Seder Zeraim · Massechet Sheviit · Perek Tet · Mishná 6

"Quem colhe ervas úmidas"

הַמְלַקֵּט עֲשָׂבִים לַחִים
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os limites de tempo para comer ervas colhidas úmidas ou secas, e folhas de cana e de vinha, até a queda da segunda chuva do outono — marco que substitui, para essas espécies, o critério de "cessar no campo"; e a opinião unificadora de Rabi Akiva

Quem colhe ervas úmidas (e as traz para casa)até que sequem as doces (as ervas ainda úmidas e doces que restam no campo; quando estas secam, cessa o critério de "cessar no campo" tradicional, e passa a vigorar outro limite). E quem varre (colhe restos) do secoaté que caia a segunda chuva (רְבִיעָה שְׁנִיָּה — a segunda grande chuva do outono, marco que encerra definitivamente a temporada de ervas). Folhas de canas e folhas de videirasaté que caiam de seus troncos (enquanto ainda presas ao caule, mesmo murchas, continuam permitidas). E quem varre do secoaté que caia a segunda chuva (repetição que introduz o caso de folhas já secas e caídas, recolhidas do chão). Rabi Akiva diz: em todos esses casos (ervas e folhas, úmidas ou secas)até que caia a segunda chuva (um único critério unificado para todos os casos da mishná).

הַמְלַקֵּט עֲשָׂבִים לַחִים, עַד שֶׁיִּיבַשׁ הַמָּתוֹק. וְהַמְגַבֵּב בַּיָּבֵשׁ, עַד שֶׁתֵּרֵד רְבִיעָה שְׁנִיָּה. עֲלֵי קָנִים וַעֲלֵי גְפָנִים, עַד שֶׁיִּשְּׁרוּ מֵאֲבִיהֶן. וְהַמְגַבֵּב בַּיָּבֵשׁ, עַד שֶׁתֵּרֵד רְבִיעָה שְׁנִיָּה. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, בְּכֻלָּן עַד שֶׁתֵּרֵד רְבִיעָה שְׁנִיָּה:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

Esta mishná trata de um caso particular do biur: ervas silvestres e folhagens cujo "cessar no campo" é difícil de determinar com precisão, pois secam gradualmente sem um ponto claro de desaparecimento — por isso os sábios fixaram marcos temporais objetivos, ligados às chuvas do outono.

Vayikrá (Levítico) 25:7
וְלִבְהֶמְתְּךָ וְלַחַיָּה אֲשֶׁר בְּאַרְצֶךָ, תִּהְיֶה כָל תְּבוּאָתָהּ לֶאֱכֹל.
"E para teu animal, e para o animal selvagem que está em tua terra, será toda a sua produção para comer" (Vayikrá 25:7).

Embora o princípio geral do biur dependa de observar quando cada espécie "cessa no campo", ervas silvestres murcham e secam gradualmente sem um momento nítido de desaparecimento total, tornando inviável a observação direta; por isso a tradição oral fixou, para essas espécies, marcos temporais objetivos — a queda da segunda chuva do outono (רְבִיעָה שְׁנִיָּה) — que substituem o critério observacional por um calendário fixo. A "segunda chuva" é a segunda grande precipitação do início do inverno em Israel — momento em que a vegetação silvestre remanescente do verão se decompõe definitivamente pela umidade, marcando de modo confiável e verificável o fim da temporada. A mishná distingue várias situações: ervas colhidas ainda úmidas (permitidas até que sequem as ervas doces que restam no campo — um critério intermediário), ervas já secas quando colhidas (permitidas até a segunda chuva diretamente), e folhas de cana e de videira (permitidas enquanto ainda presas à planta, e submetidas ao mesmo critério da segunda chuva quando colhidas secas). Rabi Akiva simplifica tudo isso, propondo um único critério — a segunda chuva — para todos os casos.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, no capítulo dedicado às leis do biur.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shemitá veYovel 7:17
וְעַד מָתַי יִהְיֶה אָדָם רַשַּׁאי לִלְקֹט עֲשָׂבִים לַחִין בַּשְּׁבִיעִית, עַד שֶׁיִּיבַשׁ הַמָּתוֹק וִיגַבֵּב. עֲשָׂבִים יְבֵשִׁים, עַד שֶׁתֵּרֵד רְבִיעָה שְׁנִיָּה שֶׁל מוֹצָאֵי שְׁבִיעִית.
E até quando é permitido a uma pessoa colher ervas úmidas na shevi'it? Até que seque a erva doce e reste apenas o que se varre do chão. Ervas secas, até que caia a segunda chuva da saída da shevi'it.

