Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Dalet · Mishná 6 de 6 (última do perek)

Seis intenções ao abater — mas nenhuma delas exigida

שֶׁאֵין הַמַּחֲשָׁבָה הוֹלֶכֶת אֶלָּא אַחַר הָעוֹבֵד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná final do perek volta ao tema com que o próprio tratado começou — a intenção "em nome de" no momento do abate — mas agora enumera as seis dimensões dessa intenção ideal, para em seguida, com Rabi Yossei, esvaziar sua exigência: nenhuma delas é, de fato, indispensável.

Por seis coisas a oferenda é abatida: em nome da oferenda, em nome de quem a oferece, em nome do Nome [Divino], em nome dos fogos, em nome do odor, em nome do agrado. E a oferenda de pecado e a oferenda de culpa, em nome do pecado.A mishná enumera as seis intenções ideais que, segundo o preceito pleno, deveriam acompanhar o abate de qualquer oferenda: que seja "em nome" do próprio tipo de oferenda (excluindo a intenção de trocá-la por outra), "em nome" de seus donos (excluindo a intenção de trocar os donos), "em nome do Nome" divino, "em nome dos fogos" do altar (excluindo, por exemplo, a intenção de simplesmente assar pedaços sobre brasas), "em nome do odor" que sobe ao céu (excluindo assá-los primeiro fora do lugar da pira, onde a fumaça não sobe como oferenda), e "em nome do agrado" — o contentamento Divino por Seu povo cumprir Sua vontade. A oferenda de pecado e a de culpa somam-se a essas seis uma sétima intenção própria: que sejam abatidas em nome do pecado específico pelo qual são trazidas.

Disse Rabi Yossei: também aquele que não teve em seu coração [a intenção] em nome de nenhuma dessas [seis coisas], é válida, pois é uma condição estabelecida pelo tribunal — que a intenção só segue quem executa [a avodá].Rabi Yossei revela que, apesar da lista detalhada, nenhuma dessas intenções é, na prática, um requisito: quem abate sem pensar em nenhuma delas — de modo neutro, sem intenção explícita alguma — cumpre igualmente o preceito, pois os sábios estabeleceram como condição padrão que o abate seja feito "em silêncio" (sem declaração de intenção), justamente para evitar o risco de o sacerdote declarar acidentalmente uma intenção errada. A cláusula final acrescenta um princípio geral independente, já conhecido do Perek Alef: a intenção relevante para qualquer uma das avodot é sempre a de quem materialmente as executa — o abatedor, o recebedor do sangue, quem o transporta, quem o asperge — e nunca a dos donos da oferenda, ainda que estes declarem sua própria intenção paralela.

לְשֵׁם שִׁשָּׁה דְבָרִים הַזֶּבַח נִזְבָּח, לְשֵׁם זֶבַח, לְשֵׁם זוֹבֵחַ, לְשֵׁם הַשֵּׁם, לְשֵׁם אִשִּׁים, לְשֵׁם רֵיחַ, לְשֵׁם נִיחוֹחַ. וְהַחַטָּאת וְהָאָשָׁם, לְשֵׁם חֵטְא. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, אַף מִי שֶׁלֹּא הָיָה בְלִבּוֹ לְשֵׁם אַחַד מִכָּל אֵלּוּ, כָּשֵׁר, שֶׁהוּא תְנַאי בֵּית דִּין, שֶׁאֵין הַמַּחֲשָׁבָה הוֹלֶכֶת אֶלָּא אַחַר הָעוֹבֵד:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 4:6
מִכְּלַל דְּבָרֵינוּ נִתְבָּאֵר לְךָ שֶׁלֹּא הֻצְרַךְ שֶׁיִּהְיוּ הַשְּׁלָמִים נִשְׁחָטִים לְשֵׁם שְׁלָמִים וְלֹא עוֹלָה לְשֵׁם עוֹלָה, וּכְבָר הוֹדַעְתִּיךָ בִּתְחִלַּת הַמַּסֶּכְתָּא שֶׁאִם שָׁחַט סְתָם כָּשֵׁר, וְהַתַּנָּא הַזֶּה הִצְרִיךְ שֶׁתְּהֵא כַּוָּנַת בַּעַל הַקָּרְבָּן לְאֵלֶּה הַשִּׁשָּׁה דְּבָרִים מוּסָף עַל הַשּׁוֹחֵט. וְאָמַר רַבִּי יוֹסֵי שֶׁהוּא תְנַאי בֵּית דִּין שֶׁאֵין הוֹלְכִים אֶלָּא אַחַר מַחְשֶׁבֶת הָעוֹבֵד בִּלְבַד, רְצוֹנוֹ לוֹמַר הַשּׁוֹחֵט אוֹ הַמְקַבֵּל אוֹ הַזּוֹרֵק, אֲבָל בַּעַל הַזֶּבַח לֹא, וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי, וּלְפִיכָךְ דִּבְרֵי הָאוֹמֵר בְּעָלִים מְפַגְּלִים נִדְחִים.

Rambam situa esta mishná no contexto de tudo o que já foi ensinado no tratado: desde o início ficou estabelecido que abater sem qualquer declaração de intenção ("em silêncio") já é válido para todos os tipos de oferenda — não é preciso dizer "em nome da oferenda de paz" para que ela seja de paz. A inovação desta mishná era apenas listar as seis intenções ideais que, segundo certa opinião tannaítica, o dono da oferenda deveria ter em mente, além da intenção do próprio abatedor. Mas a lei segue Rabi Yossei, que rejeita completamente essa exigência adicional: a única intenção relevante é a de quem executa fisicamente a avodá, nunca a dos donos — e por isso a opinião de que "os donos também podem tornar pigul" fica definitivamente rejeitada.

