Seder Kodashim · Massechet Temurá · Perek Guimel · Mishná 4 de 5

Diferença entre a oferenda de dever e a voluntária

וַהֲלֹא אַף הַנְּדָבָה עוֹלָה הִיא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná explica a diferença prática entre a olá individual de obrigação, trazida pelo próprio dono, e a olá voluntária comunitária comprada com o excedente das trocas — apoio das mãos, libações e couro na primeira; nada disso, e serviço dos homens do turno sacerdotal, na segunda

Mas não é também a oferenda voluntária uma olá? Qual é a diferença entre as palavras de Rabi Elazar e as palavras dos sábios? Antes, quando ela vem como obrigação, ele apoia as mãos sobre ela e traz por ela libações, e suas libações são suas; e se for sacerdote, o serviço dela e seu couro são seus. E quando ela vem como oferenda voluntária, ele não apoia as mãos sobre ela e não traz por ela libações, e suas libações são da comunidade; ainda que seja sacerdote, o serviço dela e seu couro são dos homens do turno sacerdotal.

— Esta mishná é, na verdade, a continuação direta da anterior: um interlocutor pergunta por que Rabi Elazar e os sábios discordam sobre se o valor da venda deve comprar uma olá individual ou uma olá voluntária comunitária, já que ambas são, afinal, chamadas de “olá” — qual seria, então, a diferença prática entre elas? A mishná responde detalhando quatro diferenças concretas. Quando a olá vem como obrigação pessoal do dono — posição de Rabi Elazar — o próprio dono apoia as mãos sobre a cabeça do animal antes do abate, como em toda oferenda individual; ele mesmo custeia e traz as libações de vinho, farinha e óleo que a acompanham; e, se o dono for sacerdote, tanto o direito de realizar o serviço no altar quanto o couro do animal pertencem a ele pessoalmente. Já quando a olá vem como oferenda voluntária da comunidade — posição dos sábios — não há apoio de mãos, pois oferendas comunitárias não o exigem; as libações são custeadas pelo tesouro público, não pelo antigo dono; e mesmo que o dono original seja sacerdote, o direito ao serviço e ao couro pertence aos sacerdotes do turno de serviço daquela semana, e não a ele individualmente, pois o animal já não lhe pertence mais.

וַהֲלֹא אַף הַנְּדָבָה עוֹלָה הִיא. מַה בֵּין דִּבְרֵי רַבִּי אֶלְעָזָר לְדִבְרֵי חֲכָמִים. אֶלָּא, בִּזְמַן שֶׁהִיא בָאָה חוֹבָה, הוּא סוֹמֵךְ עָלֶיהָ וּמֵבִיא עָלֶיהָ נְסָכִין, וּנְסָכֶיהָ מִשֶּׁלּוֹ. וְאִם הָיָה כֹהֵן, עֲבוֹדָתָהּ וְעוֹרָהּ שֶׁלּוֹ. וּבִזְמַן שֶׁהִיא בָאָה נְדָבָה, אֵינוֹ סוֹמֵךְ עָלֶיהָ וְאֵינוֹ מֵבִיא עָלֶיהָ נְסָכִין, וּנְסָכֶיהָ מִשֶּׁל צִבּוּר. אַף עַל פִּי שֶׁהוּא כֹהֵן, עֲבוֹדָתָהּ וְעוֹרָהּ שֶׁל אַנְשֵׁי מִשְׁמָר:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Temurá 3:4
וַהֲלֹא אַף הַנְּדָבָה עוֹלָה הִיא, מַה בֵּין דִּבְרֵי רַבִּי אֶלְעָזָר לְדִבְרֵי חֲכָמִים כו': כל זה מבואר, ואין צריך פירוש, לכשתבין כל מה שהקדמנו:

Rambam considera esta mishná suficientemente clara por si mesma, à luz de tudo o que já explicou nas mishnayot anteriores sobre a natureza das oferendas de obrigação e voluntárias, dispensando comentário adicional.

