Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Alef · Mishná 3 de 4

A oferenda pascal abatida pela manhã

הַפֶּסַח שֶׁשְּׁחָטוֹ בְשַׁחֲרִית בְּאַרְבָּעָה עָשָׂר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A disputa entre Rabi Yehoshua, que valida a oferenda pascal abatida sem a intenção correta na manhã de 14 de Nissan (tratando-a como se tivesse sido abatida no dia anterior, fora de seu tempo), e Ben Betera, que a invalida (tratando-a como se já estivesse em seu tempo próprio); e a tradição de Shimon ben Azzai, recebida dos setenta e dois anciãos no dia em que Rabi Elazar ben Azaryá foi instalado na presidência da academia, sobre a regra geral que abrange todos os sacrifícios comestíveis.

A oferenda pascal que se abateu pela manhã de catorze, não em seu nome — Rabi Yehoshua a valida, como se tivesse sido abatida em treze. Ben Betera a invalida, como se tivesse sido abatida entre as tardes.A mishná retoma o tema do tempo próprio da oferenda pascal, já mencionado na primeira mishná: ela só se invalida por intenção incorreta quando abatida "em seu tempo" — a tarde de 14 de Nissan. Surge então a pergunta sobre a manhã desse mesmo dia 14: ainda não chegou "entre as tardes" (bein ha'arbáyim), o horário determinado pela Torá para o abate da oferenda pascal, mas já é o dia 14. Rabi Yehoshua sustenta que a manhã de 14 de Nissan ainda conta como se fosse o dia anterior, 13 de Nissan — fora do tempo próprio do pêssach — e por isso, abatida sem a intenção correta nesse horário, permanece válida (embora não cumpra a obrigação, como qualquer sacrifício comum). Ben Betera discorda: para ele, uma vez que uma parte do dia 14 já é apta para o abate do pêssach mais tarde, todo o dia 14, incluindo sua manhã, já se considera "seu tempo", e por isso a oferenda abatida sem a intenção correta nessa manhã se invalida como se tivesse sido abatida na própria tarde.

Disse Shimon ben Azzai: recebi da boca de setenta e dois anciãos, no dia em que instalaram Rabi Elazar ben Azaryá na academia, que todos os sacrifícios comestíveis que foram abatidos não em seu nome são válidos, mas não satisfazem a obrigação dos donos, exceto a oferenda pascal e a oferenda de pecado. E ben Azzai não acrescentou senão a oferenda de holocausto, e os sábios não concordaram com ele.Ben Azzai relata uma tradição solene, recebida por transmissão oral direta de uma assembleia de setenta e dois sábios — o número que compunha o Sinédrio quando Rabi Elazar ben Azaryá foi elevado à presidência da academia, substituindo Rabán Gamliel, um momento célebre na história rabínica. Essa tradição confirma, com uma pequena mas significativa qualificação, o princípio da primeira mishná: a regra vale para todos os sacrifícios comestíveis — ou seja, aqueles cuja carne pode ser consumida por sacerdotes ou donos. Ben Azzai então acrescenta, por sua própria dedução, que a oferenda de holocausto (olá) — que não é comestível, sendo totalmente queimada — deveria talvez se equiparar ao pêssach e ao chatat nessa invalidação; mas os demais sábios não aceitaram esse acréscimo, mantendo a olá na categoria geral dos sacrifícios válidos mesmo quando abatidos sem a intenção correta.

הַפֶּסַח שֶׁשְּׁחָטוֹ בְשַׁחֲרִית בְּאַרְבָּעָה עָשָׂר שֶׁלֹּא לִשְׁמוֹ, רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ מַכְשִׁיר, כְּאִלּוּ נִשְׁחַט בִּשְׁלשָׁה עָשָׂר. בֶּן בְּתֵירָא פּוֹסֵל, כְּאִלּוּ נִשְׁחַט בֵּין הָעַרְבָּיִם. אָמַר שִׁמְעוֹן בֶּן עַזַּאי, מְקֻבָּל אֲנִי מִפִּי שִׁבְעִים וּשְׁנַיִם זָקֵן, בְּיוֹם שֶׁהוֹשִׁיבוּ רַבִּי אֶלְעָזָר בֶּן עֲזַרְיָה בַיְשִׁיבָה, שֶׁכָּל הַזְּבָחִים הַנֶּאֱכָלִים שֶׁנִּזְבְּחוּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן, כְּשֵׁרִים, אֶלָּא שֶׁלֹּא עָלוּ לַבְּעָלִים מִשּׁוּם חוֹבָה, חוּץ מִן הַפֶּסַח וּמִן הַחַטָּאת. וְלֹא הוֹסִיף בֶּן עַזַּאי אֶלָּא הָעוֹלָה, וְלֹא הוֹדוּ לוֹ חֲכָמִים:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A disputa entre Rabi Yehoshua e Ben Betera gira em torno do sentido exato da expressão bíblica que fixa o horário do abate da oferenda pascal.

