Seder Zeraim · Massechet Terumot · Perek Yud · Mishná 12 (última)

"Um ovo que se cozinhou"

בֵּיצָה שֶׁנִּתְבַּשְּׁלָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra-se o Perek Yud: um ovo cozido com temperos proibidos torna proibida até sua gema, mais protegida internamente, porque ela absorve; e a água em que se ferveu ou conservou teruma é proibida aos estranhos — síntese final do princípio de absorção que percorreu todo este capítulo

Um ovo que se cozinhou com temperos proibidos (sejam eles de teruma, orlá, ou kilei hakerem — qualquer categoria proibida discutida ao longo deste perek), até sua gema é proibida (chelmon — o interior amarelo do ovo, protegido pela clara ao redor e pela casca; seria de se esperar que, por estar mais protegida e distante do contato direto com os temperos, a gema escapasse da proibição — mas a mishná ensina que não é assim), porque ela absorve (mesmo a camada mais interna e protegida do ovo absorve o sabor proibido durante o cozimento, pois o calor e o líquido penetram através de toda a estrutura do ovo, e não apenas em sua superfície externa). A água de fervura (mei shelakot — o líquido resultante de ferver vegetais ou outros alimentos junto com teruma) e a água de conserva (mei kevashim — o líquido de salmoura em que se conservou teruma) de teruma são proibidas aos estranhos (a mishná encerra o capítulo com uma afirmação geral e conclusiva: não apenas o alimento sólido que absorveu sabor de teruma está proibido, mas também os próprios líquidos resultantes desses processos — fervura e conserva — carregam em si a substância da teruma e permanecem proibidos a quem não é cohen, mesmo que sejam apenas "subproduto" do processo de preparo).

בֵּיצָה שֶׁנִּתְבַּשְּׁלָה בִּתְבָלִין אֲסוּרִין, אֲפִלּוּ חֶלְמוֹן שֶׁלָּהּ אָסוּר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא בּוֹלֵעַ. מֵי שְׁלָקוֹת וּמֵי כְבָשִׁים שֶׁל תְּרוּמָה, אֲסוּרִים לְזָרִים:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta última mishná do Perek Yud sintetiza, em dois casos finais, o princípio central que atravessou todo o capítulo — a proibição por absorção de sabor — aplicando-o tanto ao alimento sólido mais protegido (a gema do ovo) quanto ao líquido residual do processo (as águas de fervura e conserva).

Vayikrá (Levítico) 22:10
וְכָל זָר לֹא יֹאכַל קֹדֶשׁ, תּוֹשַׁב כֹּהֵן וְשָׂכִיר לֹא יֹאכַל קֹדֶשׁ.
"E nenhum estranho comerá coisa sagrada" (Vayikrá 22:10) — a proibição bíblica de consumo da teruma por quem não é cohen se estende, como demonstrado ao longo de todo este perek, a qualquer meio pelo qual sua substância seja efetivamente transferida e absorvida — seja em alimento sólido cortado ou inteiro, seja em líquido de conserva ou fervura. Esta mishná final reforça que nem mesmo a camada mais interna e protegida de um alimento (a gema do ovo) escapa dessa regra, e que os próprios líquidos residuais dos processos de preparo — não apenas os alimentos sólidos neles imersos — carregam a proibição.

