Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Dalet · Mishná 3 de 6

O que nunca vira pigul: a lista das partes sem outro habilitador

כֹּל שֶׁיֶּשׁ לוֹ מַתִּירִים בֵּין לָאָדָם בֵּין לַמִּזְבֵּחַ, חַיָּבִין עָלָיו מִשּׁוּם פִּגּוּל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná desloca o foco das aplicações de sangue para o princípio geral que define o próprio alcance do pigul: só se torna pigul aquilo que depende de um "habilitador" — outra parte que precisa ser corretamente processada antes dele. O que não tem esse habilitador externo, mas é ele mesmo quem habilita outra coisa, escapa por definição à categoria do pigul.

Estas são as coisas pelas quais não se é responsabilizado por pigul: o punhado, o incenso [de acompanhamento], a queima de incenso [do templo], a oferenda vegetal dos sacerdotes, a oferenda vegetal do sacerdote ungido, (a oferenda vegetal de libações), o sangue, e as libações que vêm por si mesmas — palavras de Rabi Meir.O princípio do pigul deriva-se das oferendas de paz, onde há uma clara sequência de habilitação: o sangue habilita as partes a serem queimadas no altar, e estas habilitam a carne para consumo humano. Só o que se encaixa nessa cadeia — dependendo de outro elemento que o habilite — pode se tornar pigul. Mas o punhado da oferenda vegetal (que é queimado e assim habilita o resto da oferenda para os sacerdotes), o incenso de acompanhamento, a queima diária de incenso, as oferendas vegetais consumidas por inteiro no altar (dos sacerdotes e do sumo sacerdote), o próprio sangue, e as libações de vinho quando trazidas independentemente de um animal — todos esses são eles mesmos os habilitadores, não o habilitado; não há nada além deles que precise primeiro ser processado. Por isso, uma intenção errada ao processá-los não gera pigul.

E os sábios dizem: também as que vêm com o animal.Os sábios discordam de Rabi Meir quanto às libações que acompanham um animal: como elas podem, tecnicamente, ser oferecidas até no dia seguinte ao do animal, o sangue do animal não é, estritamente, o que as habilita — elas se habilitam a si mesmas, do mesmo modo que as libações trazidas isoladamente. Por isso, também elas escapam ao pigul.

Quanto ao logue de óleo do leproso, Rabi Shimon diz: não se é responsabilizado por ele por pigul. E Rabi Meir diz: responsabilizam-se por ele por pigul, pois o sangue da oferenda de culpa o habilita.O caso do logue de óleo trazido pelo leproso em processo de purificação é mais sutil: sua aplicação depende, por preceito, de que primeiro se aplique o sangue da oferenda de culpa. Rabi Meir considera essa dependência suficiente para classificá-lo como algo "habilitado" pelo sangue, e portanto sujeito a pigul; Rabi Shimon discorda, considerando que, como o leproso pode trazer o óleo vários dias depois de trazer a oferenda de culpa, o sangue não é de fato o que o habilita no momento.

E tudo que tem habilitadores, seja para o homem seja para o altar, responsabilizam-se por ele por pigul.A mishná fecha com a formulação positiva do princípio: o critério decisivo não é a gravidade ou a santidade do item, mas puramente estrutural — se existe algo, humano ou do próprio altar, que dependa de um habilitador prévio, esse elemento pode se tornar pigul quando a intenção errada recai sobre o próprio processo de habilitação.

אֵלּוּ דְבָרִים שֶׁאֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶם מִשּׁוּם פִּגּוּל. הַקֹּמֶץ, וְהַלְּבוֹנָה, וְהַקְּטֹרֶת, וּמִנְחַת כֹּהֲנִים, וּמִנְחַת כֹּהֵן מָשִׁיחַ, (וּמִנְחַת נְסָכִים), וְהַדָּם, וְהַנְּסָכִים הַבָּאִים בִּפְנֵי עַצְמָן, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אַף הַבָּאִים עִם הַבְּהֵמָה. לֹג שֶׁמֶן שֶׁל מְצֹרָע, רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵין חַיָּבִין עָלָיו מִשּׁוּם פִּגּוּל. וְרַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, חַיָּבִין עָלָיו מִשּׁוּם פִּגּוּל, שֶׁדַּם הָאָשָׁם מַתִּירוֹ. וְכֹל שֶׁיֶּשׁ לוֹ מַתִּירִים בֵּין לָאָדָם בֵּין לַמִּזְבֵּחַ, חַיָּבִין עָלָיו מִשּׁוּם פִּגּוּל:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 4:3
כְּבָר יָדַעְתָּ שֶׁהַפִּגּוּל לָמַדְנוּ אוֹתוֹ מִן הַשְּׁלָמִים, שֶׁנֶּאֱמַר וְאִם הֵאָכֹל יֵאָכֵל מִבְּשַׂר זֶבַח שְׁלָמָיו וְגוֹ׳, וְאָמַר: מָה שְׁלָמִים מְיֻחָדִים שֶׁיֵּשׁ לָהֶן מַתִּירִין בֵּין לָאָדָם בֵּין לַמִּזְבֵּחַ, חַיָּבִין עָלָיו מִשּׁוּם פִּגּוּל, אַף כֹּל שֶׁיֵּשׁ לוֹ מַתִּירִין בֵּין לָאָדָם בֵּין לַמִּזְבֵּחַ, חַיָּבִין עָלָיו מִשּׁוּם פִּגּוּל. וְעִנְיַן זֶה הַמַּאֲמָר: כִּי כָּל דָּבָר שֶׁאֵינוֹ רָאוּי לֵיאָכֵל כְּפִי הַדָּת וְלֹא לִיקָּרֵב אֶלָּא אִם קָדַם לוֹ מַעֲשֶׂה אַחֵר, וְאַחַר גְּמַר אוֹתוֹ מַעֲשֶׂה כְתִקְנוֹ יִהְיֶה אוֹתוֹ דָּבָר רָאוּי לֵיאָכֵל אוֹ לִיקָּרֵב... וּכְשֶׁהוּא מַפְסִיד הַמַּחֲשָׁבָה בְּחוּץ לִזְמַנּוֹ, יִהְיֶה אוֹתוֹ דָּבָר פִּגּוּל, וְחַיָּב הָאוֹכֵל מִמֶּנּוּ כָּרֵת; אַךְ הַדָּבָר שֶׁאֵין לוֹ מַתִּיר אֶלָּא הוּא עַצְמוֹ מַתִּיר לְזוּלָתוֹ, אֵין חַיָּב הָאוֹכֵל מִמֶּנּוּ כָּרֵת אַף עַל פִּי שֶׁהִפְסִיד הַמַּחֲשָׁבָה וּפִגֵּל.

