Seder Moed · Massechet Shekalim · Perek ח׳ (último) · Mishná 8 de 8 (última do tratado)

Os membros do tamid, dos mussafim e de rosh chodesh; o que rege apenas com o Templo em pé

אֵבָרֵי הַתָּמִיד נִתָּנִין מֵחֲצִי כֶּבֶשׁ וּלְמַטָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A última mishná do tratado inteiro fecha o Perek Chet — e toda Massechet Shekalim — com o local exato de colocação dos membros de três tipos de holocausto na rampa do altar, e uma reflexão final sobre quais mitsvot do calendário sagrado dependem da existência do Templo e quais permanecem em vigor mesmo em sua ausência.

Os membros do tamid são colocados desde a metade da rampa e abaixo, no lado leste; e os dos mussafim são colocados desde a metade da rampa e abaixo, no lado oeste; e os de rosh chodesh são colocados abaixo da cornija do altar, embaixo.Cada tipo de oferenda diária tinha seu próprio local designado na rampa de acesso ao altar antes de ser levada ao fogo: os membros do sacrifício contínuo matutino e vespertino ficavam depositados na metade inferior da rampa, do lado leste; os das oferendas adicionais de Shabat e festas, na metade inferior, do lado oeste; e os da oferenda adicional de lua nova, ainda mais abaixo, junto à borda saliente que contornava o altar.

Os shekalim e os bikurim só vigoram enquanto o Templo está de pé; mas o dízimo de grão, o dízimo de gado e os primogênitos vigoram tanto com o Templo de pé quanto sem o Templo de pé.A mishná encerra o tratado com uma distinção fundamental: a coleta do meio-shekel anual e a oferenda dos primeiros frutos existem apenas para sustentar o serviço do Templo, e por isso cessam quando ele não está de pé; já a separação do dízimo de grãos, do dízimo de gado e a consagração dos primogênitos são obrigações ligadas à própria terra e ao próprio rebanho de Israel, e continuam vigentes independentemente da existência do Templo.

Quem consagra shekalim e bikurim, eis que são consagrados. Rabi Shimon diz: quem diz "bikurim são consagrados" — não são consagrados.Mesmo sem o Templo em pé, alguém que declarar formalmente seus shekalim ou seus bikurim como consagrados efetivamente os torna sagrados, ainda que não haja como usá-los para sua finalidade original; Rabi Shimon discorda apenas quanto aos bikurim, que por sua natureza específica — ligada organicamente à terra e ao momento da colheita — não podem, em sua opinião, ser retroativamente consagrados por mera declaração quando já não há Templo para recebê-los.

אֵבָרֵי הַתָּמִיד, נִתָּנִין מֵחֲצִי כֶּבֶשׁ וּלְמַטָה בַּמִּזְרָח, וְשֶׁל מוּסָפִין נִתָּנִין מֵחֲצִי כֶּבֶשׁ וּלְמַטָה בַּמַּעֲרָב, וְשֶׁל רָאשֵׁי חֳדָשִׁים נִתָּנִין מִתַּחַת כַּרְכֹּב הַמִּזְבֵּחַ מִלְּמָטָה, הַשְּׁקָלִים וְהַבִּכּוּרִים אֵין נוֹהֲגִין אֶלָּא בִּפְנֵי הַבַּיִת, אֲבָל מַעְשַׂר דָּגָן וּמַעְשַׂר בְּהֵמָה וְהַבְּכוֹרוֹת נוֹהֲגִין בֵּין בִּפְנֵי הַבַּיִת בֵּין שֶׁלֹּא בִּפְנֵי הַבַּיִת. הַמַּקְדִּישׁ שְׁקָלִים וּבִכּוּרִים, הֲרֵי זֶה קֹדֶשׁ. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, הָאוֹמֵר בִּכּוּרִים קֹדֶשׁ, אֵינָן קֹדֶשׁ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 13:2
קַדֶּשׁ לִי כָל בְּכוֹר פֶּטֶר כָּל רֶחֶם בִּבְנֵי יִשְׂרָאֵל בָּאָדָם וּבַבְּהֵמָה לִי הוּא׃
Consagra-Me todo primogênito, todo o que abre a madre entre os filhos de Israel, tanto no homem quanto no animal; Meu é.

