O cântico que os levitas diziam no Templo: no primeiro dia diziam: Do Senhor é a terra e sua plenitude, o mundo e os que nele habitam. No segundo diziam: Grande é o Senhor e muito louvado, na cidade de nosso Deus, seu monte santo. No terceiro diziam: Deus se põe na assembleia divina, no meio dos deuses julga. No quarto diziam: Deus das vinganças, Senhor, Deus das vinganças, resplandece, etc. No quinto diziam: Cantai com alegria a Deus, nossa fortaleza; aclamai ao Deus de Jacó. No sexto diziam: O Senhor reinou, vestiu-se de majestade, etc. Em Shabat diziam: Salmo, cântico para o dia de Shabat — salmo, cântico para o futuro que virá, para o dia que é todo Shabat, repouso para a vida dos mundos.
Segue-se a lista de cada salmo diário que os levitas recitavam no Templo. No primeiro dia da semana recitavam o salmo que começa: “Salmo de David. A terra é do Senhor, e sua plenitude, o mundo e os que nele habitam” (Tehilim 24), por ser o primeiro dia da obra da criação. No segundo dia recitavam o salmo que começa: “Cântico, salmo dos filhos de Corach. Grande é o Senhor e muito louvado, na cidade de nosso Deus, seu monte santo” (Tehilim 48), pois nesse dia as águas se dividiram e o firmamento ficou entre elas. No terceiro dia recitavam o salmo que começa: “Salmo de Asaf. Deus se põe na assembleia divina; entre os juízes Ele julga” (Tehilim 82), pois nesse dia apareceu a terra seca, sobre a qual os juízes se põem de pé para fazer justiça. No quarto dia recitavam o salmo que começa: “Deus das vinganças, Senhor, Deus das vinganças, resplandece” (Tehilim 94), pois nesse dia foram criados o sol, a lua e as estrelas, dos quais o Santo, bendito seja, no futuro se vingará dos que os adoram. No quinto dia recitavam o salmo que começa: “Para o regente; sobre a guitit, salmo de Asaf. Cantai com alegria a Deus, nossa fortaleza; aclamai ao Deus de Jacó” (Tehilim 81), pois nesse dia foram criados os animais, e há neles maravilhas pela diversidade de suas espécies, por seu movimento próprio, e outras maravilhas presentes nos seres vivos; e diz-se este salmo porque, ao vê-los, louva-se e engrandece-se o Criador. No sexto dia recitavam o salmo que começa: “O Senhor reinou, vestiu-se de majestade”, vestiu-se, etc. (Tehilim 93), pois nesse dia se completou a obra da criação, e nele foi criado também o homem, que reconhece a majestade de seu Criador. Em Shabat recitavam o salmo que começa: “Salmo, cântico para o dia de Shabat” (Tehilim 92) — interpretado como um salmo, um cântico para o futuro, para o dia que será inteiramente Shabat e repouso para a vida eterna. Este tanna segue a opinião de quem diz que o mundo dura seis mil anos e um é de desolação; e por o mundo vindouro ser um dia em que só o Santo, bendito seja, existirá, como está dito: “e o Senhor só Ele será exaltado naquele dia” (Ieshaiáhu 2), por isso dizem em Shabat “salmo, cântico para o dia de Shabat”, referindo-se ao sétimo milênio, cujo dia é o dia do Santo, bendito seja, mil anos.
“Do Senhor é a terra e sua plenitude, o mundo e os que nele habitam.” Recitado no primeiro dia da semana, por marcar o início da obra da criação.
“Grande é o Senhor e muito louvado, na cidade de nosso Deus, seu monte santo.” Recitado no segundo dia, quando as águas foram divididas e o firmamento se formou entre elas.
“Deus se põe na assembleia divina; entre os juízes Ele julga.” Recitado no terceiro dia, quando surgiu a terra seca sobre a qual os juízes exercem a justiça.
“Deus das vinganças, Senhor, Deus das vinganças, resplandece.” Recitado no quarto dia, quando foram criados o sol, a lua e as estrelas, futuros objetos de idolatria dos quais Deus se vingará.
“Cantai com alegria a Deus, nossa fortaleza; aclamai ao Deus de Jacó.” Recitado no quinto dia, quando foram criados os animais, cuja contemplação leva a louvar o Criador.
“O Senhor reinou, vestiu-se de majestade.” Recitado no sexto dia, quando se completou a obra da criação com a criação do homem, capaz de reconhecer a majestade de seu Criador.
“Salmo, cântico para o dia de Shabat.” Recitado no sétimo dia, entendido como antecipação do futuro por vir — o dia que será inteiramente Shabat e repouso para a vida eterna, correspondente ao sétimo milênio da existência do mundo.
