Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud-Zayin · Mishná 6

A pedra na cabaça, e o ramo amarrado ao jarro

הָאֶבֶן שֶׁבְּקֵרוּיָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A pedra que está na cabaça — se enchem água com ela e ela não cai, enchem água com ela; e, se não, não enchem água com ela. O ramo que está amarrado a um jarro pequeno, enchem água com ele no Shabat.

A pedra que está na cabaçauma cabaça seca usada como recipiente para tirar água de um poço; sendo leve, ela flutua na superfície em vez de afundar, e por isso se prende uma pedra em sua boca, para servir de lastro e fazê-la afundar — se enchem água com ela e ela não caiquando a pedra está firmemente presa na abertura da cabaça, a ponto de não se soltar mesmo com o movimento de encher água — enchem água com elapois, estando tão bem fixada, a pedra deixa de ser um objeto avulso e passa a ser considerada parte integrante do próprio utensílio, como se fosse sua base — e, se nãoa pedra não está bem presa, soltando-se com facilidade — não enchem água com elapois, temendo que a pedra solta se desprenda dentro do poço no ato de puxar a água, os Sábios proibiram por decreto o uso desse recipiente, receando que a pessoa venha a consertá-lo no próprio Shabat. O ramo que está amarrado a um jarro pequenouma alça improvisada, feita de um galho flexível amarrado a um pequeno jarro de barro, usado para tirar água de um poço ou fonte — enchem água com ele no Shabatpois, estando o ramo bem amarrado ao jarro, ele se torna parte do próprio utensílio, permitindo seu uso normal para tirar água.

הָאֶבֶן שֶׁבְּקֵרוּיָה, אִם מְמַלְּאִין בָּהּ וְאֵינָהּ נוֹפֶלֶת, מְמַלְּאִין בָּהּ. וְאִם לָאו, אֵין מְמַלְּאִין בָּהּ. זְמוֹרָה שֶׁהִיא קְשׁוּרָה בְטָפִיחַ, מְמַלְּאִין בָּהּ בְּשַׁבָּת:

Quando uma peça avulsa se torna parte do utensílio · בָּטֵל אֶל הַכְּלִי

A mishná ensina o princípio de que um objeto normalmente muktzê — como uma pedra solta — pode perder esse estatuto quando está firmemente anexado a um utensílio permitido, tornando-se, na prática, parte dele. O critério decisivo é a firmeza da fixação: se ela resiste ao uso normal do utensílio, considera-se unida; caso contrário, permanece um objeto separado e proibido.

Devarim 5:13-14
שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ׃ וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ וּבִתֶּךָ וְעַבְדְּךָ וַאֲמָתֶךָ וְשׁוֹרְךָ וַחֲמֹרְךָ וְכָל בְּהֶמְתֶּךָ...
Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra; mas o sétimo dia é Shabat para Hashem, teu D-us; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu boi, nem teu jumento, nem nenhum de teus animais...

O receio por trás do decreto. A Guemará (Shabat 125a-125b) explica que a preocupação com a pedra solta na cabaça não é apenas estética, mas prática: se a pedra não está bem fixada, há risco real de que ela se solte durante o processo de puxar a água do poço, e a pessoa, ao perceber isso, seja tentada a prendê-la novamente ali mesmo — uma ação que constituiria consertar um utensílio (tikun kli), proibida no Shabat. Por isso, os Sábios vedaram preventivamente o próprio uso do recipiente quando sua fixação é frágil.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica a lei da pedra na cabaça e do pano sobre a cana, em Hilchot Shabat, capítulo vinte e cinco.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 25:18
הָאֶבֶן שֶׁבַּקֵּרוּיָה אִם מְמַלְּאִין בָּהּ וְאֵינָהּ נוֹפֶלֶת הֲרֵי הִיא כְּמִקְצַת הַקֵּרוּיָה וּמֻתָּר לְמַלְּאוֹת בָּהּ וְאִם לָאו אֵין מְמַלְּאִין בָּהּ. בֶּגֶד שֶׁעַל הַקָּנֶה שׁוֹמְטוֹ מֵעַל הַקָּנֶה:
A pedra que está na cabaça — se enchem água com ela e ela não cai, é considerada como parte da própria cabaça, e é permitido encher água com ela; e, se não, não enchem água com ela. O pano que está sobre a cana, retira-se o pano de sobre a cana.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 25:9 (princípio análogo)
כָּל כְּלִי שֶׁמַּקְפִּיד עָלָיו שֶׁמָּא יִפְחֲתוּ דָּמָיו... אָסוּר לְטַלְטְלָן בְּשַׁבָּת.
Todo utensílio com o qual a pessoa se preocupa que seu valor diminua... é proibido movê-lo no Shabat — assim como se teme que a pedra solta se desprenda e a pessoa venha a reparar o utensílio.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam a função da cabaça como recipiente de água e o motivo pelo qual a firmeza da pedra determina se ela é considerada parte do utensílio.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 17:6
האבן שבקירויה אם ממלאים בה ואינה נופלת כו': קירויה הוא כלי חרס ששואבין בו מים ותולים ממנו אבן כדי שיכבד וירד לתחתית המעין. טפיח קומקום קטן והטעם שבעבורו לא התירו לשאוב בשבת כשאינו מתוקן גזירה שמא יחתוך ממנו בידו בשבת ויתקנהו לשאוב:

