Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Dalet · Mishná 5 de 5 — encerrando o perek

Quem destrói uma vida — a intimidação das testemunhas e a criação de Adão sozinho

כָּל הַמְאַבֵּד נֶפֶשׁ אַחַת... כְּאִלּוּ אִבֵּד עוֹלָם מָלֵא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O perek fecha com a mishná mais longa e mais citada de todo o tratado: primeiro, a advertência solene feita às testemunhas antes de depor num julgamento capital.

Como se intimidam as testemunhas em testemunhos capitais? Traziam-nas e as intimidavam, dizendo: Talvez direis: por conjectura, e por rumor, testemunho de boca de outra testemunha e de boca de pessoa confiável, ouvimos — ou talvez não sabeis que, ao final, vos examinaremos com inquirição e interrogatório.Antes mesmo de ouvir uma palavra do testemunho, o tribunal advertia solenemente as testemunhas de um julgamento capital — algo que não se fazia em julgamentos monetários. A advertência nomeia, uma a uma, as bases inválidas sobre as quais um testemunho poderia repousar sem que a própria testemunha percebesse a fragilidade: uma impressão vaga ("conjectura"), um boato ouvido de terceiros ("rumor"), ou um relato de segunda mão — "ouvi de quem ouviu", ainda que de pessoa idônea. Nenhuma dessas bases substitui a visão direta e pessoal do fato exigida pela lei. E o tribunal lembra ainda as testemunhas de que seu depoimento não ficará incontestado: viria a rigorosa derishá e chakirá — o interrogatório detalhado sobre tempo, lugar e circunstância — capaz de expor qualquer inconsistência.

כֵּיצַד מְאַיְּמִין אֶת הָעֵדִים עַל עֵדֵי נְפָשׁוֹת, הָיוּ מַכְנִיסִין אוֹתָן וּמְאַיְּמִין עֲלֵיהֶן. שֶׁמָּא תֹאמְרוּ מֵאֹמֶד, וּמִשְּׁמוּעָה, עֵד מִפִּי עֵד וּמִפִּי אָדָם נֶאֱמָן שָׁמַעְנוּ, אוֹ שֶׁמָּא אִי אַתֶּם יוֹדְעִין שֶׁסּוֹפֵנוּ לִבְדֹּק אֶתְכֶם בִּדְרִישָׁה וּבַחֲקִירָה.
O tribunal explica às testemunhas por que o peso de um testemunho capital é irreversível — diferente do dano monetário, que se repara com dinheiro — e ancora essa gravidade na história de Caim e Abel.

Sabei que os julgamentos capitais não são como os julgamentos monetários. Nos julgamentos monetários, a pessoa dá dinheiro e é perdoada; nos julgamentos capitais, o sangue dele e o sangue de seus descendentes ficam pendentes sobre ele até o fim do mundopois assim encontramos com Caim, que matou seu irmão, como foi dito: "os sangues de teu irmão clamam." Não diz "o sangue de teu irmão", mas "os sangues de teu irmão"o sangue dele e o sangue de seus descendentes. Outra explicação: "os sangues de teu irmão"pois seu sangue estava lançado sobre as árvores e sobre as pedras.Um testemunho falso em causa monetária tem reparação: quem causou o dano paga, e o pecado é perdoado. Mas um testemunho falso que leva à execução de um inocente não tem conserto possível — o sangue derramado, e todo o futuro que esse sangue carregava, ficam definitivamente atribuídos à falsa testemunha. A prova vem do próprio hebraico do relato de Caim: o versículo usa a forma plural "demei" (sangues), não a forma singular "dam" (sangue) — de onde os sábios derivam duas leituras: que o crime de Caim não custou apenas a vida de Abel, mas também a de toda a sua descendência potencial; ou, alternativamente, que o sangue de Abel, sem herdeiro que o recolhesse para sepultamento, ficou literalmente espalhado sobre pedras e árvores.

הֱווּ יוֹדְעִין שֶׁלֹּא כְדִינֵי מָמוֹנוֹת דִּינֵי נְפָשׁוֹת. דִּינֵי מָמוֹנוֹת, אָדָם נוֹתֵן מָמוֹן וּמִתְכַּפֵּר לוֹ. דִּינֵי נְפָשׁוֹת, דָּמוֹ וְדַם זַרְעִיּוֹתָיו תְּלוּיִין בּוֹ עַד סוֹף הָעוֹלָם, שֶׁכֵּן מָצִינוּ בְקַיִן שֶׁהָרַג אֶת אָחִיו, שֶׁנֶּאֱמַר דְּמֵי אָחִיךָ צֹעֲקִים, אֵינוֹ אוֹמֵר דַּם אָחִיךָ אֶלָּא דְּמֵי אָחִיךָ, דָּמוֹ וְדַם זַרְעִיּוֹתָיו. דָּבָר אַחֵר, דְּמֵי אָחִיךָ, שֶׁהָיָה דָמוֹ מֻשְׁלָךְ עַל הָעֵצִים וְעַל הָאֲבָנִים.
O núcleo ético da mishná, um dos textos mais citados de toda a literatura rabínica: por que a humanidade inteira descende de um único Adão, e o que isso ensina sobre o valor infinito de cada vida individual.

