Seder Nezikin · Massechet Shevuot · Perek Bet · Mishná 1 de 5

As quatro consciências da impureza: coisas sagradas e o Templo

יְדִיעוֹת הַטֻּמְאָה שְׁתַּיִם שֶׁהֵן אַרְבַּע
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná abre o Perek Bet retomando, de modo estruturado, os quatro tipos de esquecimento (yediat hatumá) que geram obrigação de trazer oferenda ascendente e descendente — dois quanto às coisas sagradas, dois quanto ao Templo.

As consciências da impureza são duas que são quatro: [se alguém] tornou-se impuro e soube, e depois a impureza foi-lhe ocultada, mas lembrou-se das coisas sagradas; [se] foi-lhe ocultada a coisa sagrada e lembrou-se da impureza; [se] ambas — esta e aquela — foram-lhe ocultadas, e comeu a coisa sagrada sem saber, e depois de comer soube — eis que este traz oferenda ascendente e descendente. Tornou-se impuro e soube, e depois a impureza foi-lhe ocultada, mas lembrou-se do Templo; foi-lhe ocultado o Templo e lembrou-se da impureza; ambas — esta e aquela — foram-lhe ocultadas, e entrou no Templo sem saber, e depois de sair soube — eis que este traz oferenda ascendente e descendente.A mishná retoma, no início do novo capítulo, o princípio geral já estabelecido em Vayikrá 5:2-3: quem esquece que está impuro, ou esquece que o alimento diante dele é sagrado (ou que o lugar em que se encontra é o Templo), e apenas depois recorda o que havia esquecido, deve trazer uma oferenda de escala variável — animal, ave ou oferenda de farinha, conforme sua condição financeira. A abertura "duas que são quatro" descreve a estrutura lógica do esquecimento: há sempre duas variáveis em jogo — de um lado, a impureza da própria pessoa; de outro, o objeto ou lugar sagrado (a coisa sagrada consumida, ou o Templo em que se entra). Cada uma dessas duas variáveis pode ser esquecida isoladamente, ou ambas podem ser esquecidas juntas — produzindo assim quatro combinações possíveis de esquecimento, tanto no caso de comer coisas sagradas quanto no caso de entrar no Templo. Em todos os quatro casos, a condição para a obrigação é a mesma: houve consciência inicial da impureza (o indivíduo sabia que estava impuro), seguida de esquecimento, seguida de ação inadvertida (comer ou entrar), seguida de nova consciência posterior. A mishná estabelece este quadro de modo abstrato aqui, e as mishnayot seguintes do capítulo desenvolvem, uma a uma, as aplicações concretas desse princípio — sobretudo quanto ao Templo, seus limites, e as circunstâncias específicas de entrada com impureza esquecida.

יְדִיעוֹת הַטֻּמְאָה שְׁתַּיִם שֶׁהֵן אַרְבַּע. נִטְמָא וְיָדַע וְנֶעֶלְמָה מִמֶּנּוּ הַטֻּמְאָה וְזָכוּר אֶת הַקֹּדֶשׁ, נֶעְלַם מִמֶּנּוּ הַקֹּדֶשׁ וְזָכוּר אֶת הַטֻּמְאָה, נֶעֶלְמוּ מִמֶּנּוּ זֶה וָזֶה וְאָכַל אֶת הַקֹּדֶשׁ וְלֹא יָדַע, וּמִשֶּׁאָכַל יָדַע, הֲרֵי זֶה בְעוֹלֶה וְיוֹרֵד. נִטְמָא וְיָדַע וְנֶעֶלְמָה מִמֶּנּוּ טֻמְאָה וְזָכוּר אֶת הַמִּקְדָּשׁ, נֶעְלַם מִמֶּנּוּ מִקְדָּשׁ וְזָכוּר אֶת הַטֻּמְאָה, נֶעֶלְמוּ מִמֶּנּוּ זֶה וָזֶה וְנִכְנַס לַמִּקְדָּשׁ וְלֹא יָדַע, וּמִשֶּׁיָּצָא יָדַע, הֲרֵי זֶה בְעוֹלֶה וְיוֹרֵד:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Shevuot 2:1
יְדִיעוֹת הַטֻּמְאָה שְׁתַּיִם שֶׁהֵן אַרְבַּע: כְּשֶׁתִּתְבּוֹנֵן הַיְדִיעוֹת תִּמְצָא שְׁמוֹנֶה... וְאָמְנָם אָמַר שֶׁהֵן אַרְבָּעָה, וְאַף עַל פִּי שֶׁהֵן שְׁמֹנָה כְּמוֹ שֶׁמָּנִינוּ, לְפִי שֶׁלֹּא מָנָה זוּלָתִי יְדִיעָה רִאשׁוֹנָה בִּלְבַד אֲשֶׁר בְּאוֹתָהּ יְדִיעָה יִתָּכֵן שֶׁיִּתְחַיֵּב קָרְבָּן כְּשֶׁנּוֹדַע לוֹ בַּסּוֹף.

