Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud-Alef · Mishná 6

"Um celeiro que se esvaziou"

מְגוּרָה שֶׁפִּנָּה מִמֶּנָּה חִטֵּי תְרוּמָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O padrão de razoabilidade na exigência de recolher resíduos de teruma: varrer normalmente, sem necessidade de catar grão a grão, antes de armazenar produto comum no mesmo lugar

Um celeiro (meguerá — um espaço de armazenamento de grãos) do qual se esvaziou o trigo de teruma (retirando-se todo o trigo consagrado que ali estava guardado): não se obriga o dono a ficar sentado catando (os grãos residuais que restaram espalhados pelo chão do celeiro) um a um, mas varre-o do modo costumeiro (com a vassoura, como faria normalmente ao limpar qualquer espaço de armazenamento), e coloca ali produto comum (chulin, sem necessidade de garantir a remoção absoluta de cada grão individual de teruma que possa ter restado — os poucos grãos residuais que se misturarem ao chulin não invalidam essa mistura, pois estão abaixo do limiar de preocupação prática).

מְגוּרָה שֶׁפִּנָּה מִמֶּנָּה חִטֵּי תְרוּמָה, אֵין מְחַיְּבִין אוֹתוֹ לִהְיוֹת יוֹשֵׁב וּמְלַקֵּט אַחַת אַחַת, אֶלָּא מְכַבֵּד כְּדַרְכּוֹ, וְנוֹתֵן לְתוֹכָהּ חֻלִּין:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná ilustra o princípio de que a obrigação de zelar pela teruma e evitar sua mistura indevida com chulin (medumá) tem limites de razoabilidade prática, não exigindo um padrão de diligência sobre-humano.

Bemidbar (Números) 18:8
וַאֲנִי הִנֵּה נָתַתִּי לְךָ אֶת מִשְׁמֶרֶת תְּרוּמֹתָי.
"E Eu, eis que te dei a guarda das Minhas ofertas" (Bemidbar 18:8) — o dever de "guardar" (mishmeret) a teruma implica cuidado razoável para que ela não se perca nem se misture indevidamente com produto comum, mas não implica um padrão absoluto de vigilância que exigiria vasculhar cada grão individual de um celeiro inteiro. A halachá, como demonstra esta mishná, calibra a obrigação de zelo ao que é humanamente praticável — varrer do modo costumeiro —, reconhecendo que restos residuais ínfimos, abaixo do padrão de atenção normal, não geram responsabilidade adicional.

Por que a lei não exige uma limpeza exaustiva, grão a grão? O princípio subjacente é que a halachá de teruma, embora rigorosa quanto à proibição de misturar deliberadamente ou de desperdiçar teruma substancial, não transforma seus praticantes em investigadores obsessivos de cada partícula residual. Um celeiro que armazenou trigo de teruma por um período prolongado naturalmente retém alguns grãos presos a fendas, cantos e superfícies irregulares — e exigir que o dono os localize e remova um a um seria uma exigência impraticável e desproporcional ao risco real de mistura. A mishná estabelece, portanto, que o padrão de conduta esperado é o mesmo que qualquer pessoa razoável aplicaria à limpeza de seu próprio espaço — "varrer do modo costumeiro" —, e este padrão, embora não elimine cada resíduo, é suficiente para permitir o uso subsequente do celeiro para produto comum, sem que os traços residuais de teruma invalidem essa nova função.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta lei em Hilchot Terumot, junto ao caso paralelo do barril de azeite derramado, tratado na mishná seguinte.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 11:14
מְגוּרָה שֶׁפִּנָּה מִמֶּנָּה חִטֵּי תְּרוּמָה אֵין מְחַיְּבִין אוֹתוֹ לִהְיוֹת יוֹשֵׁב וּמְלַקֵּט אַחַת אַחַת וְאַחַר כָּךְ יִתֵּן לְתוֹכָהּ חֻלִּין אֶלָּא מְכַבֵּד כְּדַרְכּוֹ וְנוֹתֵן לְתוֹכָהּ חֻלִּין.
"Um celeiro do qual se esvaziou o trigo de teruma, não se obriga o dono a ficar sentado catando um a um, e só depois colocar ali produto comum, mas varre-o do modo costumeiro e coloca ali produto comum" (o Rambam reproduz a mishná quase literalmente, confirmando-a como halachá final sem modificação ou nuance adicional — um raro caso em que a linguagem mishnaica é adotada quase verbatim pelo Mishné Torá).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 11:6
מכבד כדרכו. ר"ל שיכבד כדרך שבני אדם מכבדין האוצרות כשמפנין אותן מן הדברים שהצניעו בהם:

"Varre-o do modo costumeiro": quer dizer, que ele varre do mesmo modo que as pessoas costumam varrer os armazéns quando os esvaziam das coisas que ali guardaram (o Rambam enfatiza que o padrão de conduta exigido é simplesmente o comportamento social normal e esperado, sem qualquer exigência técnica ou halachicamente especial além disso).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 11:6
מְגוּרָה. אוֹצָר שֶׁאוֹגְרִים תְּבוּאָה לְתוֹכוֹ: מְכַבֵּד כְּדַרְכּוֹ. כְּדֶרֶךְ שֶׁרְגִילִים לְכַבֵּד הָאוֹצָרוֹת בְּעֵת שֶׁמְּפַנִּים אוֹתָן:

"Meguerá": um armazém no qual se guardam grãos. "Varre-o do modo costumeiro": do mesmo modo que se costuma varrer os armazéns quando são esvaziados (confirmando a mesma explicação do Rambam: o padrão é o do costume comum, não um padrão técnico especial de precisão).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.