Por que a gema do ovo, mais protegida que a clara, ainda assim absorve o sabor proibido? A resposta encerra, de modo instrutivo, o tema central de todo o Perek Yud: a estrutura física de um alimento determina o grau de sua absorção, mas raramente a impede por completo quando há calor e líquido envolvidos no processo. Ao contrário da cebola inteira de 10:1 ou da azeitona intacta de 10:7 — cuja casca resistente bloqueia a penetração de sabor externo em conserva fria — o ovo cozido é permeável por natureza: sua clara, ao cozinhar, não isola hermeticamente a gema, e o calor do cozimento cria condições físicas (expansão, porosidade da clara coagulada) que permitem a substância proibida alcançar até o núcleo do ovo. A mishná escolhe deliberadamente este caso extremo — o mais "protegido" de todos os exemplos do capítulo — precisamente para estabelecer que nenhuma estrutura física garante proteção total contra a absorção quando o cozimento está envolvido, encerrando o capítulo com o caso-limite que testa e confirma, por contraste, todos os princípios de absorção discutidos nas mishnayot anteriores.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica os dois casos desta mishná final em Hilchot Terumot, no mesmo capítulo dedicado às misturas entre teruma e chulin que fundamenta todo este perek.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 15:5
בֵּיצָה שֶׁנִּתְבְּלָה בְּתַבְלִין שֶׁל תְּרוּמָה, אֲפִלּוּ חֶלְמוֹן שֶׁלָּהּ אָסוּר, מִפְּנֵי שֶׁהוּא בּוֹלֵעַ.
"Um ovo que foi temperado com temperos de teruma, mesmo sua gema é proibida, porque ela absorve" (o Rambam mantém quase literalmente a linguagem e a lógica da mishná, confirmando que este princípio de absorção — mesmo no caso mais protegido — é lei final e sem disputa registrada entre os comentadores).
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Terumot 15:11
מֵי כְּבָשִׁים וּמֵי שְׁלָקוֹת שֶׁל תְּרוּמָה הֲרֵי הֵן אֲסוּרִין לְזָרִים.
"As águas de conserva e as águas de fervura de teruma, eis que são proibidas aos estranhos" (o Rambam codifica esta halachá em frase quase idêntica à da mishná, confirmando-a como conclusão definitiva e sem controvérsia — o líquido residual do processo de preparo de teruma carrega sua substância e permanece sob a mesma proibição do alimento original, encerrando assim, tanto na mishná quanto no Mishné Torá, o conjunto de regras sobre misturas entre teruma e chulin que ocupou todo o Perek Yud).

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná, que encerra o Perek Yud.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Terumot 10:12
תבלין אסורין, ענינו שיהיו אותם התבלין תרומה הקדש או ערלה או כלאי הכרם, וחלמון הוא אודם הביצה.

"Temperos proibidos": seu significado é que aqueles temperos sejam teruma, hekdesh, ou orlá, ou kilei hakerem (o Rambam esclarece que a mishná não se refere apenas à teruma, mas emprega este caso final para consolidar o princípio geral de absorção aplicável a todas as categorias de proibição discutidas ao longo do tratado — a lei da gema do ovo vale igualmente para qualquer uma delas). E chelmon é o vermelho do ovo (a gema, identificada por sua cor característica, distinta da clara transparente ao redor).

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Terumot 10:12
בִּתְבָלִים אֲסוּרִים. כְּגוֹן תְּבָלִין שֶׁל תְּרוּמָה אוֹ שֶׁל עָרְלָה וְכִלְאֵי הַכֶּרֶם: אֲפִלּוּ חֶלְמוֹן. הָאֹדֶם שֶׁל בֵּיצָה שֶׁהוּא מִבִּפְנִים, וְכָל שֶׁכֵּן הַחֶלְבּוֹן שֶׁהוּא מִבַּחוּץ: מֵי כְבָשִׁים וּמֵי שְׁלָקוֹת. שֶׁנִּכְבְּשׁוּ אוֹ נִשְׁלְקוּ בָהֶן תְּרוּמָה, אֲסוּרִים לְזָרִים.

"Com temperos proibidos": como temperos de teruma, ou de orlá e kilei hakerem.

"Mesmo a gema": o vermelho do ovo, que está por dentro — e tanto mais a clara, que está por fora (o Bartenura enfatiza a lógica a fortiori (kal vachomer) implícita na mishná: se até a gema, mais protegida e interna, absorve e fica proibida, a clara — em contato mais direto e externo com os temperos — certamente também absorve, sem sequer precisar de menção explícita).

"Águas de conserva e águas de fervura": em que se conservou ou se ferveu teruma, são proibidas aos estranhos (o Bartenura confirma, em sua formulação mais concisa, a mesma conclusão do Rambam — encerrando o capítulo com a extensão da proibição aos próprios líquidos residuais do processo).

Massechet Terumot não possui Guemará no Talmud Bavli — como os demais tratados da Ordem de Zeraim (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado. Com esta mishná encerra-se o Perek Yud de Massechet Terumot, dedicado inteiramente às leis de mistura entre teruma e chulin — o princípio de noten taam (dar sabor) que determina quando um alimento absorve e transmite a proibição de outro, examinado através de cebolas, maçãs, pão e vinho, cominho, tiltan, azeitonas, peixes e gafanhotos impuros, vegetais em conserva e cozidos, carne e fígado, e finalmente o ovo e as águas residuais de preparo. O tratado prossegue no Perek Yud-Alef, seu capítulo final.