Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Tet · Mishná 6 de 6 — encerrando o perek

Além do julgamento do tribunal

הַגּוֹנֵב אֶת הַקַּסְוָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o perek, a mishná lista três transgressões diante das quais os zelosos podem agir por conta própria: furtar o vaso ritual, blasfemar por meio de feitiçaria, e manter relações com uma mulher aramaica.

Quem furta o vaso ritual, e quem amaldiçoa por feitiçaria, e quem se deita com uma aramaica — os zelosos o atingem.A mishná trata de três transgressões que, embora não constem entre as penas capitais formais do tribunal, autorizam que pessoas zelosas ajam por conta própria contra quem as comete, no próprio momento do ato. Tratam-se de: o furto de um vaso de serviço do Templo; blasfemar contra o Nome usando o nome de uma prática de feitiçaria; e a relação com uma mulher aramaica, praticada abertamente. Essa autorização é excepcional e estritamente circunscrita ao momento do próprio ato — fora dele, o caso não é mais de responsabilidade dos zelosos, mas do tribunal, conforme os critérios comuns de testemunho e julgamento.

הַגּוֹנֵב אֶת הַקַּסְוָה וְהַמְקַלֵּל בַּקּוֹסֵם וְהַבּוֹעֵל אֲרַמִּית, קַנָּאִין פּוֹגְעִין בּוֹ.
A mishná trata do sacerdote que serviu no Templo em estado de impureza ritual: o caso não é levado ao tribunal pelos próprios irmãos sacerdotes, mas tratado diretamente pelos jovens sacerdotes fora do pátio do Templo.

Sacerdote que serviu em estado de impureza ritual — seus irmãos sacerdotes não o levam ao tribunal; antes, os jovens do sacerdócio o retiram para fora do pátio e lhe fendem o crânio com toras de madeira.A impureza ritual do próprio sacerdote durante o serviço no Templo é uma transgressão gravíssima, mas de constatação imediata e evidente aos próprios sacerdotes presentes — não exigindo, portanto, o processo formal de testemunho e julgamento do tribunal. Por isso o caso não é levado ao tribunal, mas resolvido no próprio momento pelos sacerdotes mais jovens, que retiram o transgressor do pátio sagrado.

כֹּהֵן שֶׁשִּׁמֵּשׁ בְּטֻמְאָה, אֵין אֶחָיו הַכֹּהֲנִים מְבִיאִין אוֹתוֹ לְבֵית דִּין, אֶלָּא פִרְחֵי כְהֻנָּה מוֹצִיאִין אוֹתוֹ חוּץ לָעֲזָרָה וּמַפְצִיעִין אֶת מֹחוֹ בִּגְזִירִין.
Fechando a mishná e o perek, o caso do não-sacerdote que serviu no Templo: Rabi Akiva o julga passível de estrangulamento pelo tribunal; os Sábios entendem que sua pena é confiada aos Céus.

Não-sacerdote que serviu no santuário — Rabi Akiva diz: por estrangulamento. E os Sábios dizem: por mãos do Céu.O caso de quem, sem ser sacerdote, realiza o serviço reservado aos sacerdotes no Templo, é objeto de controvérsia quanto à natureza de sua pena. Rabi Akiva o inclui entre as penas capitais formais do tribunal, sujeita a estrangulamento; os Sábios discordam, entendendo que essa transgressão específica não é julgada por tribunal humano, mas deixada aos Céus.

