Não se fazem tâmaras em mel (de teruma ou segundo dízimo, não se pode espremer tâmaras para extrair delas um líquido chamado "mel", pois isso mudaria seu status de alimento sólido para bebida), nem maçãs em vinho, nem frutas de outono em vinagre, e todos os demais frutos não se mudam de sua forma natural (de sólido para líquido) quando são teruma e segundo dízimo, exceto apenas azeitonas e uvas (cujo processamento em azeite e vinho é a única transformação de sólido em líquido reconhecida e permitida pela halachá). Não se recebem os quarenta açoites por causa de orlá, exceto pelo que sai das azeitonas e das uvas (a proibição bíblica de comer fruto de orlá aplica-se plenamente ao fruto sólido; mas quanto ao líquido extraído de um fruto de orlá, a pena de açoites só se aplica quando esse líquido é azeite ou vinho — outros sucos de frutas de orlá, embora proibidos rabinicamente, não acarretam a pena bíblica). E não se trazem bikurim como líquido, exceto o que sai das azeitonas e das uvas (a mitzvá das primícias exige fruto sólido, exceto quando se trata de azeite ou vinho, que são eles próprios considerados "primícias" no sentido pleno). E não se torna impuro por ser líquido, exceto o que sai das azeitonas e das uvas (entre os sete líquidos que transmitem impureza, apenas o azeite e o vinho são extraídos de frutas — os demais cinco são água, orvalho, mel de abelhas, leite e sangue). E não se oferece sobre o altar, exceto o que sai das azeitonas e das uvas (entre as ofertas de libação e as oferendas de farinha misturadas com óleo, apenas azeite de oliva e vinho de uva são aceitos no serviço do Templo).
Esta mishná generaliza, a partir da linguagem exata da Torá, o princípio de que apenas azeite de oliva e vinho de uva — os dois líquidos explicitamente nomeados como frutos da terra — recebem tratamento de "produto agrícola pleno" em cinco áreas distintas da halachá.
Por que apenas a azeitona e a uva entre todas as frutas do mundo? A resposta que o Rambam oferece em seu Perush HaMishná é filológica e conceitual ao mesmo tempo: a Torá usa a palavra "רֵאשִׁית" (reshit, "primícias" ou "o melhor") tanto para o grão de bikurim quanto para o azeite e o vinho, tratando-os como categorias equivalentes de "primeiro fruto" digno de ser oferecido. Como esses dois líquidos são chamados explicitamente de reshit, eles herdam todo o regime legal que a Torá associa a esse status — a proibição de orlá em sua forma líquida, a possibilidade de trazê-los como bikurim, sua suscetibilidade à impureza como "líquido" pleno, e sua aceitação no altar como libação (nesech) e como parte da oferenda de farinha (minchá). Nenhum outro suco de fruta — por mais que se assemelhe ao vinho ou ao azeite em uso culinário — recebeu essa designação bíblica explícita, e por isso todos permanecem no status inferior de "mei perot" (sucos de frutas), sujeitos apenas às regras gerais discutidas na mishná anterior (11:2), e não a este regime de cinco leis específicas.
O Rambam codifica o núcleo desta mishná — a proibição de transformar frutas de teruma de sólido em líquido, exceto azeitonas e uvas — em Hilchot Terumot, no capítulo sobre o uso e processamento da teruma.
Quanto aos quatro efeitos derivados (orlá, bikurim, impureza de líquido, e libação sobre o altar), o Rambam os codifica em seus respectivos tratados — Hilchot Maachalot Assurot 10 (orlá), Hilchot Bikurim 2 (primícias), Hilchot Tumat Ochalin 1 (impureza de alimentos), e Hilchot Issurei Mizbeach 5 e Hilchot Temidin uMussafin (libações) — cada um deles limitando o líquido pleno a azeite de oliva e vinho de uva, na mesma linha desta mishná.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.
As tâmaras são alimento sólido, e o mel é bebida, e é proibido transformar o alimento em bebida quando o alimento é alimento de teruma ou de segundo dízimo (o princípio geral é que a categoria jurídica de "alimento sólido" não pode ser rebaixada ou transformada em "bebida" para produtos consagrados — apenas dois casos escapam a essa regra). "Exceto apenas azeitonas e uvas": conforme a palavra do Nome, bendito seja: "todo o melhor, grão, vinho e azeite" (Bemidbar 18) — e tirosh é o vinho, e itzhar é o azeite, e a Escritura os chamou de "reshit" (primícias), assim como chamou os bikurim de reshit, e obrigou-os em teruma; e por isso é permitido extrair deles bebida, sejam eles teruma ou segundo dízimo.
E já explicamos que, dentre os sete líquidos, estão o vinho e o azeite, e digo que, de todos os líquidos que saem das frutas, nenhum recebe impureza por ser líquido, exceto o vinho e o azeite; e do mesmo modo, nada se oferece sobre o altar, exceto o vinho e o azeite — e esta é a linguagem da Torá: nas oferendas de farinha, com azeite; e nas ofertas, com vinho, para libação.
"Não se fazem tâmaras em mel": se elas são de teruma ou de segundo dízimo. Pois as tâmaras são alimento e o mel é bebida, e não se transforma o alimento em bebida. "Exceto azeitonas e uvas apenas": pois a Torá disse explicitamente sobre eles (Bemidbar 18): "todo o melhor do azeite e todo o melhor do vinho".
"Não se recebem os quarenta açoites por causa de orlá": frutos de orlá que foram espremidos e deles se extraiu bebida — quem bebe essa bebida não recebe açoites pela Torá, exceto no caso de azeitonas e uvas apenas.
"E não se trazem bikurim como líquido": pois está escrito (Devarim 26) "as primícias do fruto da terra" — fruto tu trazes, e não trazes líquido. "Exceto o que sai das azeitonas e das uvas": pois se aprende a lei dos bikurim a partir da teruma (o mesmo princípio de "reshit" que rege a teruma se estende aos bikurim).
"E não se oferece sobre o altar": exceto azeite para as oferendas de farinha e vinho para as libações.