Seder Moed · Massechet Sucá · Perek Alef · Mishná 1 de 11

A sucá mais alta que vinte cúbitos é inválida

סֻכָּה שֶׁהִיא גְבוֹהָה לְמַעְלָה מֵעֶשְׂרִים אַמָּה פְּסוּלָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre o tratado com a medida máxima de altura da sucá: acima de vinte cúbitos, ela deixa de ser uma habitação temporária e passa a ser uma habitação permanente, o que contraria a própria natureza da mitsvá. Rabi Yehuda discorda dessa premissa.

Uma sucá que é mais alta que vinte cúbitos é inválida.Como a sucá deve ser uma habitação temporária — pois assim a Torá a descreve, um lugar em que se habita apenas durante os sete dias da festa —, uma estrutura tão alta já não se constrói normalmente como algo provisório: acima de vinte cúbitos, ninguém faz de uma construção sua morada passageira, e sim uma morada permanente. Por isso, quando a altura ultrapassa essa medida, a sucá deixa de corresponder à ideia de habitação temporária que a Torá exige, e é inválida.

Rabi Yehuda a valida.Rabi Yehuda entende, ao contrário, que a sucá deve ser uma habitação permanente, e por isso não vê problema algum em que seja alta; para ele, não há limite superior de altura que a torne inválida.

סֻכָּה שֶׁהִיא גְבוֹהָה לְמַעְלָה מֵעֶשְׂרִים אַמָּה, פְּסוּלָה. רַבִּי יְהוּדָה מַכְשִׁיר:
Três outras condições que invalidam a sucá: altura mínima, número de paredes e a proporção entre sombra e sol proveniente da cobertura.

E a que não é alta dez palmos, e a que não tem três paredes, e a cujo sol é maior que sua sombra, é inválida.Assim como há um limite máximo de altura, há também um mínimo: abaixo de dez palmos, a sucá é uma habitação rebaixada demais para que alguém nela more, e por isso é inválida. Da mesma forma, uma sucá precisa de pelo menos três paredes que a cerquem — a quarta pode ser dispensada, como a Guemará explica a partir da palavra "sucot" escrita de forma incompleta no versículo bíblico. E, por fim, sua cobertura de sechach precisa proporcionar mais sombra do que sol: se, olhando de dentro para cima, a área iluminada pelo sol que atravessa as brechas do sechach for maior do que a área coberta pela sombra, a sucá é inválida, pois já não cumpre sua função primária de abrigo.

וְשֶׁאֵינָהּ גְּבוֹהָה עֲשָׂרָה טְפָחִים, וְשֶׁאֵין לָהּ שְׁלֹשָׁה דְּפָנוֹת, וְשֶׁחַמָּתָהּ מְרֻבָּה מִצִּלָּתָהּ, פְּסוּלָה:
A disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre a sucá construída antes da festa sem essa intenção específica, e a definição do que conta como "sucá velha".

Sucá velha, Bet Shamai invalidam, e Bet Hilel validam.Bet Shamai exigem que a sucá seja construída com a intenção específica de cumprir a mitsvá da festa; por isso, uma sucá velha, construída sem essa intenção, é inválida para eles. Bet Hilel, por outro lado, não exigem essa intenção no momento da construção, e por isso a consideram válida.

E qual é a sucá velha? Toda a que foi feita trinta dias antes da festa. Mas, se a fez em nome da festa, mesmo desde o início do ano, é válida.Chama-se "velha" a sucá construída mais de trinta dias antes de Sucot, pois presume-se que, dentro desses trinta dias que antecedem a festa — quando já se começa a estudar suas leis —, quem constrói uma sucá o faz com essa finalidade em mente; mas antes desse período, presume-se o contrário. Contudo, se desde o início do ano alguém já a construiu explicitamente com a intenção de usá-la na festa, ela é válida mesmo para Bet Shamai, pois a intenção supre a distância no tempo.

סֻכָּה יְשָׁנָה, בֵּית שַׁמַּאי פּוֹסְלִין, וּבֵית הִלֵּל מַכְשִׁירִין. וְאֵיזוֹ הִיא סֻכָּה יְשָׁנָה, כָּל שֶׁעֲשָׂאָהּ קֹדֶם לֶחָג שְׁלשִׁים יוֹם. אֲבָל אִם עֲשָׂאָהּ לְשֵׁם חָג, אֲפִלּוּ מִתְּחִלַּת הַשָּׁנָה, כְּשֵׁרָה:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Vayicrá 23:42-43
בַּסֻּכֹּת תֵּשְׁבוּ שִׁבְעַת יָמִים, כָּל הָאֶזְרָח בְּיִשְׂרָאֵל יֵשְׁבוּ בַּסֻּכֹּת. לְמַעַן יֵדְעוּ דֹרֹתֵיכֶם כִּי בַסֻּכּוֹת הוֹשַׁבְתִּי אֶת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל בְּהוֹצִיאִי אוֹתָם מֵאֶרֶץ מִצְרָיִם, אֲנִי ה׳ אֱלֹהֵיכֶם.
Em sucot habitareis sete dias; todo natural em Israel habitará em sucot. Para que saibam vossas gerações que em sucot fiz habitar os filhos de Israel, quando os tirei da terra do Egito; Eu sou o Eterno, vosso Deus.