Por isso o homem foi criado sozinhopara te ensinar que todo aquele que destrói uma alma de Israel, a Escritura lhe imputa como se tivesse destruído um mundo inteiro; e todo aquele que preserva uma alma de Israel, a Escritura lhe imputa como se tivesse preservado um mundo inteiro.Esta é a frase mais citada de toda a Mishná, e sua lógica é precisa, não meramente retórica: como toda a humanidade descende de um único ser humano, Adão, cada pessoa individual carrega em si o potencial de gerações inteiras que ainda não nasceram — exatamente como a mishná acabara de explicar sobre Caim e Abel. Destruir uma única vida, portanto, não é destruir "uma" unidade entre bilhões; é cortar, na raiz, toda uma linhagem de mundo que dela poderia ter vindo — assim como Adão sozinho gerou a humanidade inteira. E o inverso vale com igual força: preservar uma vida é preservar, em potência, um mundo inteiro. A mishná não está fazendo uma afirmação poética sobre a igual dignidade humana em abstrato — está explicando, a quem está prestes a testemunhar sobre a vida ou morte de alguém, exatamente o tamanho da responsabilidade que tem nas mãos.

לְפִיכָךְ נִבְרָא אָדָם יְחִידִי, לְלַמֶּדְךָ, שֶׁכָּל הַמְאַבֵּד נֶפֶשׁ אַחַת מִיִּשְׂרָאֵל, מַעֲלֶה עָלָיו הַכָּתוּב כְּאִלּוּ אִבֵּד עוֹלָם מָלֵא. וְכָל הַמְקַיֵּם נֶפֶשׁ אַחַת מִיִּשְׂרָאֵל, מַעֲלֶה עָלָיו הַכָּתוּב כְּאִלּוּ קִיֵּם עוֹלָם מָלֵא.
A mishná dá mais três razões para a criação de um único Adão: a paz entre as pessoas, a refutação de crenças em múltiplos poderes divinos, e a demonstração da grandeza de D-us — cada ser humano é único, ao contrário de moedas cunhadas do mesmo selo.

E por causa da paz entre as criaturas, para que ninguém diga ao seu próximo: meu pai é maior que o teu. E para que os hereges não digam: há muitos poderes nos céus. E para relatar a grandeza do Santo, bendito sejapois o homem cunha muitas moedas com um só selo, e todas se assemelham umas às outras; mas o Rei dos reis dos reis, o Santo, bendito seja, cunhou todo homem com o selo de Adão, o primeiro homem, e nenhum deles se assemelha ao seu companheiro. Por isso, cada um é obrigado a dizer: por minha causa o mundo foi criado.Três razões adicionais, cada uma abrindo uma dimensão diferente do mesmo fato — todos descendem de um único ancestral. A primeira é social: ninguém pode reivindicar superioridade genealógica inata, "meu pai é maior que o teu", pois todos remontam ao mesmo Adão. A segunda é teológica: um só Adão refuta a ideia de múltiplos criadores rivais, cada um moldando sua própria humanidade. A terceira é a mais notável — e inverte a expectativa: quando um artesão humano cunha muitas moedas com o mesmo selo, todas saem idênticas; mas D-us, cunhando toda a humanidade com o único "selo" de Adão, produziu bilhões de seres absolutamente únicos, sem repetição. É precisamente essa unicidade que obriga cada pessoa a se considerar responsável pelo mundo inteiro — "por minha causa o mundo foi criado" não é vaidade, mas o reconhecimento de que ninguém mais, em toda a criação, pode preencher exatamente o papel que cabe a essa pessoa.

