Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Dalet · Mishná 8 de 8 (última do tratado)

Quinze de Av e Yom Kipur: as filhas de Jerusalém nas vinhas

לֹא הָיוּ יָמִים טוֹבִים לְיִשְׂרָאֵל כַּחֲמִשָּׁה עָשָׂר בְּאָב וּכְיוֹם הַכִּפּוּרִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando Massechet Taanit numa nota inesperadamente festiva, a última mishná do tratado descreve os dois dias mais alegres do calendário judaico — o quinze de Av e Yom Kipur — quando as filhas de Jerusalém saíam vestidas de branco, emprestando roupas umas das outras por humildade, e dançavam nas vinhas convidando os jovens a escolher esposa pelo caráter, não pela beleza.

Disse Rabán Shimon ben Gamliel: não havia dias tão festivos para Israel como o quinze de Av e como Yom Kipur, pois neles as filhas de Jerusalém saíam com roupas brancas emprestadas, para não envergonhar quem não as tinha. Todas as roupas requerem imersão.Rabán Shimon ben Gamliel identifica dois dias de alegria máxima, unindo um dia de festa agrícola e romance (quinze de Av) a um dia de expiação e proximidade divina (Yom Kipur) — combinação surpreendente que sugere que a alegria mais profunda nasce tanto da celebração quanto do perdão. Em ambos os dias, as jovens de Jerusalém vestiam roupas brancas emprestadas umas das outras, deliberadamente, para que nenhuma moça sem recursos próprios se sentisse envergonhada por não ter vestido próprio — um nivelamento social através do empréstimo universal, reforçado pela exigência de que todas as roupas emprestadas passassem por imersão ritual antes do uso, prevenindo qualquer dúvida sobre pureza.

E as filhas de Jerusalém saíam e dançavam nas vinhas. E o que diziam? "Rapaz, ergue teus olhos e vê o que escolhes para ti. Não ponhas teus olhos na beleza, põe teus olhos na família — falsa é a graça e vã é a formosura, a mulher que teme o Eterno, essa será louvada."No cenário informal das vinhas fora da cidade, as jovens dançavam e cantavam versos que subvertiam deliberadamente as prioridades românticas convencionais: em vez de convidar os rapazes a valorizar a aparência física, elas mesmas os instruíam a olhar além, para o caráter familiar e a piedade — citando diretamente o verso de Provérbios sobre a mulher que teme a D'us como o verdadeiro padrão de valor, superior à graça e à beleza passageiras.

E diz: "Dai-lhe do fruto de suas mãos, e louvem-na nos portões suas obras." E também diz: "Saí e vede, filhas de Sion, o rei Salomão, com a coroa que sua mãe o coroou no dia de seu casamento e no dia da alegria de seu coração." "No dia de seu casamento" — essa é a entrega da Torá. "E no dia da alegria de seu coração" — essa é a construção do Templo, que seja reconstruído prontamente em nossos dias. Amém.A mishná encerra o tratado inteiro com uma leitura alegórica do Cântico dos Cânticos: o "rei Salomão" do verso é lido como referência a D'us, "rei da paz"; seu "dia de casamento" torna-se metáfora para a entrega da Torá no Sinai, o momento em que D'us "desposou" Israel; e "o dia da alegria de seu coração" torna-se metáfora para a construção do Templo — de modo que a última imagem de todo o tratado sobre jejuns e lamentação é, paradoxalmente, uma visão de casamento, coroação e alegria, fechada com a súplica de que o Templo destruído, cuja perda motivou tantos dos jejuns tratados ao longo de Massechet Taanit, seja finalmente reconstruído.

