Talmud Bavli · Massechet Berachot · Perek Bet
מַלְכוּת שָׁמַיִם שְׁלֵמָה

O jugo completo do Reino dos Céus segundo Rabi Yochanan; a lavagem simbólica das mãos com terra ou pedra; a distância para se voltar em busca de água; e a nova Mishná e sugya sobre quem lê o Shemá sem se fazer ouvir ou sem pronunciar bem as letras

Berachot 15a

O daf abre completando a frase de Rabi Yochanan iniciada ao final de 14b, definindo a sequência ideal de atos que constitui o "jugo completo do Reino dos Céus": aliviar-se, lavar as mãos, colocar os tefilin, ler o Shemá e orar. Segue-se uma discussão sobre o mérito de lavar as mãos antes da oração, a possibilidade de substituir a água por terra, pedra ou lasca de madeira quando não há água disponível, e a distância que se deve percorrer para buscar água antes do Shemá e antes da oração. Na segunda metade do daf, a Mishná introduz um novo tema — a validade da leitura do Shemá feita sem se ouvir a própria voz, ou sem pronunciar corretamente as letras — e a Guemará abre uma extensa sugya sobre a divergência entre Rabi Yehudá e Rabi Yosé, estendendo a discussão ao caso do surdo que fala mas não ouve, à teruma, e à bênção da refeição recitada em silêncio.

O jugo completo do Reino dos Céus · וְזוֹ הִיא מַלְכוּת שָׁמַיִם שְׁלֵמָה

01Conclusão da frase de Rabi Yochanan: aliviar-se, lavar as mãos, tefilin, Shemá e oração — esse é o jugo completo
Bavli · 15a — Guemará
יִפָּנֶה, וְיִטּוֹל יָדָיו, וְיַנִּיחַ תְּפִילִּין, וְיִקְרָא קְרִיאַת שְׁמַע, וְיִתְפַּלֵּל, וְזוֹ הִיא מַלְכוּת שָׁמַיִם שְׁלֵמָה.

(Conclusão da frase de Rabi Yochanan, iniciada ao final de 14b: "aquele que deseja aceitar sobre si o jugo completo do Reino dos Céus") deve aliviar-se, e lavar as mãos, e colocar os tefilin, e ler a Keriat Shemá, e orar — e esse é o jugo completo do Reino dos Céus.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
יפנה – לנקביו:

"Deve aliviar-se" — de suas necessidades.

Nota

O daf 15a abre completando exatamente a frase deixada em suspenso ao final de 14b. Rabi Yochanan descreve a sequência integral e ideal dos atos preparatórios para a oração da manhã: primeiro aliviar-se das necessidades físicas, depois lavar as mãos, depois colocar os tefilin, depois ler a Keriat Shemá, e só então orar. Cumprida essa ordem completa, diz-se que a pessoa aceitou sobre si o jugo do Reino dos Céus de forma plena e sem falhas.

02Rabi Chiya bar Aba, em nome de Rabi Yochanan: é como quem construiu um altar e ofereceu um sacrifício; objeção de Rabá
Bavli · 15a — Guemará
אָמַר רַבִּי חִיָּיא בַּר אַבָּא אָמַר רַבִּי יוֹחָנָן: כָּל הַנִּפְנֶה, וְנוֹטֵל יָדָיו, וּמַנִּיחַ תְּפִילִּין, וְקוֹרֵא קְרִיאַת שְׁמַע, וּמִתְפַּלֵּל — מַעֲלֶה עָלָיו הַכָּתוּב כְּאִלּוּ בָּנָה מִזְבֵּחַ וְהִקְרִיב עָלָיו קׇרְבָּן, דִּכְתִיב: ״אֶרְחַץ בְּנִקָּיוֹן כַּפָּי וַאֲסוֹבְבָה אֶת מִזְבַּחֲךָ ה׳״. אֲמַר לֵיהּ רָבָא: לָא סָבַר לַהּ מָר כְּאִילּוּ טָבַל, דִּכְתִיב: ״אֶרְחַץ [בְּנִקָּיוֹן]״ — וְלָא כָּתַב ״אַרְחִיץ [כַּפָּי]״.

Disse Rabi Chiya bar Aba, disse Rabi Yochanan: todo aquele que se alivia, e lava as mãos, e coloca os tefilin, e lê a Keriat Shemá, e ora — a Escritura considera a seu respeito como se tivesse construído um altar e sobre ele oferecido um sacrifício, pois está escrito: "lavarei minhas palmas (perífrase da lavagem completa) em pureza, e circundarei o teu altar, ó Eterno" (Tehilim 26:6). Disse-lhe Rabá: não sustenta o mestre antes que é como se tivesse imergido o corpo inteiro, pois está escrito "lavarei (erchatz), em pureza" — e não está escrito "farei lavar (architz) minhas palmas"?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
דכתיב ארחץ בנקיון – משמע ארחץ כל הגוף ולא כתיב ארחיץ כפי לדרשה אתא לומר שמעלה עליו שכר רחיצת כפיו כאלו טבל כל גופו:

"Pois está escrito 'lavarei em pureza'" — a expressão implica "lavarei o corpo inteiro", e não está escrito "farei lavar minhas palmas (apenas)"; o versículo vem, por interpretação, ensinar que se lhe atribui o mérito da lavagem das mãos como se tivesse imergido o corpo inteiro.

