Seder Kodashim · Massechet Zevachim · Perek Alef · Mishná 1 de 4

Todos os sacrifícios abatidos não em seu nome

כָּל הַזְּבָחִים שֶׁנִּזְבְּחוּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná que abre Seder Kodashim e Massechet Zevachim: o princípio geral de que a maioria dos sacrifícios permanece válida mesmo abatidos sem a intenção correta (shelo lishmán), embora não cumpram a obrigação do dono — exceto a oferenda pascal e a oferenda de pecado, que se invalidam nesse caso; e a posição de Rabi Eliezer, que estende essa invalidação também à oferenda de culpa.

Todos os sacrifícios que foram abatidos não em seu nome são válidos, mas não satisfazem a obrigação dos donos — exceto a oferenda pascal e a oferenda de pecado. A oferenda pascal, em seu tempo; e a oferenda de pecado, em qualquer tempo.A mishná abre o tratado com um princípio fundacional que rege toda a Massechet Zevachim: a intenção do sacerdote no momento do abate (a machshavá, o pensamento que acompanha a ação) determina se o sacrifício é válido e se cumpre a obrigação de quem o trouxe. A regra geral é generosa: se, ao abater um sacrifício, o sacerdote pensou erroneamente em outro tipo de oferenda — abateu, digamos, uma oferenda de paz pensando tratar-se de uma oferenda de holocausto — o sacrifício continua cashér (apto), e seu sangue pode ser aspergido e suas partes queimadas no altar, e sua carne comida onde isso é permitido. A única consequência é que ele não serve para cumprir a obrigação original do dono, que precisará trazer outro sacrifício em seu lugar. Mas essa generosidade tem duas exceções absolutas: a oferenda pascal e a oferenda de pecado. Se abatidas não em seu próprio nome, ambas se invalidam por completo — não apenas deixam de cumprir a obrigação, mas tornam-se impróprias para qualquer uso sacrificial. A diferença entre as duas exceções está no tempo: a oferenda pascal só se invalida dessa forma quando abatida não em seu nome em seu tempo próprio — a tarde de 14 de Nissan; fora desse período, ela é tratada como uma oferenda de paz comum. Já a oferenda de pecado se invalida assim em qualquer tempo que for abatida não em seu nome, pois não tem um momento fixo do calendário que a defina.

Rabi Eliezer diz: também a oferenda de culpa. A oferenda pascal, em seu tempo; e a oferenda de pecado e a oferenda de culpa, em qualquer tempo. Disse Rabi Eliezer: a oferenda de pecado vem por um pecado, e a oferenda de culpa vem por um pecado; assim como a oferenda de pecado é inválida quando abatida não em seu nome, também a oferenda de culpa é inválida quando abatida não em seu nome.Rabi Eliezer discorda dos sábios anônimos da primeira parte da mishná e amplia a lista das exceções: para ele, a oferenda de culpa (asham) segue a mesma regra severa da oferenda de pecado, invalidando-se sempre que abatida sem a intenção correta, em qualquer época do ano. Sua justificativa é analógica: tanto a oferenda de pecado quanto a oferenda de culpa vêm ao mundo por causa de uma transgressão específica do dono — ambas expiam um pecado cometido. Se a intenção errada invalida uma, por essa mesma lógica deveria invalidar a outra. Os sábios, como se verá nos comentários, não aceitam essa analogia, pois encontram um fundamento textual explícito que distingue os dois casos.

כָּל הַזְּבָחִים שֶׁנִּזְבְּחוּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן, כְּשֵׁרִים, אֶלָּא שֶׁלֹּא עָלוּ לַבְּעָלִים לְשֵׁם חוֹבָה. חוּץ מִן הַפֶּסַח וּמִן הַחַטָּאת. הַפֶּסַח בִּזְמַנּוֹ, וְהַחַטָּאת, בְּכָל זְמַן. רַבִּי אֱלִיעֶזֶר אוֹמֵר, אַף הָאָשָׁם. הַפֶּסַח בִּזְמַנּוֹ, וְהַחַטָּאת וְהָאָשָׁם בְּכָל זְמַן. אָמַר רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, הַחַטָּאת בָּאָה עַל חֵטְא, וְהָאָשָׁם בָּא עַל חֵטְא. מַה חַטָּאת פְּסוּלָה שֶׁלֹּא לִשְׁמָהּ, אַף הָאָשָׁם פָּסוּל שֶׁלֹּא לִשְׁמוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

O Talmud deriva a distinção entre a maioria dos sacrifícios (válidos mesmo abatidos shelo lishmán) e as duas exceções a partir de versículos específicos sobre o voto, a oferenda pascal e a oferenda de pecado.