Shemot 12:6
וְהָיָה לָכֶם לְמִשְׁמֶרֶת עַד אַרְבָּעָה עָשָׂר יוֹם לַחֹדֶשׁ הַזֶּה, וְשָׁחֲטוּ אֹתוֹ כֹּל קְהַל עֲדַת יִשְׂרָאֵל בֵּין הָעַרְבָּיִם.
E ficará em guarda até o décimo quarto dia deste mês, e o abaterá toda a assembleia da congregação de Israel entre as tardes.
Bamidbar 9:3
בְּאַרְבָּעָה עָשָׂר יוֹם בַּחֹדֶשׁ הַזֶּה בֵּין הָעַרְבַּיִם תַּעֲשׂוּ אֹתוֹ בְּמֹעֲדוֹ.
No décimo quarto dia deste mês, entre as tardes, o fareis em seu tempo determinado.

A expressão "entre as tardes" (בֵּין הָעַרְבָּיִם) é o eixo de toda a controvérsia. A Guemará explica que ela designa o período entre o declínio do sol do meio-dia e o pôr do sol da tarde do dia 14 — e é sobre a manhã desse mesmo dia, ainda distante desse horário, que Rabi Yehoshua e Ben Betera discordam: se ela já pertence ao "tempo" da oferenda pascal (tornando-a sujeita à invalidação por intenção incorreta) ou se ainda se equipara aos demais dias do ano, antes do horário determinado pelo versículo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 1:3
כְּבָר יָדַעְתָּ מַה שֶּׁאָמְרָה תוֹרָה בַּפֶּסַח בֵּין הָעַרְבָּיִם, וְהוֹדַעְתִּיךָ שֶׁפֶּסַח שֶׁשְּׁחָטוֹ בְּלֹא זְמַנּוֹ שֶׁלֹּא לִשְׁמוֹ כָּשֵׁר. וְאוֹמֵר רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ שֶׁזְּמַנּוֹ לְעִנְיַן שֶׁלֹּא לִשְׁמוֹ הוּא זְמַן שְׁחִיטַת בֵּין הָעַרְבָּיִם, אֲבָל קֹדֶם לָכֵן אִם שְׁחָטוֹ בִּתְחִלַּת הַיּוֹם לֹא. בֶּן בְּתֵירָא אוֹמֵר, יוֹם י"ד מִקְצָתוֹ רָאוּי, וּלְפִיכָךְ כָּל זְמַן שֶׁשְּׁחָטוֹ שֶׁלֹּא לִשְׁמוֹ יוֹם י"ד פָּסוּל, אֲפִלּוּ בִּתְחִלַּת הַיּוֹם... וְאֵין הֲלָכָה כְּבֶן עַזַּאי, וְהִלְכָה כְּבֶן בְּתֵירָא.

Rambam recorda que a Torá fixa o horário da oferenda pascal como "entre as tardes", e que, como já explicado, uma oferenda pascal abatida fora de seu tempo próprio sem a intenção correta é válida. Rabi Yehoshua sustenta que o "tempo" relevante para a invalidação por intenção incorreta é apenas o horário de "entre as tardes" — antes disso, mesmo já no dia 14, se foi abatida pela manhã, ainda não é considerado seu tempo. Ben Betera discorda: uma vez que parte do dia 14 já é apto para o abate, todo o dia 14 é considerado seu tempo, e por isso a oferenda abatida sem a intenção correta em qualquer hora desse dia — mesmo pela manhã — é inválida. Rambam observa ainda, sobre a tradição de ben Azzai, que a lei não segue seu acréscimo da oferenda de holocausto — pois, como já explicado, a olá é "totalmente para o fogo" e não se equipara aos sacrifícios comestíveis — mas a lei segue Ben Betera quanto à disputa principal.