Nota

Rabi Yochanan reforça o valor dessa sequência completa com uma imagem ainda mais elevada: quem a cumpre é considerado como se tivesse construído um altar e oferecido nele um sacrifício, apoiando-se no versículo de Tehilim que une a lavagem das mãos à aproximação do altar. Rabá refina a leitura: o próprio versículo, ao dizer "lavarei" no sentido de lavagem completa e não "farei lavar minhas palmas" apenas, sugere que o mérito atribuído é ainda maior — equivalente não só a um sacrifício, mas a uma imersão do corpo inteiro.

03Ravina relata a Rabá o dito de um jovem sábio vindo do ocidente: sem água, lava-se as mãos com terra, pedra ou lasca
Bavli · 15a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ רָבִינָא לְרָבָא: חֲזִי מָר הַאי צוּרְבָּא מֵרַבָּנָן דַּאֲתָא מִמַּעְרְבָא וְאָמַר: מִי שֶׁאֵין לוֹ מַיִם לִרְחוֹץ יָדָיו — מְקַנֵּחַ יָדָיו בְּעָפָר וּבִצְרוֹר וּבְקִסְמִית.

Disse-lhe Ravina a Rabá: veja o mestre este jovem sábio que veio do ocidente (Eretz Yisrael) e disse: aquele que não tem água para lavar as mãos (antes de ler o Shemá) — limpa as mãos com terra, e com uma pedra, e com uma lasca de madeira.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
קסמית – קיסם:

"Lasca" — pedaço de madeira.

Nota

Ravina traz a Rabá um ensinamento recente, trazido de Eretz Yisrael por um jovem sábio: quando não há água disponível para a lavagem ritual das mãos antes da Keriat Shemá, pode-se substituir essa lavagem por uma limpeza simbólica das mãos com terra, uma pedra lisa, ou uma lasca de madeira — quaisquer materiais capazes de remover a sujeira das mãos.

04Rabá aprova: o versículo fala em "pureza", e qualquer coisa que limpe serve; e a crítica de Rav Chisda a quem procura água durante a oração
Bavli · 15a — Guemará
אֲמַר לֵיהּ: שַׁפִּיר קָאָמַר, מִי כְּתִיב ״אֶרְחַץ בְּמַיִם״? ״בְּנִקָּיוֹן״ כְּתִיב — כֹּל מִידֵּי דִּמְנַקֵּי, דְּהָא רַב חִסְדָּא לָיֵיט אַמַּאן דִּמְהַדַּר אַמַּיָּא בְּעִידָּן צְלוֹתָא.

Disse-lhe Rabá a Ravina: bem disse esse jovem sábio; acaso está escrito "lavarei com água"? "Em pureza" está escrito — ou seja, qualquer coisa que limpe serve. Pois eis que Rav Chisda amaldiçoava aquele que se voltava atrás em busca de água no momento da oração (perdendo tempo e atrasando a Keriat Shemá em vez de usar um substituto).

Nota

Rabá concorda plenamente com o ensinamento trazido do ocidente: como o versículo de Tehilim fala em "pureza" e não especificamente em "água", qualquer material capaz de limpar as mãos cumpre esse requisito. Como prova adicional, cita-se a atitude severa de Rav Chisda, que censurava quem interrompia ou atrasava o momento da oração para ir buscar água, quando poderia simplesmente ter usado terra, pedra ou madeira.

05Distinção: isso vale para o Shemá; para a oração, deve-se voltar até uma parasá — mas só à frente, não atrás
Bavli · 15a — Guemará
וְהָנֵי מִילֵּי לִקְרִיאַת שְׁמַע, אֲבָל לִתְפִלָּה מְהַדַּר. וְעַד כַּמָּה? — עַד פַּרְסָה. וְהָנֵי מִילֵּי לְקַמֵּיהּ, אֲבָל לַאֲחוֹרֵיהּ — אֲפִילּוּ מִיל אֵינוֹ חוֹזֵר. [וּמִינַּהּ] מִיל הוּא דְּאֵינוֹ חוֹזֵר, הָא פָּחוֹת מִמִּיל — חוֹזֵר.

E estas palavras (a permissão de substituir a água) aplicam-se à Keriat Shemá, mas para a oração, a pessoa deve voltar atrás em busca de água. E até quanto se deve voltar? Até uma parasá (cerca de quatro mil côvados). E estas palavras (a distância de uma parasá) aplicam-se a ir para adiante no seu caminho, onde encontrará água à frente; mas para trás (voltando pelo caminho já percorrido), mesmo um mil (a oitava parte de uma parasá) não se volta. E disso se deduz: somente um mil completo é que não se volta para trás, mas menos de um mil, volta-se.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
לק"ש – בעידנא דק"ש שזמנה קבוע פן יעבור הזמן אבל לתפלה דכל היום זמנה הוא צריך למהדר אמיא:

"Para a Keriat Shemá" — a leniência de dispensar a água aplica-se apenas no momento da Keriat Shemá, cujo horário é fixo, para que não passe o seu horário; mas para a oração, cujo horário se estende por todo o dia, deve-se voltar em busca de água.

Nota

A Guemará distingue as duas mitzvot: como o horário do Shemá é limitado, aceita-se o substituto da água para não perder o momento certo; mas, como o horário da oração se estende por todo o dia, há tempo de buscar água de verdade, e por isso se exige percorrer até uma distância de uma parasá para consegui-la — mas apenas seguindo adiante no caminho, e não retrocedendo, pois voltar representaria uma perda de tempo ainda maior sem garantia de proveito.

