Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Yud-Bet · Mishná 3 de 6

Os couros das oferendas de santidade leve pertencem aos donos

עוֹרוֹת קָדָשִׁים קַלִּים לַבְּעָלִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A terceira mishná estabelece a regra geral sobre a distribuição dos couros conforme o grau de santidade da oferenda: leve para os donos, santíssima para os sacerdotes. A demonstração é construída por inferência a fortiori a partir da oferenda de queima total, com a rejeição explícita de uma objeção baseada no altar, que nunca recebe couro algum.

Os couros das oferendas de santidade leve pertencem aos donos; os das oferendas santíssimas pertencem aos sacerdotes — por inferência a fortiori a partir da oferenda de queima total, cuja carne não é dos sacerdotes, mas cujo couro é.

Os couros das oferendas de santidade leve pertencem aos donos, e os couros das oferendas santíssimas pertencem aos sacerdotes — por inferência a fortiori: se quanto à oferenda de queima total, na qual não adquiriram a carne, adquiriram o couro, quanto às oferendas santíssimas, nas quais adquiriram a carne, não é justo que adquiram o couro? E não pode provar o altar, pois este não tem couro algum, em lugar nenhum.A mishná estabelece a regra geral sobre a distribuição dos couros conforme o grau de santidade da oferenda: os de santidade leve — como as pazes e o dízimo do gado — pertencem aos donos, enquanto os das oferendas santíssimas — como a expiação e a culpa — pertencem aos sacerdotes. A prova é construída por inferência a fortiori a partir da oferenda de queima total: nesta, os sacerdotes não recebem sequer a carne, que é inteiramente queimada — e, mesmo assim, recebem o couro; logo, nas oferendas santíssimas, cuja carne os sacerdotes efetivamente comem, com muito mais razão deveriam receber também o couro. A mishná antecipa e descarta uma possível objeção: não se pode contestar essa inferência dizendo que "o altar prova o contrário" — pois o altar nunca recebe couro algum, de nenhuma oferenda, o que o torna irrelevante para o raciocínio.

עוֹרוֹת קָדָשִׁים קַלִּים לַבְּעָלִים, וְעוֹרוֹת קָדְשֵׁי קָדָשִׁים לַכֹּהֲנִים. קַל וָחֹמֶר, מָה אִם עוֹלָה, שֶׁלֹּא זָכוּ בִבְשָׂרָהּ, זָכוּ בְעוֹרָהּ, קָדְשֵׁי קָדָשִׁים, שֶׁזָּכוּ בִבְשָׂרָהּ, אֵינוֹ דִין שֶׁיִּזְכּוּ בְעוֹרָהּ. אֵין מִזְבֵּחַ יוֹכִיחַ, שֶׁאֵין לוֹ עוֹר מִכָּל מָקוֹם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 12:3
עורות קדשים קלים לבעלים ועורות קדשי כו': מקשה כי הקשה עליו בזה ההיקש שהקיש בק"ו ואמר מזבח יוכיח שזכה בבשרה ולא זכה בעורה אף אתה אל תתמה על קדשי קדשים שאע"פ שזכו בבשרן לא יזכו בעורן השיב על הקושיא הזאת שהמזבח יוכיח שאין לו עור בכל מקום נתבארה התשובה הזאת שאינו קרב במזבח עור כל עיקר לא בעולה ולא בזולתו ואילו היו שום קרבן נקרב בעורו היינו אומר בקדשי קדשים על המזבח יוכיח שזכה בבשר רוצה לומר האימורים ולא זכה בעור כמו שזכה בעור בקרבן פלוני אבל הואיל והמזבח אינו זוכה בעור בשום פנים ואפילו מן העולה אינו ראוי ללמד ממנו מה שלא זכה בעור קדשי קדשים ונתקיים ההיקש בכהנים שזכו בעור העולה וגם כן יזכו בעור חטאת ואשם:

Rambam expõe a estrutura lógica da inferência a fortiori e sua possível objeção: alguém poderia contestar dizendo que "o altar prova o contrário", pois o altar adquire a carne da oferenda de queima total (os pedaços queimados sobre ele) mas não adquire o seu couro — e, por analogia, também nas oferendas santíssimas os sacerdotes poderiam adquirir a carne sem adquirir o couro. Rambam explica que a mishná já responde a essa objeção: o altar não é um paralelo válido, porque ele nunca adquire couro algum, de nenhuma oferenda — nem da oferenda de queima total, nem de qualquer outra. Se houvesse algum sacrifício cujo couro fosse consumido no altar, poderíamos então dizer que "o altar prova" que é possível adquirir a carne sem o couro; mas, como o altar simplesmente não tem parte alguma no couro de nenhuma oferenda, ele não serve como modelo para negar aos sacerdotes o direito ao couro das oferendas santíssimas. A inferência a fortiori permanece, portanto, válida: assim como os sacerdotes adquiriram o couro da oferenda de queima total, também devem adquirir o couro da expiação e da culpa.

