Seder Moed · Massechet Taanit · Perek Dalet · Mishná 6 de 8

Cinco calamidades em 17 de Tamuz e cinco em 9 de Av

חֲמִשָּׁה דְבָרִים אֵרְעוּ אֶת אֲבוֹתֵינוּ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná finalmente explica a razão histórica dos dois maiores jejuns do calendário judaico — 17 de Tamuz e 9 de Av — enumerando cinco calamidades distintas que, segundo a tradição, ocorreram em cada uma dessas datas ao longo de gerações diferentes da história de Israel.

Cinco coisas aconteceram a nossos pais no dezessete de Tamuz, e cinco no nove de Av. No dezessete de Tamuz foram quebradas as tábuas, foi interrompida a oferenda diária, foi violada a cidade, Apostomos queimou a Torá, e foi erguido um ídolo no Santuário.O dezessete de Tamuz reúne cinco eventos trágicos separados por séculos, mas unidos pela mesma data no calendário: Moshe quebrou as Tábuas da Aliança ao descer do Sinai e encontrar o povo adorando o bezerro de ouro; durante o cerco romano ao Segundo Templo, faltou o cordeiro para a oferenda diária pela primeira vez em séculos; a muralha de Jerusalém foi finalmente rompida pelos romanos; um oficial chamado Apostomos queimou publicamente um rolo da Torá em ato de profanação deliberada; e um ídolo foi erguido dentro do próprio Santuário, provavelmente por Menashé, o rei idólatra.

No nove de Av foi decretado sobre nossos pais que não entrariam na terra, e foi destruído o Templo na primeira vez e na segunda, e foi conquistada Beitar, e foi arada a cidade. Desde que entra Av, diminuem a alegria.O nove de Av, ainda mais carregado de calamidade, reúne o decreto divino contra a geração do deserto após o pecado dos espiões — condenando-a a morrer sem entrar na Terra Prometida — junto com a destruição dos dois Templos, séculos separados um do outro mas coincidindo na mesma data; a queda de Beitar, último reduto da revolta de Bar Kochba; e o ato final de arar o solo de Jerusalém, símbolo de que a cidade seria transformada em campo, sem esperança de reconstrução imediata. Diante de tamanha concentração de tragédia num único mês, a mishná encerra com uma regra de conduta: assim que o mês de Av se inicia, a comunidade já começa a diminuir suas expressões públicas de alegria, mesmo antes de o jejum específico chegar.

חֲמִשָּׁה דְבָרִים אֵרְעוּ אֶת אֲבוֹתֵינוּ בְּשִׁבְעָה עָשָׂר בְּתַמּוּז וַחֲמִשָּׁה בְּתִשְׁעָה בְאָב. בְּשִׁבְעָה עָשָׂר בְּתַמּוּז נִשְׁתַּבְּרוּ הַלּוּחוֹת, וּבָטַל הַתָּמִיד, וְהֻבְקְעָה הָעִיר, וְשָׂרַף אַפּוֹסְטֹמוֹס אֶת הַתּוֹרָה, וְהֶעֱמִיד צֶלֶם בַּהֵיכָל. בְּתִשְׁעָה בְאָב נִגְזַר עַל אֲבוֹתֵינוּ שֶׁלֹּא יִכָּנְסוּ לָאָרֶץ, וְחָרַב הַבַּיִת בָּרִאשׁוֹנָה וּבַשְּׁנִיָּה, וְנִלְכְּדָה בֵיתָר, וְנֶחְרְשָׁה הָעִיר. מִשֶּׁנִּכְנַס אָב, מְמַעֲטִין בְּשִׂמְחָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar 14:1 e 14:29
וַתִּשָּׂא כָּל הָעֵדָה וַיִּתְּנוּ אֶת קוֹלָם, וַיִּבְכּוּ הָעָם בַּלַּיְלָה הַהוּא... בַּמִּדְבָּר הַזֶּה יִפְּלוּ פִגְרֵיכֶם, וְכָל פְּקֻדֵיכֶם לְכָל מִסְפַּרְכֶם מִבֶּן עֶשְׂרִים שָׁנָה וָמָעְלָה.
E toda a congregação levantou a voz, e chorou o povo naquela noite... neste deserto cairão vossos cadáveres, e todos os vossos recenseados, segundo toda a vossa conta, de vinte anos para cima.