Nova Mishná: quem lê o Shemá sem se fazer ouvir · הַקּוֹרֵא אֶת שְׁמַע וְלֹא הִשְׁמִיעַ לְאׇזְנוֹ

06Mishná: aquele que lê o Shemá sem fazer-se ouvir cumpriu a obrigação; Rabi Yosé discorda
Bavli · 15a — Mishná
הַקּוֹרֵא אֶת שְׁמַע וְלֹא הִשְׁמִיעַ לְאׇזְנוֹ — יָצָא. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: לֹא יָצָא.

Aquele que lê a Keriat Shemá e não a fez ouvir ao próprio ouvido (pronunciando as palavras em voz baixa demais para ouvir a si mesmo) — cumpriu a obrigação. Rabi Yosé diz: não cumpriu.

Nota

Inicia-se aqui uma nova Mishná, com um tema distinto: a validade da leitura do Shemá feita sem que a própria voz chegue aos próprios ouvidos. O primeiro sábio, anônimo, considera que basta pronunciar as palavras, mesmo em sussurro inaudível a si mesmo, para cumprir a mitzvá; Rabi Yosé exige que a pessoa efetivamente escute a si mesma.

07Mishná: quem lê sem articular bem as letras — Rabi Yosé permite, Rabi Yehudá não
Bavli · 15a — Mishná
קָרָא וְלֹא דִּקְדֵּק בְּאוֹתִיּוֹתֶיהָ, רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: יָצָא. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר: לֹא יָצָא.

Se leu e não articulou com precisão as letras dela (do Shemá), Rabi Yosé diz: cumpriu a obrigação. Rabi Yehudá diz: não cumpriu.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
מתני' ולא דקדק באותיותיה – לפרשן יפה בשפתיו:

"Não articulou com precisão as letras dela" — não as pronunciou bem com os lábios.

Nota

A Mishná traz uma segunda cláusula, agora sobre a precisão da pronúncia das letras — por exemplo, distinguir corretamente consoantes semelhantes. Aqui as posições se invertem em relação à cláusula anterior: Rabi Yosé, que exigia ouvir a própria voz, é mais leniente quanto à articulação exata das letras; Rabi Yehudá, por sua vez, exige essa precisão.

08Mishná: quem lê fora de ordem não cumpriu; quem errou, volta ao ponto do erro
Bavli · 15a — Mishná
הַקּוֹרֵא לְמַפְרֵעַ — לֹא יָצָא. קָרָא וְטָעָה — יַחְזוֹר לִמְקוֹם שֶׁטָּעָה.

Aquele que lê o Shemá fora de ordem (invertendo os versículos ou as seções) — não cumpriu a obrigação. Se leu e errou, deve voltar ao ponto em que errou (e prosseguir dali em diante, sem repetir desde o início).

Nota

A Mishná fecha com duas regras adicionais e consensuais: a leitura do Shemá exige respeitar rigorosamente a ordem estabelecida dos versículos, sob pena de invalidade; e, caso ocorra um erro no meio da leitura, corrige-se retomando exatamente do ponto do erro, sem necessidade de recomeçar tudo desde o início.

Guemará: o fundamento de Rabi Yosé, e o caso do surdo · מַאי טַעְמָא דְּרַבִּי יוֹסֵי

09A razão de Rabi Yosé: "ouve" implica fazer o próprio ouvido ouvir; o sábio anônimo: em qualquer língua que se entenda
Bavli · 15a — Guemará
גְּמָ׳ מַאי טַעְמָא דְּרַבִּי יוֹסֵי? מִשּׁוּם דִּכְתִיב ״שְׁמַע״ — הַשְׁמַע לְאׇזְנְךָ מָה שֶׁאַתָּה מוֹצִיא מִפִּיךָ. וְתַנָּא קַמָּא סָבַר, ״שְׁמַע״ — בְּכָל לָשׁוֹן שֶׁאַתָּה שׁוֹמֵעַ.

Qual é o fundamento de Rabi Yosé? Porque está escrito "ouve (Shemá), ó Israel" — faze ouvir a teu próprio ouvido o que tu proferes de tua boca. E o primeiro sábio, o anônimo, sustenta: "ouve" significa em qualquer língua que tu entendas (sem exigência de que se ouça a si mesmo, mas de que se compreenda o idioma falado).

Nota

A Guemará busca a base exegética de cada opinião. Rabi Yosé deriva sua exigência da própria palavra "Shemá" (ouve), interpretando-a como uma ordem para que a pessoa faça seu próprio ouvido escutar as palavras que sua boca pronuncia. O sábio anônimo interpreta a mesma palavra de modo diferente: ela ensinaria apenas que o Shemá pode ser lido em qualquer idioma compreendido pelo leitor, sem exigir que ele ouça literalmente a si mesmo.

10E Rabi Yosé? Extrai as duas coisas da mesma palavra
Bavli · 15a — Guemará
וְרַבִּי יוֹסֵי, תַּרְתֵּי שְׁמַע מִינַּהּ.