אָמַר רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל, לֹא הָיוּ יָמִים טוֹבִים לְיִשְׂרָאֵל כַּחֲמִשָּׁה עָשָׂר בְּאָב וּכְיוֹם הַכִּפּוּרִים, שֶׁבָּהֶן בְּנוֹת יְרוּשָׁלַיִם יוֹצְאוֹת בִּכְלֵי לָבָן שְׁאוּלִין, שֶׁלֹּא לְבַיֵּשׁ אֶת מִי שֶׁאֵין לוֹ. כָּל הַכֵּלִים טְעוּנִין טְבִילָה. וּבְנוֹת יְרוּשָׁלַיִם יוֹצְאוֹת וְחוֹלוֹת בַּכְּרָמִים. וּמֶה הָיוּ אוֹמְרוֹת, בָּחוּר, שָׂא נָא עֵינֶיךָ וּרְאֵה, מָה אַתָּה בוֹרֵר לָךְ. אַל תִּתֵּן עֵינֶיךָ בַנּוֹי, תֵּן עֵינֶיךָ בַמִּשְׁפָּחָה. שֶׁקֶר הַחֵן וְהֶבֶל הַיֹּפִי, אִשָּׁה יִרְאַת ה' הִיא תִתְהַלָּל (משלי לא). וְאוֹמֵר, תְּנוּ לָהּ מִפְּרִי יָדֶיהָ, וִיהַלְלוּהָ בַשְּׁעָרִים מַעֲשֶׂיהָ. וְכֵן הוּא אוֹמֵר, צְאֶינָה וּרְאֶינָה בְּנוֹת צִיּוֹן בַּמֶּלֶךְ שְׁלֹמֹה בָּעֲטָרָה שֶׁעִטְּרָה לּוֹ אִמּוֹ בְּיוֹם חֲתֻנָּתוֹ וּבְיוֹם שִׂמְחַת לִבּוֹ (שיר השירים ג). בְּיוֹם חֲתֻנָּתוֹ, זֶה מַתַּן תּוֹרָה. וּבְיוֹם שִׂמְחַת לִבּוֹ, זֶה בִּנְיַן בֵּית הַמִּקְדָּשׁ, שֶׁיִּבָּנֶה בִמְהֵרָה בְיָמֵינוּ. אָמֵן:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shir HaShirim 3:11
צְאֶינָה וּרְאֶינָה בְּנוֹת צִיּוֹן בַּמֶּלֶךְ שְׁלֹמֹה, בָּעֲטָרָה שֶׁעִטְּרָה לּוֹ אִמּוֹ בְּיוֹם חֲתֻנָּתוֹ וּבְיוֹם שִׂמְחַת לִבּוֹ.
Saí e vede, filhas de Sion, o rei Salomão, com a coroa que sua mãe o coroou no dia de seu casamento e no dia da alegria de seu coração.

A mishná encerra todo o tratado citando este verso do Cântico dos Cânticos e interpretando cada uma de suas frases como referência a dois marcos definidores da relação entre D'us e Israel: o "dia de seu casamento" torna-se a entrega da Torá no Sinai, e "o dia da alegria de seu coração" torna-se a construção do Templo. A escolha final não é acidental: um tratado inteiro dedicado a jejuns — a resposta comunitária a secas, pestes, guerras e à memória da destruição do Templo — termina com a imagem oposta, de casamento e coroação, como se toda a estrutura de luto e súplica construída ao longo dos quatro perakim existisse, em última análise, a serviço de uma esperança de reconciliação e alegria renovada. A súplica final, "que seja reconstruído prontamente em nossos dias, amém", transforma a mishná de descrição histórica em oração viva, projetando para o futuro a mesma alegria nupcial que o verso atribui ao passado do Sinai e do primeiro Templo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam explica por que todas as roupas emprestadas exigiam imersão e a origem histórica de quinze de Av como dia de alegria; Bartenura complementa com a razão específica ligada à geração do deserto.

Rambam · Perush HaMishná, Taanit 4:8
מה שחייב להטביל הכלים כולם מפני שהיו מתערבות זו בזו ובלי ספק היה בכל ההמון נשים בלי טהורות וכמו כן באנשים בלי טהורים: והנשים הנאות והיפות שבהם היו אומרות בחור שא נא עיניך וראה מה אתה בורר לך שאין אשה אלא ליופי. והמיוחסות כשלא היו נושאות חן בעיני רואיהן היו אומרות אל תתן עיניך בנוי תן עיניך במשפחה שאין אשה אלא לבנים: ובחרו יום חמשה עשר באב לפי שבו נסתלקה המגפה ממתי מדבר בשנת הארבעים כי המות היתה הרבה בכל ט' באב ובשנה האחרונה נסתלקה והמתינו עד חצי החדש ואז בטחו בנפשם והאמינו בעצמם והרגישו בו רצון הבורא והשבת אפו וסילוק חמתו מהם ולפיכך עשו אותו משם והלאה יום משתה וששון:

O motivo de exigir imersão de todas as roupas é que elas se misturavam umas com as outras, e sem dúvida entre toda aquela multidão havia mulheres em estado de impureza, e do mesmo modo entre os homens havia impuros. E as mulheres mais belas e formosas entre elas diziam: "Rapaz, ergue teus olhos e vê o que escolhes para ti" — pois uma mulher não é apenas para a beleza. E as de boa linhagem, quando não despertavam graça aos olhos de quem as via, diziam: "Não ponhas teus olhos na beleza, põe teus olhos na família" — pois uma mulher não é apenas para os filhos que ela dará. E escolheram o dia quinze de Av porque nele cessou a mortandade dos que morreram no deserto no quadragésimo ano — pois a morte era abundante em cada nove de Av, e no último ano cessou, e esperaram até o meio do mês, e então confiaram em si mesmos e acreditaram, e sentiram nisso a vontade do Criador e o afastamento de Sua ira e de Seu furor sobre eles — e por isso fizeram daquele momento em diante um dia de banquete e alegria.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o motivo prático do empréstimo universal de roupas, o verbo "dançar" e a leitura alegórica final do verso de Salomão.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 26b-31a — o empréstimo de roupas, o sentido de "dançar" e a leitura final do verso de Salomão
שאולין – שכולן שואלות זו מזו אפילו עשירות כדי שלא לבייש כו': טעונין טבילה – קודם שילבשום לפי שאין כל אחת בקיאה בחברתה שמא נדה היתה: וחולות – כמו לחול במחולות: במלך שלמה – במלך שהשלום שלו: אמו – כנסת ישראל: זה מתן תורה – יום הכפורים שניתנו בו לוחות האחרונות:

"Emprestadas" — pois todas emprestavam umas das outras, mesmo as ricas, para que não se envergonhasse quem não tinha vestido próprio — um gesto de solidariedade que apagava, ao menos naquele dia, toda distinção visível entre ricas e pobres. "Requerem imersão" — antes de vesti-las, porque nenhuma sabia com certeza sobre a outra se ela havia estado em estado de impureza ritual, e por precaução todas as roupas emprestadas eram imersas antes do uso. "E dançavam" — do mesmo sentido de "dançar em danças" [Shoftim 21]. "No rei Salomão" — no rei a quem pertence a paz, uma leitura do nome como epíteto divino. "Sua mãe" — a assembleia de Israel, personificada como mãe que coroa o próprio D'us com a devoção do povo. "Isto é a entrega da Torá" — pois Yom Kipur foi o dia em que foram entregues as segundas tábuas, completando a reconciliação após o pecado do bezerro de ouro — de modo que mesmo o dia mais solene de expiação do calendário é lido, nesta última linha do tratado, como um dia de casamento entre D'us e Israel, tão alegre quanto o quinze de Av.

סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּתַעֲנִית
Aqui se conclui Massechet Taanit — o nono tratado de Seder Moed, dedicado à menção e ao pedido de chuva, à escala progressiva de jejuns comunitários diante da seca, e aos jejuns em memória das calamidades e da destruição do Templo. O Perek Dalet, último do tratado, com oito mishnayot, tratou dos turnos sacerdotais e leigos e dos jejuns fixos do calendário: os três momentos em que os sacerdotes erguem as mãos quatro vezes num dia — jejuns, turnos leigos e Yom Kipur (4:1); a instituição profética dos vinte e quatro turnos leigos, correspondentes aos turnos sacerdotais, para que todo israelita estivesse representado junto à oferenda diária (4:2); a rotina semanal de jejum dos homens do turno e a distribuição das seis porções da Criação pelos dias da semana (4:3); a hierarquia de precedência entre o turno, o Hallel, a oferenda adicional e a oferenda de lenha, com a reversão de posição de Rabi Akiva diante da tradição de Rabi Yehoshua (4:4); a lista das nove famílias que doavam lenha ao Templo em datas fixas, desde os dias do retorno do exílio babilônico (4:5); as cinco calamidades de 17 de Tamuz e as cinco de 9 de Av, da quebra das tábuas à destruição dos dois Templos (4:6); as restrições da semana de Tisha BeAv e da própria véspera do jejum (4:7); e, nesta última mishná, os dois dias mais alegres do calendário judaico — quinze de Av e Yom Kipur — com as filhas de Jerusalém dançando nas vinhas e a leitura final do Cântico dos Cânticos como promessa de reconstrução do Templo (4:8).

Massechet Taanit percorreu, ao longo de seus quatro capítulos e trinta e quatro mishnayot, todo o sistema judaico de resposta comunitária à calamidade: a menção e o pedido de chuva na Amidá, e a escala progressiva de treze jejuns diante da seca prolongada (Perek Alef); a ordem exata das orações e súplicas nos jejuns mais severos, com a arca na praça pública e as seis bênçãos adicionais (Perek Bet); a extensão do sistema a outras calamidades — vegetação alterada, peste, desmoronamento, calamidades itinerantes — culminando na extraordinária história de Choni HaMe'agel e seu círculo de súplica (Perek Guimel); e, por fim, este último perek, sobre os turnos que garantem a presença espiritual de todo Israel junto à oferenda diária, e os jejuns fixos em memória da destruição do Templo, encerrados com a alegria de quinze de Av e Yom Kipur (Perek Dalet). Por possuir Guemará no Talmud Bavli, cada mishná deste tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud.

Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para os demais tratados de Seder Moed — Megilá, Moed Katan e Chagigá —, cada um dedicado a uma festividade ou aspecto do calendário sagrado judaico, somando-se aos tratados já concluídos de Shabat, Eruvin, Pessachim, Shekalim, Yoma, Sucá, Beitzá, Rosh Hashaná e agora Taanit.