Seder Nashim · Massechet Sotá · Perek Alef · Mishná 9 de 9

Encerrando o Perek Alef: também para o bem, medida por medida

וְכֵן לְעִנְיַן הַטּוֹבָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Alef, a mishná vira a moeda do princípio de medida por medida para o lado positivo: assim como o castigo espelha a transgressão, a recompensa espelha — e amplifica — a boa ação, ilustrada por Miriam, Yosef e Moshe.

E também quanto ao bem: Miriam esperou por Moshe uma hora, como está dito: "e sua irmã se posicionou de longe" — por isso Israel se deteve por ela sete dias no deserto, como está dito: "e o povo não partiu até que Miriam fosse reunida". Yosef mereceu enterrar seu pai, e não havia entre seus irmãos maior do que ele, como está dito: "e Yosef subiu para enterrar seu pai, e subiram com ele também carros e cavaleiros". Quem há maior entre nós do que Yosef, de quem ninguém cuidou senão Moshe? Moshe mereceu os ossos de Yosef, e não havia em Israel maior do que ele, como está dito: "e Moshe tomou consigo os ossos de Yosef". Quem é maior do que Moshe, de quem ninguém cuidou senão o Onipresente, como está dito: "e Ele o sepultou no vale". E não apenas sobre Moshe disseram isso, mas sobre todos os justos, como está dito: "e irá diante de ti tua justiça, a glória do Eterno te recolherá".Encerrando o perek, a mishná demonstra que o princípio de medida por medida não se limita ao castigo — ele opera com ainda mais generosidade no âmbito da recompensa. Miriam aguardou junto ao rio por apenas uma hora enquanto seu irmão bebê era observado pela filha de Faraó; em retribuição, todo o povo de Israel parou sua marcha pelo deserto por sete dias inteiros, aguardando sua cura da lepra. A mishná então constrói uma cadeia ascendente: Yosef, o maior entre os irmãos por ter cuidado do sepultamento de seu pai Yaakov com toda honra — inclusive com escolta militar egípcia —, foi, gerações depois, retribuído tendo seus próprios ossos cuidados por ninguém menos que Moshe, a maior figura de sua geração. E Moshe, por sua vez, que carregou pessoalmente os ossos de Yosef por todo o deserto, foi finalmente sepultado, ao fim de sua vida, pelo próprio Onipresente. A mishná fecha o perek generalizando o princípio: não apenas essas figuras específicas, mas todos os justos recebem, no fim, uma recompensa que os acompanha e os excede.

וְכֵן לְעִנְיַן הַטּוֹבָה. מִרְיָם הִמְתִּינָה לְמשֶׁה שָׁעָה אַחַת, שֶׁנֶּאֱמַר (שמות ב) וַתֵּתַצַּב אֲחֹתוֹ מֵרָחֹק, לְפִיכָךְ נִתְעַכְּבוּ לָהּ יִשְׂרָאֵל שִׁבְעָה יָמִים בַּמִּדְבָּר, שֶׁנֶּאֱמַר (במדבר יב) וְהָעָם לֹא נָסַע עַד הֵאָסֵף מִרְיָם. יוֹסֵף זָכָה לִקְבֹּר אֶת אָבִיו, וְאֵין בְּאֶחָיו גָּדוֹל מִמֶּנּוּ, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית נ) וַיַּעַל יוֹסֵף לִקְבֹּר אֶת אָבִיו, וַיַּעַל עִמּוֹ גַּם רֶכֶב גַּם פָּרָשִׁים. מִי לָנוּ גָדוֹל מִיּוֹסֵף, שֶׁלֹּא נִתְעַסֵּק בּוֹ אֶלָּא משֶׁה. משֶׁה זָכָה בְעַצְמוֹת יוֹסֵף, וְאֵין בְּיִשְׂרָאֵל גָּדוֹל מִמֶּנּוּ, שֶׁנֶּאֱמַר (שמות יג) וַיִּקַּח משֶׁה אֶת עַצְמוֹת יוֹסֵף עִמּוֹ. מִי גָדוֹל מִמּשֶׁה, שֶׁלֹּא נִתְעַסֵּק בּוֹ אֶלָּא הַמָּקוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים לד) וַיִּקְבֹּר אֹתוֹ בַגַּיְא. לֹא עַל משֶׁה בִלְבַד אָמְרוּ, אֶלָּא עַל כָּל הַצַּדִּיקִים, שֶׁנֶּאֱמַר (ישעיה נח) וְהָלַךְ לְפָנֶיךָ צִדְקֶךָ כְּבוֹד ה' יַאַסְפֶךָ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

A mishná encadeia cinco versículos de diferentes livros — Shemot, Bemidbar, Bereshit, Devarim e Yeshayahu — para traçar a cadeia completa do princípio positivo.