E Rabi Yosé — como responde a essa leitura alternativa?ele deduz dela (da palavra "Shemá") as duas coisas (tanto a permissão de qualquer língua quanto a exigência de ouvir a si mesmo).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
תרתי ש"מ – כי דרשת נמי שמע בכל לשון שאתה שומע ש"מ נמי דצריך להשמיע לאזנו:

"Deduz dela as duas coisas" — pois quando também interpretas "Shemá" como "em qualquer língua que tu entendas", deduz-se dali também que é necessário fazer o Shemá ouvir ao próprio ouvido.

Nota

A Guemará esclarece que Rabi Yosé não rejeita a leitura do sábio anônimo, mas a incorpora: a mesma palavra "Shemá" ensina simultaneamente que o Shemá pode ser recitado em qualquer idioma compreendido pelo leitor, e que, ao fazê-lo, o leitor deve efetivamente ouvir a si mesmo pronunciando as palavras.

11Mishná paralela: o surdo que fala mas não ouve não separa teruma; se separou, é válida
Bavli · 15a — Guemará
תְּנַן הָתָם: חֵרֵשׁ הַמְדַבֵּר וְאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ — לֹא יִתְרוֹם. וְאִם תָּרַם — תְּרוּמָתוֹ תְּרוּמָה.

Aprendemos numa Mishná ali (em outro tratado): o surdo que fala mas não ouve (mudo de nascença que aprendeu a falar, mas surdo) não deve separar a teruma a princípio; mas, se separou, sua teruma é válida como teruma.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
לא יתרום – לפי שאינו שומע הברכה שהוא מברך עליה:

"Não deve separar a teruma" — porque não ouve a bênção que ele mesmo recita sobre ela.

Nota

A Guemará traz um caso análogo de outra Mishná, no tratado de Terumot: o surdo que fala mas não ouve — capaz de pronunciar as palavras, mas incapaz de ouvi-las — não deve, a princípio, separar a teruma, pois não ouve a bênção que recita ao fazê-lo; mas, se já a separou, a teruma é retroativamente válida. Essa estrutura de "a princípio, não; mas, se o fez, vale" é semelhante à disputa entre os sábios sobre a leitura do Shemá.

12Pergunta: quem ensinou essa Mishná, que dá validade a posteriori, mas não a princípio?
Bavli · 15a — Guemará
מַאן תְּנָא חֵרֵשׁ הַמְדַבֵּר וְאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ דִּיעֲבַד — אִין, לְכַתְּחִלָּה — לָא?

Quem é o sábio que ensinou que a teruma do surdo que fala mas não ouve é válida a posteriori — sim, mas a princípio — não?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
מאן תנא כו' לא יצא – אפי' בדיעבד ה"מ כו':

"Quem é o sábio que ensinou etc." — a Guemará busca identificar a autoria dessa posição intermediária, distinta de "não cumpriu" mesmo a posteriori.

Nota

A Guemará busca identificar qual sábio, entre os que discordam sobre a leitura do Shemá, sustentaria também essa posição intermediária a respeito do surdo: que a princípio ele não deveria separar a teruma (por não se ouvir), mas que, tendo-o feito, o ato já realizado permanece válido.

13Rav Chisda: é Rabi Yosé, citando a Mishná do Shemá com a atribuição a Rabi Yehudá
Bavli · 15a — Guemará
אָמַר רַב חִסְדָּא: רַבִּי יוֹסֵי הִיא, דִּתְנַן: הַקּוֹרֵא אֶת ״שְׁמַע״ וְלֹא הִשְׁמִיעַ לְאׇזְנוֹ — יָצָא, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: לֹא יָצָא.

Disse Rav Chisda: é a posição de Rabi Yosé, pois aprendemos (numa versão da Mishná): aquele que lê o "Shemá" e não a fez ouvir ao próprio ouvido — cumpriu a obrigação; estas são palavras de Rabi Yehudá. Rabi Yosé diz: não cumpriu.

Nota

Rav Chisda responde que a autoria dessa posição intermediária é de Rabi Yosé — mas cita uma versão alternativa da Mishná estudada acima, na qual a opinião de que "cumpriu a obrigação" é atribuída explicitamente a Rabi Yehudá (e não a um sábio anônimo), colocando-a assim em contraposição direta com Rabi Yosé, que exige ouvir a si mesmo.

14Objeção: Rabi Yosé só disse "não cumpriu" quanto ao Shemá, que é da Torá; a teruma é bênção rabínica
Bavli · 15a — Guemará
עַד כָּאן לָא קָאָמַר רַבִּי יוֹסֵי לֹא יָצָא, אֶלָּא גַּבֵּי קְרִיאַת שְׁמַע דְּאוֹרָיְיתָא, אֲבָל תְּרוּמָה — מִשּׁוּם בְּרָכָה הוּא, וּבְרָכָה דְּרַבָּנַן וְלָא בִּבְרָכָה תַּלְיָא מִילְּתָא.

Mas até aqui Rabi Yosé não disse "não cumpriu" senão a respeito da Keriat Shemá, que é mandamento da Torá; mas a teruma — o motivo de exigir que se ouça é por causa da bênção que a acompanha, e a bênção é de instituição rabínica, e o assunto da validade da teruma não depende da bênção (por isso, mesmo sem ouvi-la, a teruma seria válida até a princípio, contradizendo a atribuição a Rabi Yosé)!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
ברכה דרבנן היא – דאמור רבנן כל המצות כולן מברך עליהן עובר לעשייתן:

"A bênção é de instituição rabínica" — pois disseram os sábios: sobre todos os mandamentos, em geral, recita-se uma bênção antes de sua execução.

