A terceira mishná estabelece a regra geral sobre a distribuição dos couros conforme o grau de santidade da oferenda: leve para os donos, santíssima para os sacerdotes. A demonstração é construída por inferência a fortiori a partir da oferenda de queima total, com a rejeição explícita de uma objeção baseada no altar, que nunca recebe couro algum.
Os couros das oferendas de santidade leve pertencem aos donos, e os couros das oferendas santíssimas pertencem aos sacerdotes — por inferência a fortiori: se quanto à oferenda de queima total, na qual não adquiriram a carne, adquiriram o couro, quanto às oferendas santíssimas, nas quais adquiriram a carne, não é justo que adquiram o couro? E não pode provar o altar, pois este não tem couro algum, em lugar nenhum. — A mishná estabelece a regra geral sobre a distribuição dos couros conforme o grau de santidade da oferenda: os de santidade leve — como as pazes e o dízimo do gado — pertencem aos donos, enquanto os das oferendas santíssimas — como a expiação e a culpa — pertencem aos sacerdotes. A prova é construída por inferência a fortiori a partir da oferenda de queima total: nesta, os sacerdotes não recebem sequer a carne, que é inteiramente queimada — e, mesmo assim, recebem o couro; logo, nas oferendas santíssimas, cuja carne os sacerdotes efetivamente comem, com muito mais razão deveriam receber também o couro. A mishná antecipa e descarta uma possível objeção: não se pode contestar essa inferência dizendo que "o altar prova o contrário" — pois o altar nunca recebe couro algum, de nenhuma oferenda, o que o torna irrelevante para o raciocínio.
Rambam expõe a estrutura lógica da inferência a fortiori e sua possível objeção: alguém poderia contestar dizendo que "o altar prova o contrário", pois o altar adquire a carne da oferenda de queima total (os pedaços queimados sobre ele) mas não adquire o seu couro — e, por analogia, também nas oferendas santíssimas os sacerdotes poderiam adquirir a carne sem adquirir o couro. Rambam explica que a mishná já responde a essa objeção: o altar não é um paralelo válido, porque ele nunca adquire couro algum, de nenhuma oferenda — nem da oferenda de queima total, nem de qualquer outra. Se houvesse algum sacrifício cujo couro fosse consumido no altar, poderíamos então dizer que "o altar prova" que é possível adquirir a carne sem o couro; mas, como o altar simplesmente não tem parte alguma no couro de nenhuma oferenda, ele não serve como modelo para negar aos sacerdotes o direito ao couro das oferendas santíssimas. A inferência a fortiori permanece, portanto, válida: assim como os sacerdotes adquiriram o couro da oferenda de queima total, também devem adquirir o couro da expiação e da culpa.
Bartenura esclarece que a base bíblica para atribuir aos donos o couro das oferendas de santidade leve é o mesmo versículo "o couro da oferenda de queima total" lido por analogia: assim como a oferenda de queima total é uma oferenda santíssima cujo couro, no caso especial dela, vai aos sacerdotes por exceção expressa, as demais oferendas santíssimas seguem essa mesma exceção, enquanto as de santidade leve — não abrangidas por ela — voltam à regra padrão de pertencerem aos donos. Identifica "oferendas santíssimas" como a expiação e a culpa. E explica a objeção do "altar": alguém poderia dizer que o altar prova que é possível adquirir a carne (no caso, os pedaços queimados) sem adquirir o couro, e portanto os sacerdotes, mesmo adquirindo a carne das oferendas santíssimas, não deveriam automaticamente adquirir seu couro. Mas essa não é uma prova válida, pois o altar nunca adquire couro algum, de nenhuma oferenda — o argumento não se sustenta. Já quanto aos sacerdotes, encontramos que eles efetivamente adquiriram o couro da oferenda de queima total; e, por inferência a fortiori, deveriam adquirir também o couro das oferendas santíssimas.
Rashi identifica as "oferendas santíssimas" mencionadas na mishná como a expiação e a culpa, cujo couro pertence aos sacerdotes pelo motivo que a própria mishná passa a explicar. Sobre a objeção do altar, Rashi confirma a leitura de que ela é descartada precisamente porque o altar, em qualquer oferenda, nunca recebe couro algum — o que o torna inútil como paralelo para negar aos sacerdotes o direito sobre o couro das oferendas santíssimas. Já quanto aos sacerdotes, encontramos precedente positivo — eles adquiriram o couro da oferenda de queima total — e daí se conclui, por inferência a fortiori, que devem adquirir também o couro das oferendas santíssimas.