וּמִפְּנֵי שְׁלוֹם הַבְּרִיּוֹת, שֶׁלֹּא יֹאמַר אָדָם לַחֲבֵרוֹ אַבָּא גָדוֹל מֵאָבִיךָ. וְשֶׁלֹּא יְהוּ מִינִין אוֹמְרִים, הַרְבֵּה רָשֻׁיּוֹת בַּשָּׁמָיִם. וּלְהַגִּיד גְּדֻלָּתוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁאָדָם טוֹבֵעַ כַּמָּה מַטְבְּעוֹת בְּחוֹתָם אֶחָד וְכֻלָּן דּוֹמִין זֶה לָזֶה, וּמֶלֶךְ מַלְכֵי הַמְּלָכִים הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא טָבַע כָּל אָדָם בְּחוֹתָמוֹ שֶׁל אָדָם הָרִאשׁוֹן וְאֵין אֶחָד מֵהֶן דּוֹמֶה לַחֲבֵרוֹ. לְפִיכָךְ כָּל אֶחָד וְאֶחָד חַיָּב לוֹמַר, בִּשְׁבִילִי נִבְרָא הָעוֹלָם.
O tribunal antecipa e refuta as duas desculpas mais prováveis para não testemunhar: o desejo de evitar o incômodo, e o receio de ficar com a responsabilidade pela morte do acusado.

E talvez direis: que temos nós com este incômodo?Mas já não foi dito: "e ele, sendo testemunha, se viu ou soube, se não o disser..."? E talvez direis: que temos nós em nos responsabilizar pelo sangue deste?Mas já não foi dito: "e quando perecem os ímpios, há alegria"? — Depois de pesar sobre as testemunhas toda a gravidade de um testemunho capital, a mishná antecipa a reação oposta e igualmente perigosa: a tentação de simplesmente não testemunhar, para não se envolver. A essa hesitação o tribunal responde com dois versículos. Ao primeiro receio — o mero incômodo de se expor — responde-se que calar um testemunho verdadeiro é, em si, uma transgressão nomeada explicitamente na Torá. Ao segundo receio — mais sério, o temor de carregar a responsabilidade pela morte de outra pessoa — responde-se que, se o acusado for de fato culpado, testemunhar contra ele não é motivo de culpa, mas de justiça cumprida: "quando perecem os ímpios, há alegria". A mishná termina, assim, equilibrando dois pesos que pareciam opostos — o valor imenso de cada vida individual, e o dever, ainda assim, de testemunhar a verdade quando dela depende a justiça.

וְשֶׁמָּא תֹאמְרוּ מַה לָּנוּ וְלַצָּרָה הַזֹּאת, וַהֲלֹא כְבָר נֶאֱמַר וְהוּא עֵד אוֹ רָאָה אוֹ יָדָע אִם לוֹא יַגִּיד וְגוֹ׳. וְשֶׁמָּא תֹאמְרוּ מַה לָּנוּ לָחוּב בְּדָמוֹ שֶׁל זֶה, וַהֲלֹא כְבָר נֶאֱמַר וּבַאֲבֹד רְשָׁעִים רִנָּה.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Bereshit (Gênesis) 4:10
וַיֹּאמֶר מֶה עָשִׂיתָ, קוֹל דְּמֵי אָחִיךָ צֹעֲקִים אֵלַי מִן הָאֲדָמָה
"E disse: que fizeste? A voz dos sangues de teu irmão clama a Mim desde a terra."
Esta é a base textual central de toda a mishná: o versículo, dirigido por D-us a Caim depois do assassinato de Abel, usa a forma plural "דְּמֵי" (demei, "sangues") em vez da forma singular esperada "דַּם" (dam, "sangue"). Dessa irregularidade gramatical a mishná extrai sua lição central — que quem tira uma vida tira, com ela, todas as vidas futuras que dela poderiam ter nascido — e é esse mesmo princípio, aplicado retroativamente à criação de um único Adão, que fundamenta a afirmação de que destruir uma vida equivale a destruir um mundo inteiro.
Vayikrá (Levítico) 5:1
וְנֶפֶשׁ כִּי תֶחֱטָא וְשָׁמְעָה קוֹל אָלָה וְהוּא עֵד אוֹ רָאָה אוֹ יָדָע אִם לוֹא יַגִּיד וְנָשָׂא עֲוֹנוֹ
"E se alguém pecar, ao ouvir a voz do juramento, sendo testemunha — se viu ou soube — se não o declarar, levará sua iniquidade."
Este versículo é a resposta do tribunal a quem hesita em testemunhar por mero incômodo: calar um testemunho que se possui é, pela própria letra da Torá, uma transgressão que recai sobre quem se cala — "levará sua iniquidade".
Mishlei (Provérbios) 11:10
בְּטוּב צַדִּיקִים תַּעֲלֹץ קִרְיָה, וּבַאֲבֹד רְשָׁעִים רִנָּה
"No bem dos justos, a cidade se alegra; e na perdição dos ímpios, há júbilo."
Esta é a resposta do tribunal ao segundo receio — o de "carregar" a culpa pela morte do acusado. Se o veredito for justo, o versículo garante que não há culpa alguma em testemunhar a verdade: a perdição do culpado é motivo de júbilo para a sociedade, não de peso na consciência de quem testemunhou.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 4:5
כֵּיצַד מְאַיְּמִין אֶת הָעֵדִים עַל עֵדֵי נְפָשׁוֹת כוּ׳: מֵאֹמֶד הוּא מַה שֶּׁנּוֹטֶה עָלָיו הַמַּחֲשָׁבָה בָרֹב וְהָרְאָיָה בִּדְבָרִים הַדּוֹמִים לָעִנְיָן. וְחוֹתָמוֹ שֶׁל אָדָם הָרִאשׁוֹן הוּא צוּרַת מִין הָאָדָם, אֲשֶׁר בָּהּ הָאָדָם אָדָם, וּבָהּ יִשְׁתַּתְּפוּ כָּל הָאָדָם, וְאַף עַל פִּי שֶׁהַכֹּל מְקַבְּלִין אוֹתָהּ צוּרָה יִשְׁתַּנּוּ אִישֵׁיהֶם בְּמְאוֹרָעִים רַבִּים, כְּמוֹ שֶׁהוּא מָצוּי וְנִרְאֶה. וּמִינִין הֵם הַיּוֹצְאִים מִכְּלַל דָּת כָּל אֻמָּה וְאֻמָּה, וּכְבָר בֵּאַרְנוּ בְּמַה שֶׁהִקְדַּמְנוּ שֶׁזֶּה הַשֵּׁם אֵינוֹ נוֹפֵל אֶלָּא עַל צַדּוֹקִים וּבַיְתוֹסִים בִּלְבַד.

