Seder Nashim · Massechet Yevamot · Perek Yud-Alef · Mishná 3 de 7

As cinco mulheres cujos filhos se misturaram

חָמֵשׁ נָשִׁים שֶׁנִּתְעָרְבוּ וַלְדוֹתֵיהֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná abre um novo bloco técnico do perek: casos em que recém-nascidos se misturam ao ponto de nenhuma mãe poder identificar seu próprio filho com certeza. O caso mais simples envolve cinco mulheres cujos cinco filhos se misturaram entre si — cada um deles é, para as outras quatro mulheres, um possível cunhado por dúvida.

Cinco mulheres cujos filhos se misturaram: quando os misturados cresceram, casaram e morreram, quatro fazem chalitzá a uma das viúvas, e um faz yibum com ela. Ele e mais três fazem chalitzá a outra, e um faz yibum. Encontram-se quatro chalitzot e um yibum para cada uma delas.Como nenhum dos cinco homens sabe com certeza de qual das cinco mães nasceu, cada um deles é, para cada uma das cinco viúvas, um possível cunhado — filho de uma das outras quatro mulheres cujo marido morreu. Se um deles simplesmente casasse com uma das viúvas sem mais, haveria o risco real de ela ser, na verdade, sua cunhada plena, e ele estaria tomando uma yevamá la-shuk, uma cunhada "solta no mercado" sem yibum nem chalitzá formal — proibição grave. Por isso, o procedimento exige que primeiro quatro dos cinco homens façam chalitzá com a viúva, eliminando a dúvida quanto a cada um deles individualmente; só então o quinto pode fazer yibum com ela, pois, seja ele o cunhado verdadeiro (e então cumpre a mitzvá) ou não (e então ela já está livre pela chalitzá dos outros), o casamento é válido de qualquer forma. O mesmo procedimento se repete, com os papéis trocados, para cada uma das cinco viúvas — resultando em vinte atos ao todo: quatro chalitzot e um yibum, cinco vezes.

חָמֵשׁ נָשִׁים שֶׁנִּתְעָרְבוּ וַלְדוֹתֵיהֶן, הִגְדִּילוּ הַתַּעֲרֹבוֹת וְנָשְׂאוּ נָשִׁים וּמֵתוּ, אַרְבָּעָה חוֹלְצִין לְאַחַת, וְאֶחָד מְיַבֵּם אוֹתָהּ. הוּא וּשְׁלשָׁה חוֹלְצִים לְאַחֶרֶת, וְאֶחָד מְיַבֵּם. נִמְצְאוּ אַרְבַּע חֲלִיצוֹת וְיִבּוּם לְכָל אַחַת וְאֶחָת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim (Deuteronômio) 25:5-7
יְבָמָהּ יָבֹא עָלֶיהָ... וְאִם לֹא יַחְפֹּץ הָאִישׁ לָקַחַת אֶת יְבִמְתּוֹ
Seu cunhado virá a ela... e se o homem não desejar tomar sua cunhada.

Esta mishná não introduz uma nova fonte bíblica: ela aplica, a um caso extremo de dúvida múltipla, a proibição fundamental de yevamá la-shuk — a cunhada que fica "solta", sem ser liberada formalmente por yibum ou chalitzá, e que por isso não pode ser tomada por qualquer outro homem enquanto sua condição permanecer indefinida. A engenhosidade do procedimento das "quatro chalitzot e um yibum" está exatamente em cumprir essa exigência apesar da incerteza: ao eliminar sucessivamente a possibilidade de cada homem individual ser o cunhado verdadeiro através da chalitzá, o quinto pode enfim tomá-la em yibum com segurança halachica plena, sem nunca ter havido, em nenhum momento, uma cunhada verdadeira "solta no mercado".

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam detalha a ordem exata do procedimento e por que a chalitzá deve necessariamente preceder o yibum em cada rodada.