זָר שֶׁשִּׁמֵּשׁ בַּמִּקְדָּשׁ, רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, בְּחֶנֶק. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, בִּידֵי שָׁמָיִם.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Bamidbar 1:51
וּבִנְסֹעַ הַמִּשְׁכָּן יוֹרִידוּ אֹתוֹ הַלְוִיִּם וּבַחֲנֹת הַמִּשְׁכָּן יָקִימוּ אֹתוֹ הַלְוִיִּם, וְהַזָּר הַקָּרֵב יוּמָת.
"E, ao partir o Tabernáculo, os levitas o desmontarão, e ao acampar o Tabernáculo, os levitas o armarão; e o estranho que se aproximar morrerá."
A controvérsia entre Rabi Akiva e os Sábios se apoia em duas comparações verbais distintas a partir da palavra יוּמָת ("morrerá") deste versículo: Rabi Akiva a compara ao falso profeta (Devarim 13:6), executado por estrangulamento; os Sábios a comparam a quem se aproxima do Tabernáculo em Bamidbar 17:28, cuja morte é atribuída diretamente aos Céus.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 9:6
הגונב את הקסוה והמקלל בקוסם והבועל ארמית כו': קסוה כלי שרת, נגזר מן קשות הנסך. ומקלל בקוסם הוא שיברך את השם בשם עבודה זרה. ובועל ארמית שיבעול בת עובדי עבודה זרה בפרהסיא בעשרה מישראל או יותר ובשעת מעשה, כגון פנחס. אבל אחר שבא עליה ופירש, או שלא יהיה בקהל ישראל, או שאינה עובדת עבודה זרה, אסור להרגו, לפי שהוא מחויב כרת על בת עובדי עבודה זרה... ואם ישאל לנו הקנאי אם יפגע בו אם לא, ואפילו הוא בשעת מעשה, אין מורין לו. ואם פשט ידו והרגו, אין עליו עונש. וכמו כן אם התחזק הבועל בשעת המעשה והרג את הקנאי להציל נפשו ממנו, אינו חייב מיתה, לפי שהוא רודף אחריו להרגו, והתורה לא גזרה הדין להרגו אלא על הדרך הנזכר... ואין הלכה כרבי עקיבא.

Rambam esclarece que a permissão dada aos zelosos exige condições estritas: a relação com a aramaica só autoriza a intervenção se ela for filha de idólatras, praticada abertamente, diante de dez pessoas de Israel, e no próprio momento do ato — como o precedente de Pinchas. Fora dessas condições, é proibido matar o transgressor; sua pena passa a ser confiada aos Céus. Um ponto notável: se o zeloso perguntar previamente se deve agir, não se lhe ensina a fazê-lo — a autorização vale apenas para quem age por iniciativa própria; mas se ele já agiu, não há punição contra ele. Do mesmo modo, se o próprio transgressor, no calor do momento, mata o zeloso para se defender, não é responsabilizado por isso, pois o zeloso, naquele instante, torna-se para ele um perseguidor. Conclui que a halachá não segue Rabi Akiva.

Bartenura · Sanhedrin 9:6
הַגּוֹנֵב אֶת הַקַּסְוָה. אֶחָד מִכְּלֵי שָׁרֵת. מִלְּשׁוֹן קְשׂוֹת הַנָּסֶךְ (במדבר ד): וְהַמְקַלֵּל בַּקּוֹסֵם. הַמְבָרֵךְ אֶת הַשֵּׁם בְּשֵׁם עֲבוֹדָה זָרָה: וְהַבּוֹעֵל אֲרַמִּית. נָכְרִית: קַנָּאִים פּוֹגְעִים בּוֹ. הַמְקַנְּאִים קִנְאָתוֹ שֶׁל מָקוֹם הָיוּ הוֹרְגִים אוֹתוֹ. וְהוּא שֶׁתִּהְיֶה הַנָּכְרִית בַּת נָכְרִית, וּבִשְׁעַת מַעֲשֶׂה, וּבִפְנֵי עֲשָׂרָה מִיִּשְׂרָאֵל. וְאִם חָסֵר אֶחָד מִן הַתְּנָאִים הַלָּלוּ אָסוּר לְהָרְגוֹ... פִּרְחֵי כְהֻנָּה. בַּחוּרִים שֶׁמַּתְחִיל שְׂעַר זְקָנָם לִפְרֹחַ בָּהֶם: בִּגְזִירִין. בְּקָעִיּוֹת שֶׁל עֵצִים: רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר בְּחֶנֶק. נֶאֱמַר כָּאן (במדבר א) וְהַזָּר הַקָּרֵב יוּמָת, וְנֶאֱמַר לְהַלָּן (דברים יג) וְהַנָּבִיא הַהוּא אוֹ חֹלֵם הַחֲלוֹם הַהוּא יוּמָת, מַה לְהַלָּן בְּחֶנֶק אַף כָּאן בְּחֶנֶק: וַחֲכָמִים אוֹמְרִים בִּידֵי שָׁמָיִם. נֶאֱמַר כָּאן יוּמָת, וְנֶאֱמַר לְהַלָּן (במדבר יז) כָּל הַקָּרֵב הַקָּרֵב אֶל מִשְׁכַּן ה' יָמוּת, מַה לְהַלָּן בִּידֵי שָׁמַיִם אַף כָּאן בִּידֵי שָׁמַיִם. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

