E sobre o que não há nela consciência, nem no início nem no fim, os bodes das festas e os bodes das luas novas expiam — palavras de Rabi Yehudá. Rabi Shimon diz: os bodes das festas expiam, mas não os bodes das luas novas. E sobre o quê os bodes das luas novas expiam? Sobre o puro que comeu o impuro. Rabi Meir diz: todos os bodes, sua expiação é igual, sobre a impureza do Templo e das coisas sagradas. Costumava dizer Rabi Shimon: os bodes das luas novas expiam sobre o puro que comeu o impuro, e os das festas expiam sobre o que não há nela consciência nem no início nem no fim, e o do Dia do Perdão expia sobre o que não há nela consciência no início, mas há nela consciência no fim. Disseram-lhe: e quanto a se oferecerem um pelo outro? Disse-lhes: que se ofereçam. Disseram-lhe: já que sua expiação não é igual, como se oferecem um pelo outro? Disse-lhes: todos vêm para expiar sobre a impureza do Templo e das coisas sagradas. — A quarta configuração é a mais radical: alguém que jamais teve, em toda a sua vida, consciência alguma — nem no início, nem no fim — de determinada impureza específica, tendo comido alimento sagrado ou entrado no Templo em completa ignorância, sem jamais vir a descobrir o ocorrido. Para esse caso extremo, nem mesmo o bode externo de Yom Kipur (que exige ao menos consciência final) é suficiente, e a mishná registra uma disputa sobre qual mecanismo sacrificial cobre essa lacuna. Rabi Yehudá atribui essa função aos bodes de pecado oferecidos nas três festas de peregrinação e nas luas novas — sacrifícios mensais e festivos que, segundo ele, servem coletivamente como rede de segurança para todo esquecimento totalmente inconsciente do povo. Rabi Shimon discorda quanto aos bodes de lua nova: para ele, esses bodes específicos têm uma função mais restrita, expiando apenas o caso do puro que, por engano, comeu alimento sagrado que estava impuro — uma categoria de erro relacionada, mas tecnicamente distinta, da impureza pessoal do próprio comensal. Rabi Meir intervém com uma posição unificadora e simplificadora: para ele, a distinção entre os diferentes bodes é irrelevante na prática — todos eles, sejam de festa, de lua nova, ou de Yom Kipur, compartilham a mesma capacidade expiatória genérica sobre "a impureza do Templo e das coisas sagradas", sem subdivisões rígidas entre as subcategorias específicas. A mishná então retoma, num segundo momento, a posição detalhada de Rabi Shimon, que mapeia com precisão cada bode a uma categoria específica — luas novas para o puro que comeu impuro, festas para a ignorância total, Yom Kipur para a consciência final sem inicial —, e registra o diálogo em que seus interlocutores o desafiam: se as expiações são tão distintas entre si, como pode um bode perdido de uma categoria ser substituído por outro de categoria diferente? A resposta de Rabi Shimon prenuncia a posição de Rabi Meir: apesar das diferenças técnicas, todos os bodes, em última análise, servem ao mesmo propósito geral — expiar a impureza do Templo e das coisas sagradas — e é essa unidade de propósito que permite a intercambialidade entre eles.
Rambam explica o sentido prático da pergunta final da mishná — "que se ofereçam um pelo outro": trata-se da possibilidade de que um bode preparado para uma ocasião (por exemplo, uma lua nova) tenha seu oferecimento atrasado até a festa seguinte, podendo então ser oferecido como o bode daquela festa, e vice-versa. Rambam observa também que, tratando-se de uma disputa fundada em inferências exegéticas de versículos e não em ação prática concreta, a regra tradicional de "a lei segue Fulano" não se aplica a este debate específico entre os Sábios.
Bartenura conecta a posição de Rabi Yehudá ao próprio texto bíblico sobre o bode de lua nova, que é descrito como expiação "para Hashem" — uma expressão que os Sábios interpretam como referindo-se a um pecado que só D'us reconhece, ou seja, um pecado do qual o próprio transgressor nunca teve consciência. Sobre a posição unificadora de Rabi Meir, Bartenura esclarece que, para ele, todos os bodes das ofertas adicionais compartilham a mesma capacidade expiatória ampla, cobrindo indistintamente todas as subcategorias de esquecimento — o que tem a consequência prática direta de permitir que um bode substitua o outro livremente quando necessário.
Rashi confirma que a base textual da posição de Rabi Yehudá está na expressão "bodes de oferta de pecado" que a Torá associa a todas as festas de peregrinação, e explica que a Guemará dedicará considerável esforço a demonstrar, a partir dos versículos, por que especificamente esses bodes cobrem a categoria da ignorância total. Ele nota também que, apesar da disputa sobre os demais bodes, ninguém contesta que o bode interno de Yom Kipur mantém sua função exclusiva de "suspender" (não expiar plenamente) a categoria de consciência inicial sem final, discutida na Mishná 1:2. Por fim, Rashi esclarece o sentido prático concreto da pergunta "que se ofereçam um pelo outro": o cenário de um bode de Yom Kipur que se perdeu e foi substituído por outro, sendo o primeiro depois encontrado numa festa ou lua nova posterior — podendo, então, servir para aquela ocasião.