A primeira mishná do Perek Yud-Bet inaugura o tema que ocupará todo o capítulo: as condições exatas que determinam se um sacerdote recebe, ou não, sua porção na carne e nos couros das oferendas. A mishná trata primeiro das exclusões temporárias — impureza recente, luto agudo — e depois do caso dos portadores de defeito físico, fechando com o princípio geral que rege tudo: a porção segue a aptidão exata no momento da aspersão do sangue.
O imerso do dia e o que ainda carece de expiação não recebem porção nas oferendas para comer à noite. O enlutado toca, mas não oferece, e não recebe porção para comer à noite. — A mishná abre o capítulo com os sacerdotes que, por alguma condição temporária, ficam impedidos de participar da distribuição da carne sacrificial. O imerso do dia já se purificou pela imersão, mas ainda aguarda o pôr do sol para que sua purificação se complete; o que ainda carece de expiação — caso típico do zav e do metzora que já imergiram, mas ainda não trouxeram a oferenda que fecha seu processo de purificação — está numa situação semelhante. Ambos ficam fora da divisão da carne mesmo tendo em vista que, à noite, já estariam aptos a comer. O enlutado agudo — aquele cujo parente próximo faleceu naquele mesmo dia — não está impuro, e por isso pode tocar a carne sacrificial; mas não pode oferecer, e também não recebe porção para comer à noite.
Os portadores de defeito — sejam defeitos permanentes, sejam defeitos passageiros — recebem porção e comem, mas não oferecem. E todo aquele que não é apto para o serviço não recebe porção na carne. E todo aquele que não tem porção na carne não tem porção nos couros. — Diferente das condições anteriores, o defeito físico não impede a aptidão para comer, apenas a aptidão para servir no altar — por isso os sacerdotes portadores de defeito, permanente ou passageiro, recebem sua porção e comem normalmente, embora estejam excluídos do serviço propriamente dito. A mishná então formula o princípio geral que rege todo o capítulo: a inaptidão para o serviço, por si só, já exclui da divisão da carne; e quem fica excluído da carne fica, por consequência, também excluído da divisão dos couros dos animais — tema que ocupará o restante do capítulo.
Mesmo que estivesse impuro no momento da aspersão do sangue e puro no momento da queima dos sebos, não recebe porção na carne, pois está dito: "Aquele que oferece o sangue das oferendas pacíficas e o sebo, dentre os filhos de Aarão, a ele pertencerá a coxa direita como porção." — A mishná fecha com o caso-limite, que prova o rigor do princípio: mesmo que a impureza tenha durado apenas o instante da aspersão do sangue — o momento crucial do serviço — e o sacerdote já estivesse puro depois, na hora de queimar os sebos no altar, ainda assim ele não recebe porção. A base é o próprio versículo sobre a oferenda pacífica, que vincula o direito à porção à aptidão para oferecer o sangue: quem não pôde aspergir o sangue não tem porção na carne, ainda que tenha participado de outras etapas do serviço.
Rambam explica que o imerso do dia e o que carece de expiação não estão aptos nem para comer a carne sacrificial nem para servir no altar, pois sua purificação ainda não se completou; e já foi estabelecido, no segundo capítulo deste tratado, que a regra geral é que todo sacerdote apto a comer recebe porção — como estes não estão aptos a comer agora, não recebem porção reservada, pois a intenção da Torá é dar direito apenas a quem está apto no exato momento do serviço, não a quem apenas comerá depois. Sobre o enlutado, Rambam remete ao que já explicou no início do segundo capítulo: ele só pode tocar a carne sacrificial depois de imergir, com a condição de não desviar sua atenção da imersão. Sobre os portadores de defeito, Rambam observa que não se deve estranhar sua inclusão na divisão, pois o próprio versículo os inclui explicitamente entre os que comem do pão de seu D-us, dentre as santidades. E fixa o princípio central: ninguém recebe porção a menos que esteja puro desde o momento da aspersão do sangue até o momento da queima dos sebos; se ficou impuro nesse intervalo, não recebe porção.
Bartenura precisa cada termo técnico: o "imerso do dia" é quem já imergiu e saiu da água, mas ainda não anoiteceu; o que "carece de expiação" é, por exemplo, o zav, o metzora ou a parturiente que já imergiram e já anoiteceu, mas ainda não trouxeram sua oferenda de expiação. Explica que ambos não recebem porção porque só quem está apto a comer no momento em que a divisão ocorre recebe porção — e demonstra essa leitura a partir do próprio versículo sobre a oferenda de pecado, "o sacerdote que a purifica a comerá", do qual se deduz que a divisão segue a aptidão para comer, não para o serviço em si; por isso os portadores de defeito, embora inaptos ao serviço, recebem porção, já que são aptos a comer, como está dito expressamente a respeito deles. Sobre o enlutado, Bartenura acrescenta a condição: ele deve ter imergido e não ter desviado sua atenção da imersão enquanto durar seu luto — caso contrário, mesmo depois de imergir, desqualifica pelo toque. E confirma, por fim, que a exigência de pureza contínua entre a aspersão do sangue e a queima dos sebos é absoluta: quem ficou impuro em qualquer ponto do intervalo não recebe porção.
Rashi observa, num único comentário breve que introduz a mishná, o fundamento comum às duas primeiras categorias mencionadas: tanto o imerso do dia quanto o que ainda carece de expiação estão excluídos da divisão da carne pelo mesmo motivo básico — nenhum dos dois está apto, naquele momento, a comer da carne sacrificial. É essa inaptidão presente para a comida, e não a mera expectativa de tornar-se apto à noite, que determina a exclusão da porção reservada a ser consumida depois.