Um ovo que se cozinhou com temperos proibidos (sejam eles de teruma, orlá, ou kilei hakerem — qualquer categoria proibida discutida ao longo deste perek), até sua gema é proibida (chelmon — o interior amarelo do ovo, protegido pela clara ao redor e pela casca; seria de se esperar que, por estar mais protegida e distante do contato direto com os temperos, a gema escapasse da proibição — mas a mishná ensina que não é assim), porque ela absorve (mesmo a camada mais interna e protegida do ovo absorve o sabor proibido durante o cozimento, pois o calor e o líquido penetram através de toda a estrutura do ovo, e não apenas em sua superfície externa). A água de fervura (mei shelakot — o líquido resultante de ferver vegetais ou outros alimentos junto com teruma) e a água de conserva (mei kevashim — o líquido de salmoura em que se conservou teruma) de teruma são proibidas aos estranhos (a mishná encerra o capítulo com uma afirmação geral e conclusiva: não apenas o alimento sólido que absorveu sabor de teruma está proibido, mas também os próprios líquidos resultantes desses processos — fervura e conserva — carregam em si a substância da teruma e permanecem proibidos a quem não é cohen, mesmo que sejam apenas "subproduto" do processo de preparo).
Esta última mishná do Perek Yud sintetiza, em dois casos finais, o princípio central que atravessou todo o capítulo — a proibição por absorção de sabor — aplicando-o tanto ao alimento sólido mais protegido (a gema do ovo) quanto ao líquido residual do processo (as águas de fervura e conserva).
Por que a gema do ovo, mais protegida que a clara, ainda assim absorve o sabor proibido? A resposta encerra, de modo instrutivo, o tema central de todo o Perek Yud: a estrutura física de um alimento determina o grau de sua absorção, mas raramente a impede por completo quando há calor e líquido envolvidos no processo. Ao contrário da cebola inteira de 10:1 ou da azeitona intacta de 10:7 — cuja casca resistente bloqueia a penetração de sabor externo em conserva fria — o ovo cozido é permeável por natureza: sua clara, ao cozinhar, não isola hermeticamente a gema, e o calor do cozimento cria condições físicas (expansão, porosidade da clara coagulada) que permitem a substância proibida alcançar até o núcleo do ovo. A mishná escolhe deliberadamente este caso extremo — o mais "protegido" de todos os exemplos do capítulo — precisamente para estabelecer que nenhuma estrutura física garante proteção total contra a absorção quando o cozimento está envolvido, encerrando o capítulo com o caso-limite que testa e confirma, por contraste, todos os princípios de absorção discutidos nas mishnayot anteriores.
O Rambam codifica os dois casos desta mishná final em Hilchot Terumot, no mesmo capítulo dedicado às misturas entre teruma e chulin que fundamenta todo este perek.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que encerra o Perek Yud.
"Temperos proibidos": seu significado é que aqueles temperos sejam teruma, hekdesh, ou orlá, ou kilei hakerem (o Rambam esclarece que a mishná não se refere apenas à teruma, mas emprega este caso final para consolidar o princípio geral de absorção aplicável a todas as categorias de proibição discutidas ao longo do tratado — a lei da gema do ovo vale igualmente para qualquer uma delas). E chelmon é o vermelho do ovo (a gema, identificada por sua cor característica, distinta da clara transparente ao redor).
"Com temperos proibidos": como temperos de teruma, ou de orlá e kilei hakerem.
"Mesmo a gema": o vermelho do ovo, que está por dentro — e tanto mais a clara, que está por fora (o Bartenura enfatiza a lógica a fortiori (kal vachomer) implícita na mishná: se até a gema, mais protegida e interna, absorve e fica proibida, a clara — em contato mais direto e externo com os temperos — certamente também absorve, sem sequer precisar de menção explícita).
"Águas de conserva e águas de fervura": em que se conservou ou se ferveu teruma, são proibidas aos estranhos (o Bartenura confirma, em sua formulação mais concisa, a mesma conclusão do Rambam — encerrando o capítulo com a extensão da proibição aos próprios líquidos residuais do processo).