres. É então que Rabi Yehuda ben Beteira intervém, pedindo permissão para propor uma explicação; Rabi Eliezer aceita, sob a condição explícita de que a explicação sirva para confirmar — não para refutar — a tradição recebida dos sábios de que há enclausuramento nesse caso. Rabi Yehuda ben Beteira propõe: talvez nasça, fora da área da cicatriz, um novo furúnculo independente, e este alastre para dentro da mancha já enclausurada — pois, como ensinou a mishná anterior, um furúnculo pode alastrar para outro furúnculo, ainda que não para a pele da carne comum. Rabi Eliezer aceita com entusiasmo essa solução, louvando seu interlocutor precisamente por tê-la formulado dentro dos limites que ele mesmo havia estabelecido — confirmando, e não contestando, a palavra recebida dos sábios.

שָׁאֲלוּ אֶת רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, מִי שֶׁעָלְתָה לְתוֹךְ יָדוֹ בַּהֶרֶת כַּסֶּלַע וּמְקוֹמָהּ צָרֶבֶת שְׁחִין. אָמַר לָהֶם, יַסְגִּיר. אָמְרוּ לוֹ, לָמָּה, לְגַדֵּל שֵׂעָר לָבָן אֵינָהּ רְאוּיָה, וּלְפִשְׂיוֹן אֵינָהּ פּוֹשָׂה, וּלְמִחְיָה אֵינָהּ מִטַּמָּא. אָמַר לָהֶן, שֶׁמָּא תִכְנֹס וְתִפְשֶׂה. אָמְרוּ לוֹ, וַהֲלֹא מְקוֹמָהּ כַּגְּרִיס. אָמַר לָהֶן, לֹא שָׁמַעְתִּי. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוּדָה בֶן בְּתֵירָא, אֲלַמֵּד בּוֹ. אָמַר לוֹ, אִם לְקַיֵּם דִּבְרֵי חֲכָמִים, הֵין. אָמַר לוֹ, שֶׁמָּא יִוָּלֵד לוֹ שְׁחִין אַחֵר חוּצָה לוֹ וְיִפְשֶׂה לְתוֹכוֹ. אָמַר לוֹ, חָכָם גָּדוֹל אַתָּה שֶׁקִּיַּמְתָּ דִּבְרֵי חֲכָמִים: