O que devolve uma dívida na shevi'it, o espírito dos sábios se agrada dele (é moralmente louvado, ainda que legalmente já não seja obrigado). O que toma emprestado do convertido cujos filhos se converteram com ele (e depois o pai converso morreu, sem que seus filhos, nascidos ainda gentios, herdassem seus bens segundo a lei estrita): não devolva a seus filhos (o devedor não é legalmente obrigado a pagar aos filhos, pois não são seus herdeiros legítimos conforme a lei da Torá). Mas se devolveu, o espírito dos sábios se agrada dele (também aqui, o gesto voluntário é moralmente louvado). Todos os bens móveis (objetos transportáveis, não fixados ao solo) se adquirem por tração (meshichá — o ato de puxar ou movimentar o objeto, que finaliza juridicamente a compra, mesmo sem ainda ter havido pagamento). E todo aquele que cumpre sua palavra (honrando um acordo verbal, mesmo sem ainda ter havido o ato formal de aquisição), o espírito dos sábios se agrada dele.
Esta mishná final não introduz um novo mandamento bíblico específico, mas culmina a discussão do perek com uma reflexão ética que remete de volta ao próprio espírito da lei de Devarim 15 — a generosidade que a Torá espera do credor, mesmo além da estrita exigência legal.
O Rambam identifica este versículo, no encerramento de seu tratamento sobre a shemitat kesafim (Hilchot Shemitá veYovel 9:1), como fundamento de que a Torá não apenas tolera, mas ativamente encoraja e recompensa a generosidade que ultrapassa a exigência legal mínima. A mishná final de Massechet Sheviit — repetindo três vezes a expressão "רוּחַ חֲכָמִים נוֹחָה מִמֶּנּוּ" ("o espírito dos sábios se agrada dele") — coroa todo o perek, e todo o tratado, com essa mesma mensagem: a lei estrita da shemitat kesafim exime o devedor de pagar, exime quem toma emprestado do converso de devolver aos filhos, e reconhece a aquisição formal de bens móveis apenas pela tração física — mas em todos os três casos, o gesto de ir além da letra da lei, cumprindo a palavra dada ou honrando uma dívida já extinta, recebe o mais alto elogio que a tradição rabínica sabe oferecer. Assim como Hilel instituiu o Pruzbul para que a generosidade do empréstimo não fosse sufocada pelo temor da shemitá, esta última mishná ensina que a própria remissão, uma vez ocorrida, não deve endurecer o coração de ninguém — nem do credor generoso, nem do comprador que já deu sua palavra.
Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam, encerrando o capítulo sobre a shemitat kesafim.
O Rambam encerra seu próprio tratamento da shemitat kesafim (Hilchot Shemitá veYovel, capítulo 9) exatamente com esta nota: assim como a mishná final do perek elogia quem cumpre sua palavra e devolve dívidas remitidas, o Rambam elogia quem empresta generosamente mesmo às vésperas da shemitá — fechando o círculo entre a lei estrita e o ideal ético que a acompanha.
O que os grandes comentadores dizem sobre esta última Mishná de Massechet Sheviit.
Quando se converteu o converso junto com seus filhos (ainda menores, convertidos com ele), não herdam dele nem ele herda deles pelo vínculo de parentesco anterior à conversão, pois a herança segundo a lei da Torá depende de parentesco que exista dentro de Israel — como quando lhe nasce um filho depois da conversão (esse sim herda normalmente)... E o sentido de "não devolva" é que não se torna obrigado, por lei, a devolver a seus filhos, pois o devedor já adquiriu legalmente aquele valor (a dívida original ficou sem herdeiro legítimo, e por isso, tecnicamente, extinguiu-se).
"E se devolveu, o espírito dos sábios se agrada dele": seu sentido é que os sábios o estimam por isso, e é reto a seus olhos o que fez.
"Não devolva a seus filhos": não é obrigado a devolver a seus filhos, se o converso pai morreu (pois, tecnicamente, a lei da Torá não os reconhece como seus herdeiros, já que o vínculo de parentesco anterior à conversão de ambos não gera herança segundo a halachá)... E especificamente a seus filhos que se converteram junto com ele (o caso desta mishná), pois um idólatra herda seu pai segundo a Torá (o vínculo natural de pai e filho gentio permanece válido para herança, enquanto ambos são gentios; mas uma vez convertidos, esse vínculo civil desaparece tecnicamente)... e se não devolver a seus filhos, há que temer que voltem a seus antigos costumes, dizendo: "se fôssemos idólatras, herdaríamos nosso pai, e o devedor teria de nos devolver" (por isso os sábios louvam quem devolve voluntariamente, prevenindo esse risco).