Bartenura · Zevachim 12:3
עוֹרוֹת קָדָשִׁים קַלִּים לַבְּעָלִים. דִּכְתִיב עוֹר הָעוֹלָה וְגוֹ', מָה עוֹלָה קָדְשֵׁי קָדָשִׁים אַף כָּל קָדְשֵׁי קָדָשִׁים: עוֹרוֹת קָדְשֵׁי קָדָשִׁים. חַטָּאוֹת וַאֲשָׁמוֹת: לַכֹּהֲנִים. כְּדִמְפָרֵשׁ טַעֲמָא וְאָזֵיל: אֵין הַמִּזְבֵּחַ מוֹכִיחַ. כְּלוֹמַר, אֵין לְךָ לוֹמַר מִזְבֵּחַ יוֹכִיחַ שֶׁזָּכָה בִּבְשַׂר הָעוֹלָה וְלֹא זָכָה בָּעוֹר, וְאַף אַתָּה אַל תִּתְמַהּ בְּקָדְשֵׁי קָדָשִׁים שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁזָּכוּ כֹּהֲנִים בִּבְשָׂרָן לֹא יִזְכּוּ בְעוֹרָן. אֵין זוֹ הוֹכָחָה, שֶׁאֵין לַמִּזְבֵּחַ עוֹר בְּכָל מָקוֹם. אֲבָל בַּכֹּהֲנִים מָצִינוּ שֶׁזָּכוּ בְּעוֹר הָעוֹלָה, וְקַל וָחֹמֶר שֶׁיִּזְכּוּ בְּעוֹרוֹת קָדְשֵׁי קָדָשִׁים:

Bartenura esclarece que a base bíblica para atribuir aos donos o couro das oferendas de santidade leve é o mesmo versículo "o couro da oferenda de queima total" lido por analogia: assim como a oferenda de queima total é uma oferenda santíssima cujo couro, no caso especial dela, vai aos sacerdotes por exceção expressa, as demais oferendas santíssimas seguem essa mesma exceção, enquanto as de santidade leve — não abrangidas por ela — voltam à regra padrão de pertencerem aos donos. Identifica "oferendas santíssimas" como a expiação e a culpa. E explica a objeção do "altar": alguém poderia dizer que o altar prova que é possível adquirir a carne (no caso, os pedaços queimados) sem adquirir o couro, e portanto os sacerdotes, mesmo adquirindo a carne das oferendas santíssimas, não deveriam automaticamente adquirir seu couro. Mas essa não é uma prova válida, pois o altar nunca adquire couro algum, de nenhuma oferenda — o argumento não se sustenta. Já quanto aos sacerdotes, encontramos que eles efetivamente adquiriram o couro da oferenda de queima total; e, por inferência a fortiori, deveriam adquirir também o couro das oferendas santíssimas.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 103a, sobre a Guemará desta mishná
עוֹרוֹת קָדְשֵׁי קָדָשִׁים — חַטָּאוֹת וַאֲשָׁמוֹת לַכֹּהֲנִים כִּדְמְפָרֵשׁ טַעֲמָא וְאָזֵיל: אֵין הַמִּזְבֵּחַ מוֹכִיחַ — כְּלוֹמַר וְאֵין לְךָ לוֹמַר מִזְבֵּחַ יוֹכִיחַ שֶׁזָּכָה בִּבְשַׂר הָעוֹלָה וְלֹא זָכָה בְּעוֹרָהּ וְאַף אַתָּה אַל תִּתְמַהּ בְּקָדְשֵׁי קָדָשִׁים שֶׁאַף עַל פִּי שֶׁזָּכוּ כֹּהֲנִים בִּבְשָׂרָן לֹא יִזְכּוּ בְעוֹרָן אֵין זוֹ הוֹכָחָה שֶׁאֵין לַמִּזְבֵּחַ עוֹר בְּכָל מָקוֹם אֲבָל לַכֹּהֲנִים מָצִינוּ שֶׁזָּכוּ בְּעוֹר הָעוֹלָה וְקַל וָחוֹמֶר שֶׁיִּזְכּוּ בְּעוֹרוֹת קָדְשֵׁי קָדָשִׁים:

Rashi identifica as "oferendas santíssimas" mencionadas na mishná como a expiação e a culpa, cujo couro pertence aos sacerdotes pelo motivo que a própria mishná passa a explicar. Sobre a objeção do altar, Rashi confirma a leitura de que ela é descartada precisamente porque o altar, em qualquer oferenda, nunca recebe couro algum — o que o torna inútil como paralelo para negar aos sacerdotes o direito sobre o couro das oferendas santíssimas. Já quanto aos sacerdotes, encontramos precedente positivo — eles adquiriram o couro da oferenda de queima total — e daí se conclui, por inferência a fortiori, que devem adquirir também o couro das oferendas santíssimas.