Seder Nezikin · Massechet Shevuot · Perek Alef · Mishná 4 de 7

Os bodes das festas e das luas novas: a disputa entre Rabi Yehudá, Rabi Shimon e Rabi Meir

וְעַל שֶׁאֵין בָּהּ יְדִיעָה לֹא בַתְּחִלָּה וְלֹא בַסּוֹף
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A quarta e última configuração — nenhuma consciência, nem no início nem no fim — abre uma extensa disputa entre Rabi Yehudá, Rabi Shimon e Rabi Meir sobre quais dos bodes mensais e festivos são responsáveis por sua expiação.

E sobre o que não há nela consciência, nem no início nem no fim, os bodes das festas e os bodes das luas novas expiam — palavras de Rabi Yehudá. Rabi Shimon diz: os bodes das festas expiam, mas não os bodes das luas novas. E sobre o quê os bodes das luas novas expiam? Sobre o puro que comeu o impuro. Rabi Meir diz: todos os bodes, sua expiação é igual, sobre a impureza do Templo e das coisas sagradas. Costumava dizer Rabi Shimon: os bodes das luas novas expiam sobre o puro que comeu o impuro, e os das festas expiam sobre o que não há nela consciência nem no início nem no fim, e o do Dia do Perdão expia sobre o que não há nela consciência no início, mas há nela consciência no fim. Disseram-lhe: e quanto a se oferecerem um pelo outro? Disse-lhes: que se ofereçam. Disseram-lhe: já que sua expiação não é igual, como se oferecem um pelo outro? Disse-lhes: todos vêm para expiar sobre a impureza do Templo e das coisas sagradas.A quarta configuração é a mais radical: alguém que jamais teve, em toda a sua vida, consciência alguma — nem no início, nem no fim — de determinada impureza específica, tendo comido alimento sagrado ou entrado no Templo em completa ignorância, sem jamais vir a descobrir o ocorrido. Para esse caso extremo, nem mesmo o bode externo de Yom Kipur (que exige ao menos consciência final) é suficiente, e a mishná registra uma disputa sobre qual mecanismo sacrificial cobre essa lacuna. Rabi Yehudá atribui essa função aos bodes de pecado oferecidos nas três festas de peregrinação e nas luas novas — sacrifícios mensais e festivos que, segundo ele, servem coletivamente como rede de segurança para todo esquecimento totalmente inconsciente do povo. Rabi Shimon discorda quanto aos bodes de lua nova: para ele, esses bodes específicos têm uma função mais restrita, expiando apenas o caso do puro que, por engano, comeu alimento sagrado que estava impuro — uma categoria de erro relacionada, mas tecnicamente distinta, da impureza pessoal do próprio comensal. Rabi Meir intervém com uma posição unificadora e simplificadora: para ele, a distinção entre os diferentes bodes é irrelevante na prática — todos eles, sejam de festa, de lua nova, ou de Yom Kipur, compartilham a mesma capacidade expiatória genérica sobre "a impureza do Templo e das coisas sagradas", sem subdivisões rígidas entre as subcategorias específicas. A mishná então retoma, num segundo momento, a posição detalhada de Rabi Shimon, que mapeia com precisão cada bode a uma categoria específica — luas novas para o puro que comeu impuro, festas para a ignorância total, Yom Kipur para a consciência final sem inicial —, e registra o diálogo em que seus interlocutores o desafiam: se as expiações são tão distintas entre si, como pode um bode perdido de uma categoria ser substituído por outro de categoria diferente? A resposta de Rabi Shimon prenuncia a posição de Rabi Meir: apesar das diferenças técnicas, todos os bodes, em última análise, servem ao mesmo propósito geral — expiar a impureza do Templo e das coisas sagradas — e é essa unidade de propósito que permite a intercambialidade entre eles.

וְעַל שֶׁאֵין בָּהּ יְדִיעָה לֹא בַתְּחִלָּה וְלֹא בַסּוֹף, שְׂעִירֵי הָרְגָלִים וּשְׂעִירֵי רָאשֵׁי חֳדָשִׁים מְכַפְּרִים, דִּבְרֵי רַבִּי יְהוּדָה. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, שְׂעִירֵי הָרְגָלִים מְכַפְּרִין, אֲבָל לֹא שְׂעִירֵי רָאשֵׁי חֳדָשִׁים. וְעַל מַה שְׂעִירֵי רָאשֵׁי חֳדָשִׁים מְכַפְּרִין, עַל הַטָּהוֹר שֶׁאָכַל אֶת הַטָּמֵא. רַבִּי מֵאִיר אוֹמֵר, כָּל הַשְּׂעִירִים כַּפָּרָתָן שָׁוָה עַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו. הָיָה רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, שְׂעִירֵי רָאשֵׁי חֳדָשִׁים מְכַפְּרִין עַל הַטָּהוֹר שֶׁאָכַל אֶת הַטָּמֵא, וְשֶׁל רְגָלִים מְכַפְּרִין עַל שֶׁאֵין בָּהּ יְדִיעָה לֹא בַתְּחִלָּה וְלֹא בַסּוֹף, וְשֶׁל יוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר עַל שֶׁאֵין בָּהּ יְדִיעָה בַתְּחִלָּה אֲבָל יֶשׁ בָּהּ יְדִיעָה בַסּוֹף. אָמְרוּ לוֹ, מַהוּ שֶׁיִּקְרְבוּ זֶה בָזֶה. אָמַר לָהֶם, יִקְרָבוּ. אָמְרוּ לוֹ, הוֹאִיל וְאֵין כַּפָּרָתָן שָׁוָה, הֵיאַךְ קְרֵבִין זֶה בָזֶה. אָמַר לָהֶן, כֻּלָּן בָּאִין לְכַפֵּר עַל טֻמְאַת מִקְדָּשׁ וְקָדָשָׁיו:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Shevuot 1:4
וְעַל שֶׁאֵין בָּהּ יְדִיעָה לֹא בַתְּחִלָּה וְלֹא בַסּוֹף כוּ׳: כָּל הַשְּׂעִירִים, רְצוֹנִי שְׂעִירֵי רְגָלִים וּשְׂעִירֵי רָאשֵׁי חֳדָשִׁים וְשָׂעִיר הַנַּעֲשֶׂה בַחוּץ בְּיוֹם הַכִּפּוּרִים... וְעִנְיַן מַאֲמָרוֹ שֶׁיִּקְרְבוּ זֶה בָזֶה, שֶׁיַּקְרִיב שָׂעִיר רֹאשׁ חֹדֶשׁ כְּשֶׁנִּתְאַחֵר הַקְרָבָתוֹ בָּרֶגֶל מִן הָרְגָלִים, וְיִהְיֶה שָׂעִיר הָרֶגֶל, וְשָׂעִיר הָרֶגֶל כְּשֶׁנִּתְאַחֵר הַקְרָבָתוֹ יַקְרִיבֶנּוּ בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ, וְיִהְיֶה הוּא עַצְמוֹ שָׂעִיר רֹאשׁ חֹדֶשׁ, לְפִי שֶׁכָּל אֶחָד מִשְּׁנֵיהֶם חַטָּאת הַנַּעֲשֵׂית בַּחוּץ הוּא.

Rambam explica o sentido prático da pergunta final da mishná — "que se ofereçam um pelo outro": trata-se da possibilidade de que um bode preparado para uma ocasião (por exemplo, uma lua nova) tenha seu oferecimento atrasado até a festa seguinte, podendo então ser oferecido como o bode daquela festa, e vice-versa. Rambam observa também que, tratando-se de uma disputa fundada em inferências exegéticas de versículos e não em ação prática concreta, a regra tradicional de "a lei segue Fulano" não se aplica a este debate específico entre os Sábios.