Bartenura · Zevachim 4:6
לְשֵׁם זֶבַח. לְאַפּוֹקֵי שִׁנּוּי קֹדֶשׁ, כְּגוֹן לְשֵׁם זֶבַח אַחֵר. לְשֵׁם זוֹבֵחַ. לְאַפּוֹקֵי שִׁנּוּי בְּעָלִים... לְשֵׁם אִשִּׁים. לְאַפּוֹקֵי אִם שְׁחָטוֹ עַל מְנָת לַעֲשׂוֹתוֹ חֲתִיכוֹת צְלוּיוֹת בְּגֶחָלִים. לְשֵׁם רֵיחַ. לְאַפּוֹקֵי אִם צְלָאָן תְּחִלָּה חוּץ לַמַּעֲרָכָה, דְּתוּ לֹא מַסְקֵי רֵיחָא... שֶׁהוּא תְנַאי בֵּית דִּין. שֶׁיִּשְׁחֹט סְתָם וְלֹא לֵימָא לִשְׁמָן, דִּלְמָא אָתֵי לְמֵימַר שֶׁלֹּא לִשְׁמָן. שֶׁאֵין הַמַּחְשָׁבָה הוֹלֶכֶת אֶלָּא אַחַר הָעוֹבֵד. הִלְכָּךְ אִי הֲוָה אוֹמֵר שֶׁלֹּא לִשְׁמָן, אַף כִּי אָמְרוּ הַבְּעָלִים לִשְׁמָן, לָאו מִידֵי הוּא. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.

Bartenura precisa o que cada uma das seis intenções vem excluir: "em nome da oferenda" exclui a troca mental por outro tipo de santidade; "em nome de quem a oferece" exclui a troca dos donos; "em nome dos fogos" exclui a intenção de simplesmente assar a carne sobre brasas, sem propósito sacrificial; "em nome do odor" exclui assar as partes fora do lugar da pira do altar, onde a fumaça não conta como "odor" ascendente. Sobre a condição do tribunal, explica que os sábios preferiram instituir o abate silencioso — sem qualquer declaração de intenção — precisamente para evitar o perigo de o sacerdote, ao tentar declarar a intenção correta, acabar declarando por engano seu oposto; e conclui que, por seguir-se a lei de Rabi Yossei, mesmo que os donos declarassem explicitamente "em nome de tal oferenda", isso não teria nenhum efeito halachico, pois a Torá atribui a intenção relevante apenas a "quem a oferece" — o sacerdote que executa a avodá, conforme o versículo "aquele que a oferece não será computado".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 46b
מַתְנִי׳ לְשֵׁם זֶבַח — לְאַפּוֹקֵי שִׁנּוּי קֹדֶשׁ כְּגוֹן לְשֵׁם זֶבַח אַחֵר. לְשֵׁם זוֹבֵחַ — לְאַפּוֹקֵי שִׁנּוּי בְּעָלִים, וְהָא יָלְפִינַן לְהוּ מִקְּרָאֵי בְּפֶרֶק קַמָּא (לְעֵיל זְבָחִים ד:). לְשֵׁם אִשִּׁים לְשֵׁם רֵיחַ — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לְאַפּוֹקֵי מַאי וְיָלֵיף לָהּ מִקְּרָא. לְשֵׁם חֵטְא — לְשֵׁם חֶטְאוֹ שֶׁהוּא מְבִיאוֹ עָלָיו.

Rashi confirma, resumidamente, o que cada intenção exclui — mudança do tipo de santidade, mudança dos donos —, e remete o leitor de volta ao Perek Alef, onde essas duas categorias já haviam sido derivadas dos versículos sobre o voto (Vayikrá 22:21) e a doação voluntária. Aponta que a Guemará desenvolve, a partir de versículos próprios, exatamente o que as intenções "em nome dos fogos" e "em nome do odor" vêm excluir, e explica que "em nome do pecado" refere-se ao pecado específico pelo qual a oferenda de culpa ou de pecado é trazida.

סְלִיקָא לַהּ מַסֶּכְתָּא — פֶּרֶק ד׳
Aqui se conclui o Perek Dalet de Massechet Zevachim, o quarto capítulo do primeiro tratado de Seder Kodashim. Enquanto o Perek Guimel havia explorado quem é apto para cada avodá e os limites objetivos do pigul quanto à quantidade e à natureza da parte visada, o Perek Dalet aprofundou a mecânica interna do pigul a partir de um único eixo: a noção de "habilitador" (matir). As duas primeiras mishnayot (4:1–4:2) mostraram como o número de aplicações de sangue indispensáveis — uma no altar externo, todas no altar interno — determina exatamente quando uma intenção errada em alguma delas contamina a oferenda inteira. As três seguintes (4:3–4:5) generalizaram esse princípio: só se torna pigul o que depende de um habilitador externo a si mesmo — nunca o próprio habilitador —, percorrendo caso a caso o punhado, o incenso, o logue de óleo do leproso, a oferenda de subida, os touros e bodes queimados, e por fim as oferendas de não-judeus e os limites de notar e impureza. A mishná final (4:6) devolveu o capítulo ao tema original do tratado — a intenção "em nome de" no abate — para, com Rabi Yossei, esclarecer que nem essa intenção detalhada é, de fato, exigida: o abate silencioso já basta, e a intenção relevante é sempre a de quem executa a avodá, nunca a dos donos. Por possuir Guemará no Talmud Bavli, as mishnayot deste capítulo se distribuem por Zevachim 36b, 42b–43a, 45a–45b e 46b, e cada uma reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva sugya. O estudo de Massechet Zevachim prossegue nos dez perakim seguintes, ainda por construir.