Bartenura identifica o vaso furtado como um dos utensílios de serviço do Templo, e "amaldiçoar por feitiçaria" como blasfemar o Nome usando o nome de uma prática de idolatria. Precisa as quatro condições para a intervenção dos zelosos no caso da aramaica: que ela seja filha de idólatras, que a intervenção ocorra no próprio momento do ato, e diante de dez pessoas de Israel — faltando qualquer uma dessas condições, é proibido matar o transgressor. Identifica os "jovens do sacerdócio" como rapazes cuja barba começa a despontar, e "toras" como pedaços de madeira. E detalha as duas comparações verbais da controvérsia final: Rabi Akiva compara o versículo do estranho que se aproxima ao do falso profeta, executado por estrangulamento; os Sábios o comparam a quem se aproxima do Tabernáculo, cuja morte vem diretamente dos Céus. A halachá segue os Sábios.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 81b, s.v. מתני' הקסוה; ארמית; קנאין פוגעין בו; גזירין; והיכא רמיזא; יכה קוסם את קוסמו
מַתְנִי' הַקַּסְוָה — מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא: אֲרַמִּית — בַּת עוֹבֵד כּוֹכָבִים: קַנָּאִין פּוֹגְעִין בּוֹ — בְּנֵי אָדָם כְּשֵׁרִין הַמִּתְקַנְּאִין קִנְאָתוֹ שֶׁל מָקוֹם פּוֹגְעִין בּוֹ בְּשָׁעָה שֶׁרוֹאִין אֶת הַמַּעֲשֶׂה, אֲבָל לְאַחַר מִכֵּן אֵין מִיתָתוֹ מְסוּרָה לְבֵית דִּין, וַהֲלָכָה לְמֹשֶׁה מִסִּינַי הוּא: פּוֹגְעִין — מְמִיתִין: גְּזִירִין — פְּקָעִין: יַכֶּה קוֹסֵם אֶת קוֹסְמוֹ — שֶׁמְּקַלֵּל כְּלַפֵּי מַעְלָה בַּקּוֹסֵם, יַכֶּה הַקּוֹסֵם הַזֶּה אֶת קוֹסְמוֹ, הַיְנוּ כְּלַפֵּי מַעְלָה, שֶׁנּוֹתֵן קְסָמִים אֵלּוּ בְּלִבּוֹ.

Rashi remete a explicação do vaso furtado à Guemará, e identifica "aramaica" como filha de idólatra. Precisa que "os zelosos o atingem" refere-se a pessoas íntegras que, movidas pelo zelo pela honra do Nome, agem apenas no instante em que presenciam o próprio ato — passado esse momento, o caso já não é mais confiado ao tribunal, tratando-se de uma tradição recebida por Moisés no Sinai. Esclarece "atingem" como sinônimo de matar, e "toras" como pedaços de madeira. Sobre a blasfêmia por feitiçaria, explica que quem amaldiçoa dessa forma volta a maldição contra o Alto, pois deposita no próprio ídolo uma confiança que deveria pertencer apenas ao Nome.