Bartenura · Shevuot 1:4
שְׂעִירֵי רָאשֵׁי חֳדָשִׁים מְכַפְּרִים. דִּכְתִיב בִּשְׂעִיר רֹאשׁ חֹדֶשׁ לְחַטָּאת לַה׳ — חֵטְא שֶׁאֵין מַכִּיר בּוֹ אֶלָּא ה׳, שָׂעִיר זֶה יְהֵא מְכַפֵּר. כָּל הַשְּׂעִירִים כַּפָּרָתָן שָׁוָה. כָּל שְׂעִירֵי הַמּוּסָפִין... כַּפָּרָתָן שָׁוָה, שֶׁהֵם מְכַפְּרִין בֵּין עַל שֶׁאֵין בָּהּ יְדִיעָה בַתְּחִלָּה וְיֵשׁ בָּהּ יְדִיעָה לְבַסּוֹף, בֵּין עַל שֶׁאֵין בָּהּ יְדִיעָה לֹא בַתְּחִלָּה וְלֹא בַסּוֹף, בֵּין עַל טָהוֹר שֶׁאָכַל אֶת הַטָּמֵא.

Bartenura conecta a posição de Rabi Yehudá ao próprio texto bíblico sobre o bode de lua nova, que é descrito como expiação "para Hashem" — uma expressão que os Sábios interpretam como referindo-se a um pecado que só D'us reconhece, ou seja, um pecado do qual o próprio transgressor nunca teve consciência. Sobre a posição unificadora de Rabi Meir, Bartenura esclarece que, para ele, todos os bodes das ofertas adicionais compartilham a mesma capacidade expiatória ampla, cobrindo indistintamente todas as subcategorias de esquecimento — o que tem a consequência prática direta de permitir que um bode substitua o outro livremente quando necessário.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Shevuot 2a–2b, s.v. שעירי הרגלים
שְׂעִירֵי הָרְגָלִים — בְּכָל הָרְגָלִים נֶאֱמַר שְׂעִירֵי חַטָּאת, וּבַגְּמָרָא מְפָרֵשׁ מְנָא לֵיהּ דְּאַשֶּׁאֵין בָּהּ יְדִיעָה לֹא בַתְּחִלָּה וְלֹא בַסּוֹף מְכַפֵּר. ר׳ שִׁמְעוֹן אוֹמֵר שְׂעִירֵי הָרְגָלִים מְכַפְּרִים — עָלֶיהָ, אֲבָל לֹא שְׂעִירֵי רָאשֵׁי חֳדָשִׁים. כָּל הַשְּׂעִירִים כַּפָּרָתָן שָׁוָה — כָּל שְׂעִירֵי מוּסָפִין... כַּפָּרָתָן שָׁוָה... אֲבָל שָׂעִיר הַנַּעֲשֶׂה בִפְנִים לֹא נֶחְלְקוּ עָלָיו, שֶׁאֵינוֹ מְכַפֵּר עִם אֵלּוּ, וְלֹא אֵלּוּ, תּוֹלִין אֶת תְּלִיָּתוֹ. הָיָה רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר — הַאי דַּהֲדַר נָקַט לַהּ, מִשּׁוּם דְּבָעֵי לְמֵימַר אָמְרוּ לוֹ מַהוּ שֶׁיִּקְרְבוּ זֶה בָזֶה, אִם אָבַד שָׂעִיר שֶׁהֻפְרַשׁ לְיוֹם הַכִּפּוּרִים וְנִתְכַּפְּרוּ בְאַחֵר, וְנִמְצָא זֶה בָּרֶגֶל אוֹ בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ, מַהוּ שֶׁיַּקְרִיב לְשֵׁם שְׂעִירוֹ שֶׁל יוֹם.

Rashi confirma que a base textual da posição de Rabi Yehudá está na expressão "bodes de oferta de pecado" que a Torá associa a todas as festas de peregrinação, e explica que a Guemará dedicará considerável esforço a demonstrar, a partir dos versículos, por que especificamente esses bodes cobrem a categoria da ignorância total. Ele nota também que, apesar da disputa sobre os demais bodes, ninguém contesta que o bode interno de Yom Kipur mantém sua função exclusiva de "suspender" (não expiar plenamente) a categoria de consciência inicial sem final, discutida na Mishná 1:2. Por fim, Rashi esclarece o sentido prático concreto da pergunta "que se ofereçam um pelo outro": o cenário de um bode de Yom Kipur que se perdeu e foi substituído por outro, sendo o primeiro depois encontrado numa festa ou lua nova posterior — podendo, então, servir para aquela ocasião.