Nota

A Guemará objeta contra a identificação de Rav Chisda: a exigência de Rabi Yosé de ouvir a si mesmo poderia estar limitada à Keriat Shemá, que é mandamento bíblico direto; já a exigência de ouvir a bênção sobre a teruma seria de origem apenas rabínica, e a validade da própria teruma não deveria depender do cumprimento dessa bênção — de modo que, mesmo segundo Rabi Yosé, a teruma separada sem se ouvir a bênção deveria ser válida até a princípio, e não apenas a posteriori.

15Nova dúvida: talvez seja Rabi Yehudá quem ensinou isso; prova de que "aquele que lê" implica invalidade completa
Bavli · 15a — Guemará
וּמִמַּאי דְּרַבִּי יוֹסֵי הִיא, דִּילְמָא רַבִּי יְהוּדָה הִיא? וְאָמַר גַּבֵּי קְרִיאַת שְׁמַע נָמֵי דִּיעֲבַד — אִין, לְכַתְּחִלָּה — לָא. תֵּדַע, דְּקָתָנֵי: ״הַקּוֹרֵא״, דִּיעֲבַד — אִין, לְכַתְּחִלָּה — לָא.

E de onde se sabe que é a posição de Rabi Yosé? Talvez seja a posição de Rabi Yehudá, e ele também disse, quanto à Keriat Shemá: a posteriori — sim, mas a princípio — não! Sabe que é assim, pois a Mishná ensina "aquele que lê" (usando o particípio, que indica um ato já realizado)o que sugere que apenas a posteriori — sim, mas a princípio — não.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
וממאי דר' יוסי היא – קס"ד האי דמוקמי לה כר' יוסי משום דסבירא לן דר' יהודה לכתחלה נמי מכשיר: דלמא ר' יהודה היא – וק"ש נמי דיעבד אין לכתחלה לא.

"E de onde se sabe que é a posição de Rabi Yosé?" — a suposição era de que se atribuía isso a Rabi Yosé, por sustentarmos que Rabi Yehudá também permite a princípio. "Talvez seja a posição de Rabi Yehudá" — e, quanto à Keriat Shemá também, ele exigiria apenas a posteriori — sim, mas a princípio — não.

Nota

A Guemará questiona a própria premissa de Rav Chisda: talvez não seja Rabi Yosé quem sustenta essa posição intermediária sobre o surdo, mas sim Rabi Yehudá — cuja opinião sobre o Shemá também poderia ser entendida como permitindo apenas a posteriori, e não a princípio, com base na formulação da Mishná, que usa o particípio "aquele que lê" (referindo-se a um ato já concluído) em vez de uma formulação prescritiva.

16Resposta: não, a formulação vem mostrar a força da opinião de Rabi Yosé, que invalida mesmo a posteriori
Bavli · 15a — Guemará
אָמְרִי: הַאי דְּקָתָנֵי ״הַקּוֹרֵא״, לְהוֹדִיעֲךָ כֹּחוֹ דְרַבִּי יוֹסֵי דְּאָמַר דִּיעֲבַד נָמֵי לָא. דְּאִי רַבִּי יְהוּדָה, אֲפִילּוּ לְכַתְּחִלָּה נָמֵי יָצָא.

Dizem em resposta: isso que a Mishná ensina "aquele que lê" vem apenas fazer-te saber a força da opinião de Rabi Yosé, que diz que mesmo a posteriori não cumpriu; pois, se fosse a posição de Rabi Yehudá, mesmo a princípio também ele diria que cumpriu.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
משום ר' יוסי – להודיעך כחו דאפי' דיעבד נמי לא יצא:

"Vem fazer-te saber a força de Rabi Yosé" — que ensina que mesmo a posteriori não cumpriu.

Nota

A Guemará rejeita a hipótese anterior: a formulação "aquele que lê" na Mishná não indica uma posição intermediária de Rabi Yehudá, mas serve para destacar precisamente o rigor da opinião de Rabi Yosé, que invalida a leitura mesmo depois de realizada — a posteriori. Rabi Yehudá, por sua vez, permitiria plenamente até a princípio, sem qualquer restrição.

17Contradição de outra baraita: não se abençoa a bênção da refeição em silêncio, mas, se abençoou, cumpriu
Bavli · 15a — Guemará
בְּמַאי אוֹקִימְתָּא — כְּרַבִּי יוֹסֵי? וְאֶלָּא הָא דְתַנְיָא: לֹא יְבָרֵךְ אָדָם בִּרְכַּת הַמָּזוֹן בְּלִבּוֹ, וְאִם בֵּירַךְ — יָצָא.

Em que posição estabeleceste a Mishná sobre o surdo — como a de Rabi Yosé? Se assim é, então esta baraita que foi ensinada: não deve a pessoa abençoar a bênção da refeição em seu coração (em silêncio, sem pronunciar); mas, se abençoou assim, cumpriu a obrigação — a quem se atribui?

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
בלבו – שלא השמיע לאזנו:

"Em seu coração" — sem fazer a bênção ouvir ao próprio ouvido.