Rambam define com precisão filosófica o que é omed (conjectura): não uma certeza, mas aquilo para onde "se inclina o pensamento pela maioria" das vezes — um juízo de probabilidade, não de conhecimento direto, e por isso inadmissível como base de testemunho capital. Sobre o "selo de Adão", Rambam esclarece que se trata da forma da espécie humana enquanto tal — aquilo que faz do homem, homem, e que é compartilhado por toda a humanidade —, ainda que cada indivíduo, dentro dessa forma comum, se diferencie por inúmeras circunstâncias particulares. E identifica os minim (hereges) mencionados na mishná como aqueles que se afastam da fé de sua própria nação — esclarecendo, à luz do que já havia explicado anteriormente, que esse termo se aplica especificamente aos tzedokim (saduceus) e baitusim, seitas que negavam princípios centrais da tradição.

Bartenura · Sanhedrin 4:5
מְאַיְּמִין עַל הָעֵדִים. שֶׁלֹּא יָעִידוּ שֶׁקֶר. מֵאֹמֶד. שֶׁהַדַּעַת נוֹטָה שֶׁהוּא כֵן. דִּינֵי מָמוֹנוֹת. אִם הֵעִיד לְחַיֵּב לָזֶה מָמוֹן שֶׁלֹּא כַדִּין, מַחֲזִירוֹ לוֹ וּמִתְכַּפֵּר. לְפִיכָךְ נִבְרָא יְחִידִי. לְהַרְאוֹתְךָ שֶׁמֵּאָדָם אֶחָד נִתְיַשֵּׁב מִלּוּאוֹ שֶׁל עוֹלָם. רָשֻׁיּוֹת הַרְבֵּה. אֱלֹהוּת הַרְבֵּה יֵשׁ וְכָל אֶחָד בָּרָא אֶת שֶׁלּוֹ. מַה לָּנוּ וְלַצָּרָה הַזֹּאת. לְהַכְנִיס רֹאשֵׁנוּ בִדְאָגָה זוֹ וַאֲפִלּוּ עַל הָאֱמֶת. וַהֲלֹא כְבָר נֶאֱמַר וְהוּא עֵד. וְחַיָּבִין אַתֶּם לְהַגִּיד מַה שֶּׁרְאִיתֶם. וְשֶׁמָּא תֹאמְרוּ מַה לָּנוּ לָחוּב. לִהְיוֹת מְחֻיָּבִים בְּדָמוֹ שֶׁל זֶה, נוֹחַ לָנוּ לַעֲמֹד בְּאִם לֹא יַגִּיד. הֲרֵי הוּא אוֹמֵר וּבַאֲבֹד רְשָׁעִים רִנָּה. וְאִם רָשָׁע הוּא אֵין כָּאן עָוֹן כְּלָל.

