Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud · Mishná 8

"Peixe impuro que se conservou"

דָּג טָמֵא שֶׁכְּבָשׁוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A partir daqui a mishná muda de tema: não mais teruma, mas as leis gerais de cashrut de peixe — quanto peixe impuro conservado junto com peixe puro basta para proibir a salmoura resultante, com três medidas propostas pelos sábios, Rabi Yehudá e Rabi Yosei

Peixe impuro que se conservou junto com peixe puro (em salmoura, dentro do mesmo recipiente): todo jarro que comporta duas seás (medida de volume), se há nele em peso dez zuz na medida da Judeia (unidade de peso local), que são cinco selás na medida da Galileia (unidade equivalente, mas nomeada e calculada diferentemente na região da Galileia), de peixe impuro, sua salmoura é proibida (a proporção de peixe impuro em relação ao volume total do recipiente determina se a salmoura resultante — que se mistura entre os peixes — se torna proibida ou não). Rabi Yehudá diz: um quarto (de log, unidade menor de volume) em duas seás (ele propõe uma proporção diferente, calculada por volume de peixe impuro, não por peso). E Rabi Yosei diz: um dezesseis avos dele (uma fração ainda diferente e mais rigorosa da proporção de peixe impuro necessária para proibir a salmoura de todo o recipiente).

דָּג טָמֵא שֶׁכְּבָשׁוֹ עִם דָּג טָהוֹר, כָּל גָּרָב שֶׁהוּא מַחֲזִיק סָאתַיִם, אִם יֶשׁ בּוֹ מִשְׁקַל עֲשָׂרָה זוּז בִּיהוּדָה שֶׁהֵן חָמֵשׁ סְלָעִים בַּגָּלִיל דָּג טָמֵא, צִירוֹ אָסוּר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, רְבִיעִית בְּסָאתָיִם. וְרַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, אֶחָד מִשִּׁשָּׁה עָשָׂר בּוֹ:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A partir desta mishná, o Perek Yud volta-se das leis específicas de teruma para as leis gerais de mistura entre alimentos puros e impuros — aqui, o caso do peixe sem escamas nem barbatanas, proibido pela própria Torá.

Vayikrá (Levítico) 11:9-12
אֶת זֶה תֹּאכְלוּ מִכֹּל אֲשֶׁר בַּמָּיִם: כֹּל אֲשֶׁר לוֹ סְנַפִּיר וְקַשְׂקֶשֶׂת בַּמַּיִם... וְכֹל אֲשֶׁר אֵין לוֹ סְנַפִּיר וְקַשְׂקֶשֶׂת בַּיַּמִּים וּבַנְּחָלִים... שֶׁקֶץ הֵם לָכֶם.
"Isto comereis de tudo que há nas águas: tudo que tem barbatana e escama nas águas... e tudo que não tem barbatana e escama nos mares e nos rios... abominação são para vós" (Vayikrá 11:9-12) — o peixe sem barbatanas e escamas (dag tamé) é proibido por decreto explícito da Torá, e quando conservado junto com peixe puro (dag tahor) em salmoura, sua substância se dissolve no líquido comum. Esta mishná estabelece as proporções pelas quais essa salmoura misturada se torna proibida a todos, refletindo o princípio geral de que uma substância proibida se anula (batel) apenas quando presente em quantidade suficientemente pequena, e prevalece (proibindo o todo) quando presente em quantidade significativa.

Por que três medidas diferentes foram propostas pelos sábios, Rabi Yehudá e Rabi Yosei? A disputa reflete diferentes modos de calcular a "concentração crítica" de peixe impuro na salmoura. Os sábios (tanna kama) usam uma proporção baseada em peso do peixe impuro relativo ao volume total do jarro — dez zuz (uma unidade de peso) para duas seás (uma unidade de volume), combinando duas dimensões de medida. Rabi Yehudá simplifica calculando por volume puro — um quarto de log de líquido do peixe impuro para duas seás de volume total, uma proporção de aproximadamente 1:200. Rabi Yosei propõe uma fração direta — um dezesseis avos — que a Guemará (em outros contextos, discutindo esta mesma mishná) relaciona a uma proporção final de cerca de 1:1000, a mais rigorosa das três. Cada opinião representa uma tentativa de capturar empiricamente o ponto em que a presença do peixe impuro deixa de ser perceptível ou funcionalmente relevante na salmoura — a mesma lógica de noten taam (dar sabor) que rege as leis de teruma, aqui aplicada ao contexto mais amplo de cashrut.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta mishná trata de leis gerais de cashrut de peixe — e não especificamente de teruma — sua halachá correspondente no Rambam encontra-se em Hilchot Ma'achalot Assurot (Leis de Alimentos Proibidos), e não em Hilchot Terumot.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Ma'achalot Assurot 3:22
הַכּוֹבֵשׁ דָּגִים טְמֵאִים צִירָן אָסוּר. אֲבָל צִיר חֲגָבִים טְמֵאִים מֻתָּר, מִפְּנֵי שֶׁאֵין בָּהֶם לַחְלוּחִית. לְפִיכָךְ אֵין לוֹקְחִין צִיר מִן הָעַכּוּ"ם אֶלָּא אִם כֵּן הָיָה בּוֹ דָּג טָהוֹר מְשׁוֹטֵט בּוֹ אֲפִלּוּ דָּג אֶחָד.
"Aquele que conserva peixes impuros, sua salmoura é proibida. Mas a salmoura de gafanhotos impuros é permitida, porque não há neles umidade (o Rambam antecipa aqui o mesmo tema que a mishná trata separadamente em 10:9 — uma diferença fundamental entre peixe e gafanhoto, cuja fisiologia não produz secreção líquida significativa). Por isso não se compra salmoura de um gentio, a menos que haja nela um peixe puro nadando (ao menos um espécime visível e identificável, garantindo que a salmoura tenha origem majoritariamente kosher), mesmo que seja um único peixe" (o Rambam formula o princípio geral por trás desta mishná — a proibição da salmoura de peixe impuro — de modo mais amplo, tratando também da questão prática de como verificar a cashrut de salmoura comprada de não-judeus, sem entrar no detalhe numérico específico das três opiniões apresentadas na mishná sobre a proporção exata que determina a proibição).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 10:8
גרב, שם הכלי שמכבשין בו הדג כדי שיתקיים, בין שמכבשים אותו במלח או בחומץ או בזולתם. וציר שם לאותו המשקה שכובשין בו הדג עם אותו הלחלוחית המחובר לדג... ות"ק אומר שאם מחזיק הכלי שכובשין בו סאתים, וכל הדג שיש בו טהור ויש בו מדג טמא משקל עשרה זוזי מזוזי ארץ יהודה שהם חמשה סלעים בגליל, שהציר אסור, ואם הוא פחות הוא מותר... ורי"א עד שיהיה שיעור רביעית מדג טמא בשיעור סאתים מדג טהור ואז יאסר צירו. ורבי יוסי אומר כי כשיהיה דג טמא חלק מי"ו מן הדג הטהור... שצירו אסור. וההלכה חלק באלף אסור, ואם הוא חלק מדג טמא ביותר מאלף מדג טהור אז יהיה צירו מותר.

