Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Tet · Mishná 4

"Os crescimentos da teruma são teruma"

גִּדּוּלֵי תְרוּמָה, תְּרוּמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os crescimentos da teruma são teruma, mas os crescimentos dos crescimentos são chulin; lista de exceções cujos crescimentos são sempre chulin — tevel, primeiro dízimo, brotos do sétimo ano, teruma de fora da terra, medumá e bikurim; os crescimentos de consagrado e segundo dízimo também são chulin, mas devem ser resgatados pelo valor que tinham no tempo do plantio

Os crescimentos da teruma são teruma (o que nasce da semente de teruma plantada, conforme já estabelecido na primeira mishná deste capítulo, mantém o status de teruma). E os crescimentos dos crescimentos são chulin (se essa nova plantação, já com status de teruma, for novamente plantada e produzir uma segunda geração, essa segunda geração perde o vínculo com a teruma original e é considerada produto comum, sem restrição). Mas o tevel (produto do qual ainda não foram separados teruma e dízimos), e o primeiro dízimo (entregue ao levita, do qual este ainda não separou sua própria teruma, chamada teruma do dízimo), e os brotos do ano sabático (que crescem espontaneamente no sétimo ano, sem serem semeados por mão humana), e a teruma de fora da terra de Israel (que tem apenas santidade rabínica, mais branda), e o medumá (mistura de teruma caída em produto comum, em quantidade insuficiente para anular-se), e os bikurim (as primícias trazidas ao Templo) — os crescimentos destes são chulin (diferentemente da teruma propriamente dita, nenhum destes seis casos transmite seu status ao que cresce deles, pois todos compartilham a característica de serem, em sua maioria ou em algum aspecto essencial, já considerados produto comum, ou por serem raros e não usuais o suficiente para justificar um decreto rabínico equivalente). Os crescimentos do consagrado (hekdesh, propriedade dedicada ao Templo) e do segundo dízimo são chulin (pois tanto o consagrado quanto o segundo dízimo, quando resgatados, tornam o objeto original comum, e o mesmo princípio se estende ao que deles cresce), e resgata-os (o proprietário deve redimir o valor equivalente à quantidade original que foi semeada) pelo tempo de sua semeadura (calculando o valor do produto no momento em que a semente foi plantada, e não o valor da colheita final, já que a obrigação de resgate recai sobre a substância original consagrada, e não sobre o crescimento posterior).

גִּדּוּלֵי תְרוּמָה, תְּרוּמָה. וְגִּדּוּלֵי גִדּוּלִין, חֻלִּין. אֲבָל הַטֶּבֶל וּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן וּסְפִיחֵי שְׁבִיעִית וּתְרוּמַת חוּצָה לָאָרֶץ וְהַמְדֻמָּע וְהַבִּכּוּרִים, גִּדּוּלֵיהֶן, חֻלִּין. גִּדּוּלֵי הֶקְדֵּשׁ וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי, חֻלִּין, וּפוֹדֶה אוֹתָם בִּזְמַן זַרְעָם:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná não deriva diretamente de um versículo específico sobre o status dos crescimentos, mas se apoia no princípio geral bíblico de que a teruma é "santidade" (kódesh) reservada aos cohanim — princípio cuja extensão a produtos derivados foi objeto de decreto rabínico, e cujos limites esta mishná esclarece.

Bemidbar (Números) 18:11
וְזֶה לְּךָ תְּרוּמַת מַתָּנָם, לְכָל תְּנוּפֹת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל, לְךָ נְתַתִּים וּלְבָנֶיךָ וְלִבְנֹתֶיךָ אִתְּךָ לְחָק עוֹלָם, כָּל טָהוֹר בְּבֵיתְךָ יֹאכַל אֹתוֹ.
"E isto será teu: a oferta do dom deles, com todas as ofertas movidas dos filhos de Israel; a ti as dei, e a teus filhos e a tuas filhas contigo, como estatuto perpétuo; todo puro em tua casa comerá dele" (Bemidbar 18:11) — o versículo estabelece a teruma como propriedade do cohen a ser consumida, não como semente. A regra rabínica de que "os crescimentos da teruma são teruma" (gidulei teruma, teruma) é, segundo o próprio Rambam em seu Perush HaMishná à Massechet Shabat, um dos dezoito decretos promulgados naquele dia famoso (relacionado à disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel) — e não uma lei bíblica direta, mas uma extensão protetiva: para impedir que o cohen deixasse teruma impura em sua posse até a época de plantio (criando risco de que a comesse ou a deixasse se estragar), os sábios decretaram que o crescimento resultante manteria a mesma restrição da teruma original.

