A obra abre não com a criação do mundo, mas com uma história humana: como um homem de 28 anos, que nunca estudara, tornou-se um dos maiores sábios de Israel — movido apenas pelo desejo de aprender.
1
Aconteceu com Rabi Eliezer ben Hyrcanos: seu pai tinha lavradores que aravam sobre a terra plana, e ele arava num terreno pedregoso. Sentou-se e chorava. Disse-lhe o pai: "Por que choras? Acaso te afliges por arares no pedregal? Pois agora ararás na terra plana." Foi arar na terra plana, e chorava. Disse-lhe: "Por que choras? Acaso te afliges por arares na terra plana?" Respondeu: "Não." "Então por que choras?" Disse: "Porque desejo aprender Torá." Disse-lhe: "Mas já tens vinte e oito anos, e queres aprender Torá? Antes, toma uma esposa, gera filhos, e tu os levarás à escola." Passou duas semanas sem provar alimento, até que se lhe revelou Eliyahu — de boa memória — e lhe disse: "Ben Hyrcanos, por que choras?" Respondeu: "Porque desejo aprender Torá." Disse-lhe: "Se desejas aprender Torá, sobe a Jerusalém, ao encontro de Rabban Yochanan ben Zakai." Levantou-se e foi a Rabban Yochanan ben Zakai. Sentou-se e chorava. Disse-lhe: "Por que choras?" Respondeu: "Porque desejo aprender Torá." Disse-lhe: "De quem és filho?" E ele não lhe contou.
מַעֲשֶׂה בְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר בֶּן הוֹרְקְנוֹס, שֶׁהָיוּ לְאָבִיו חוֹרְשִׁים וְהָיוּ חוֹרְשִׁים עַל גַּבֵּי הַמַּעֲנָה, וְהוּא הָיָה חוֹרֵשׁ בַּטְּרָשִׁין. יָשַׁב לוֹ וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ אָבִיו, ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה? שֶׁמָּא מִצְטַעֵר אַתָּה שֶׁאַתָּה חוֹרֵשׁ בַּטְּרָשִׁין? עַכְשָׁו אַתָּה חוֹרֵשׁ עַל גַּבֵּי הַמַּעֲנָה״. יָשַׁב לוֹ עַל גַּבֵּי הַמַּעֲנָה וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ, ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה? שֶׁמָּא מִצְטַעֵר אַתָּה שֶׁאַתָּה חוֹרֵשׁ עַל גַּבֵּי הַמַּעֲנָה?״ אָמַר לוֹ, ״לָאו״. ״וְלָמָּה אַתְּ בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ, ״שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה״. אָמַר לוֹ, ״וַהֲלֹא בֶּן עֶשְׂרִים וּשְׁמוֹנֶה שָׁנִים אַתָּה, וְאַתָּה מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה? אֶלָּא קַח לְךָ אִשָּׁה וְתוֹלִיד לְךָ בָּנִים וְאַתָּה מוֹלִיכָן לְבֵית הַסֵּפֶר״. עָשָׂה שְׁתֵּי שַׁבָּתוֹת וְלֹא טָעַם כְּלוּם עַד שֶׁנִּגְלָה לוֹ אֵלִיָּהוּ זָכוּר לַטּוֹב, וְאָמַר לוֹ, ״בֶּן הוֹרְקְנוֹס, לָמָּה אַתָּה בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ, ״מִפְּנֵי שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה״. אָמַר לוֹ, ״אִם אַתָּה מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה, עֲלֵה לִירוּשָׁלַיִם אֵצֶל רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי״. עָמַד וְהָלַךְ אֵצֶל רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי. יָשַׁב לוֹ וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ, ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ, ״מִפְּנֵי שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה״. אָמַר לוֹ, ״בֶּן מִי אַתָּה?״ וְלֹא הִגִּיד לוֹ.
Nota. Eliyahu, de boa memória (Eliyahu zachur latov) é o profeta Elias, que na aggadá aparece para guiar quem busca o caminho certo. Note também o detalhe central: Eliezer já tinha 28 anos e jamais estudara — a obra começa justamente afirmando que nunca é tarde para começar a Torá.