Garav é o nome do recipiente em que se conserva o peixe para que se preserve, seja conservando-o em sal, em vinagre, ou em outra coisa. E tzir é o nome daquele líquido em que se conserva o peixe, junto com a umidade natural ligada ao peixe (o Rambam esclarece a terminologia técnica antes de entrar na disputa numérica).

E os sábios (tanna kama) dizem que, se o recipiente em que se conserva comporta duas seás, e todo o peixe que há nele é puro, exceto por um peso de dez zuz da terra da Judeia, que são cinco selás na Galileia, de peixe impuro — a salmoura é proibida; e se é menos que isso, é permitida. E Rabi Yehudá diz: até que haja a medida de um quarto de peixe impuro na medida de duas seás de peixe puro, e então sua salmoura fica proibida. E Rabi Yosei diz que, quando o peixe impuro é uma parte de dezesseis do peixe puro... sua salmoura é proibida. E a halachá é que uma parte em mil é proibida, e se é uma parte de peixe impuro em mais de mil de peixe puro, então sua salmoura é permitida (o Rambam conclui explicitamente qual das três posições prevalece como lei final — uma proporção intermediária entre as propostas por Rabi Yehudá e pelos sábios, situando-se próxima, mas não idêntica, à de Rabi Yosei).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 10:8
גָּרָב. חָבִית: כָּל גָּרָב שֶׁהוּא מַחֲזִיק סָאתַיִם. אִם נִכְבַּשׁ דָּג טָמֵא עִם הַרְבֵּה דָגִים טְהוֹרִים בְּתוֹךְ חָבִית, וְהֶחָבִית מַחֲזִיק סָאתַיִם, וְיֵשׁ מִצִּיר דָּג טָמֵא מִשְׁקַל עֶשֶׂר זוּזִים שֶׁל יְהוּדָה... אָסוּר. וְאִם הָיָה הַצִּיר שֶׁל דָּג טָמֵא פָּחוֹת מִכֵּן, מֻתָּר: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר רְבִיעִית לְסָאתַיִם... וְאַף עַל גַּב דְּרַבִּי יְהוּדָה סָבַר מִין בְּמִינוֹ לֹא בָּטִיל, שָׁאנֵי צִיר, דְּזֵעָה בְּעַלְמָא הוּא וְאֵין אִסּוּרוֹ אֶלָּא מִדְּרַבָּנָן, לְכָךְ אָמַר רַבִּי יְהוּדָה דְּבָטֵל בְּקָרוֹב לְמָאתַיִם: וְהִלְכְתָא דְצִיר בָּטֵל בְּיוֹתֵר מֵאֶלֶף.

"Garav": um barril.

"Todo garav que comporta duas seás": se conservou peixe impuro com muitos peixes puros dentro de um barril, e o barril comporta duas seás, e há na salmoura de peixe impuro um peso de dez zuz da Judeia... é proibido. E se a salmoura de peixe impuro era menos que isso, é permitida.

"Rabi Yehudá diz: um quarto em duas seás"... e ainda que Rabi Yehudá geralmente entenda que min bemino lo batel — uma substância não se anula em sua própria espécie (mesmo em pequena proporção) — o caso da salmoura é diferente, pois é mera transpiração (zeá bealma, um subproduto secundário e não a substância principal do peixe em si), e sua proibição é apenas de origem rabínica, não bíblica; por isso Rabi Yehudá diz aqui que se anula em proporção próxima a duzentos (uma exceção notável à sua posição usual, justificada pela natureza secundária da salmoura). E a halachá é que a salmoura se anula em mais de mil (o Bartenura confirma a mesma conclusão final do Rambam quanto à proporção que prevalece como lei).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. A partir desta mishná, o texto se afasta temporariamente do tema específico de teruma para tratar de leis gerais de cashrut de peixe e gafanhoto — retomando o tema de teruma apenas na mishná final do capítulo.