Nota

Tendo estabelecido a Mishná sobre o surdo como a posição de Rabi Yosé, a Guemará traz um novo caso paralelo, agora sobre a bênção da refeição (Birkat HaMazon): uma baraita ensina que não se deve recitá-la apenas mentalmente, sem pronunciá-la em voz audível ao próprio ouvido; mas que, se a pessoa o fez assim, cumpriu a obrigação. Essa posição intermediária — proibido a princípio, válido a posteriori — precisa agora ser atribuída a algum sábio, testando a consistência do sistema.

18Nem Rabi Yosé nem Rabi Yehudá se encaixam nessa baraita
Bavli · 15a — Guemará
מַנִּי? לָא רַבִּי יוֹסֵי וְלָא רַבִּי יְהוּדָה. דְּאִי רַבִּי יְהוּדָה — הָא אָמַר, לְכַתְּחִלָּה נָמֵי יָצָא? אִי רַבִּי יוֹסֵי, דִּיעֲבַד נָמֵי לָא!

Segundo quem é essa baraita? Não é Rabi Yosé, e não é Rabi Yehudá. Pois, se fosse a posição de Rabi Yehudá — mas ele disse que mesmo a princípio cumpriu a obrigação, sem qualquer restrição! E se fosse a posição de Rabi Yosé — ele diria que mesmo a posteriori não cumpriu!

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
ואי ר' יוסי דיעבד נמי לא – דהא בהמ"ז דאורייתא היא ואכלת ושבעת וברכת:

"E se fosse a posição de Rabi Yosé, mesmo a posteriori não cumpriria" — pois a bênção da refeição é mandamento da Torá, como está escrito: "e comerás, e te fartarás, e abençoarás" (Devarim 8:10).

Nota

A Guemará constata uma dificuldade: essa baraita sobre a bênção da refeição não se encaixa em nenhuma das duas posições conhecidas. Rabi Yehudá permitiria plenamente até a princípio, sem restrição alguma; Rabi Yosé, por se tratar de uma bênção de origem bíblica (como o próprio Shemá), invalidaria mesmo a posteriori. A posição intermediária dessa baraita parece não ter dono.

19Conclusão: é, na verdade, Rabi Yehudá — mas quanto à posteriori sim, a princípio não
Bavli · 15a — Guemará
אֶלָּא מַאי, רַבִּי יְהוּדָה. וְדִיעֲבַד — אִין, לְכַתְּחִלָּה — לָא.

Mas então, o quê se conclui? É a posição de Rabi Yehudá; mas quanto a esta bênção especificamente, ele concorda que apenas a posteriori — sim, mas a princípio — não.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
אלא מאי ר' יהודה – וק"ש דיעבד אין לכתחלה לא והא דתרומה וברכת המזון דר' יהודה:

"Mas então se conclui que é a posição de Rabi Yehudá" — e, quanto à Keriat Shemá também, segundo ele, vale apenas a posteriori — sim, mas a princípio — não; e a baraita da teruma e a da bênção da refeição são ambas segundo Rabi Yehudá.

Nota

A Guemará revisa sua própria conclusão anterior: na verdade, tanto essa baraita quanto a Mishná do surdo são atribuídas a Rabi Yehudá, cuja posição verdadeira — diferentemente do que se supôs antes — é intermediária: a posteriori a leitura silenciosa é válida, mas a princípio não se deve fazê-la assim. Isso reabre, porém, uma nova dificuldade adiante.

20Mas há uma baraita atribuída a Rabi Yehudá filho de Rabi Shimon ben Pazi, que permite a princípio ao surdo separar teruma!
Bavli · 15a — Guemará
אֶלָּא הָא דְתָנֵי רַבִּי יְהוּדָה בְּרֵיהּ דְּרַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן פַּזִּי: חֵרֵשׁ הַמְדַבֵּר וְאֵינוֹ שׁוֹמֵעַ — תּוֹרֵם לְכַתְּחִלָּה, מַנִּי?

Mas então, esta baraita que ensinou Rabi Yehudá, filho de Rabi Shimon ben Pazi: o surdo que fala mas não ouve separa a teruma até a princípio (sem qualquer restrição) — segundo quem é ela?

Nota

A Guemará traz mais uma fonte que complica o quadro: uma baraita, transmitida por Rabi Yehudá filho de Rabi Shimon ben Pazi, ensina que o surdo pode separar a teruma até a princípio, sem qualquer restrição — posição que não corresponde nem à de Rabi Yosé (que proíbe totalmente), nem à posição intermediária já atribuída a Rabi Yehudá (que também restringiria a princípio).

21Nem Rabi Yehudá nem Rabi Yosé se encaixam nessa nova baraita
Bavli · 15a — Guemará
לָא רַבִּי יְהוּדָה וְלָא רַבִּי יוֹסֵי. אִי רַבִּי יְהוּדָה — הָא אָמַר דִּיעֲבַד אִין, לְכַתְּחִלָּה לָא. אִי רַבִּי יוֹסֵי — הָא אָמַר דִּיעֲבַד נָמֵי לָא?

Não é a posição de Rabi Yehudá, e não é a de Rabi Yosé. Pois, se fosse a de Rabi Yehudá — mas ele disse: a posteriori — sim, mas a princípio — não! E se fosse a de Rabi Yosé — mas ele disse: mesmo a posteriori — não!

Nota

A dificuldade se aprofunda: nem a posição intermediária de Rabi Yehudá (a posteriori sim, a princípio não) nem a posição totalmente restritiva de Rabi Yosé (nem sequer a posteriori) correspondem à permissão irrestrita, até a princípio, dessa nova baraita sobre o surdo e a teruma.