Devarim 23:24
מוֹצָא שְׂפָתֶיךָ תִּשְׁמֹר וְעָשִׂיתָ, כַּאֲשֶׁר נָדַרְתָּ לַה' אֱלֹהֶיךָ נְדָבָה, אֲשֶׁר דִּבַּרְתָּ בְּפִיךָ.
O que sair de teus lábios guardarás e farás, como votaste ao Eterno teu D-us por livre vontade, o que falaste com tua boca.
Shemot 12:27
וַאֲמַרְתֶּם זֶבַח פֶּסַח הוּא לַה'.
E direis: é o sacrifício da Páscoa para o Eterno.
Vayikrá 4:33, 35
וְשָׁחַט אֹתָהּ לְחַטָּאת... וְכִפֶּר עָלָיו הַכֹּהֵן עַל חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא.
E a abaterá para oferenda de pecado... e o sacerdote expiará por ele, por seu pecado que pecou.

O texto bíblico fornece, para cada exceção, uma base explícita que a distingue da regra geral. Da frase "o que falaste com tua boca" a Guemará deriva que um sacrifício comum, trazido por voto, permanece válido mesmo se a execução não correspondeu exatamente à intenção declarada — ele apenas não cumpre o voto original, tornando-se uma oferenda voluntária. Já sobre a oferenda pascal, o versículo "é o sacrifício da Páscoa" exige que o próprio ato do abate seja realizado com a intenção específica de Pêssach; e sobre a oferenda de pecado, a repetição da expressão "para oferenda de pecado" e "por ele, por seu pecado que pecou" ensina que o recebimento e a aspersão do sangue, e não apenas o abate, precisam ser feitos com a intenção correta e em nome do dono exato — donde a invalidação total quando isso falha.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Zevachim 1:1
כָּל הַזְּבָחִים שֶׁנִּזְבְּחוּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן כְּשֵׁרִים אֶלָּא שֶׁלֹּא עָלוּ לַבְּעָלִים לְשֵׁם חוֹבָה כוּ': מַה שֶּׁאָמַר כְּשֵׁרִים רְצוֹנוֹ לוֹמַר כְּשֶׁנִּגְמְרָה הָעֲבוֹדָה לְשֵׁם הַזֶּבַח אַף עַל פִּי שֶׁשָּׁחַט שֶׁלֹּא לִשְׁמָן... וּמִמַּה שֶּׁאָמַר לַבְּעָלִים תָּבִין שֶׁאֵינוֹ מְדַבֵּר אֶלָּא עַל הַקָּרְבָּנוֹת שֶׁיֵּשׁ לָהֶן בְּעָלִים יְדוּעִים, אָמְנָם קָרְבְּנוֹת הַצִּבּוּר אֵין פּוֹסֶלֶת אוֹתָן שְׁחִיטָה שֶׁלֹּא לִשְׁמָן... וְזַמְנוֹ שֶׁל פֶּסַח הוּא יוֹם י"ד בְּנִיסָן, אֲבָל אִם יִשְׁחֹט בְּיוֹם אַחֵר שֶׁאֵינוֹ יוֹם י"ד וּשְׁחָטוֹ לִשְׁמוֹ פָּסוּל, וְשֶׁלֹּא לִשְׁמוֹ כָּשֵׁר... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר.

Rambam explica que "válidos" significa que, uma vez concluída a avodá (o serviço sacrificial) em nome do sacrifício correto, ele permanece apto mesmo que o abate tenha sido feito, por engano, com a intenção de outro tipo de oferenda — desde que o sacerdote, ao perceber o erro, complete o restante do serviço já corretamente direcionado. Explica ainda que a expressão "dos donos" ensina que essa regra vale apenas para sacrifícios individuais, com dono definido; os sacrifícios públicos não se invalidam por essa falha de intenção, pois, como ensinaram os sábios, "a faca dos sacrifícios públicos os arrasta para aquilo que são aptos" — isto é, sua natureza pública já determina seu propósito, independentemente do pensamento do abatedor. Quanto ao tempo da oferenda pascal, esclarece que é o dia 14 de Nissan: se abatida em outro dia com a intenção correta (de Pêssach), é inválida; mas abatida sem essa intenção, é válida (como oferenda de paz comum). E conclui que a lei não segue Rabi Eliezer — a oferenda de culpa não se invalida por intenção incorreta, apenas a oferenda pascal e a de pecado.