Por que a restrição para na segunda geração ("crescimentos dos crescimentos"), e por que os seis casos da lista (tevel, primeiro dízimo, etc.) não seguem a mesma regra que a teruma? O princípio por trás desta mishná é que o decreto rabínico sobre gidulei teruma foi deliberadamente limitado em escopo, e não expandido automaticamente. Uma vez que a primeira geração de crescimento (gidulei teruma) já resolveu o problema original — o cohen não guarda mais teruma genuína, apenas seu produto derivado, e portanto o risco de erro já diminuiu consideravelmente — não havia razão prática para estender o decreto a uma segunda geração. Quanto aos seis casos excepcionais (tevel, primeiro dízimo, brotos do sétimo ano, teruma de fora da terra, medumá e bikurim), cada um compartilha uma característica que os distingue da teruma pura: o tevel é majoritariamente chulin (apenas uma pequena porção nele é, potencialmente, teruma ainda não separada); o primeiro dízimo, semelhantemente, é majoritariamente chulin do ponto de vista do levita que o recebe; os brotos do sétimo ano e a teruma de fora da terra são incomuns o suficiente para não terem sido incluídos no decreto original; o medumá é, por definição, majoritariamente chulin (produto comum no qual caiu teruma insuficiente para tornar tudo proibido); e os bikurim, sendo raros e restritos às sete espécies da terra de Israel, também ficaram fora do decreto. O consagrado e o segundo dízimo, por fim, seguem uma lógica distinta: como podem ser resgatados por dinheiro a qualquer momento, a Torá já prevê um mecanismo de "saída" para eles — e por isso seus crescimentos são simplesmente chulin, sujeitos apenas à obrigação de resgatar o valor equivalente ao da substância original, no momento em que foi plantada.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica esta lei em Hilchot Terumot, explicando o motivo do decreto sobre gidulei teruma e sua não-extensão à segunda geração.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:21-22
גִּדּוּלֵי תְּרוּמָה הֲרֵי הֵן כְּחֻלִּין לְכָל דָּבָר אֶלָּא שֶׁאֲסוּרִים לְזָרִים. גָּזְרוּ חֲכָמִים עֲלֵיהֶן שֶׁיִּהְיוּ אֲסוּרִין לְזָרִים כִּתְרוּמָה מִשּׁוּם תְּרוּמָה טְמֵאָה שֶׁבְּיַד הַכֹּהֵן שֶׁלֹּא יַשְׁהֶנָּה אֶצְלוֹ כְּדֵי שֶׁיִּזְרָעֶנָּה וְתֵצֵא לְחֻלִּין וְנִמְצָא בָּא בָּהּ לִידֵי תַּקָּלָה... גִּדּוּלֵי גִּדּוּלִין חֻלִּין לְכָל דָּבָר.
"Os crescimentos da teruma são como chulin para todo efeito, exceto que são proibidos a estranhos. Os sábios decretaram sobre eles que fossem proibidos a estranhos como teruma, por causa da teruma impura em posse do cohen, para que não a retivesse consigo com a intenção de semeá-la e fazê-la sair para o chulin, incorrendo assim em erro... Os crescimentos dos crescimentos são chulin para todo efeito." O Rambam explicita aqui o motivo exato do decreto — evitar que o cohen guarde teruma impura (que de outro modo deveria ser queimada) com a intenção de plantá-la e assim "lavar" seu status através do crescimento — e confirma que esse motivo não se estende à segunda geração de crescimento, que é plenamente chulin.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 9:4
כשיזרע אדם תרומה מה שיצמח הוא גם כן תרומה ואם זרע אותו שצמח פעם שנית אותו הצמח הוא חולין והוא גדולי גדולין וזו הגזירה מכלל י"ח דבר שגזרו בו ביום כמו שאבאר בתחלת שבת: וספיחי שביעית. הוא הדבר הצומח בשנה שביעית ונקרא ספיח לפי שהוא אינו נזרע אבל צומח הוא מן הזרע שנזרע בשנה של אשתקד.