Bartenura · Zevachim 1:3
רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ מַכְשִׁיר. דַּחֲשִׁיב לֵיהּ כְּפֶסַח בִּשְׁאָר יְמוֹת הַשָּׁנָה, הוֹאִיל וְאֵין זְמַנּוֹ עַד בֵּין הָעַרְבַּיִם: בֶּן בְּתֵירָא פּוֹסֵל. הוֹאִיל וּמִקְצָת הַיּוֹם רָאוּי הֲוָה לֵיהּ כְּפֶסַח בִּזְמַנּוֹ. וַהֲלָכָה כְּבֶן בְּתֵירָא: שִׁבְעִים וּשְׁנַיִם זָקֵן. לְהוֹדִיעֲךָ שֶׁבִּישִׁיבָה אַחַת הָיוּ יוֹשְׁבִים וְכֻלָּן הוֹרוּ כְּאִישׁ אֶחָד, לְכָךְ תָּנֵי זָקֵן וְלֹא תָנָא זְקֵנִים: כָּל הַזְּבָחִים הַנֶּאֱכָלִים. אֲבָל עוֹלָה לֹא: וְלֹא הוֹסִיף בֶּן עַזַּאי. עַל דִּבְרֵי חֲכָמִים לִפְסֹל חוּץ מִפֶּסַח וְחַטָּאת, אֶלָּא עוֹלָה.

Bartenura explica que Rabi Yehoshua valida a oferenda pascal abatida pela manhã de 14, sem a intenção correta, por considerá-la ainda como um pêssach fora de seu tempo — já que seu tempo próprio só começa entre as tardes. Ben Betera a invalida porque, uma vez que parte do dia 14 já é apta para o abate mais tarde, esse dia inteiro já tem o status de "seu tempo"; e a lei segue Ben Betera. Sobre a expressão "setenta e dois anciãos", Bartenura nota a precisão gramatical: a mishná diz "ancião" no singular, não "anciãos", para ensinar que todos estavam reunidos numa única sessão e decidiram como uma só pessoa, por unanimidade. "Todos os sacrifícios comestíveis" exclui a oferenda de holocausto, que não é comida por ninguém; e por isso "ben Azzai não acrescentou" senão a olá à lista das exceções — um acréscimo que os sábios não aceitaram.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 11b
מתני' רבי יהושע מכשיר — דפסח בשאר ימות השנה חשיב ליה:

בן בתירא פוסל — בגמרא מפרש להו:

שבעים ושנים זקן — בגמרא מפרש אמאי לא תנא זקנים:

כל הזבחים הנאכלין — אבל עולה לא:

לא הוסיף בן עזאי — על דברי חכמים לפסול חוץ מפסח ומחטאת אלא העולה:

גמ' מכשיר היה בן בתירא בפסח ששחטו שחרית לשמו — והוה ליה זמנו לפיכך פסול שלא לשמו כדאמר פסח בזמנו שלא לשמו פסול:

והא כתיב בין הערבים — לרבי אושעיא פריך היכי מצי למימר פסח זמנו שחרית:

בין שני ערבים — מעלות השחר עד שקיעת החמה, דהיינו בין סוף ערב דאתמול ותחילת ערב דאורתא:

Rashi confirma, brevemente, o sentido de cada elemento da mishná: Rabi Yehoshua a valida por considerá-la ainda como uma oferenda pascal fora de seu tempo próprio; a razão de Ben Betera é explicada mais adiante na Guemará; e "setenta e dois anciãos" no singular ensina que a decisão foi unânime, tomada como se fosse uma só voz. Sobre a Guemará, Rashi relata que Rabi Elazar, em nome de Rabi Oshaya, explica que Ben Betera na verdade validava a oferenda pascal abatida pela manhã com a intenção correta — pois, sendo já "seu tempo", o abate matinal seria válido, ainda que o ideal fosse abatê-la mais tarde; e é justamente por já ser "seu tempo" que a intenção incorreta pela manhã a invalida, como se dá com a oferenda pascal abatida em sua tarde própria. A Guemará então levanta uma dificuldade: como pode a manhã ser considerada "seu tempo" se a Torá escreve explicitamente "entre as tardes"? Rashi explica a resposta de Ula, filho de Rav Ilai: a expressão "entre as tardes" pode ser lida como "entre os dois entardeceres" — do amanhecer até o pôr do sol —, ou seja, entre o fim da tarde de ontem e o início da tarde de hoje, abrangendo por extensão todo o dia 14, inclusive sua manhã.