22Solução: é Rabi Yehudá mesmo, permitindo a princípio — a contradição se resolve distinguindo cada baraita por sua fonte
Bavli · 15a — Guemará
אֶלָּא, לְעוֹלָם רַבִּי יְהוּדָה, וַאֲפִילּוּ לְכַתְּחִלָּה נָמֵי. וְלָא קַשְׁיָא, הָא — דִידֵיהּ, הָא — דְרַבֵּיהּ. דִּתְנַן, רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר מִשּׁוּם רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה: הַקּוֹרֵא אֶת שְׁמַע צָרִיךְ שֶׁיַּשְׁמִיעַ לְאׇזְנוֹ, שֶׁנֶּאֱמַר: ״שְׁמַע יִשְׂרָאֵל ה׳ אֱלֹהֵינוּ ה׳ אֶחָד״. אָמַר לוֹ רַבִּי מֵאִיר: הֲרֵי הוּא אוֹמֵר ״אֲשֶׁר אָנֹכִי מְצַוְּךָ הַיּוֹם עַל לְבָבֶךָ״ — אַחַר כַּוָּנַת הַלֵּב הֵן הֵן הַדְּבָרִים.

Mas sim: é, na verdade, a posição de Rabi Yehudá, e ele permite até mesmo a princípio. E não é difícil (a contradição entre as duas baraitot atribuídas a ele): esta é a opinião dele mesmo, e esta é a opinião de seu mestre. Pois aprendemos numa Mishná: Rabi Yehudá diz em nome de Rabi Elazar ben Azarya: aquele que lê a Keriat Shemá precisa fazê-la ouvir ao próprio ouvido, pois está dito: "ouve, ó Israel, o Eterno é nosso D-us, o Eterno é Um" (Devarim 6:4). Disse-lhe Rabi Meir: eis que a Torá diz também: "que eu te ordeno hoje, sobre o teu coração" (Devarim 6:6) — depois de mencionar a intenção do coração é que vêm essas palavras (referindo-se apenas à intenção interior, não à audição literal).

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
אלא רבי יהודה לכתחלה קאמר – והא דרבי יהודה בריה דר' שמעון בן פזי ר' יהודה היא ודתרומה ר' יוסי היא ומודה הוא דברכות דרבנן דיעבד שפיר דמי והא דברכת המזון ר' יהודה היא משמיה דרביה ר' אלעזר בן עזריה דאומר צריך שישמיע לאזנו וכל צריך לכתחלה משמע הא דיעבד שפיר דמי: אחר כוונת הלב כו' – ואפי' לכתחלה נמי א"צ:

"Mas é a posição de Rabi Yehudá que permite a princípio" — e a baraita transmitida por Rabi Yehudá filho de Rabi Shimon ben Pazi é a opinião de Rabi Yehudá (o próprio); e a baraita da teruma anterior é a opinião de Rabi Yosé; e ele (Rabi Yehudá) concorda que, em bênçãos de origem rabínica, a posteriori está bem; e a baraita da bênção da refeição é a opinião de Rabi Yehudá em nome de seu mestre, Rabi Elazar ben Azarya, que diz que é necessário fazer a bênção ouvir ao próprio ouvido — e todo "é necessário" implica a princípio, mas a posteriori está bem. "Depois de mencionar a intenção do coração etc." — Rabi Meir sustenta que mesmo a princípio também não é necessário ouvir a si mesmo.

Nota

A Guemará resolve a aparente contradição distinguindo duas camadas na posição de Rabi Yehudá: a opinião pessoal dele mesmo (transmitida por seu filho Rabi Yehudá ben Rabi Shimon ben Pazi) permite plenamente, até a princípio, tanto ao surdo separar teruma quanto — por extensão — ler o Shemá sem se ouvir. Já a opinião mais restritiva, exigindo ouvir a si mesmo, é a que Rabi Yehudá transmite em nome de seu próprio mestre, Rabi Elazar ben Azarya — sendo, portanto, uma tradição recebida, e não a posição pessoal definitiva de Rabi Yehudá. Rabi Meir, aliás, discorda até dessa exigência de Rabi Elazar ben Azarya, entendendo que o versículo seguinte, sobre a intenção do coração, dispensa até a princípio a necessidade de ouvir-se a si mesmo.

23Aplicando essa distinção: a divergência entre Rabi Meir e Rabi Yehudá explica tudo
Bavli · 15a — Guemará
הַשְׁתָּא דְּאָתֵית לְהָכִי, אֲפִילּוּ תֵּימָא רַבִּי יְהוּדָה כְּרַבֵּיהּ סְבִירָא לֵיהּ. וְלָא קַשְׁיָא: הָא רַבִּי מֵאִיר, הָא רַבִּי יְהוּדָה.

