A oferenda pascal que se abateu pela manhã de catorze, não em seu nome — Rabi Yehoshua a valida, como se tivesse sido abatida em treze. Ben Betera a invalida, como se tivesse sido abatida entre as tardes. — A mishná retoma o tema do tempo próprio da oferenda pascal, já mencionado na primeira mishná: ela só se invalida por intenção incorreta quando abatida "em seu tempo" — a tarde de 14 de Nissan. Surge então a pergunta sobre a manhã desse mesmo dia 14: ainda não chegou "entre as tardes" (bein ha'arbáyim), o horário determinado pela Torá para o abate da oferenda pascal, mas já é o dia 14. Rabi Yehoshua sustenta que a manhã de 14 de Nissan ainda conta como se fosse o dia anterior, 13 de Nissan — fora do tempo próprio do pêssach — e por isso, abatida sem a intenção correta nesse horário, permanece válida (embora não cumpra a obrigação, como qualquer sacrifício comum). Ben Betera discorda: para ele, uma vez que uma parte do dia 14 já é apta para o abate do pêssach mais tarde, todo o dia 14, incluindo sua manhã, já se considera "seu tempo", e por isso a oferenda abatida sem a intenção correta nessa manhã se invalida como se tivesse sido abatida na própria tarde.
Disse Shimon ben Azzai: recebi da boca de setenta e dois anciãos, no dia em que instalaram Rabi Elazar ben Azaryá na academia, que todos os sacrifícios comestíveis que foram abatidos não em seu nome são válidos, mas não satisfazem a obrigação dos donos, exceto a oferenda pascal e a oferenda de pecado. E ben Azzai não acrescentou senão a oferenda de holocausto, e os sábios não concordaram com ele. — Ben Azzai relata uma tradição solene, recebida por transmissão oral direta de uma assembleia de setenta e dois sábios — o número que compunha o Sinédrio quando Rabi Elazar ben Azaryá foi elevado à presidência da academia, substituindo Rabán Gamliel, um momento célebre na história rabínica. Essa tradição confirma, com uma pequena mas significativa qualificação, o princípio da primeira mishná: a regra vale para todos os sacrifícios comestíveis — ou seja, aqueles cuja carne pode ser consumida por sacerdotes ou donos. Ben Azzai então acrescenta, por sua própria dedução, que a oferenda de holocausto (olá) — que não é comestível, sendo totalmente queimada — deveria talvez se equiparar ao pêssach e ao chatat nessa invalidação; mas os demais sábios não aceitaram esse acréscimo, mantendo a olá na categoria geral dos sacrifícios válidos mesmo quando abatidos sem a intenção correta.
A disputa entre Rabi Yehoshua e Ben Betera gira em torno do sentido exato da expressão bíblica que fixa o horário do abate da oferenda pascal.
A expressão "entre as tardes" (בֵּין הָעַרְבָּיִם) é o eixo de toda a controvérsia. A Guemará explica que ela designa o período entre o declínio do sol do meio-dia e o pôr do sol da tarde do dia 14 — e é sobre a manhã desse mesmo dia, ainda distante desse horário, que Rabi Yehoshua e Ben Betera discordam: se ela já pertence ao "tempo" da oferenda pascal (tornando-a sujeita à invalidação por intenção incorreta) ou se ainda se equipara aos demais dias do ano, antes do horário determinado pelo versículo.
Rambam recorda que a Torá fixa o horário da oferenda pascal como "entre as tardes", e que, como já explicado, uma oferenda pascal abatida fora de seu tempo próprio sem a intenção correta é válida. Rabi Yehoshua sustenta que o "tempo" relevante para a invalidação por intenção incorreta é apenas o horário de "entre as tardes" — antes disso, mesmo já no dia 14, se foi abatida pela manhã, ainda não é considerado seu tempo. Ben Betera discorda: uma vez que parte do dia 14 já é apto para o abate, todo o dia 14 é considerado seu tempo, e por isso a oferenda abatida sem a intenção correta em qualquer hora desse dia — mesmo pela manhã — é inválida. Rambam observa ainda, sobre a tradição de ben Azzai, que a lei não segue seu acréscimo da oferenda de holocausto — pois, como já explicado, a olá é "totalmente para o fogo" e não se equipara aos sacrifícios comestíveis — mas a lei segue Ben Betera quanto à disputa principal.
Bartenura explica que Rabi Yehoshua valida a oferenda pascal abatida pela manhã de 14, sem a intenção correta, por considerá-la ainda como um pêssach fora de seu tempo — já que seu tempo próprio só começa entre as tardes. Ben Betera a invalida porque, uma vez que parte do dia 14 já é apta para o abate mais tarde, esse dia inteiro já tem o status de "seu tempo"; e a lei segue Ben Betera. Sobre a expressão "setenta e dois anciãos", Bartenura nota a precisão gramatical: a mishná diz "ancião" no singular, não "anciãos", para ensinar que todos estavam reunidos numa única sessão e decidiram como uma só pessoa, por unanimidade. "Todos os sacrifícios comestíveis" exclui a oferenda de holocausto, que não é comida por ninguém; e por isso "ben Azzai não acrescentou" senão a olá à lista das exceções — um acréscimo que os sábios não aceitaram.
Rashi confirma, brevemente, o sentido de cada elemento da mishná: Rabi Yehoshua a valida por considerá-la ainda como uma oferenda pascal fora de seu tempo próprio; a razão de Ben Betera é explicada mais adiante na Guemará; e "setenta e dois anciãos" no singular ensina que a decisão foi unânime, tomada como se fosse uma só voz. Sobre a Guemará, Rashi relata que Rabi Elazar, em nome de Rabi Oshaya, explica que Ben Betera na verdade validava a oferenda pascal abatida pela manhã com a intenção correta — pois, sendo já "seu tempo", o abate matinal seria válido, ainda que o ideal fosse abatê-la mais tarde; e é justamente por já ser "seu tempo" que a intenção incorreta pela manhã a invalida, como se dá com a oferenda pascal abatida em sua tarde própria. A Guemará então levanta uma dificuldade: como pode a manhã ser considerada "seu tempo" se a Torá escreve explicitamente "entre as tardes"? Rashi explica a resposta de Ula, filho de Rav Ilai: a expressão "entre as tardes" pode ser lida como "entre os dois entardeceres" — do amanhecer até o pôr do sol —, ou seja, entre o fim da tarde de ontem e o início da tarde de hoje, abrangendo por extensão todo o dia 14, inclusive sua manhã.