Rambam explica que, se contarmos com precisão, na verdade existem oito tipos de consciência envolvidos (duas consciências de impureza do corpo, duas do Templo e duas da carne sagrada, cada uma podendo ocorrer "antes" ou "depois"). Mas a mishná fala em "quatro" porque conta apenas a consciência inicial — aquela que precede o esquecimento e que é condição indispensável para a obrigação de trazer a oferenda —, e não as consciências finais, que por si só nunca geram obrigação sem que tenha havido consciência prévia. Rambam nota expressamente que se trata de uma passagem difícil da Guemará, e que resumiu sua explicação como chave introdutória ao que será discutido ali.

Bartenura · Shevuot 2:1
נֶעֶלְמָה מִמֶּנּוּ טֻמְאָה. וְעַל יְדֵי אוֹתוֹ הֶעְלֵם אָכַל קֹדֶשׁ, הֲרֵי אַחַת. וְנִכְנַס לַמִּקְדָּשׁ, הֲרֵי שְׁתַּיִם. דִּכְתִיב וְנֶעְלַם מִמֶּנּוּ וְהוּא טָמֵא, מַשְׁמַע שֶׁנִּתְעַלְּמָה מִמֶּנּוּ טֻמְאָה. נֶעְלַם מִמֶּנּוּ זֶה וָזֶה. אֵינוֹ מִמִּנְיַן הַיְדִיעוֹת, אֶלָּא הָא קָא מַשְׁמַע לָן דְּאַף עַל גַּב דְּבִשְׁעַת אֲכִילַת קֹדֶשׁ אוֹ כְנִיסַת מִקְדָּשׁ אֵינוֹ זָכוּר לֹא לַטֻּמְאָה וְלֹא לַקֹּדֶשׁ, חַיָּב קָרְבָּן עוֹלֶה וְיוֹרֵד.

Bartenura esclarece que o versículo "e lhe foi ocultado, estando ele impuro" (Vayikrá 5:2) já ensina a categoria do esquecimento da impureza sozinha — enquanto a categoria do esquecimento da coisa sagrada sozinha, embora não escrita explicitamente, é derivada por analogia. Quanto ao terceiro caso — em que ambas as coisas são esquecidas simultaneamente — Bartenura observa que ele não conta como uma categoria adicional na numeração das "consciências", mas serve apenas para ensinar que, mesmo sem nenhuma lembrança de nenhuma das duas coisas no momento do ato, a pessoa continua obrigada a trazer a oferenda ascendente e descendente.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Shevuot 14a, s.v. ידיעות שהן ארבע; נטמא וידע
יְדִיעוֹת. שֶׁהֵן אַרְבַּע — כְּבָר פֵּרַשְׁתִּי בְּפֶרֶק רִאשׁוֹן בְּמִשְׁנָה. נִטְמָא וְיָדַע — שֶׁנִּטְמָא אוֹ בִּשְׁעַת טֻמְאָה אוֹ אַחֲרֵי כֵן.

Rashi remete o leitor à discussão paralela já travada no final do Perek Alef sobre a estrutura de "duas que são quatro", indicando que o padrão de raciocínio é o mesmo aplicado ali ao bode e ao touro de Yom Kipur. Sobre a abertura "tornou-se impuro e soube", Rashi esclarece que a consciência da impureza pode ocorrer tanto no momento exato em que a impureza é contraída quanto posteriormente — o que importa é que, antes do esquecimento, tenha havido em algum momento uma consciência real e não meramente presumida.