Agora que chegaste a isto (a esta distinção), podes até dizer que Rabi Yehudá sustenta como seu mestre (Rabi Elazar ben Azarya, exigindo ouvir a si mesmo). E não é difícil (a contradição entre as duas baraitot da teruma e da bênção da refeição): esta (a que permite a princípio) é a posição de Rabi Meir, esta (a que exige) é a posição de Rabi Yehudá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
השתא דאתית להכי – דאשמעת לן פלוגתא דר"מ: אפילו תימא ר' יהודה – דאמר בק"ש נמי יצא דיעבד אין לכתחלה לא והא דברכת המזון ודתרומה רבי יהודה היא ודקא קשיא לך דר' יהודה בריה דר"ש בן פזי מני ר"מ היא דמכשר לכתחלה:

"Agora que chegaste a isto" — uma vez que nos ensinaste a divergência de Rabi Meir. "Podes até dizer que é a posição de Rabi Yehudá" — que diz que, também quanto à Keriat Shemá, cumpriu apenas a posteriori, mas a princípio não; e a baraita da bênção da refeição e a da teruma (a mais restritiva) são a opinião de Rabi Yehudá; e quanto ao que te era difícil, que a baraita de Rabi Yehudá filho de Rabi Shimon ben Pazi é atribuída a quem — é a opinião de Rabi Meir, que permite a validade a princípio.

Nota

A Guemará oferece uma reformulação alternativa e final: com base na disputa recém-citada entre Rabi Meir e Rabi Yehudá sobre a necessidade de ouvir a si mesmo, pode-se agora reatribuir as baraitot de forma consistente — a permissão irrestrita, até a princípio, pertence a Rabi Meir; a posição intermediária (a posteriori sim, a princípio não) pertence a Rabi Yehudá, que de fato segue seu mestre Rabi Elazar ben Azarya nesse ponto.

O caso paralelo do surdo na leitura da Meguilá · הַכֹּל כְּשֵׁרִים לִקְרוֹת אֶת הַמְּגִילָּה

24Mishná paralela: todos são aptos para ler a Meguilá, exceto o surdo, o louco e o menor; Rabi Yehudá permite o menor
Bavli · 15a — Guemará
תְּנַן הָתָם: הַכֹּל כְּשֵׁרִים לִקְרוֹת אֶת הַמְּגִילָּה, חוּץ מֵחֵרֵשׁ, שׁוֹטֶה וְקָטָן. וְרַבִּי יְהוּדָה מַכְשִׁיר בְּקָטָן.

Aprendemos numa Mishná ali (no tratado de Meguilá): todos são aptos para ler a Meguilá, exceto o surdo, o louco e o menor. E Rabi Yehudá considera apto o menor.

Nota

A Guemará traz mais um caso paralelo, agora do tratado de Meguilá, onde o surdo é igualmente excluído da lista dos aptos a ler a Meguilá de Ester para outros — junto ao louco e ao menor, categorias tradicionalmente isentas de mandamentos por falta de discernimento pleno ou capacidade plena. Rabi Yehudá, note-se, discorda apenas quanto ao menor, mas não quanto ao surdo.

25Rav Matená: também aqui é Rabi Yosé, que invalida mesmo a posteriori
Bavli · 15a — Guemará
מַאן תָּנָא חֵרֵשׁ דִּיעֲבַד נָמֵי לָא? אָמַר רַב מַתְנָה: רַבִּי יוֹסֵי הִיא. דִּתְנַן: הַקּוֹרֵא אֶת ״שְׁמַע״ וְלֹא הִשְׁמִיעַ לְאׇזְנוֹ — יָצָא, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר: לֹא יָצָא.

Quem é o sábio que ensinou que a leitura do surdo é inválida mesmo a posteriori? Disse Rav Matená: é a posição de Rabi Yosé. Pois aprendemos: aquele que lê o "Shemá" e não a fez ouvir ao próprio ouvido — cumpriu a obrigação; estas são palavras de Rabi Yehudá. Rabi Yosé diz: não cumpriu.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Bavli 15a
מאן תנא חרש דיעבד נמי לא – דקתני גבי שוטה: לא יצא – דיעבד הוא:

"Quem é o sábio que ensinou que a leitura do surdo é inválida mesmo a posteriori?" — pois a Mishná de Meguilá o coloca junto ao louco. "Não é apto" — isso se refere a a posteriori.

Nota

Rav Matená identifica, mais uma vez, essa posição totalmente restritiva — que invalida a leitura do surdo mesmo a posteriori — como sendo a de Rabi Yosé, o mesmo sábio da Mishná sobre a Keriat Shemá que exige que a pessoa ouça a si mesma, sem exceção alguma. A colocação do surdo junto ao louco, na Mishná de Meguilá, reforça essa leitura, pois ambos são tratados como totalmente incapazes de cumprir o ato.

26Nova dúvida final: mas de onde se sabe que é Rabi Yosé, e que também aqui vale "mesmo a posteriori, não"? (a discussão prossegue no daf seguinte)
Bavli · 15a — Guemará
מִמַּאי דְּרַבִּי יוֹסֵי הִיא וְדִיעֲבַד נָמֵי לָא,

Mas de onde se sabe que é a posição de Rabi Yosé, e que também aqui vale que mesmo a posteriori não é válido (a frase prossegue no início do daf 15b: "talvez seja a posição de Rabi Yehudá, e apenas a princípio é que não, mas a posteriori está bem")?

Nota

O daf termina no meio de uma nova objeção da Guemará, que volta a questionar a atribuição de Rav Matená: talvez, também aqui, a Mishná de Meguilá reflita apenas a posição intermediária de Rabi Yehudá — permitindo a posteriori, mas não a princípio — e não a posição totalmente restritiva de Rabi Yosé. A pergunta e sua resposta se completam já na primeira linha do daf 15b.