O versículo de Shemot que institui a santidade do primogênito — bechor — é uma das três obrigações que a mishná final do tratado identifica como permanentes, ao lado do dízimo de grão e do dízimo de gado, precisamente porque nasce de um vínculo direto com o próprio corpo e a própria terra de Israel, e não de uma instituição centrada no Templo. Isso contrasta nitidamente com o meio-shekel, tema que dá nome a este tratado inteiro: a mitsvá do shekel, embora tenha ocupado oito perakim inteiros de discussão detalhada sobre calendário, tesouraria, cofres, avaliação de preços e destinos de excedentes, existe unicamente para financiar o serviço diário do Templo, e cessa por completo quando esse serviço não pode ser realizado. É uma nota conclusiva apropriadamente sóbria: o próprio tratado que tanto se dedicou à mecânica financeira do Templo termina reconhecendo os limites dessa mesma instituição, e apontando para as mitsvot que a sobrevivem.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura · Shekalim 8:8
אֵינָן נוֹהֲגִים אֶלָּא בִפְנֵי הַבַּיִת. שְׁקָלִים, מִשּׁוּם דְּצֹרֶךְ קָרְבָּן נִינְהוּ, וְכֵיוָן שֶׁאֵין קָרְבָּן אֵין שְׁקָלִים. וּבִכּוּרִים, דִּכְתִיב (שמות כג) רֵאשִׁית בִּכּוּרֵי אַדְמָתְךָ תָּבִיא בֵּית ה' אֱלֹהֶיךָ, וְאֵין בַּיִת אֵין בִּכּוּרִים: אֲבָל מַעֲשַׂר דָּגָן וְכוּ' נוֹהֲגִים בִּפְנֵי הַבַּיִת וְשֶׁלֹּא בִּפְנֵי הַבַּיִת, דִּקְדֻשַּׁת הָאָרֶץ לֹא בָּטְלָה:

"Só vigoram enquanto o Templo está de pé" — os shekalim, porque servem à necessidade das oferendas, e sem oferenda não há shekalim; e os bikurim, porque está escrito "os primeiros frutos de tua terra trarás à casa do Senhor teu Deus" (Shemot 23), e sem casa não há bikurim. "Mas o dízimo de grão" etc. vigora tanto com o Templo de pé quanto sem ele, porque a santidade da terra de Israel nunca foi anulada, mesmo com a destruição do Templo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O Rambam encerra aqui mesmo, em suas próprias palavras, o Perush HaMishnayot sobre todo o tratado Shekalim.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shekalim 8:8
אֵבָרֵי הַתָּמִיד נִתָּנִין מֵחֲצִי כֶּבֶשׁ כוּ': הַכַּרְכֹּב הַנִּזְכָּר בְּכָאן הוּא לְעִנְיַן נְתִינַת מוּסְפֵי רֹאשׁ חֹדֶשׁ, אָמְרוּ שֶׁהוּא אַמָּה, בֵּין קֶרֶן לְקֶרֶן, מְקוֹם הִלּוּךְ רַגְלֵי הַכֹּהֲנִים, וּכְשֶׁנְּצַיֵּר הַמִּזְבֵּחַ יִתְבָּאֵר לְךָ זֶה הַמָּקוֹם, וְעָשׂוּ זֶה כְּדֵי לְפַרְסְמוֹ עִנְיַן רֹאשׁ חֹדֶשׁ. סְלִיק פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָיוֹת לְהָרַמְבַּ"ם מִמַּסֶּכֶת שְׁקָלִים.

"Os membros do tamid são colocados desde a metade da rampa" etc.: a cornija aqui mencionada refere-se ao local de colocação das oferendas adicionais de rosh chodesh; dizem que tinha um côvado de largura, entre um canto e outro, sendo o espaço por onde caminhavam os pés dos sacerdotes. E quando desenharmos o altar, este local se esclarecerá para você. E fizeram assim para tornar público e reconhecível o caso de rosh chodesh, distinguindo-o visualmente dos demais tipos de oferenda.