2
Disse-lhe Rabban Yochanan: "Em todos os teus dias, nunca aprendeste a leitura do Shemá, nem a Tefilá (oração), nem a Bênção após as refeições?" Respondeu: "Não." Disse-lhe: "Levanta-te, e eu te ensinarei as três." Sentou-se e chorava. Disse-lhe: "Meu filho, por que choras?" Respondeu: "Porque desejo aprender Torá." E ele lhe ensinava duas halachot a cada dia da semana, e Eliezer as revisava e as fixava. Passou oito dias sem provar alimento, até que o odor de sua boca subiu diante de Rabban Yochanan ben Zakai, que o fez afastar-se de diante de si. Sentou-se e chorava. Disse-lhe: "Por que choras?" Respondeu: "Porque me afastaste de diante de ti como quem afasta de si um leproso." Disse-lhe: "Meu filho, assim como subiu o odor da tua boca diante de mim, assim suba o odor dos estatutos da Torá da tua boca aos céus." Disse-lhe: "Meu filho, de quem és filho?" Respondeu: "Sou filho de Hyrcanos." Disse-lhe: "Mas tu és filho dos grandes do mundo — e não me contavas!" E acrescentou: "Por tua vida, hoje comerás comigo." Respondeu: "Já comi na casa onde me hospedo." Disse-lhe: "E quem te hospeda?" Respondeu: "Rabi Yehoshua ben Chananiá e Rabi Yossi haCohen."
אָמַר לוֹ: ״מִיָּמֶיךָ לֹא לָמַדְתָּ קְרִיאַת שְׁמַע וְלֹא תְפִלָּה וְלֹא בִּרְכַּת הַמָּזוֹן?״ אָמַר לוֹ: ״לָאו״. אָמַר לוֹ: ״עֲמֹד וַאֲלַמֶּדְךָ שְׁלָשְׁתָּן״. יָשַׁב וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ: ״בְּנִי, מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ: ״שֶׁאֲנִי מְבַקֵּשׁ לִלְמֹד תּוֹרָה״. וְהָיָה אוֹמֵר לוֹ שְׁתֵּי הֲלָכוֹת כָּל יְמֵי הַשָּׁבוּעַ, וְהָיָה חוֹזֵר לוֹ עֲלֵיהֶן וּמְדַבְּקָן. עָשָׂה שְׁמוֹנָה יָמִים וְלֹא טָעַם כְּלוּם עַד שֶׁעָלָה רֵיחַ פִּיו לִפְנֵי רַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי, וְהֶעֱמִידוֹ מִלְּפָנָיו. יָשַׁב וְהָיָה בּוֹכֶה. אָמַר לוֹ: ״מִפְּנֵי מָה אַתָּה בּוֹכֶה?״ אָמַר לוֹ: ״מִפְּנֵי שֶׁהֶעֱמַדְתָּנִי מִלְּפָנֶיךָ כְּאָדָם שֶׁמַּעֲמִיד מִלְּפָנָיו מֻכֵּה שְׁחִין״. אָמַר לוֹ: ״בְּנִי, כְּשֵׁם שֶׁעָלָה רֵיחַ פִּיךָ מִלְּפָנַי, כָּךְ יַעֲלֶה רֵיחַ חֻקֵּי תוֹרָה מִפִּיךָ לַשָּׁמַיִם״. אָמַר לוֹ: ״בְּנִי, בֶּן מִי אַתָּה?״ אָמַר לוֹ: ״בֶּן הוֹרְקְנוֹס אֲנִי״. אָמַר לוֹ: ״וַהֲלֹא בֶּן גְּדוֹלֵי עוֹלָם אַתָּה, וְלֹא הָיִיתָ מַגִּיד לִי!״ אָמַר לוֹ: ״חַיֶּיךָ, הַיּוֹם אַתָּה סוֹעֵד אֶצְלִי״. אָמַר לוֹ: ״כְּבָר סָעַדְתִּי אֵצֶל אַכְסַנְיָא שֶׁלִּי״. אָמַר לוֹ: ״וּמִי הוּא אַכְסַנְיָא שֶׁלְּךָ?״ אָמַר לוֹ: ״רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן חֲנַנְיָה, וְרַבִּי יוֹסֵי הַכֹּהֵן״.