O Rambam confirma o critério da mishná, esclarecendo a sequência: primeiro secam as ervas doces no campo, permitindo ainda a colheita das secas remanescentes; e só quando cai a segunda chuva da saída da shevi'it (já no ano seguinte) é que se encerra definitivamente a permissão, exigindo o biur do que resta guardado.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Sheviit 9:6
אוֹסֵף הָעֲשָׂבִים הַלַּחִים נִקְרָא מְלַקֵּט, וְאוֹסֵף הַיְּבֵשִׁים נִקְרָא מְגַבֵּב, תַּרְגּוּם "לְקֹשֵׁשׁ קַשׁ" "לְגַבָּבָא גִלֵּי"... וּמָתוֹק הוּא חַנְטְלָא, וּכְבָר פֵּרַשְׁנוּהוּ. וּרְבִיעָה שְׁנִיָּה כְּבָר נִתְבָּאֵר בְּסוֹף פֵּאָה, שֶׁזְּמַנָּהּ בַּשָּׁנָה הַמְבֻכֶּרֶת בְּז' בְּמַרְחֶשְׁוָן, בַּשָּׁנָה הַבֵּינוֹנִית בְּג' וְעֶשְׂרִים בְּמַרְחֶשְׁוָן, וּבַשָּׁנָה הַמִּתְאַחֶרֶת בְּרֹאשׁ חֹדֶשׁ כִּסְלֵו.

Quem recolhe as ervas úmidas chama-se "melaket" (o colhedor), e quem recolhe as secas chama-se "megabev" (o varredor), conforme o Targum traduz "לְקֹשֵׁשׁ קַשׁ" (colher restolho) por "לְגַבָּבָא גִלֵּי"... E "matok" (o doce) é uma erva amarga chamada assim por ironia, ou uma erva específica, já explicada anteriormente.

E a "rebi'á sheniyá" (segunda chuva) já se explicou ao final do tratado Peá: seu tempo, num ano precoce, é em sete de Marcheshvan; num ano mediano, em vinte e três de Marcheshvan; e num ano tardio, no primeiro dia de Kislev — isso na Terra de Israel.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sheviit 9:6
הַמְלַקֵּט עֲשָׂבִים לַחִים. אוֹכְלָן בְּלֹא בִעוּר: עַד שֶׁיִּיבַשׁ. לַחְלוּחִית הָאָרֶץ הַמְּמַתֵּק אֶת הַפֵּרוֹת, מִשָּׁם וְאֵילָךְ חַיָּב לְבַעֲרָן... רְבִיעָה. עַל שֵׁם שֶׁהַמָּטָר רוֹבֵעַ אֶת הָאָרֶץ וּמוֹלִידָהּ כְּזָכָר זֶה שֶׁרוֹבֵעַ אֶת הַנְּקֵבָה.

"Quem colhe ervas úmidas": come-as sem biur (livremente, sem a obrigação imediata). "Até que seque": refere-se à umidade da terra que adoça os frutos e as ervas ainda no campo; a partir dali é obrigado a fazer o biur delas.

"Rebi'á" (chuva): assim chamada porque a chuva "cobre" (רוֹבֵעַ, no sentido de fecundar) a terra e a faz gerar, como o macho que cobre a fêmea. Outra explicação: relaciona-se à raiz "deitar/prostrar", pois a chuva prostra o solo, encharcando-o.

Massechet Sheviit não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.