Seder Zeraim · Massechet Sheviit · Perek Zayin · Mishná 6

"A rosa, a hena, o bálsamo"

הַוֶּרֶד וְהַכֹּפֶר וְהַקְּטָף וְהַלֹּטֶם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A santidade de shevi'it sobre plantas aromáticas e resinosas — a rosa, a hena, o bálsamo e o lótus — e a opinião de Rabi Shimon de que o bálsamo (a resina) não tem santidade de shevi'it, por não ser considerado fruto, mas sim o equivalente a madeira

A rosa, e a hena, e o bálsamo, e o lótus (quatro plantas aromáticas e resinosas de uso medicinal e cosmético)têm elas shevi'it e seu dinheiro tem shevi'it. Rabi Shimon diz: o bálsamo não tem shevi'it, porque não é fruto (mas sim a resiva que escorre da árvore, comparável à madeira, e não ao seu fruto propriamente dito).

הַוֶּרֶד וְהַכֹּפֶר וְהַקְּטָף וְהַלֹּטֶם, יֵשׁ לָהֶם שְׁבִיעִית וְלִדְמֵיהֶן שְׁבִיעִית. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, אֵין לַקְּטָף שְׁבִיעִית, מִפְּנֵי שֶׁאֵינוֹ פֶרִי:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A disputa entre a mishná anônima e Rabi Shimon depende da definição de "produção da terra" — se a resina que escorre de uma árvore de fruto se equipara ao próprio fruto, ou à madeira da árvore, que nunca teve santidade de shevi'it.

Vayikrá (Levítico) 25:6
וְהָיְתָה שַׁבַּת הָאָרֶץ לָכֶם לְאָכְלָה.
"E o descanso da terra vos será para alimento" (Vayikrá 25:6).

A santidade de shevi'it recai sobre a "produção" da terra — mas apenas quando essa produção é equiparável ao fruto, algo destinado ao aproveitamento direto ("para comer"), e não a algo cujo benefício só se realiza depois de "esgotado" ou "queimado", como a lenha. Os sábios estenderam a santidade de shevi'it, por tradição recebida, não apenas aos alimentos propriamente ditos, mas a toda uma gama de plantas de uso cosmético, medicinal e industrial — como a rosa e a hena, usadas em perfumaria e tingimento. A disputa sobre o bálsamo (kataf) — a resina aromática que escorre de certas árvores — gira em torno de sua classificação: a mishná anônima o trata como equivalente ao fruto da árvore, sujeito, portanto, à mesma santidade; Rabi Shimon, porém, sustenta que o "benefício" da resina só se realiza depois que ela se solidifica e é recolhida — um processo mais próximo ao da lenha, cujo benefício também vem depois de "consumida" pelo fogo, e que a Torá exclui da categoria de "fruto para comer".

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shemitá veYovel 7:19-20
הַוֶּרֶד וְהַכֹּפֶר וְהַלֹּטֶם יֵשׁ לָהֶן וְלִדְמֵיהֶן שְׁבִיעִית. הַקְּטָף, וְהוּא שָׂרָף הַיּוֹצֵא מֵהָאִילָנוֹת מִן הֶעָלִים וּמֵהָעִקָּרִים, אֵין לוֹ שְׁבִיעִית. וְהַיּוֹצֵא מִן הַפַּגִּים יֵשׁ לוֹ וּלְדָמָיו שְׁבִיעִית. בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים בְּאִילַן מַאֲכָל. אֲבָל בְּאִילַן סְרָק אַף הַיּוֹצֵא מִן הֶעָלִין וּמִן הָעִקָּרִים כִּפְרִי שֶׁלָּהֶן וְיֵשׁ לוֹ וּלְדָמָיו שְׁבִיעִית.
A rosa, a hena e o lótus têm, eles e seu dinheiro, shevi'it. O bálsamo — que é a resina que sai das árvores, das folhas e das raízes — não tem shevi'it. Mas a que sai dos frutos ainda verdes tem, ela e seu dinheiro, shevi'it. Quando se diz isso? Em árvore frutífera. Mas em árvore estéril, mesmo a que sai das folhas e das raízes é como seu fruto, e tem, ela e seu dinheiro, shevi'it.