Nota. A bênção de Rabban Yochanan — "assim suba o odor dos estatutos da Torá da tua boca aos céus" — soa quase profética: aquele jovem faminto e envergonhado viria a ser Rabi Eliezer "o Grande", um dos pilares da Mishná. O jejum de oito dias mostra a intensidade do seu anseio: ele não percebia a fome diante da sede de Torá.
3
Rabban Yochanan mandou perguntar aos que o hospedavam: "Eliezer comeu hoje convosco?" Responderam: "Não. E eis que já faz oito dias que ele nada provou." Depois disso, Rabi Yehoshua ben Chananiá e Rabi Yossi haCohen foram e disseram a Rabban Yochanan ben Zakai: "De fato, já faz oito dias que ele nada provou."
שָׁלַח וְשָׁאַל לְאַכְסַנְיָא שֶׁלּוֹ, אָמַר לָהֶם: ״אֶצְלְכֶם סָעַד אֱלִיעֶזֶר הַיּוֹם?״ אָמְרוּ לוֹ: ״לָאו. וַהֲלֹא יֵשׁ לוֹ שְׁמוֹנָה יָמִים שֶׁלֹּא טָעַם כְּלוּם״. אַחֲרֵי כֵן הָלְכוּ רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן חֲנַנְיָה וְרַבִּי יוֹסֵי הַכֹּהֵן וְאָמְרוּ לוֹ לְרַבָּן יוֹחָנָן בֶּן זַכַּאי: ״וַהֲלֹא יֵשׁ לוֹ שְׁמוֹנָה יָמִים שֶׁלֹּא טָעַם כְּלוּם״.
Os Sábios sobre este capítulo · פֵּרוּשִׁים
O livro poderia ter começado pela criação do mundo — e logo chegará a ela. Mas escolhe abrir com a biografia do seu mestre, e nisso já é um ensinamento: antes de qualquer cosmologia, vem a pergunta de como um ser humano se torna digno de receber a Torá.
Nunca é tarde — e a origem não basta
Os comentadores destacam dois pontos. Primeiro, a idade: Eliezer já tinha 28 anos, era analfabeto nas próprias bênçãos básicas, e ainda assim subiu ao topo. O começo tardio não foi obstáculo; o desejo, sim, foi o motor. Segundo, a linhagem: ele era "filho dos grandes do mundo" — homem rico —, mas a riqueza e o nome do pai não lhe davam Torá. Ele teve de conquistá-la pela fome, pela vergonha e pela perseverança. A Torá não se herda como um campo; adquire-se.
As lágrimas como força
Em todo o capítulo, Eliezer chora — e cada choro repete o mesmo motivo: "porque desejo aprender Torá". O Radal (Rabi David Luria), no clássico comentário a esta obra, lê esse anseio como a verdadeira raiz do seu futuro. O choro não é fraqueza: é a medida de quem sente que viver sem Torá é não viver. É esse mesmo anseio que, segundo a tradição (Avot deRabi Natan), fará dele "um poço que não perde uma gota" — a memória prodigiosa que preservou a tradição dos mestres.
A bênção que se cumpre
O ponto culminante é a bênção de Rabban Yochanan ben Zakai. Diante do jovem humilhado por dias de jejum, o mestre não vê o constrangimento — vê o futuro: "assim suba o odor dos estatutos da Torá da tua boca aos céus." Os sábios observam que o verdadeiro mestre enxerga a grandeza oculta no aluno antes que ela apareça. Foi assim que o próprio Rabban Yochanan diria depois (Pirkei Avot 2:8) que Eliezer "pesa mais que todos os sábios de Israel".
O capítulo, então, é um pórtico moral: quem quiser entrar nas profundezas da criação e dos mistérios que virão a seguir começa por aqui — pela humildade, pela fome de aprender e pela coragem de recomeçar.
Sobre esta tradução
Texto hebraico: edição vocalizada de domínio público de Pirkei deRabbi Eliezer (Sefaria). A tradução ao português foi feita a partir do hebraico e cotejada com a tradução inglesa de G. Friedlander (Londres, 1916, domínio público), para maior fidelidade ao sentido.
A tradução ao português, as notas e a coletânea de perushim (apoiada em comentários clássicos, como o do Radal) são originais. Eventuais imprecisões são de nossa responsabilidade.