E será, ao terminarem os oficiais de falar ao povo, que designarão comandantes de exércitos à frente do povo, e na retaguarda do povo. Colocam guardas diante deles, e outros atrás deles, com machados de ferro em suas mãos; e todo o que buscar voltar, têm licença para cortar-lhe as pernas, pois o início da fuga é queda, como está dito: "Fugiu Israel diante dos filisteus, e também houve grande matança no povo"; e adiante ele diz: "E fugiram os homens de Israel diante dos filisteus, e caíram mortos" etc. — Com todas as isenções já anunciadas e todos os isentos legítimos já dispensados, resta agora um exército composto exclusivamente por homens obrigados a lutar — e é para eles que se aplica a disciplina mais severa. Comandantes são posicionados tanto à frente quanto na retaguarda da formação, e guardas armados com machados de ferro têm autorização explícita para ferir as pernas de qualquer soldado que tente fugir do combate. A justificativa é psicológico-militar, não meramente disciplinar: a mishná ensina que a fuga individual, mesmo pequena, é o próprio início do colapso coletivo — o pânico de um se espalha e se torna a queda de todos. Este princípio é ilustrado por dois versículos paralelos do Livro de Shmuel: a derrota diante dos filisteus, onde a fuga inicial (quando a Arca foi capturada) precedeu a "grande matança"; e a batalha de Guilboa, onde a mesma sequência — fuga, depois morte — culminou na queda do próprio rei Shaul.
A designação de comandantes está fixada em Devarim 20:9; a prova de que a fuga precede a queda vem de dois episódios paralelos em I Shmuel.
A mishná lê "à frente do povo" como referência implícita também à retaguarda, ampliando o versículo por meio do paralelismo entre as duas frentes vulneráveis de uma formação militar. Os dois versículos de Shmuel citados descrevem dois episódios distintos e distantes no tempo — a captura da Arca na época de Eli e a morte do rei Shaul no Monte Guilboa — unidos pela mesma sequência retórica: primeiro a fuga, depois a queda, provando que a fuga é sempre o gatilho, nunca a consequência, da derrota final.
Rambam explica a leitura invertida que a Guemará propõe para a expressão "início da fuga é queda".
Rambam explica o sentido exato da expressão da mishná: o processo da derrota militar começa sempre com a fuga, e só depois vem a queda propriamente dita — a fuga é a causa, a queda é o efeito. Ele nota ainda que a Guemará propõe uma leitura alternativa, quase invertida na ordem das palavras: talvez se devesse dizer que "o início da queda é a fuga", isto é, que a própria decisão de fugir já constitui, psicologicamente, o primeiro estágio da derrota, mesmo antes de qualquer baixa física ocorrer.
Perush de Rashi sobre a Guemará (Sotá 44a-44b), Rambam e Bartenura.
Rashi explica "na retaguarda do povo" como o extremo final da formação, onde se posicionam guardas justamente para impedir que os últimos soldados se voltem para trás e fujam. Define os zekifim como valentes especialmente designados: se um combatente caísse durante a luta, cabia a eles erguê-lo e recolocá-lo de pé, mantendo a linha firme. Explica que outros guardas, posicionados atrás, com machados de ferro nas mãos, existiam justamente para impedir a fuga; identifica os kashilin como machados de ferro propriamente ditos; e "cortar-lhe as pernas" como o ato literal de decepar as pernas do fugitivo. Sobre a expressão "o início da fuga é queda", nota que se trata de uma construção de linguagem invertida — o sentido correto seria "o início da queda é a fuga" — e explica que a Guemará debate precisamente essa inversão: dizer que a fuga em si já constitui, no momento em que ocorre, o próprio gatilho causal de toda a queda que se seguirá.
Rambam confirma a leitura processual: a derrota de um exército não é um evento instantâneo, mas uma sequência que se inicia psicologicamente com a fuga individual e culmina fisicamente na queda coletiva — justificando por que a lei autoriza medidas tão severas para impedir o primeiro sinal de retirada.
Bartenura reproduz, com quase as mesmas palavras de Rashi, a identificação precisa de cada termo técnico da mishná — os "zekifim" que reerguem soldados caídos, os guardas na retaguarda armados de machados de ferro, e a punição física reservada a quem tenta fugir — reforçando que a severidade da medida decorre diretamente do princípio de que a fuga individual é o gatilho psicológico de todo colapso militar coletivo.