O Rambam decide a favor de Rabi Shimon quanto ao bálsamo em geral (a resina das folhas e raízes não tem santidade de shevi'it, sendo equiparada a madeira), mas introduz uma distinção refinada, ausente da mishná: se a resina sai dos frutos ainda verdes de uma árvore frutífera, ela tem santidade, pois nesse caso a resina é parte do próprio processo de formação do fruto. E em árvores estéreis — que não produzem fruto algum —, mesmo a resina das folhas e raízes é equiparada ao "fruto" daquela árvore (por ser tudo o que ela produz), tendo santidade de shevi'it.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre esta Mishná.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Sheviit 7:6
הַוֶּרֶד הֵם הַשּׁוֹשַׁנִּים הָאֲדֻמִּים שֶׁיֵּשׁ לָהֶם רֵיחַ טוֹב, וַעֲלֵיהֶם נֶאֱמַר "שִׂפְתוֹתָיו שׁוֹשַׁנִּים" (שה"ש ה). וְהַכֹּפֶר נִקְרָא בִּלְשׁוֹן עֲרָב חנ"א, וְכֵן נֶאֱמַר (שם א) "בְּאֶשְׁכֹּל הַכֹּפֶר" — אלחנ"א, הֵם אֶשְׁכּוֹלוֹת יָפוֹת עַד מְאֹד, וְיֵשׁ מִי שֶׁיֹּאמַר שֶׁהַכֹּפֶר הוּא גרופל"י. וְהַקְּטָף אִילַן אֲפַרְסְמוֹן הַנִּקְרֵאת בַּלְסָם. וְלוֹטוֹס נִקְרָא בְּעֲרָב שאה בלוט, הוּא קשטניא"ס, וְיֵשׁ אוֹמְרִים שֶׁהוּא נִקְרָא צנוב"ר, הוּא פינולי"ש. וְהֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

"A rosa": são as flores vermelhas de aroma agradável, sobre as quais se disse "seus lábios são rosas" (Cântico dos Cânticos 5).

"E a hena": chamada em língua árabe "chiná", e assim se disse (ali, 1): "no cacho da hena" — al-chiná — que são cachos de flores muito belos; e há quem diga que a hena é "cravo".

"E o kataf": a árvore do bálsamo, chamada "balsam".

"E o lótus": chamado em árabe "xah balut" — é a castanha; e há quem diga que se chama "pinheiro", que é "piñoles".

E a halachá segue Rabi Shimon.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Sheviit 7:6
וֶרֶד. שׁוֹשָׁן. וְהַכֹּפֶר. הוּא שֶׁקּוֹרִים לוֹ בַּעֲרָבִי אלחנ"א, וְיֵשׁ אוֹמְרִים שֶׁהוּא בֹּשֶׂם שֶׁקּוֹרִין גרופול"י. וְהַקְּטָף. אִילַן אֲפַרְסְמוֹן. לֹטֶם. תַּרְגּוּם לוֹט וַלְטוֹס, יֵשׁ אוֹמְרִים שֶׁהוּא צינוב"ר בַּעֲרָבִי, פניולי"ש בְּלַעַ"ז. יֵשׁ לָהֶם שְׁבִיעִית וְלִדְמֵיהֶן שְׁבִיעִית. וְהוּא הַדִּין דְּיֵשׁ לָהֶן בִּעוּר וְלִדְמֵיהֶן בִּעוּר, וְאַף עַל פִּי שֶׁלֹּא נִזְכַּר בַּמִּשְׁנָה. מִפְּנֵי שֶׁאֵינוֹ פֶרִי. וְדִינָן כְּעֵצִים, דְּאֵין לָהֶם קְדֻשַּׁת שְׁבִיעִית, מִשּׁוּם דַּהֲנָאָתָן אַחַר בִּעוּרָן, וְהַתּוֹרָה אָמְרָה לְאָכְלָה, דּוּמְיָא דַאֲכִילָה, שֶׁהֲנָאָתָן וּבִעוּרָן שָׁוֶה, יָצְאוּ עֵצִים דַּהֲנָאָתָן אַחַר בִּעוּרָן. וְתַנָּא קַמָּא סָבַר דִּקְטָפוֹ זֶהוּ פִּרְיוֹ. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי שִׁמְעוֹן.

"Vered": rosa.

"E o kofer": é o que chamam em árabe "al-chiná", e há quem diga que é um perfume chamado "cravo".

"E o kataf": a árvore do bálsamo.

"Lotem": traduzido como "lot ve-lotos"; há quem diga que é "cinobre" em árabe, "piñoles" em outra língua.

"Têm shevi'it e seu dinheiro tem shevi'it": e a mesma lei é que têm biur e seu dinheiro tem biur, ainda que não seja mencionado na mishná.

"Porque não é fruto": e sua lei é como a da madeira, que não tem santidade de shevi'it, porque seu benefício vem depois de seu consumo (bi'ur, no sentido de "queima" ou "gasto"), e a Torá disse "para comer" — que se assemelha ao ato de comer, no qual o benefício e o consumo se dão ao mesmo tempo; excluiu-se, assim, a madeira, cujo benefício vem depois de seu consumo. E o primeiro tana entendia que o próprio kataf é o "fruto" da árvore. E a halachá segue Rabi Shimon.

Massechet Sheviit não possui Guemará no Talmud Bavli — é um dos tratados da Ordem de Zeraim sem comentário talmúdico babilônico (com exceção de Berachot), restando apenas o Talmud Yerushalmi e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste tratado.