A tradição rabínica identifica a noite do choro dos espiões — quando o povo, após ouvir o relatório desanimador sobre a terra, chorou "sem motivo" diante da promessa divina — como a noite de 9 de Av, e o decreto de morte no deserto que se segue no verso como resposta direta a esse choro: "vós chorastes um choro em vão; Eu vos darei um choro para as gerações". A mishná retoma esse episódio como o primeiro dos cinco eventos de 9 de Av precisamente porque nele identifica a origem espiritual de todas as tragédias seguintes associadas à data — a destruição de ambos os Templos, a queda de Beitar, a aração de Jerusalém — como se o choro injustificado da primeira geração tivesse estabelecido um padrão espiritual negativo que se repetiria, século após século, na mesma data do calendário, transformando um lamento isolado no deserto na raiz de um luto nacional recorrente.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura recalcula a cronologia exata entre a entrega das Tábuas e o pecado do bezerro de ouro, explicando por que a quebra caiu justamente em 17 de Tamuz.

Bartenura · Taanit 4:6
בְּשִׁבְעָה עָשָׂר בְּתַמּוּז נִשְׁתַּבְּרוּ הַלּוּחוֹת. שֶׁהֲרֵי בְּשִׁשִּׁי בְּסִיוָן נִתְּנוּ עֲשֶׂרֶת הַדִּבְּרוֹת, וְעָלָה מֹשֶׁה בַּשְּׁבִיעִי בּוֹ, וְעָמַד בָּהָר אַרְבָּעִים יוֹם, וְיָרַד בְּשִׁבְעָה עָשָׂר בְּתַמּוּז וְשָׁבַר אֶת הַלּוּחוֹת:

"No dezessete de Tamuz foram quebradas as tábuas" — pois no seis de Sivan foram dados os Dez Mandamentos, e Moshe subiu ao monte no sete daquele mês, e permaneceu no monte quarenta dias, e desceu no dezessete de Tamuz, e ao ver o bezerro de ouro quebrou as tábuas — um cálculo cronológico exato que ancora o primeiro dos cinco eventos numa contagem precisa de dias desde a revelação no Sinai.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi identifica a origem de cada calamidade, do responsável pela interrupção da oferenda diária ao rei que ergueu o ídolo no Santuário.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Taanit 26b — a identificação de cada uma das dez calamidades das duas datas
נשתברו הלוחות – בגמ' מפרש: ובטל התמיד – לפי שגזרה המלכות גזרה מלהקריב עוד: והועמד צלם בהיכל – שהעמידו מנשה כדמפורש בתרגום ירושלמי בפרשת השמים כסאי וגו': על אבותינו – דור המדבר אם יראה איש באנשים האלה הדור הרע הזה את הארץ וגו': ביתר – עיר גדולה והיו ישראל דרין בה במסכת גיטין פרק הניזקין אשקא דריספק חרב ביתר:

"Foram quebradas as tábuas" — a Guemará explica os detalhes. "E foi interrompida a oferenda diária" — porque o governo romano decretou que não se sacrificasse mais, cortando o abastecimento de animais para o Templo durante o cerco. "E foi erguido um ídolo no Santuário" — que Menashé ergueu, conforme se explica no targum Yerushalmi sobre a passagem "os céus são Meu trono, etc." [Yeshayahu 66]. "Sobre nossos pais" — a geração do deserto, conforme o verso "se algum homem destes, desta geração má, verá a terra, etc." [Devarim 1:35]. "Beitar" — uma cidade grande onde Israel habitava, mencionada no tratado de Gitin, no capítulo "HaNizakin": "por causa de uma vara de liteira, Beitar foi destruída" — um episódio de futilidade trágica que a Guemará narra em detalhe, no qual um incidente aparentemente trivial desencadeou a queda final do último reduto da revolta contra Roma.