Aqui se conclui o Perush HaMishnayot do Rambam sobre o tratado Shekalim.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shekalim 8:8
הַמַּקְדִּישׁ שְׁקָלִים וּבִכּוּרִים. דְּאֵין נוֹהֲגִים אֶלָּא בִּפְנֵי הַבַּיִת, אִם הִפְרִישָׁן שֶׁלֹּא בִּפְנֵי הַבַּיִת, קַדְשֵׁי. בִּכּוּרִים קֹדֶשׁ אֵינָן קֹדֶשׁ. כֵּיוָן דִּבְהֶדְיָא כְּתִיב בְּהוּ (שמות כג) תָּבִיא בֵּית ה' אֱלֹהֶיךָ, אֲפִלּוּ הִפְרִישָׁן בְּדִיעֲבַד לֹא קַדְשֵׁי, וְאֵין שֵׁם בִּכּוּרִים חָל עֲלֵיהֶן.

"Quem consagra shekalim e bikurim" — como essas mitsvot só vigoram com o Templo de pé, se alguém as separar quando o Templo já não existe, ainda assim se tornam consagradas por sua própria declaração. "'Bikurim são consagrados' — não são consagrados" — porque está explicitamente escrito a respeito deles "trarás à casa do Senhor teu Deus" (Shemot 23): mesmo que sejam separados depois do fato, sem o Templo já não se consagram, e o próprio nome de bikurim não recai mais sobre eles, encerrando o tratado com a distinção mais precisa possível entre o que persiste e o que se extingue.

Massechet Shekalim não possui Guemará no Talmud Bavli — este tratado só tem Guemará no Talmud Yerushalmi, restando no Bavli apenas a Mishná e a Tosefta. Por isso, o comentário de Rashi foi omitido em todas as mishnayot deste tratado.
סְלִיק מַסֶּכְתָּא דִּשְׁקָלִים
Aqui se conclui Massechet Shekalim — o quarto tratado de Seder Moed, dedicado à coleta anual do machatzit hashekel e seu uso no financiamento das ofertas públicas do Templo. O Perek Chet, último do tratado, com oito mishnayot, tratou da pureza presumida de objetos e fluidos achados em Jerusalém — a saliva nas ruas, os utensílios a caminho do mikveh, a faca de abate perto de Pêssach (8:1–8:3) — depois voltou-se ao parochet, o grande véu do Templo, seu procedimento de purificação e suas medidas e confecção monumentais (8:4–8:5), e fechou com a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel, Rabi Eliezer e Rabi Akiva sobre o local de queima de carne sagrada contaminada, culminando nesta última mishná sobre a colocação dos membros de cada tipo de holocausto e a distinção final entre as mitsvot que cessam sem o Templo e as que permanecem.

Massechet Shekalim percorreu, ao longo de seus oito capítulos e cinquenta e duas mishnayot, todo o ciclo anual da coleta do meio-shekel: os anúncios de um e quinze de Adar, as mesas de câmbio e a medida do kalbon (Perek Alef); a conversão de shekalim em darconos, os shofarot de coleta e os destinos do dinheiro excedente (Perek Bet); os três momentos anuais da teruma da câmara e a integridade exigida do tesoureiro (Perek Guimel); os destinos de cada tipo de excedente do Templo, o maior perek do tratado (Perek Dalet); os quinze cargos permanentes de administração do Templo e as câmaras de caridade discretas (Perek Hei); os treze shofarot, mesas e prostrações, e os votos de lenha, incenso e ouro (Perek Vav); as regras de dinheiro e objetos de origem duvidosa e os sete decretos de Beit Din (Perek Zayin); e, por fim, este último perek, sobre a pureza de objetos achados em Jerusalém, o véu do Templo e o limite entre o que depende do Templo e o que não depende. Por não possuir Guemará no Talmud Bavli — apenas no Talmud Yerushalmi —, cada mishná deste tratado reuniu o Rambam (Perush HaMishná) e o Bartenura, sem o comentário de Rashi, que pressupõe a Guemará babilônica ausente aqui.

Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná prossegue para os demais tratados de Seder Moed: Yoma, Sucá, Beitzá, Rosh Hashaná, Taanit, Megilá, Moed Katan e Chagigá, cada um dedicado a uma festividade ou aspecto do calendário sagrado judaico, somando-se aos tratados já concluídos de Shabat, Eruvin, Pessachim e agora Shekalim.