Disse Rabán Shimon ben Gamliel: não havia dias tão festivos para Israel como o quinze de Av e como Yom Kipur, pois neles as filhas de Jerusalém saíam com roupas brancas emprestadas, para não envergonhar quem não as tinha. Todas as roupas requerem imersão. — Rabán Shimon ben Gamliel identifica dois dias de alegria máxima, unindo um dia de festa agrícola e romance (quinze de Av) a um dia de expiação e proximidade divina (Yom Kipur) — combinação surpreendente que sugere que a alegria mais profunda nasce tanto da celebração quanto do perdão. Em ambos os dias, as jovens de Jerusalém vestiam roupas brancas emprestadas umas das outras, deliberadamente, para que nenhuma moça sem recursos próprios se sentisse envergonhada por não ter vestido próprio — um nivelamento social através do empréstimo universal, reforçado pela exigência de que todas as roupas emprestadas passassem por imersão ritual antes do uso, prevenindo qualquer dúvida sobre pureza.
E as filhas de Jerusalém saíam e dançavam nas vinhas. E o que diziam? "Rapaz, ergue teus olhos e vê o que escolhes para ti. Não ponhas teus olhos na beleza, põe teus olhos na família — falsa é a graça e vã é a formosura, a mulher que teme o Eterno, essa será louvada." — No cenário informal das vinhas fora da cidade, as jovens dançavam e cantavam versos que subvertiam deliberadamente as prioridades românticas convencionais: em vez de convidar os rapazes a valorizar a aparência física, elas mesmas os instruíam a olhar além, para o caráter familiar e a piedade — citando diretamente o verso de Provérbios sobre a mulher que teme a D'us como o verdadeiro padrão de valor, superior à graça e à beleza passageiras.
E diz: "Dai-lhe do fruto de suas mãos, e louvem-na nos portões suas obras." E também diz: "Saí e vede, filhas de Sion, o rei Salomão, com a coroa que sua mãe o coroou no dia de seu casamento e no dia da alegria de seu coração." "No dia de seu casamento" — essa é a entrega da Torá. "E no dia da alegria de seu coração" — essa é a construção do Templo, que seja reconstruído prontamente em nossos dias. Amém. — A mishná encerra o tratado inteiro com uma leitura alegórica do Cântico dos Cânticos: o "rei Salomão" do verso é lido como referência a D'us, "rei da paz"; seu "dia de casamento" torna-se metáfora para a entrega da Torá no Sinai, o momento em que D'us "desposou" Israel; e "o dia da alegria de seu coração" torna-se metáfora para a construção do Templo — de modo que a última imagem de todo o tratado sobre jejuns e lamentação é, paradoxalmente, uma visão de casamento, coroação e alegria, fechada com a súplica de que o Templo destruído, cuja perda motivou tantos dos jejuns tratados ao longo de Massechet Taanit, seja finalmente reconstruído.
A mishná encerra todo o tratado citando este verso do Cântico dos Cânticos e interpretando cada uma de suas frases como referência a dois marcos definidores da relação entre D'us e Israel: o "dia de seu casamento" torna-se a entrega da Torá no Sinai, e "o dia da alegria de seu coração" torna-se a construção do Templo. A escolha final não é acidental: um tratado inteiro dedicado a jejuns — a resposta comunitária a secas, pestes, guerras e à memória da destruição do Templo — termina com a imagem oposta, de casamento e coroação, como se toda a estrutura de luto e súplica construída ao longo dos quatro perakim existisse, em última análise, a serviço de uma esperança de reconciliação e alegria renovada. A súplica final, "que seja reconstruído prontamente em nossos dias, amém", transforma a mishná de descrição histórica em oração viva, projetando para o futuro a mesma alegria nupcial que o verso atribui ao passado do Sinai e do primeiro Templo.
Rambam explica por que todas as roupas emprestadas exigiam imersão e a origem histórica de quinze de Av como dia de alegria; Bartenura complementa com a razão específica ligada à geração do deserto.
O motivo de exigir imersão de todas as roupas é que elas se misturavam umas com as outras, e sem dúvida entre toda aquela multidão havia mulheres em estado de impureza, e do mesmo modo entre os homens havia impuros. E as mulheres mais belas e formosas entre elas diziam: "Rapaz, ergue teus olhos e vê o que escolhes para ti" — pois uma mulher não é apenas para a beleza. E as de boa linhagem, quando não despertavam graça aos olhos de quem as via, diziam: "Não ponhas teus olhos na beleza, põe teus olhos na família" — pois uma mulher não é apenas para os filhos que ela dará. E escolheram o dia quinze de Av porque nele cessou a mortandade dos que morreram no deserto no quadragésimo ano — pois a morte era abundante em cada nove de Av, e no último ano cessou, e esperaram até o meio do mês, e então confiaram em si mesmos e acreditaram, e sentiram nisso a vontade do Criador e o afastamento de Sua ira e de Seu furor sobre eles — e por isso fizeram daquele momento em diante um dia de banquete e alegria.
Rashi explica o motivo prático do empréstimo universal de roupas, o verbo "dançar" e a leitura alegórica final do verso de Salomão.
"Emprestadas" — pois todas emprestavam umas das outras, mesmo as ricas, para que não se envergonhasse quem não tinha vestido próprio — um gesto de solidariedade que apagava, ao menos naquele dia, toda distinção visível entre ricas e pobres. "Requerem imersão" — antes de vesti-las, porque nenhuma sabia com certeza sobre a outra se ela havia estado em estado de impureza ritual, e por precaução todas as roupas emprestadas eram imersas antes do uso. "E dançavam" — do mesmo sentido de "dançar em danças" [Shoftim 21]. "No rei Salomão" — no rei a quem pertence a paz, uma leitura do nome como epíteto divino. "Sua mãe" — a assembleia de Israel, personificada como mãe que coroa o próprio D'us com a devoção do povo. "Isto é a entrega da Torá" — pois Yom Kipur foi o dia em que foram entregues as segundas tábuas, completando a reconciliação após o pecado do bezerro de ouro — de modo que mesmo o dia mais solene de expiação do calendário é lido, nesta última linha do tratado, como um dia de casamento entre D'us e Israel, tão alegre quanto o quinze de Av.