A Guemará deriva o limite de vinte cúbitos da própria expressão "para que saibam" desse versículo: a sucá precisa ser reconhecível como tal por quem nela se senta. Rabi Zeira ensina que, até vinte cúbitos de altura, o olho de quem está sentado dentro da sucá naturalmente percebe o sechach acima de si e reconhece que está habitando numa sucá; acima dessa altura, porém, o olho já não domina o teto o suficiente para essa percepção se impor, e a habitação deixa de cumprir o propósito de lembrança que a Torá liga à mitsvá. A frase "sucot, sucot, sucot" — repetida de formas variadas ao longo da passagem bíblica sobre a festa — é também a base, segundo a Guemará, para o requisito de três paredes: como duas das ocorrências vêm escritas de forma incompleta e uma de forma completa, disso se extrai, por uma tradição recebida de Moshé no Sinai, que bastam duas paredes completas e uma terceira reduzida a um mínimo de um palmo.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, explica o fundamento da disputa entre os Sábios e Rabi Yehuda sobre a natureza da sucá, detalha as três formas válidas de completar a terceira parede, e explica o critério prático para medir se o sol é maior que a sombra.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 1:1
הָעִקָּר אֶצְלֵנוּ סֻכָּה דִּירַת עֲרַאי בָּעֵינַן, וּלְפִיכָךְ אֵין רָאוּי לִהְיוֹת גָּבוֹהַּ יוֹתֵר מִכ' אַמָּה. וְרַבִּי יְהוּדָה סָבַר סֻכָּה דִּירַת קֶבַע בָּעֵינַן, וּלְפִיכָךְ הוּא מַתִּיר שֶׁתְּהֵא גְבוֹהָה אֲפִלּוּ בְּתַכְלִית הַגֹּבַהּ. וְשִׁעוּר רָחְבָּהּ לֹא פָּחוֹת מִז' טְפָחִים בְּאֹרֶךְ עַל ז' טְפָחִים בְּרֹחַב.

O princípio para nós é que a sucá deve ser uma habitação temporária, e por isso não convém que seja mais alta que vinte cúbitos. E Rabi Yehuda entende que a sucá deve ser uma habitação permanente, e por isso ele permite que seja alta até o extremo da altura. E sua medida mínima de largura não é inferior a sete palmos de comprimento por sete palmos de largura.

Rambam · Perush HaMishná, Sucá 1:1 (continuação)
וְאָמְרָם שֶׁחַמָּתָהּ מְרֻבָּה מִצִּלָּתָהּ פְּסוּלָה, הִיא רְאָיָה שֶׁאִם חַמָּתָהּ וְצִלָּתָהּ שָׁוִין שֶׁהִיא כְּשֵׁרָה. וְזֶה יֵרָאֶה בַּקַּרְקַע, אִם נִרְאֶה שִׁעוּר הַשֶּׁמֶשׁ בַּקַּרְקַע כְּשִׁעוּר הַצֵּל.

E o que disseram, "aquela cujo sol é maior que sua sombra é inválida", é prova de que, se seu sol e sua sombra são iguais, ela é válida. E isso se avalia pelo chão: se se vê que a proporção do sol no chão é igual à proporção da sombra.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura detalha a origem escritural do requisito das três paredes e as três formas construtivas de completar a terceira; Rashi, na Guemará, comenta a derivação do limite de vinte cúbitos a partir do versículo "para que saibam" e a definição da sucá velha.

Rambam · רַמְבַּ״ם
Perush HaMishná, Sucá 1:1
וְלָזוֹ הַסֻּכָּה שָׁלֹשׁ צוּרוֹת: הָרִאשׁוֹנָה, שֶׁיִּהְיוּ לָהּ שָׁלֹשׁ כְּתָלִים גְּמוּרוֹת דְּבוּקוֹת בַּגָּג. וְהַצּוּרָה הַשְּׁנִיָּה, שֶׁיִּהְיוּ לָהּ שְׁנֵי כְּתָלִים דְּבוּקִים, וְתִצְטָרֵךְ לְכֹתֶל שְׁלִישִׁי יוֹתֵר מִטֶּפַח, וְיַעֲמִידֶנָּה בְּפָחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה סָמוּךְ לַדֹּפֶן. וְהַצּוּרָה הַשְּׁלִישִׁית, שֶׁיֵּשׁ לָהּ שְׁנֵי כְּתָלִים זֶה כְּנֶגֶד זֶה, וְתִצְטָרֵךְ לְכֹתֶל שְׁלִישִׁי יוֹתֵר מֵאַרְבָּעָה טְפָחִים, וְיַעֲמִידֶנָּה בְּפָחוֹת מִשְּׁלֹשָׁה, וְצָרִיךְ צוּרַת פֶּתַח.

