Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Vav · Mishná 5 de 6

O kohen comum e a ailonit: quem é considerada zoná

אֵין זוֹנָה אֶלָּא גִיּוֹרֶת וּמְשֻׁחְרֶרֶת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A quinta mishná passa do Sumo Sacerdote ao kohen comum, e de uma restrição de virgindade a uma restrição ligada ao preceito de peru u'rvu: o casamento com a ailonit, mulher estéril por natureza — e, no debate sobre ela, abre-se a questão mais ampla de quem, afinal, é considerada zoná pela Torá.

O kohen comum não desposará a ailonit, a menos que já tenha esposa e filhos. Rabi Yehuda diz: mesmo que já tenha esposa e filhos, não desposará a ailonit, pois ela é a zoná mencionada na Torá. Mas os Sábios dizem: não há zoná senão a convertida, a liberta, e a que teve relação de prostituição.A ailonit é a mulher que, por sua própria constituição física, não tem capacidade de gerar filhos — um tipo de esterilidade permanente e reconhecível desde a juventude, distinta da mulher fértil que simplesmente não engravidou. Como o casamento com ela nunca poderá cumprir o preceito de "sede fecundos e multiplicai-vos", a mishná restringe esse casamento para o kohen: ele só pode desposá-la se já tiver cumprido esse preceito com outra mulher — ou seja, se já tiver esposa e filhos, de modo que o casamento com a ailonit não representa mais um obstáculo ao cumprimento do preceito. Rabi Yehuda vai além e proíbe terminantemente o casamento com a ailonit para o kohen, mesmo que ele já tenha esposa e filhos — porque, em sua opinião, a ailonit se enquadra na categoria de zoná que a Torá proíbe ao kohen, dada sua condição peculiar. Os Sábios discordam frontalmente dessa definição: para eles, "zoná" não é um termo genérico para qualquer mulher de status incomum, mas uma categoria específica e limitada — a mulher convertida ao judaísmo, a escrava liberta, ou a mulher que teve relação sexual proibida caracterizada como prostituição —, e a ailonit não se encaixa em nenhuma dessas três.

כֹּהֵן הֶדְיוֹט לֹא יִשָּׂא אַיְלוֹנִית, אֶלָּא אִם כֵּן יֶשׁ לוֹ אִשָּׁה וּבָנִים. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף עַל פִּי שֶׁיֶּשׁ לוֹ אִשָּׁה וּבָנִים, לֹא יִשָּׂא אַיְלוֹנִית, שֶׁהִיא זוֹנָה הָאֲמוּרָה בַתּוֹרָה. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אֵין זוֹנָה אֶלָּא גִיּוֹרֶת וּמְשֻׁחְרֶרֶת וְשֶׁנִּבְעֲלָה בְעִילַת זְנוּת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayikra (Levítico) 21:7
אִשָּׁה זֹנָה וַחֲלָלָה לֹא יִקָּחוּ, וְאִשָּׁה גְּרוּשָׁה מֵאִישָׁהּ לֹא יִקָּחוּ, כִּי קָדֹשׁ הוּא לֵאלֹהָיו
Mulher prostituta ou profanada não tomarão, e mulher divorciada de seu marido não tomarão; pois santo é ele para o seu Deus.

A Torá proíbe ao kohen desposar uma "zoná" sem definir precisamente o termo, deixando à tradição oral a tarefa de delimitar seu alcance. A disputa entre Rabi Yehuda e os Sábios é, no fundo, uma disputa sobre a extensão dessa categoria: se ela inclui qualquer mulher cuja condição a torne inadequada para gerar descendência de modo pleno — como sustenta Rabi Yehuda quanto à ailonit —, ou se está restrita a três categorias específicas e taxativas ligadas à origem da mulher ou a uma relação sexual proibida — como sustentam os Sábios, cuja posição prevalece na halachá.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que o kohen que já cumpriu peru u'rvu pode desposar a ailonit, e fixa a halachá contra Rabi Yehuda.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 6:5
אֵין הֶפְרֵשׁ בֵּין כֹּהֵן לְיִשְׂרָאֵל בְּמִצְוַת פְּרִיָּה וּרְבִיָּה, וּלְפִיכָךְ אֵינוֹ מֻתָּר לֹא לְיִשְׂרָאֵל וְלֹא לְכֹהֵן וְלֹא לְלֵוִי לִשָּׂא אֶת הָאַיְלוֹנִית אֶלָּא אִם כֵּן יֶשׁ לוֹ אִשָּׁה וּבָנִים. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rambam esclarece que esta restrição não é exclusiva do kohen: quanto ao preceito de peru u'rvu, não há diferença alguma entre kohen, levita e israelita comum. Por isso, nenhum homem — seja kohen, levita ou israelita — pode desposar a ailonit antes de já ter cumprido o preceito com esposa e filhos; a mishná menciona o kohen apenas porque é a respeito dele que surge a disputa com Rabi Yehuda. E a halachá segue os Sábios: não há razão para proibir o casamento com a ailonit além da consideração de peru u'rvu, e Rabi Yehuda, que a proíbe terminantemente por considerá-la zoná, não é seguido.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha por que a mishná menciona especificamente o kohen, e o que caracteriza a "relação de prostituição" da terceira categoria de zoná; Rashi, na Guemará, explica o sentido lexical da palavra "zoná" segundo Rabi Eliezer.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Yevamot 6:5
וּבְעִילַת זְנוּת הִיא שֶׁתִּבָּעֵל בְּעִילָה שֶׁהִיא בְּכָרֵת אוֹ בְּמַלְקוּת דְּאוֹרַיְתָא אוֹ בְּעֲשֵׂה דְּאוֹרַיְתָא, בֵּין שֶׁתִּהְיֶה בְּאֹנֶס בֵּין בְּרָצוֹן, נַעֲשֵׂית זוֹנָה כְּמוֹ שֶׁנִּקְדַּם בָּזֶה הַפֶּרֶק.

