Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Yud-Alef · Mishná 3 de 8

Espirrou-se do pescoço sobre a veste, não requer lavagem

נִתַּז מִן הַצַּוָּאר עַל הַבֶּגֶד אֵינוֹ טָעוּן כִּבּוּס
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A terceira mishná refina os limites técnicos exatos da regra: só o sangue que já foi recebido em um vaso sagrado e está apto para a aspersão obriga a lavagem da veste manchada — não o que respinga diretamente do pescoço do animal, nem o que já cumpriu seu papel no canto ou na base do altar, nem o que caiu no chão e foi recolhido depois. A mishná discute ainda, entre Rabi Iehudá e Rabi Eliezer, se a pele do animal, antes ou depois de esfolada, está sujeita à mesma obrigação que uma veste comum.

O sangue que respinga diretamente do pescoço do animal, ou do canto ou da base do altar, ou que caiu no chão e foi recolhido, não obriga lavagem — pois só o sangue recebido em vaso e apto para a aspersão gera essa obrigação.

Espirrou-se do pescoço sobre a veste — não requer lavagem. Do canto e da base — não requer lavagem. Derramou-se sobre o pavimento e o recolheu — não requer lavagem.A mishná lista três situações em que o sangue, apesar de tocar a veste, não obriga lavagem: quando respinga diretamente do corte no pescoço do animal, antes de ser recolhido em vaso; quando já foi aspergido no canto do altar ou derramado sobre sua base, cumprindo assim seu papel; e quando caiu primeiro no chão, sendo depois recolhido — pois nesse caso perdeu, ao cair, sua aptidão original para a aspersão.

Não requer lavagem senão o sangue que foi recebido em um recipiente e é apto para aspersão.A mishná fecha o raciocínio com o princípio geral por trás dos três casos: a obrigação de lavar a veste manchada só se aplica ao sangue que, no momento em que respinga, está tecnicamente apto para ser aspergido — ou seja, que já foi recebido corretamente em um vaso sagrado, sem ter perdido essa aptidão por qualquer desvio no processo.

נִתַּז מִן הַצַּוָּאר עַל הַבֶּגֶד, אֵינוֹ טָעוּן כִּבּוּס. מִן הַקֶּרֶן וּמִן הַיְסוֹד, אֵינוֹ טָעוּן כִּבּוּס. נִשְׁפַּךְ עַל הָרִצְפָּה וַאֲסָפוֹ, אֵינוֹ טָעוּן כִּבּוּס. אֵין טָעוּן כִּבּוּס אֶלָּא הַדָּם שֶׁנִּתְקַבֵּל בִּכְלִי וְרָאוּי לְהַזָּיָה:
Quanto ao sangue que respinga sobre a pele do animal: se antes de esfolada, não requer lavagem; se depois de esfolada, requer lavagem, segundo Rabi Iehudá — mas Rabi Eliezer discorda mesmo nesse caso; e o princípio geral é que só o lugar exato do sangue, num item apto para receber impureza e para ser lavado, entra na obrigação.

Espirrou-se sobre a pele antes de ser esfolada, não requer lavagem. Depois de esfolada, requer lavagem, palavras de Rabi Iehudá.A mishná passa a discutir o caso da pele do animal ainda em processo de esfola. Segundo Rabi Iehudá, a pele que ainda cobre o animal não tem o estatuto de "veste" apta a receber impureza, e por isso o sangue que a mancha não obriga lavagem; mas, uma vez esfolada e separada do corpo do animal, a pele passa a ter esse estatuto, tornando-se sujeita à mesma obrigação de uma veste comum.

Rabi Eliezer diz: mesmo depois de esfolada não requer lavagem.Rabi Eliezer discorda, exigindo um grau ainda maior de aptidão: para ele, a pele só se equipara a uma veste depois de curtida e preparada para uso como tal — a mera separação do corpo do animal não basta para sujeitá-la à obrigação de lavagem.

Não requer lavagem senão o lugar do sangue, e algo que seja apto para receber impureza, e apto para lavagem.A mishná fecha esta seção com três condições cumulativas para que a obrigação de lavar se aplique: primeiro, só se lava o próprio lugar manchado, não a peça inteira; segundo, o material precisa ser, por sua natureza, apto a receber impureza — o que exclui, por exemplo, objetos de madeira; e terceiro, precisa ser um material que a lavagem efetivamente limpe, e não apenas raspe.

נִתַּז עַל הָעוֹר עַד שֶׁלֹּא הֻפְשַׁט, אֵינוֹ טָעוּן כִּבּוּס. מִשֶּׁהֻפְשַׁט, טָעוּן כִּבּוּס, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אַף מִשֶּׁהֻפְשַׁט אֵינוֹ טָעוּן כִּבּוּס. אֵינוֹ טָעוּן כִּבּוּס אֶלָּא מְקוֹם הַדָּם, וְדָבָר שֶׁהוּא רָאוּי לְקַבֵּל טֻמְאָה, וְרָאוּי לְכִבּוּס:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 11:3
נתן מן הצואר על הבגד אינו טעון כבוס מן הקרן כו': הכל מסכימים שהעור עם צמרו בשעה שמפשיטין אותו קודם שיעבד ויתקן אותו אינו מטמא כשאר הטומאות אבל הוא ראוי לטומאה, ואמר בחטאת ואשר יזה מדמה על הבגד, רבי יהודה אומר מה בגד הראוי לקבל טומאה אף כל הראוי לקבל טומאה, והעור שהופשט ראוי, ואע"פ שעכשיו אינו מתטמא. ומה שאמר מקום הדם לא כל הבגד, שנאמר אשר יזה עליה תכבס. ומה שאמר וראוי לכבוס להוציא כלי העץ והדומה להן, ואע"פ שהן מקבלין טומאה אין חייבין כבוס מדם החטאת אם נפל עליהן לפי שאין ראויין לכבוס רק לגרר, והלכה כרבי יהודה:

Rambam explica a base da disputa entre Rabi Iehudá e Rabi Eliezer: todos concordam que a pele com seu pelo, no momento em que está sendo esfolada, antes de curtida e preparada, ainda não se contamina como as demais coisas suscetíveis à impureza — mas já é apta, potencialmente, a essa impureza. A partir do versículo "e o que se espirrar de seu sangue sobre a veste", Rabi Iehudá deriva o princípio: assim como a veste é algo apto a receber impureza, também tudo o que for apto a receber impureza entra na regra — e a pele já esfolada se enquadra nessa aptidão, mesmo que ainda não se contamine de fato. Sobre "o lugar do sangue", Rambam explica que a lei exige lavar apenas a mancha, não a veste inteira, como está dito "o que se espirrou sobre ela lavarás". E sobre "apto para lavagem", explica que essa condição exclui objetos de madeira: ainda que sejam suscetíveis à impureza, não ficam obrigados à lavagem do sangue de oferenda de pecado que caia sobre eles, pois não são objetos que se lavam, mas apenas se raspam. A lei segue Rabi Iehudá.

Bartenura · Zevachim 11:3
עַד שֶׁלֹּא הֻפְשַׁט אֵין טָעוּן כִּבּוּס. דִּכְתִיב עַל הַבֶּגֶד, מַה בֶּגֶד הָרָאוּי לְקַבֵּל טֻמְאָה... אַף כָּל הָרָאוּי לְקַבֵּל טֻמְאָה, וְעַד שֶׁלֹּא הֻפְשַׁט אֵינוֹ רָאוּי לְקַבֵּל טֻמְאָה, וּמִשֶּׁהֻפְשַׁט הָוֵי רָאוּי לְקַבֵּל טֻמְאָה אִם חָשַׁב עָלָיו לַעֲשׂוֹת אוֹתוֹ מִכְסֶה לְמֶרְכָּבָה אוֹ לְכַסּוֹת בּוֹ אֶת הַמִּטָּה: אַף מִשֶּׁהֻפְשַׁט. כָּל זְמַן שֶׁלֹּא נִתְקַן לִהְיוֹת כְּלִי, אֵין טָעוּן כִּבּוּס דְּבָעִינַן דָּבָר הַמְקַבֵּל טֻמְאָה שֶׁאֵין מְחֻסָּר אֲפִלּוּ מַחֲשָׁבָה: וְרָאוּי לְכִבּוּס. לְמַעוֹטֵי כְּלִי עֵץ, דְּאַף עַל גַּב דִּמְקַבֵּל טֻמְאָה הוּא אֵינוֹ רָאוּי לְכִבּוּס, דְּבַר גְּרִידָה הוּא וְלֹא בַּר כִּבּוּס:

Bartenura precisa a lógica de Rabi Iehudá: a pele, uma vez esfolada, já pode ser considerada apta a receber impureza — desde que se pense nela como cobertura para uma sela ou para forrar um leito, ainda que não tenha sido curtida. Já Rabi Eliezer discorda, exigindo que a peça esteja de fato pronta como utensílio, sem depender apenas de um pensamento de destinação. Sobre "apto para lavagem", Bartenura confirma que essa condição exclui objetos de madeira: ainda que suscetíveis à impureza, não são coisas que se lavam, mas apenas se raspam — e a halachá segue Rabi Iehudá.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רש״י
Zevachim 93a–93b, sobre a Guemará desta mishná
מַתְנִי' נִיתַּז מִן הַצַּוָּאר עַל הַבֶּגֶד כוּ' — כִּדְמְפָרֵשׁ טַעְמָא בַּגְּמָרָא: מִן הַקֶּרֶן — שֶׁל מִזְבֵּחַ, וּמִן הַיְסוֹד — שֶׁל שִׁירַיִם, דְּמִשֶּׁנִּתַּן מַתַּן דָּמָהּ אֵין שִׁירַיִם טְעוּנִין כִּבּוּס: נִשְׁפַּךְ עַל הָרִצְפָּה — מִצַּוָּאר בְּהֵמָה: מַתְנִי' עַד שֶׁלֹּא הֻפְשַׁט אֵין טָעוּן כִּבּוּס — טַעְמָא מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא דְּבָעִינַן רָאוּי לְקַבֵּל טֻמְאָה בְּלֹא חִסָּרוֹן מְלָאכָה: אֵינוֹ טָעוּן כִּבּוּס אֶלָּא מְקוֹם הַדָּם — וְלֹא כָל הַבֶּגֶד: וְרָאוּי לְכִבּוּס — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לְמַעוֹטֵי מַאי:

Rashi esclarece que "do canto" se refere ao canto do próprio altar, e "da base" ao sangue restante destinado a ser derramado sobre a base — pois, uma vez cumprida a aplicação obrigatória do sangue, o restante já não obriga lavagem se cair sobre uma veste. "Derramou-se sobre o pavimento" refere-se ao sangue que caiu do pescoço do animal diretamente no chão, antes de ser recolhido em vaso. Sobre a disputa da pele, Rashi explica que o motivo exige um objeto "apto a receber impureza sem que falte apenas o trabalho de acabamento" — distinção que fundamenta a posição de Rabi Iehudá contra a de Rabi Eliezer, que exige a peça já pronta como utensílio. E confirma que "apto para lavagem" é explicado na Guemará como exclusão específica dos utensílios de madeira.