Seder Nezikin · Massechet Shevuot · Perek Dalet · Mishná 4 de 13

Duas testemunhas que negam: juntas, em sequência, e em dois grupos

כָּפְרוּ שְׁנֵיהֶן כְּאַחַת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A quarta mishná continua a mecânica da negação, agora tratando de casos com mais de uma testemunha ou mais de um grupo de testemunhas — determinando quando a culpa recai sobre ambas, apenas sobre a primeira, ou sobre as duas em sequência.

Negaram os dois de uma vez, os dois são culpados. Um depois do outro, o primeiro é culpado e o segundo é isento. Negou um e confessou um, o que negou é culpado. Havia dois grupos de testemunhas: negou o primeiro, e depois negou o segundo, ambos são culpados, porque o testemunho podia ainda subsistir em ambos.Esta mishná esclarece o que acontece quando há mais de uma testemunha, ou mais de um grupo delas, diante da mesma convocação. Se as duas testemunhas negam simultaneamente — dentro do tempo de uma única fala —, ambas são culpadas, pois nenhuma delas isoladamente teria testemunho válido de qualquer forma (é preciso ao menos duas testemunhas). Mas se negam uma depois da outra, apenas a primeira é culpada: assim que a primeira nega, a segunda já não é mais uma "testemunha isolada" apta a testemunhar sozinha, e por isso sua negação subsequente não priva o requerente de nada que ainda estivesse ao seu alcance. Da mesma forma, se uma nega e a outra confessa que sabe o testemunho, apenas a que negou é culpada — mas ela sozinha, note-se, ainda não bastaria para validar o testemunho; a culpa decorre de ter frustrado a possibilidade teórica de que uma segunda testemunha viesse a se somar a ela. O caso final, de dois grupos de testemunhas, mostra que quando as circunstâncias específicas (explicadas na Guemará, sobre parentesco por casamento com mulheres à beira da morte) tornam plausível que o testemunho ainda pudesse ter sido resgatado no momento de cada negação, ambos os grupos tornam-se culpados.

כָּפְרוּ שְׁנֵיהֶן כְּאַחַת, שְׁנֵיהֶן חַיָּבִין. בָּזֶה אַחַר זֶה, הָרִאשׁוֹן חַיָּב וְהַשֵּׁנִי פָטוּר. כָּפַר אֶחָד וְהוֹדָה אֶחָד, הַכּוֹפֵר חַיָּב. הָיוּ שְׁתֵּי כִתֵּי עֵדִים, כָּפְרָה הָרִאשׁוֹנָה וְאַחַר כָּךְ כָּפְרָה הַשְּׁנִיָּה, שְׁתֵּיהֶם חַיָּבוֹת, מִפְּנֵי שֶׁהָעֵדוּת יְכוֹלָה לְהִתְקַיֵּם בִּשְׁתֵּיהֶן:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Shevuot 4:4
כפרו שניהן כאחד שניהן חייבין בזה אחד זה כו': זה שאמר כאחד ר"ל בתוך כדי דבור והוא שיעור שאילת שלום תלמיד לרב והוא כדי שיאמר לו שלום עליך רבי ואם היה בין כפירת זה לכפירת זה יותר מזה השיעור נאמר בהם זה אחר זה ואמר שתיהן חייבות יש בו תנאים וזה כי כשהיתה כת שניה ראויה להעיד לא תתחייב כת ראשונה על כפירתה כלום לפי שהם לא בטלו דברי אמת מה שהיו יכולים לומר ידענו כי שם כת אחרת בשעת תביעתם ואמנם מה שאמר בכאן שתיהם חייבות הוא כמו שביארו כשהיתה כת שניה קרובים בנשותיהן ונשותיהן גוססות כשכפרה כת ראשונה ואחר כן מתו הנשים ואז כפרה כת שניה העדות ג"כ:

Rambam define com precisão técnica o que significa "de uma vez": dentro do tempo de uma fala breve — a mesma medida usada para a saudação de um aluno a seu mestre, "a paz esteja contigo, meu mestre". Se entre as duas negações passou mais tempo que isso, é considerado "uma depois da outra". Quanto ao caso dos dois grupos de testemunhas ambos culpados, Rambam explica a condição subjacente: os dois grupos precisam estar em situação especial, como quando as testemunhas do segundo grupo eram, no momento da negação do primeiro grupo, parentes por casamento com esposas então agonizantes — e só depois de as esposas morrerem, tornando os maridos aptos a testemunhar, é que o segundo grupo negou o testemunho.