Bartenura percorre lemma por lemma toda a mishná. Sobre a intimidação, é direto: seu único propósito é impedir testemunho falso. Sobre a diferença entre dinei mamonot e dinei nefashot, confirma que um testemunho monetário equivocado tem reparação simples — devolve-se o dinheiro e o pecado é perdoado —, o que não existe no caso capital. Sobre "por isso foi criado sozinho", resume a lição em uma frase precisa: mostrar que de um único homem se constituiu a plenitude do mundo inteiro. E sobre os "muitos poderes nos céus", explica que os hereges acreditavam em múltiplas divindades, cada uma criando sua própria parte do mundo — heresia que a criação de um único Adão, por um único D-us, refuta na raiz. Por fim, sobre a hesitação em testemunhar, Bartenura nota algo sutil: o receio existe "mesmo quando se trata da verdade" — ou seja, mesmo sabendo que o testemunho é verdadeiro, a tentação de evitar o incômodo é humana, e é exatamente essa tentação que a mishná refuta.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 37a, s.v. מתני׳ מאיימין; מאומד; דיני ממונות; לפיכך נברא אדם יחידי; הרבה רשויות בשמים; ולהגיד גדולתו, חותם, טובע כמה מטבעות, בשבילי נברא העולם
מַתְנִי׳ מְאַיְּמִין — שֶׁלֹּא יָעִידוּ עֵדוּת שֶׁקֶר: מֵאֹמֶד — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ: דִּינֵי מָמוֹנוֹת — אִם הֵעִיד שֶׁקֶר נוֹתֵן מָמוֹן לָזֶה שֶׁנִּפְסַד עַל יָדוֹ וּמַחֲזִירוֹ לוֹ וּמִתְכַּפֵּר: לְפִיכָךְ נִבְרָא אָדָם יְחִידִי — כָּל זֶה אוֹמֵר לָהֶם, לְפִיכָךְ נִבְרָא אָדָם יְחִידִי, לְהַרְאוֹתְךָ שֶׁמֵּאָדָם אֶחָד נִבְרָא מְלוֹאוֹ שֶׁל עוֹלָם: הַרְבֵּה רָשֻׁיּוֹת בַּשָּׁמַיִם — וְכָל אֶחָד בָּרָא אֶת שֶׁלּוֹ: וּלְהַגִּיד גְּדֻלָּתוֹ — וְעוֹד לְכָךְ נִבְרָא יְחִידִי, לְהַרְאוֹת לַדּוֹרוֹת הַבָּאִים גְּדֻלָּתוֹ שֶׁל הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, שֶׁבְּחוֹתָם הָרִאשׁוֹן כָּל הַדּוֹרוֹת טְבוּעוֹת, שֶׁלֹּא הָיָה תְּחִלָּה אֶלָּא חוֹתָם אֶחָד: חוֹתָם — הַיְנוּ אוֹתוֹ בַרְזֶל שֶׁהַצּוּרָה חֲקוּקָה בּוֹ: טוֹבֵעַ כַּמָּה מַטְבְּעוֹת בְּחוֹתָם אֶחָד — כָּל הַמַּטְבְּעוֹת שֶׁאָדָם טוֹבֵעַ עַל יְדֵי בַּרְזֶל אַחַת, כֻּלָּן דּוֹמִין: בִּשְׁבִילִי נִבְרָא הָעוֹלָם — כְּלוֹמַר, חָשׁוּב אֲנִי כָּעוֹלָם מָלֵא, לֹא אֶטְרֹד אֶת עַצְמִי מִן הָעוֹלָם בַּעֲבֵרָה אַחַת וְאֶמְשֹׁךְ מִמֶּנָּה:

Rashi confirma que o único propósito da intimidação é evitar testemunho falso, e explica que a diferença central entre os dois tipos de julgamento está na reversibilidade: no monetário, o dano de um testemunho falso se desfaz devolvendo o dinheiro; no capital, não há devolução possível. Sobre a criação de Adão sozinho, Rashi resume a lição num único fôlego: mostrar que de um único homem foi criada a plenitude inteira do mundo. Sua contribuição mais original está na leitura do "selo": ele explica que o propósito de Adão ter sido único não é apenas retórico, mas serve para "mostrar às gerações futuras a grandeza do Santo, bendito seja" — pois todas as gerações humanas estão, por assim dizer, "cunhadas" a partir de um único selo original, e ainda assim nenhuma pessoa se repete. E na frase final, "por minha causa o mundo foi criado", Rashi capta o sentido exato: não é vaidade, mas o entendimento de que cada pessoa vale como um mundo inteiro — de modo que ninguém deveria lançar fora essa vida inteira "por uma única transgressão", deixando-se arrastar por ela.