Quando um homem semeia teruma, o que cresce é também teruma; e se semear novamente aquilo que cresceu uma segunda vez, aquele crescimento é chulin, e é chamado gidulei gidulin (crescimentos dos crescimentos). E este decreto está entre os dezoito decretos que decretaram naquele dia famoso, como explicarei no início de Shabat (referência ao dia em que a escola de Shamai prevaleceu sobre a de Hilel em dezoito questões, conforme relatado no início do tratado Shabat).

"E brotos do sétimo ano": é o que cresce no sétimo ano (shevi'it) e é chamado sáfiach (broto espontâneo), porque não é semeado, mas cresce da semente que foi semeada no ano anterior (e por isso não recebe o mesmo tratamento severo dos gidulei teruma).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 9:4
גִּדּוּלֵי תְרוּמָה תְּרוּמָה. מִדְּרַבָּנָן, עָבְדוּ רַבָּנָן תַּקַּנְתָּא מִשּׁוּם תְּרוּמָה טְמֵאָה בְּיַד כֹּהֵן, כִּי הֵיכִי דְּלֹא לִישְׁהֵי לַהּ לְגַבֵּיהּ עַד זְמַן הַזֶּרַע כְּדֵי לְזָרְעָהּ וְאָתֵי בָהּ לִידֵי תַקָּלָה, וּמִשּׁוּם הָכִי גָּזְרוּ שֶׁיִּהְיוּ גִדּוּלֵי תְרוּמָה כִּתְרוּמָה: וְגִדּוּלֵי גִדּוּלִין חֻלִּין. אִם חָזַר וְזָרַע אוֹתָן גִּדּוּלִין, גִּדּוּלֵיהֶן חֻלִּין: הַטֶּבֶל. גִּדּוּלָיו חֻלִּין, מִשּׁוּם דְּרֻבּוֹ חֻלִּין: וּסְפִיחֵי שְׁבִיעִית. לְפִי שֶׁאֵינָן מְצוּיִין וְאֵינָן נוֹהֲגִים בְּכָל שָׁנָה: גִּדּוּלֵי הֶקְדֵּשׁ וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי חֻלִּין. שֶׁאִם זָרַע מֵהֶן סְאָה אַחַת וְהוֹסִיף כַּמָּה סְאָה, חֻלִּין, אַף בְּדָבָר שֶׁאֵין זַרְעוֹ כָלֶה: וּפוֹדֶה אוֹתָם בִּזְמַן זַרְעָם. פּוֹדֶה כָּל הָאוֹצָר בִּדְמֵי אוֹתָהּ סְאָה.

"Os crescimentos da teruma são teruma": por decreto rabínico — os sábios fizeram esta ordenança por causa da teruma impura em mãos do cohen, para que ele não a retivesse consigo até a época de plantio com a intenção de plantá-la, e incorresse assim em erro; e por essa razão decretaram que os crescimentos da teruma fossem como teruma.

"E os crescimentos dos crescimentos são chulin": se ele voltou a plantar aqueles crescimentos, os crescimentos destes são chulin.

"O tevel": seus crescimentos são chulin, porque a maior parte dele é chulin (apenas uma fração é, potencialmente, teruma ou dízimo ainda não separado).

"E os brotos do sétimo ano": porque não são comuns e não ocorrem todo ano.

"Os crescimentos do consagrado e do segundo dízimo são chulin": pois, se ele plantou deles um seá e ela rendeu vários seás, tudo é chulin — mesmo tratando-se de algo cuja semente não se decompõe.

"E resgata-os pelo tempo de sua semeadura": resgata todo o depósito pelo preço equivalente àquele seá (o valor de mercado que a quantidade original tinha no momento em que foi plantada, e não o valor da colheita final, muito maior).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.