E essa sucá tem três formas possíveis: a primeira, que tenha três paredes completas ligadas ao teto. E a segunda forma, que tenha duas paredes ligadas, e precise de uma terceira parede maior que um palmo, colocada a menos de três palmos de distância de uma das duas. E a terceira forma, que tenha duas paredes uma diante da outra, e precise de uma terceira parede maior que quatro palmos, colocada a menos de três palmos de distância, com a forma de uma entrada.

Já explicamos antes, nesta ordem, os princípios: tudo o que é menos de três palmos é considerado como unido; e que a medida mínima de um espaço não é inferior a quatro palmos.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sucá 1:1
וְשֶׁאֵין לָהּ שָׁלֹשׁ דְּפָנוֹת. דִּכְתִיב בַּסֻּכֹּת בַּסֻּכֹּת בַּסֻּכּוֹת, שְׁנַיִם חֲסֵרִים וְאֶחָד מָלֵא, חַד לַסְּכָךְ, פַּשׁוּ לְהוּ תְּלָתָא לְשָׁלֹשׁ דְּפָנוֹת. אָתְיָא הֲלָכָה לְמֹשֶׁה מִסִּינַי וּבַצְּרֵיהּ לְדֹפֶן חֲדָא וְאוֹקְמֵיהּ אַטֶּפַח, נִשְׁאֲרוּ שְׁתַּיִם כְּהִלְכָתָן, וּשְׁלִישִׁית אֲפִלּוּ טֶפַח.

"E a que não tem três paredes" — pois está escrito "em sucot, em sucot, em sucot" (nas três ocorrências da palavra ao longo da passagem bíblica), duas vezes escritas de forma deficiente e uma de forma completa; uma delas se refere ao sechach, e restam três para as três paredes. Veio uma halachá recebida de Moshé no Sinai que reduziu uma dessas paredes e a fixou em apenas um palmo; restaram duas paredes em sua medida completa, e a terceira mesmo com apenas um palmo.

Por isso, uma sucá que tem duas paredes lado a lado faz uma terceira parede de um palmo e um pouco mais, e a coloca a menos de três palmos de distância de uma das duas paredes — pois tudo o que é menos de três palmos é considerado como unido, e é como se fosse uma parede de quatro palmos —, e assim a sucá passa a ter três paredes; e é preciso fazer-lhe a forma de uma entrada. E, se as duas paredes estão uma diante da outra com um espaço aberto entre elas, traz-se uma tábua de quatro palmos e um pouco mais, e a coloca a menos de três palmos de uma das paredes, e ela é considerada como se tivesse sete palmos — a medida mínima de validade da sucá em comprimento e largura, pois a sucá precisa comportar a cabeça, a maior parte do corpo e a mesa de uma pessoa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Sucá 2a e 9a
סֻכָּה — וְרַבִּי יְהוּדָה מַכְשִׁיר, בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ פְּלוּגְתַּיְיהוּ. וְשֶׁאֵינָהּ גְּבוֹהָה עֲשָׂרָה — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ טַעְמָא. שָׁלֹשׁ דְּפָנוֹת — נַמִי בַּגְּמָרָא יָלֵיף לְהוּ. וְשֶׁחַמָּתָהּ מְרֻבָּה מִצִּלָּתָהּ — הַמֻּעָט בָּטֵל בָּרֹב, וַהֲרֵי הוּא כְּמִי שֶׁאֵינוֹ, וְעַל שֵׁם הַסְּכָךְ קְרוּיָה סֻכָּה. סֻכָּה יְשָׁנָה — כִּדְמְפָרֵשׁ שֶׁעֲשָׂאָהּ קֹדֶם לֶחָג שְׁלֹשִׁים יוֹם, וְלֹא פֵּרֵשׁ שֶׁהִיא לְשֵׁם חָג. בֵּית שַׁמַּאי פּוֹסְלִין — דְּבָעוּ סֻכָּה לִשְׁמָהּ.

"Uma sucá" — "e Rabi Yehuda a valida": na Guemará se explica a disputa entre eles. "E a que não é alta dez" — na Guemará se explica a razão. "Três paredes" — também na Guemará se deriva isso do versículo. "E cujo sol é maior que sua sombra" — o que é minoria se anula na maioria, e é como se não existisse; e por causa do sechach a sucá recebe seu nome (que significa, em si, cobertura).

"Sucá velha" — como se explica, aquela que se fez trinta dias antes da festa e não se especificou que era em nome da festa. "Bet Shamai invalidam" — pois exigem que a sucá seja feita com essa finalidade específica.