Bemidbar (Números) 12:15
וְהָעָם לֹא נָסַע עַד הֵאָסֵף מִרְיָם
E o povo não partiu até que Miriam fosse reunida.
Devarim (Deuteronômio) 34:6
וַיִּקְבֹּר אֹתוֹ בַגַּיְא
E Ele o sepultou no vale.

Rambam nota que a proporção entre a boa ação e sua recompensa não é de igualdade, mas de generosa multiplicação: Miriam esperou apenas uma hora, e a Presença Divina esperou por ela sete dias inteiros — pois, como explica a tradição, a medida do bem é sempre maior em sua retribuição do que a medida do castigo. A cadeia de versículos que a mishná monta — de Shemot a Devarim, culminando em Yeshayahu — mostra como o princípio se generaliza de casos individuais específicos para uma promessa válida a "todos os justos".

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam e Bartenura, no Perush HaMishná e no comentário respectivamente, destacam o princípio de que a medida do bem supera, em proporção, a medida do castigo.

Rambam · Perush HaMishná, Sotá 1:9
וכן רצונו לומר דמיון השכר לא בשוה לפי שהשכר יותר לפי שהיא המתינה שעה אחת והמתינה לה שכינה שבעת ימים

Rambam explica que a expressão "e também quanto ao bem" não significa uma correspondência idêntica de medida, mas sim uma correspondência de tipo, com generosa multiplicação na retribuição: se Miriam esperou apenas uma única hora junto ao rio para saber o destino de seu irmão, a Presença Divina — e, por extensão, todo o povo de Israel em sua marcha pelo deserto — esperou por ela sete dias completos quando ela foi atingida pela lepra, um exemplo concreto de como a medida do bem sempre excede, em generosidade, a medida original da ação.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Encerrando o Perek Alef, perush de Rambam e Bartenura. Rashi não foi localizado com um comentário claramente ancorado nesta mishná específica — segue-se, honestamente, apenas com os dois primeiros comentadores.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Sotá 1:9
וכן לענין הטובה מרים המתינה למשה שעה אחת כו': וכן רצונו לומר דמיון השכר לא בשוה לפי שהשכר יותר

Rambam enfatiza que a palavra "assim" (וכן), com que a mishná abre, não indica uma igualdade estrita de proporção entre ação e recompensa, mas apenas uma semelhança estrutural no princípio: tanto o castigo quanto a recompensa seguem o padrão da ação original, mas a recompensa o faz de forma ampliada — o caso de Miriam, uma hora retribuída com sete dias, sendo o exemplo mais evidente dessa multiplicação.

Bartenura · רע״ב
Sotá 1:9
וְכֵן לְעִנְיַן הַטּוֹבָה. נוֹתְנִים לוֹ לָאָדָם שָׂכָר מֵעֵין הַטּוֹבָה שֶׁעָשָׂה. וּמִיהוּ יוֹתֵר מִמַּה שֶּׁעָשָׂה מִשְׁתַּלֵּם, דְּמִדָּה טוֹבָה מְרֻבָּה בְּתַשְׁלוּמִין מִמִּדַּת פֻּרְעָנוּת

Bartenura resume o princípio com precisão: a pessoa recebe uma recompensa da mesma natureza do bem que fez, mas paga-se a ela mais do que fez — pois a medida do bem é sempre maior, em sua retribuição, do que a medida do castigo. Esse princípio, formulado aqui ao encerrar o Perek Alef, explica por que a cadeia de recompensas da mishná cresce progressivamente: da hora de Miriam aos sete dias de Israel, do cuidado de Yosef com seu pai ao cuidado de Moshe com seus ossos, e do cuidado de Moshe por seus ossos ao cuidado do próprio Onipresente por seu sepultamento — uma escala ascendente que culmina na promessa dada a todos os justos.