Rambam · Perush HaMishná, Yevamot 11:3
עִקַּר זֹאת הַמִּשְׁנָה שֶׁיִּהְיֶה לְכָל אַחַת מֵאֵלּוּ הַנָּשִׁים בֵּן יָדוּעַ... כָּל זְמַן שֶׁיַּחְלְצוּ אַרְבָּעָה לְאַחַת מֵהֶם יִשָּׂאֶנָּה הַחֲמִישִׁי וְהוּא מֻתָּר מִמַּה נַּפְשָׁךְ

Rambam esclarece que a mishná pressupõe cinco filhos certos, um de cada mulher, e explica a lógica "ממה נפשך" (de qualquer modo) que garante a validade do casamento final: se este quinto homem é de fato o cunhado da viúva, ele cumpre a mitzvá de yibum; se não é, ela já foi liberada pela chalitzá dos outros quatro, e ele a toma como qualquer homem livre toma uma mulher livre. Rambam insiste que a ordem — primeiro as quatro chalitzot, depois o yibum — não é incidental, mas essencial: inverter a ordem arriscaria consumar um yibum antes que a condição de yevamá la-shuk da mulher fosse resolvida para todos os candidatos possíveis.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha passo a passo o procedimento das quatro chalitzot e um yibum, repetido para cada uma das cinco viúvas; Rashi, na Guemará, explica por que a ordem entre chalitzá e yibum é indispensável.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Yevamot 11:3
אַרְבָּעָה חוֹלְצִין לְאַחַת — בֵּן וַדַּאי שֶׁל כָּל אַחַת מִן הָאַרְבַּע חוֹלֵץ לְאַחַת מֵהֶן... וּבֶן הַחֲמִישִׁית יִשָּׂאֶנָּה מִמַּה נַּפְשָׁךְ. וְהוּא הַדִּין דְּמָצוּ הָאַרְבָּעָה לְמֶחְלַץ לְכֻלְּהוּ וְהָאֶחָד כּוֹנֵס אֶת כֻּלָּן, אֶלָּא דְּהָכִי שַׁפִּיר טְפֵי, דִּלְמָא לְכָל חַד וְחַד מִתְרַמִּי דִּילֵיהּ וּמִתְקַיְּמָא מִצְוַת יִבּוּם

Bartenura observa uma alternativa teoricamente válida — os quatro poderiam fazer chalitzá com todas as cinco viúvas de uma vez, e um único homem entre os cinco casar com todas — mas explica por que a Guemará prefere o procedimento rotativo descrito na mishná: dessa forma, existe a chance real de que, em pelo menos uma das cinco rodadas, o homem que faz yibum seja de fato o cunhado verdadeiro daquela viúva específica, cumprindo a mitzvá autêntica de yibum e não apenas um casamento comum após chalitzá alheia. O procedimento rotativo maximiza, portanto, a probabilidade estatística de que a mitzvá seja genuinamente cumprida ao menos uma vez entre as cinco.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Yevamot 98b
אַרְבָּעָה חוֹלְצִין לְאַחַת — בֵּן וַדַּאי שֶׁל כָּל אַחַת מִן הָאַרְבַּע חוֹלֵץ לְאַחַת מֵהֶן דְּכָל חַד סְפֵק לֵיהּ בְּאֵשֶׁת אָחִיו וּבֶן הַחֲמִישִׁית יִשָּׂאֶנָּה מִמַּה נַּפְשָׁךְ. גְּמָ' דַּוְקָא מֵיחְלָץ מִכָּל אַרְבָּעָה הוֹדָאִין וְהַדַר יִבּוּמֵי לַחֲמִישִׁי

Rashi confirma, a partir da própria Guemará, que a ordem entre chalitzá e yibum não é uma preferência entre alternativas equivalentes, mas uma exigência estrita: "especificamente chalitzá de todos os quatro certos, e só depois yibum pelo quinto". Ele explica que a preocupação central é o risco de "pegar" uma yevamá la-shuk — se o yibum fosse feito antes de esgotadas as chalitzot dos outros candidatos possíveis, haveria o perigo real de consumar um casamento com uma mulher que, para aquele homem específico, ainda não estava halachicamente livre. É esse cuidado processual, e não apenas a preferência por multiplicar a chance de cumprir a mitzvá genuína, que fixa a ordem exata descrita na mishná.