Bartenura · Temurá 3:4
וַהֲלֹא אַף הַנְּדָבָה עוֹלָה. פֵּרוּשֵׁי קָמְפָרֵשׁ מַאי בֵּינַיְהוּ: בִּזְמַן שֶׁהִיא בָאָה חוֹבָה. שֶׁהִיא מֻטֶּלֶת עַל הַיָּחִיד לְהַקְרִיבָהּ, סוֹמֵךְ עָלֶיהָ כוּ': וְאִם הָיָה כֹהֵן. אוֹתוֹ שֶׁהִפְרִישׁ אָשָׁם וְנִתְכַּפֵּר בְּאַחֵר, וְנִתְּקוֹ לָרִאשׁוֹן בִּרְעִיָּה: עֲבוֹדָתָהּ וְעוֹרָהּ. שֶׁל עוֹלָה הַקְּנוּיָה מִדְּמֵי אוֹתוֹ אָשָׁם, שֶׁלּוֹ הִיא, שֶׁהוּא עַצְמוֹ מַקְרִיבָהּ וְנוֹטֵל הָעוֹר, וַאֲפִלּוּ אֵינוֹ מִן הַמִּשְׁמָר שֶׁל אוֹתָהּ שַׁבָּת: אֵינוֹ סוֹמֵךְ עָלֶיהָ. דְּנִדְבַת צִבּוּר אֵין בָּהֶם סְמִיכָה: וְאַף עַל פִּי שֶׁהוּא כֹהֵן עֲבוֹדָתָהּ וְעוֹרָהּ לְאַנְשֵׁי מִשְׁמָר. שֶׁהֲרֵי שֶׁל צִבּוּר הוּא, וְאֵין כֹּהֵן שֶׁל מִשְׁמָר אַחֵר רַשַּׁאי לְהַקְרִיב, דִּכְתִיב “לְבַד מִמְכָּרָיו עַל הָאָבוֹת”, מַה שֶּׁמָּכְרוּ הָאָבוֹת זֶה לָזֶה, טֹל אַתָּה אֶת שַׁבַּתְּךָ וַאֲנִי אֶטֹּל אֶת שַׁבַּתִּי. וַהֲלָכָה כְּדִבְרֵי חֲכָמִים:

Bartenura confirma que a mishná é a explicação da própria Guemará à pergunta óbvia — se ambas se chamam “olá”, qual a diferença prática entre elas. Contextualiza o exemplo concreto por trás da mishná: um dono que separou um animal para oferenda de culpa e depois se expiou com outro; o primeiro animal é posto a pastar, vendido, e seu valor compra uma olá — que pode vir como obrigação individual (opinião de Rabi Elazar) ou como voluntária comunitária (opinião dos sábios). No primeiro caso, o antigo dono — se for sacerdote — tem direito ao serviço e ao couro mesmo que não seja seu turno de serviço naquela semana, pois é sua oferenda pessoal. No segundo caso, não há apoio de mãos, pois oferendas comunitárias não o exigem; e o serviço e o couro pertencem exclusivamente aos sacerdotes do turno daquela semana, com base no versículo que reserva a cada turno sacerdotal sua porção — “além do que cada um vende entre os grupos paternos” — um acordo mútuo entre os turnos de que cada um usufrui apenas de seu próprio sábado de serviço. A halachá segue os sábios.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Temurá 20b, sobre a Guemará desta mishná
והלא אף הנדבה עולה היא — בניחותא, אלא פרושי מפרש ואזיל, מאי בינייהו: בזמן שהיא באה חובה — שהיא מוטלת על היחיד להקריבה, סומך עליה כו': ואם היה כהן — אותו שהפריש האשם וכפר באחר, וניתק הראשון לרעייה: עבודתה ועורה — של עולה הבאה מן המותר, שלו היא, שהוא עצמו מקריבה ונוטל את העור, ואפילו אינו מאותו משמר המשמרת באותה שבת, דהכי תניא, מנין לכהן שבא ומקריב קרבנותיו בכל עת ובכל שעה שירצה, תלמוד לומר “ובא בכל אות נפשו ושרת”: ולא סומך עליה — דקרבן צבור אין בו סמיכה, חוץ מפר העלם דבר של צבור ושעיר המשתלח, דגמירי שתי סמיכות בצבור: ואע"פ שכהן — כלומר, ואפילו הוא כהן, עבודתה ועורה של אנשי משמר, שהרי של צבור היא, ואין כהן של משמר אחר רשאי להקריב, דכתיב “לבד ממכריו על האבות”, מה מסרו אבות זה לזה, אני בשבתי ואתם בשבתכם:

Rashi lê a pergunta inicial da mishná como retórica e já concordada — “não é também a voluntária uma olá?” — servindo apenas para introduzir a explicação que se segue. Localiza o cenário concreto: o antigo dono de uma oferenda de culpa que já se expiou por outro animal, cujo primeiro animal foi liberado para o pastoreio. Sobre o direito ao serviço e ao couro na olá de obrigação, cita a fonte que permite a um sacerdote oferecer seus próprios sacrifícios a qualquer hora, independentemente do turno de serviço vigente. Explica por que a oferenda comunitária dispensa o apoio das mãos, citando as duas únicas exceções conhecidas em que uma oferenda pública recebe semichá — o touro comunitário por transgressão inadvertida e o bode enviado ao deserto em Yom Kipur. Por fim, fundamenta a exclusividade do turno sacerdotal sobre o serviço e o couro das oferendas comunitárias no versículo que reserva a cada grupo sacerdotal apenas sua própria porção, segundo o acordo mútuo estabelecido entre os turnos.