Bartenura · Zevachim 1:1
כָּל הַזְּבָחִים שֶׁנִּזְבְּחוּ שֶׁלֹּא לִשְׁמָן. כְּגוֹן שֶׁנִּשְׁחֲטָה עוֹלָה לְשֵׁם שְׁלָמִים: כְּשֵׁרִים. וְיִזְרֹק דָּמָן וְיַקְטִיר אֵמוּרֵיהֶן לִשְׁמָן, דְּבִקְדֻשָּׁתַיְהוּ קַיְמוּ וְאָסוּר לְשַׁנּוֹיֵי בְהוּ: אֶלָּא שֶׁלֹּא עָלוּ לַבְּעָלִים לְשֵׁם חוֹבָה. וְצָרִיךְ לְהָבִיא אַחֵר לְחוֹבָתוֹ אוֹ לְנִדְרוֹ... חוּץ מִן הַפֶּסַח. דְּבַפֶּסַח כְּתִיב וְעָשִׂיתָ פֶּסַח, עַד שֶׁיְּהוּ כָל עֲשִׂיּוֹתָיו לְשֵׁם פֶּסַח... וְחַטָּאת. דִּבְחַטָּאת נַמִּי כְתִיבֵי תְּרֵי קְרָאֵי... וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי אֱלִיעֶזֶר.

Bartenura exemplifica: "todos os sacrifícios abatidos não em seu nome" refere-se, por exemplo, a uma oferenda de holocausto abatida com a intenção de oferenda de paz. Sendo "válidos", pode-se aspergir seu sangue e queimar suas partes em nome próprio — pois permanecem em sua santidade original, e é proibido alterá-la a partir daí. "Mas não satisfazem a obrigação dos donos" significa que é preciso trazer outro sacrifício para cumprir o voto ou a obrigação; e essa regra vale apenas para sacrifícios individuais — os sacrifícios públicos, mesmo abatidos não em seu nome, cumprem a obrigação da congregação, pois "o abate os arrasta" para o que lhes é próprio. Sobre a oferenda pascal, cita os dois versículos que a Torá emprega — "farás a Páscoa" e "é o sacrifício da Páscoa" — dos quais se deriva que tanto o abate quanto todo o processo devem ser feitos em nome de Pêssach e em nome dos donos corretos. Sobre a oferenda de pecado, cita igualmente dois versículos, um para o abate e outro para o recebimento e aspersão do sangue. E conclui que a lei não segue Rabi Eliezer quanto à oferenda de culpa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi sobre a Guemará de Zevachim, 2a
מתני' כל הזבחים שנזבחו שלא לשמן — שנשחט עולה לשם שלמים:

כשרים — לזרוק דמן ולהקטיר אימוריהם ולאכול את הנאכלין אע"פ שמצותן לשוחטן לשמן כדיליף בגמ':

אלא שלא עלו וכו' — וצריך להביא אחר לחובתו או לנדרו וישחטנו לשמו:

חוץ מן הפסח והחטאת — שהן פסולין לגמרי ויליף לה בגמ':

הפסח בזמנו — פסול שלא לשמו כל זמן שחיטתו דהיינו מחצות היום של ערב פסח עד הערב, אבל קודם לכן ואחר מכאן קיימא לן דפסח בשאר ימות השנה שלמים הוא וכל דינו כשלמים, ואמרינן לעיל דשאר זבחים כשרין שלא לשמן, ובגמ' יליף לה מקראי:

Rashi identifica de imediato o caso concreto que a mishná tem em mente: uma oferenda de holocausto (olá) abatida com a intenção de oferenda de paz (shelamim). "Válidos" significa que se pode aspergir seu sangue, queimar suas partes no altar e comer o que é comestível dela, ainda que o preceito ideal seja abatê-la já com a intenção correta desde o início — como a Guemará demonstra a partir dos versículos. "Mas não satisfazem" implica que é preciso trazer outra oferenda para cumprir a obrigação ou o voto original, abatendo-a desta vez com a intenção correta. Sobre a exceção da oferenda pascal e da oferenda de pecado, Rashi explica que elas se invalidam por completo — e a Guemará demonstra isso a partir dos versículos próprios de cada uma. Quanto ao tempo da oferenda pascal, precisa: a invalidação por intenção incorreta vale durante todo o período em que ela deve ser abatida, ou seja, do meio-dia da véspera de Pêssach até o entardecer; antes ou depois desse período, estabelece-se que a oferenda pascal trazida no resto do ano tem o status de uma oferenda de paz comum, com todas as suas leis — e, como já dito, os demais sacrifícios permanecem válidos mesmo abatidos sem a intenção correta.