De onde se aprende que o navio é puro — que não recebe impureza, mesmo que seja de barro ou tenha sido carregado em terra firme e depois descido ao mar — como está dito (Mishlei 30): "o caminho do navio no meio do mar" — comparando o navio ao próprio mar: assim como o mar não recebe impureza, também o navio não a recebe. De onde se aprende que num canteiro — de terra para hortaliças — de seis por seis tefachim — seis palmos por seis palmos — se pode semear nele cinco tipos de sementes — sem violar a proibição de misturar sementes diversas (kilaim) — quatro nos quatro lados do canteiro e um no meio, como está dito (Yeshayahu 61): "porque, como a terra produz o seu renovo, e como o horto faz brotar as suas sementes (assim o Senhor Deus fará brotar a justiça e o louvor diante de todas as nações)" — não está dito "sua semente", no singular, mas "suas sementes", no plural, indicando pluralidade — pelo menos duas — que somadas às quatro dos lados totalizam cinco.
Dois versículos distintos, de dois livros distintos, sustentam duas halachot que nada têm em comum entre si além do método: a leitura atenta de uma palavra ou imagem bíblica.
Por que este versículo prova a pureza do navio. À primeira vista, o versículo apenas descreve o navio como algo que se move "no meio do mar" — informação óbvia, já que todo navio navega no mar. A Guemará (Shabat 84b) explica que a Mishná não busca provar o óbvio, mas usa a comparação implícita: o navio é equiparado ao próprio mar em que navega. Assim como o mar não é suscetível a impureza ritual — por ser um corpo de água natural, e não um utensílio fabricado —, também o navio, mesmo sendo um utensílio construído por mãos humanas e mesmo sendo de barro (material que normalmente recebe impureza com facilidade), é considerado, para efeitos de pureza, como parte do mar, e não a recebe. A halachá vale inclusive quando o navio foi construído em terra firme e apenas depois lançado ao mar.
Por que este versículo prova a medida de cinco sementes. A Guemará (Shabat 84b) explica a contagem gramatical: a palavra "תוֹצִיא" (produz) e "צִמְחָהּ" (seu renovo) somam duas referências no singular ao que a terra produz; já "זֵרוּעֶיהָ" (suas sementes), no plural, soma pelo menos duas sementes distintas, e "תַצְמִיחַ" (faz brotar) soma mais uma — totalizando, junto com a primeira menção, cinco referências à germinação num único canteiro. O texto não usa o singular "זַרְעָהּ" (sua semente), o que teria sugerido um único tipo; usa o plural "זֵרוּעֶיהָ", indicando uma multiplicidade de espécies convivendo lado a lado sem que isso seja considerado uma mistura proibida (kilaim). A medida prática — seis por seis tefachim, com quatro sementes nos cantos e uma no centro — está fixada em detalhe no tratado de Kilaim; aqui a Mishná apenas ancora essa medida numa leitura do texto profético.
Como o Rambam codifica estas duas halachot — a pureza do navio, em Hilchot Kelim, e a medida do canteiro, em Hilchot Kilaim.
Duas halachot, dois tratados. A pureza do navio pertence às leis de utensílios e impureza (Hilchot Kelim), tema que, como a Mishná anterior sobre o caco de barro, é apenas tangencialmente ligado ao Shabat — reunido aqui pelo fio condutor da exegese de Rabi Akiva e seus colegas. Já a medida do canteiro de kilaim pertence às leis de misturas proibidas na agricultura (Hilchot Kilaim), e o Rambam a codifica exatamente como está na Mishná, sem alteração, pois não há disputa entre os sábios sobre essa medida — apenas sobre sua origem bíblica ou não.
Os comentadores explicam por que a proximidade das sementes nos cantos do canteiro não é considerada mistura proibida.
E como pode uma pessoa semear cinco sementes? Sua prova vem da palavra "zeruêha" (suas sementes), que indica pluralidade — mas não é uma prova bíblica formal, é apenas uma alusão fraca (asmachta), servindo como sinal mnemônico, não como fundamento legal.
"Quatro nos quatro lados do canteiro" — cada semeadura preenche todo aquele lado até próximo ao canto, e no meio não se semeia senão um único grão, para que esse grão central fique a três tefachim de distância das sementes de cada lado — pois a medida de absorção de nutrientes (yenniká) de cada semente é de um tefach e meio.
E ainda que, junto aos cantos, as sementes de lados diferentes fiquem próximas umas das outras sem essa distância mínima, não há problema — pois a Torá se preocupa apenas com kilaim — que não haja confusão visual entre as espécies — mas não nos preocupamos com a absorção mútua de nutrientes entre raízes vizinhas, desde que haja sinal visível de separação entre as áreas plantadas.
"A Mishná: que se semeiam nele cinco sementes" — e não é considerado mistura confusa, pois há espaço suficiente para separá-las com a distância adequada.
"Quatro dos quatro lados do canteiro" — preenche todo aquele lado até próximo ao canto. "E um no meio" — um único grão.
"Suas sementes" — e na Guemará se explica como se depreende que são cinco sementes num canteiro de seis tefachim. Esta breve nota de Rashi remete o leitor à discussão talmúdica completa, que deriva a contagem gramatical palavra por palavra a partir do versículo de Yeshayahu, confirmando a leitura já trazida pela própria Mishná.