"A pedra que está na cabaça — se enchem água com ela e ela não cai etc." — keruyá é um utensílio de barro com que se tira água, e se pendura nele uma pedra para que fique pesado e desça ao fundo da fonte.

Tafiach é um pequeno jarro. E a razão pela qual não permitiram tirar água no Shabat quando não está bem fixado é um decreto — receio de que a pessoa venha a cortar algo dele com a mão no Shabat e consertá-lo para tirar água.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 17:6
הָאֶבֶן שֶׁבְּקֵרוּיָה. דְּלַעַת יְבֵשָׁה וּמְמַלְּאִים בָּהּ מַיִם, וּמִתּוֹךְ שֶׁהִיא קַלָּה אֵינָהּ שׁוֹאֶבֶת אֶלָּא צָפָה, וְנוֹתְנִין בָּהּ אֶבֶן לְהַכְבִּידָהּ: אִם מְמַלְּאִין. בַּקֵּרוּיָה: וְאֵין הָאֶבֶן נוֹפֶלֶת. שֶׁהִדְּקוּהָ יָפֶה בְּפִי הַקֵּרוּיָה, הֲוָה כְּלִי: וְאִם לָאו. הֲרֵי הִיא כִּשְׁאָר אֲבָנִים וְאֵין מְטַלְטְלִים אֶת הַקֵּרוּיָה, שֶׁנַּעֲשֵׂית בָּסִיס לָאֶבֶן שֶׁנּוֹשָׂאתָהּ: זְמוֹרָה שֶׁהִיא קְשׁוּרָה לְטָפִיחַ. לְפַךְ קָטָן שֶׁשּׁוֹאֲבִין בּוֹ מַיִם מִן הַבּוֹר אוֹ מִן הַמַּעְיָן, מְמַלְּאִים בּוֹ, דְּשַׁוְיָא לְהַךְ זְמוֹרָה כְּלִי:

"A pedra que está na cabaça" — abóbora seca, com que se enche água; e, sendo leve, não afunda sozinha, mas flutua, e colocam nela uma pedra para pesá-la.

"Se enchem água" — com a cabaça.

"E a pedra não cai" — porque a fixaram bem na boca da cabaça, tornando-a um utensílio.

"E, se não" — a pedra é como qualquer outra pedra, e não se move a cabaça, que se torna base para a pedra que carrega — sendo, portanto, proibida como base de objeto muktzê.

"O ramo que está amarrado a um jarro pequeno" — para um pequeno jarro com que se tira água do poço ou da fonte, enchem água com ele, pois esse ramo se torna, ele mesmo, um utensílio.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 125a-125b
קרויה - דלעת יבשה שממלאין בה מים: אבן שבקרויה - שתולין בה אבן כדי שתשקע ותמלא: ואינה נופלת - כשממלאין בה: זמורה שקשורה בטפיח - חבל של זמורת גפן קשור בכד קטן לשאוב בו מים:

"Keruyá" — abóbora seca com que se enche água.

"A pedra que está na cabaça" — que se pendura nela uma pedra para que afunde e se encha.

"E não cai" — quando se enche com ela.

"O ramo amarrado a um jarro pequeno" — corda de ramo de videira amarrada a um pequeno jarro para tirar água com ele.

Transição para o próximo tema. A mesma lógica de "objeto que se une firmemente a um utensílio permitido perde seu estatuto de muktzê" será aplicada, na mishná seguinte, ao caso da tampa da janela — outro objeto cuja utilização no Shabat depende de estar preparado e fixado desde antes do início do dia.