Rambam explica que já se esclareceu na Guemará de Rosh HaShaná (31a) o motivo pelo qual se dedicou cada um desses salmos a cada um desses dias. E disseram: no primeiro dia, “Do Senhor é a terra e sua plenitude”, por ser o início da obra da criação; e no segundo, em que as águas se dividiram e o firmamento ficou abaixo delas, diz-se “Grande é o Senhor”; e no terceiro, em que apareceu a terra sobre a qual haverá o julgamento e os juízes, diz-se “Deus se põe na assembleia divina”; no quarto, em que foram criados o sol e a lua, diz-se “Deus das vinganças, Senhor”, que se vinga dos que se desviam após seu culto; no quinto, em que foram criadas as espécies de seres vivos, e há nisso maravilhas pela diversidade de suas espécies e de seu movimento próprio, e outras maravilhas que há nos seres vivos, diz-se “Cantai com alegria a Deus, nossa fortaleza”, porque, ao vê-los, louvam o Criador e O engrandecem; no sexto, em que se completou a obra da criação e nele também foi criado o homem, que compreende a grandeza do Criador, exaltado seja, diz-se “O Senhor reinou, vestiu-se de majestade”.
Bartenura explica: “no primeiro, ‘Do Senhor é a terra e sua plenitude’” — por ser o primeiro dia da obra da criação. “No segundo, ‘Grande é o Senhor’” — pois nele as águas se dividiram, e houve um firmamento entre as águas superiores e inferiores. “No terceiro, ‘Deus se põe na assembleia divina’” — pois nele apareceu a terra seca, sobre a qual os juízes se põem de pé para fazer justiça. “No quarto, ‘Deus das vinganças’” — pois nele foram criados o sol, a lua e as estrelas, dos quais no futuro o Santo, bendito seja, se vingará dos que os adoram. “No quinto, ‘Cantai com alegria a Deus, nossa fortaleza’” — pois nele foram criados os seres vivos, e quem os vê canta e louva a seu Criador. “No sexto, ‘O Senhor reinou’” — pois nele se completou a criação, e nele foi criado o homem, que reconhece a realeza de seu Formador. Sobre “repouso para a vida eterna”: este tanna segue a opinião de quem diz que o mundo dura seis mil anos, e um é de desolação; e por não haver, no sétimo milênio, senão o Santo, bendito seja, sozinho, como está dito: “e só o Senhor será exaltado naquele dia” (Ieshaiáhu 2), por isso se diz em Shabat “Salmo, cântico para o dia de Shabat”, referindo-se ao sétimo milênio, cujo dia é do Santo, bendito seja, mil anos.
Com esta mishná, encerra-se o Perek Zayin, sétimo e último capítulo, e com ele toda a Massechet Tamid. A Guemará do Talmud Bavli fecha o tratado, em Tamid 33b, com a fórmula tradicional acima — “Retornaremos a ti, ‘Quando o Sumo Sacerdote’, e concluída está a Massechet Tamid” —, o hadran que expressa o compromisso de retornar ao estudo deste tratado, citando as palavras de abertura do próprio Perek Zayin.
Este último capítulo acompanhou o encerramento do serviço matinal permanente: a entrada do Sumo Sacerdote no Santuário para prostrar-se, amparado por três sacerdotes, com o sinal sonoro de seus passos anunciando sua saída (7:1); a bênção sacerdotal recitada pelos cinco sacerdotes sobre os degraus do vestíbulo, com o Nome pronunciado tal como está escrito e a disputa de Rabi Yehudá sobre a altura das mãos do Sumo Sacerdote (7:2); a subida do Sumo Sacerdote à rampa para queimar os membros da oferenda, o circuito das quatro esquinas do altar, a libação de vinho sinalizada pelos panos do vice-sacerdote, as trombetas de prata e os címbalos de Ben Arza, com o cântico dos levitas pontuado por toques e prostrações (7:3); e, por fim, a lista dos sete salmos diários recitados pelos levitas, culminando no salmo de Shabat como antecipação do mundo vindouro (7:4).
Massechet Tamid, dedicada à descrição narrativa do serviço diário permanente (korban tamid) no Templo, percorreu sete perakim e trinta e quatro mishnayot: desde a guarda noturna do Templo e a remoção das cinzas do altar à luz da fogueira (Perek Alef), passando pelo trabalho coletivo de subida das lenhas e a arrumação das duas fogueiras (Perek Bet), pelo segundo sorteio e todos os preparativos até a abertura do Santuário, o mais extenso capítulo do tratado (Perek Guimel), pela degolação do cordeiro e a fileira dos nove sacerdotes carregando seus membros (Perek Dalet), pela leitura do Shemá e os sorteios do incenso na Câmara de Pedras Lavradas (Perek Hei), pela entrada no Santuário com o incenso e as brasas (Perek Vav), até este capítulo final sobre a prostração, a bênção, a queima e o cântico dos levitas (Perek Zayin). Não se encontrou, na base do Sefaria, um Rashi sobre Massechet Tamid; por essa razão, a seção de mefarshim foi omitida em todo o tratado, que se apoiou em Rambam e Bartenura como comentadores centrais. Massechet Tamid é o nono tratado de Seder Kodashim. Segue-se, na ordem, Massechet Midot, dedicada à descrição arquitetônica do Templo.