Rambam expõe a derivação bíblica completa do princípio: a Torá fala de pigul a respeito da oferenda de paz, cujo processo tem uma estrutura clara de dois estágios de habilitação (sangue habilita as partes para o altar; as partes habilitam a carne para o homem). A regra geral que daí se extrai é puramente estrutural: um item se torna pigul apenas quando sua permissão de uso depende de um ato anterior distinto — o próprio habilitador nunca se torna pigul, porque não há nada anterior a ele que precise ser corretamente completado; ele é a origem da cadeia, não seu elo dependente.

Bartenura · Zevachim 4:3
הַקֹּמֶץ. אִם קָמַץ עַל מְנָת לֶאֱכֹל שִׁירַיִם לְמָחָר, וְנִתְפַּגְּלָה הַמִּנְחָה שֶׁאֵינָהּ נֶאֱכֶלֶת אֶלָּא לְיוֹם וְלַיְלָה, אֵין הָאוֹכֵל אֶת הַקֹּמֶץ בְּכָרֵת, שֶׁאֵין פִּגּוּל חָל אֶלָּא עַל דָּבָר שֶׁיֵּשׁ לוֹ מַתִּירִין אֲחֵרִים... לֹג שֶׁמֶן שֶׁל מְצֹרָע... אַף עַל פִּי שֶׁהַלֹּג תָּלוּי בָּאָשָׁם, דִּכְתִיב עַל דַּם הָאָשָׁם, דְּאִם לֹא נָתַן מִדַּם הָאָשָׁם תְּחִלָּה אֵין נְתִינַת הַשֶּׁמֶן כְּלוּם, אֲפִלּוּ הָכִי כֵּיוָן דְּאָדָם מֵבִיא אֲשָׁמוֹ עַכְשָׁיו וְלֻגּוֹ עַד עֲשָׂרָה יָמִים, נִמְצָא שֶׁאֵין הָאָשָׁם מַתִּירוֹ.

Bartenura ilustra o princípio com o exemplo do próprio punhado: se o sacerdote o separou com intenção de comer o restante da oferenda vegetal fora do prazo, a oferenda vegetal se torna pigul (pois depende do punhado como habilitador), mas quem come o punhado em si não incorre em excisão, já que o punhado não depende de nenhum habilitador anterior. Sobre o logue de óleo do leproso, explica a posição dos sábios (aqui, de Rabi Shimon): embora tecnicamente o óleo dependa do sangue da oferenda de culpa aplicado primeiro, como a lei permite trazer o óleo até dez dias depois da oferenda de culpa, na prática o sangue não funciona como habilitador imediato — e por isso o óleo escapa ao pigul.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 42b
מַתְנִי׳ אֵלּוּ דְבָרִים שֶׁאֵין חַיָּבִין עֲלֵיהֶן — כָּרֵת בַּאֲכִילָתָן מִשּׁוּם פִּגּוּל. הַקֹּמֶץ — אִם קִמֵּץ לֶאֱכֹל שִׁירַיִם לְמָחָר וְנִתְפַּגְּלָה הַמִּנְחָה, אֵין הָאוֹכֵל אֶת הַקֹּמֶץ בְּכָרֵת, שֶׁאֵין הַפִּגּוּל חָל אֶלָּא עַל דָּבָר שֶׁיֵּשׁ לוֹ מַתִּירִין אֲחֵרִים, וְהַקֹּמֶץ אֵין אַחֵר מַתִּירוֹ, כִּי הוּא מַתִּיר אֶת הַמִּנְחָה, וְכֵן לְבוֹנָה וְכֵן כֻּלָּם.

Rashi precisa que a excisão em jogo aqui é a devida a comer algo que se tornou pigul, e explica com o exemplo do punhado o mecanismo geral: quando o sacerdote separa o punhado com a intenção de comer o restante da oferenda depois do prazo, é o restante — que depende do punhado como seu habilitador — que se torna pigul; o punhado em si, por não ter nenhum habilitador anterior a ele (é ele quem habilita a oferenda, não o contrário), permanece fora do alcance do pigul, e o mesmo raciocínio se estende ao incenso e a todos os demais itens da lista.