Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — apenas a Mishná é impressa/estudada nesta trilha. Esta página apresenta a Mishná adaptada ao formato da trilha Bavli; para o estudo devocional completo, com fontes da Torá, halachot dos códigos e o perush dos mefarshim, veja a versão completa na Mishná.
O furúnculo e a queimadura tornam-se impuros numa semana, por dois sinais: por pelo branco e por alastramento. Qual é o furúnculo? O que foi ferido por madeira, ou por pedra, ou por bagaço de azeitona, ou pelas águas de Tiberíades — tudo o que não é por causa do fogo, este é o furúnculo. Qual é a queimadura? O que foi queimado por brasa ou por cinza quente — tudo o que é por causa do fogo, esta é a queimadura.
Com esta mishná, abre-se o Perek Tet, que continua a tratar das pragas do furúnculo (shechin) e da queimadura (michvá), já mencionadas de passagem nos perakim anteriores. Diferentemente da pele sã do corpo, que se torna impura por três sinais — pelo branco, alastramento e carne viva —, o furúnculo e a queimadura tornam-se impuros por apenas dois: pelo branco e alastramento, sem a carne viva, pois um ferimento já cicatrizado não é considerado carne viva no sentido exigido pela lei. A mishná então distingue os dois tipos de ferida pela origem do calor que os causou: o furúnculo é toda lesão provocada por um objeto cujo calor não vem do fogo — como um golpe de madeira ou pedra, o atrito do bagaço quente de azeitonas prensadas, ou as águas termais de Tiberíades, que são quentes por sua própria origem subterrânea; a queimadura, por sua vez, é toda lesão causada por algo cujo calor vem diretamente do fogo, como uma brasa acesa ou cinza quente de um forno. Essa distinção entre “furúnculo” e “queimadura” não é meramente descritiva: ela determina, como se verá na mishná seguinte, se as duas lesões podem se combinar ou influenciar o julgamento uma da outra.
O furúnculo e a queimadura não se combinam um com o outro, e não alastram um para o outro, e não alastram para a pele da carne, e a pele da carne não alastra para dentro deles. Se estavam supurantes, são puros. Se formaram uma crosta como casca de alho, esta é a cicatriz do furúnculo mencionada na Torá. Se voltaram e revitalizaram-se, ainda que o lugar deles seja uma cicatriz, são julgados como pele da carne.
Depois de definir, na mishná anterior, o que é o furúnculo e o que é a queimadura, esta mishná estabelece a relação entre essas duas categorias e entre elas e a pele sã do corpo. Primeiro, quanto à combinação: se há meia mancha do tamanho de um grão no furúnculo e meia mancha do tamanho de um grão na queimadura vizinha, elas não se somam para completar o tamanho mínimo de um grão inteiro, pois são categorias distintas de ferida. Depois, quanto ao alastramento: se há uma mancha do tamanho de um grão no furúnculo e ela cresce até alcançar a queimadura vizinha, ou a pele da carne ao redor, isso não é considerado alastramento válido para fins de certificação — e o mesmo vale no sentido inverso, quando uma mancha na pele da carne cresce em direção ao furúnculo ou à queimadura. Em seguida, a mishná trata do próprio processo de cicatrização do furúnculo e da queimadura: enquanto a ferida ainda está supurante — isto é, ainda não formou pele nova e continua exsudando líquido —, ela é pura, pois a Torá exige que o furúnculo tenha “sarado” e a queimadura tenha “carne viva” para poderem tornar-se impuras. Quando, por fim, forma-se sobre a ferida uma crosta firme, da espessura da casca externa de um dente de alho, essa é precisamente a “cicatriz do furúnculo” mencionada na Torá — o estágio a partir do qual a área pode, de fato, contrair impureza por pelo branco ou alastramento. E se, depois disso, a área cicatrizada voltar a regenerar-se e viver como pele comum, ela passa a ser julgada inteiramente como pele da carne, mesmo que ainda se distinga visualmente como uma cicatriz.
Perguntaram a Rabi Eliezer: aquele em cuja palma da mão surgiu uma mancha do tamanho de um sela, e o lugar dela é a cicatriz de um furúnculo. Disse-lhes: enclausura-se. Disseram-lhe: por quê? Pois não é apta a gerar pelo branco, nem alastra, nem a carne viva a torna impura. Disse-lhes: talvez ela se contraia e alastre. Disseram-lhe: mas o lugar dela já é do tamanho de um grão! Disse-lhes: não ouvi. Disse-lhe Rabi Yehuda ben Beteira: posso ensinar algo sobre isso? Disse-lhe: se é para confirmar as palavras dos sábios, sim. Disse-lhe: talvez nasça dele outro furúnculo fora dele, e alastre para dentro dele. Disse-lhe: grande sábio és tu, pois confirmaste as palavras dos sábios.
A mishná que fecha o Perek Tet traz um caso-limite levado a Rabi Eliezer, e o debate que dele resulta ilustra como a halachá busca fundamento racional mesmo onde a tradição já está fixada. Um homem tem, na palma da mão, uma mancha do tamanho de um sela — uma moeda grande, bem maior que o grão mínimo exigido para as manchas comuns —, e essa mancha ocupa exatamente o lugar de uma cicatriz de furúnculo já cicatrizada havia tempo. Rabi Eliezer determina que ela deve ser enclausurada por uma semana, como qualquer mancha nova. Os sábios questionão o fundamento dessa decisão: a palma da mão nunca faz crescer pelo, de modo que o sinal do pelo branco é impossível ali; o furúnculo e a queimadura, como se estabeleceu na mishná anterior, não alastram para a pele da carne ao redor; e a carne viva não é sequer um dos dois sinais que tornam impuro o furúnculo e a queimadura — apenas o pelo branco e o alastramento o são, como ensinou a primeira mishná do capítulo. Se nenhum dos três caminhos possíveis de impureza está aberto, qual seria a utilidade do enclausuramento? Rabi Eliezer responde que a mancha, sendo do tamanho de um sela, poderia contrair-se até restar apenas do tamanho de um grão — e então, alastrando de volta para além desse grão, dentro da área original da cicatriz, produziria um alastramento válido. Os sábios replicam que essa resposta não resolve o problema: mesmo se a mancha já fosse, desde o início, do tamanho de um grão apenas, a mesma pergunta permaneceria — qual seria a utilidade do enclausuramento nesse caso? A essa réplica mais afiada, Rabi Eliezer admite honestamente não ter ouvido uma resposta de seus mestres. É então que Rabi Yehuda ben Beteira intervém, pedindo permissão para propor uma explicação; Rabi Eliezer aceita, sob a condição explícita de que a explicação sirva para confirmar — não para refutar — a tradição recebida dos sábios de que há enclausuramento nesse caso. Rabi Yehuda ben Beteira propõe: talvez nasça, fora da área da cicatriz, um novo furúnculo independente, e este alastre para dentro da mancha já enclausurada — pois, como ensinou a mishná anterior, um furúnculo pode alastrar para outro furúnculo, ainda que não para a pele da carne comum. Rabi Eliezer aceita com entusiasmo essa solução, louvando seu interlocutor precisamente por tê-la formulado dentro dos limites que ele mesmo havia estabelecido — confirmando, e não contestando, a palavra recebida dos sábios.