Rambam define com precisão a terceira categoria de zoná mencionada pelos Sábios: trata-se da mulher que teve uma relação proibida por caret (extirpação), por açoites bíblicos, ou por um simples preceito positivo — como as relações listadas nas duas primeiras mishnayot deste perek —, seja essa relação sob coação, seja por vontade própria. Essa é exatamente a mesma definição de "relação proibida que desqualifica" já estabelecida no início do perek, agora aplicada à questão específica de quem se enquadra na categoria de zoná para efeito de proibição matrimonial ao kohen.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 6:5
כֹּהֵן הֶדְיוֹט לֹא יִשָּׂא אַיְלוֹנִית וְכוּ׳. וְהוּא הַדִּין לְיִשְׂרָאֵל. וְלֹא נָקַט כֹּהֵן אֶלָּא מִשּׁוּם פְּלֻגְתָּא דְּרַבִּי יְהוּדָה דְּאָמַר דְּכֹהֵן אֲפִלּוּ יֵשׁ לוֹ אִשָּׁה וּבָנִים לֹא יִשָּׂא אַיְלוֹנִית, מַה שֶּׁאֵין כֵּן בְּיִשְׂרָאֵל.

Bartenura confirma que a lei da mishná se aplica igualmente a qualquer israelita, não apenas ao kohen — a Torá exige de todo homem o cumprimento de peru u'rvu antes de se permitir um casamento infrutífero. A mishná escolhe falar do kohen apenas porque é sobre ele que gira a disputa peculiar de Rabi Yehuda, que proíbe o casamento com a ailonit terminantemente para o kohen, mesmo já tendo ele cumprido o preceito — uma restrição que Rabi Yehuda não estende ao israelita comum, pois sua base é a santidade especial exigida do kohen, e não apenas o preceito de procriação.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 61b
כִּשְׁמָהּ — לָשׁוֹן טוֹעָה, שֶׁטּוֹעָה מִתַּחַת בַּעְלָהּ לַאֲחֵרִים, דְּלְרַבִּי אֱלִיעֶזֶר אֵין זוֹנָה אֶלָּא אֵשֶׁת אִישׁ. מֻפְקֶרֶת — וַאֲפִלּוּ פְּנוּיָה, מֵאַחַר שֶׁהִפְקִירָה עַצְמָהּ לַכֹּל קְרוּיָה זוֹנָה, אֲבָל מִשּׁוּם בְּעִילָה אַחַת לֹא הָוְיָא זוֹנָה הַפְּנוּיָה.

Rashi traz uma leitura ainda mais restritiva do termo "zoná", segundo Rabi Eliezer na Guemará: a palavra deriva de uma raiz que sugere "desviar-se" — a mulher que se desvia de seu marido para outros homens, o que, para Rabi Eliezer, só se aplica à mulher casada infiel, e nunca à mulher solteira. Rashi explica, porém, que há uma exceção: mesmo uma mulher solteira pode ser chamada de zoná se ela se entrega livremente a qualquer homem, tornando-se, por assim dizer, "mulher pública" — mas uma única relação isolada, mesmo proibida, não basta para tornar zoná a mulher solteira. Essa nuance ajuda a esclarecer por que a ailonit, cuja condição nada tem a ver com promiscuidade, não se enquadra em nenhuma das definições de zoná discutidas pelos Sábios da Guemará.