Bartenura · Shevuot 4:4
כָּפְרוּ שְׁנֵיהֶם כְּאֶחָד. בְּתוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר: בָּזֶה אַחַר זֶה. שֶׁהָיָה בֵין זֶה לָזֶה יוֹתֵר מִכְּדֵי דִבּוּר: הָרִאשׁוֹן חַיָּב. אֲבָל הַשֵּׁנִי פָּטוּר, שֶׁכֵּיוָן שֶׁכָּפַר הָרִאשׁוֹן שׁוּב אֵין הַשֵּׁנִי רָאוּי לְהָעִיד, שֶׁהוּא יְחִידִי: שְׁתֵּיהֶן חַיָּבוֹת. בַּגְּמָרָא פָרֵיךְ, רִאשׁוֹנָה אַמַּאי חַיֶּבֶת, הָא קַיְמָא כַּת שְׁנִיָּה, וּמַה הִפְסִידוּהוּ הָרִאשׁוֹנִים בִּכְפִירָתָם. וּמְשָׁנֵי, דְּמַתְנִיתִין אַיְרֵי כְּגוֹן שֶׁהָיוּ הָעֵדִים שֶׁל כַּת שְׁנִיָּה קְרוֹבִים בִּנְשׁוֹתֵיהֶן, שֶׁלֹּא הָיוּ כְשֵׁרִים לְהָעִיד כְּשֶׁכָּפְרָה כַת רִאשׁוֹנָה, וּנְשׁוֹתֵיהֶן גּוֹסְסוֹת. מַהוּ דְּתֵימָא כֵּיוָן דְּקַיְמָא לָן רֹב גּוֹסְסִים לְמִיתָה הָווּ לְהוּ כְּאִלּוּ מֵתוּ וְתִפָּטֵר כַּת רִאשׁוֹנָה דְּהָא קַיְמָא שְׁנִיָּה, קָא מַשְׁמַע לָן הַשְׁתָּא מִיהָא לֹא שָׁכוּב, וְנִמְצָא שֶׁלֹּא הָיָה שָׁם בִּשְׁעַת כְּפִירָה אֶלָּא כַת רִאשׁוֹנָה בִלְבַד, וּלְפִיכָךְ חַיָּבִין:

Bartenura confirma a medida de "de uma vez" como o tempo de uma fala breve. Sobre o segundo caso, explica a razão de o primeiro ser culpado e o segundo isento: assim que a primeira testemunha nega, a segunda deixa de ser apta a testemunhar sozinha, já que é preciso ao menos duas testemunhas. Quanto ao caso final, Bartenura relata a pergunta da Guemará — se já existia um segundo grupo disponível, o que a negação do primeiro grupo realmente prejudicou? — e sua resposta: tratava-se de um caso em que as testemunhas do segundo grupo eram, naquele momento, parentes por casamento (suas esposas ainda vivas, embora agonizantes) e portanto inaptas para testemunhar; somente depois de as esposas morrerem é que o segundo grupo se tornou apto, e sua negação subsequente causou o mesmo tipo de prejuízo real que a do primeiro grupo, tornando ambos culpados.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ״י
Rashi · Shevuot 31b
כפרו שניהן כאחת - בתוך כדי דבור:

Rashi confirma a definição de "de uma vez" como dentro do tempo de uma fala breve.

Rashi (cont.) רַשִׁ״י
Rashi · Shevuot 31b
הראשון חייב - אבל השני פטור שכיון שכפר הראשון שוב אין עד יחידי ראוי להגיד:

Sobre a negação em sequência: Rashi explica que, uma vez que a primeira testemunha negou, a segunda já não é mais uma testemunha isolada apta a testemunhar sozinha — por isso sua negação posterior não gera culpa adicional.