Não se monta em seu cavalo, e não se senta em seu trono, e não se usa seu cetro, e não o veem quando corta o cabelo, nem quando está nu, nem quando está na casa de banho, pois está dito: "porás sobre ti um rei" (Devarim 17:15) — que seu temor esteja sobre ti. — A mishná reúne seis proibições distintas que protegem a dignidade e a majestade do rei: ninguém pode usar seu cavalo, seu trono ou seu cetro — símbolos pessoais e intransferíveis de sua realeza — e ninguém pode vê-lo em momentos de exposição ou vulnerabilidade física: cortando o cabelo, despido, ou no banho. Todas essas restrições derivam de uma única leitura do versículo que institui a monarquia: o mandamento de "por sobre ti um rei" é entendido não apenas como a instituição do cargo, mas como a garantia de que o temor e a reverência ao rei permaneçam intactos — e cada uma dessas exposições, permitida a um homem comum, diminuiria esse temor caso permitida também ao rei.
A mishná funda todas as suas restrições sobre a dignidade do rei numa única leitura homilética do versículo que institui a própria monarquia em Devarim 17.
Rambam e Bartenura, concisos nesta mishná final, esclarecem apenas o sentido de "cortar o cabelo" — remetendo ao restante do texto como autoexplicativo.
Rambam esclarece apenas que "quando corta o cabelo" significa quando raspa o cabelo de sua cabeça, observando que o restante da mishná é claro por si mesmo e dispensa maior explicação.
Bartenura repete a mesma explicação sucinta de Rambam: "quando corta o cabelo" refere-se ao ato de raspar o cabelo da cabeça.
Rashi, sobre a Guemará de Sanhedrin 22a, no episódio de Avishag a Shunamita junto ao leito do rei David idoso, ilustra precisamente a vulnerabilidade física que esta mishná protege — e por que, mesmo ali, se fez uma exceção pontual.
Rashi conta o episódio de fundo: quando o rei David, já idoso e enfraquecido, não conseguia se aquecer, trouxeram-lhe Avishag a Shunamita para cuidar dele — e ela lhe respondeu, com ironia, que ele só invocava restrições religiosas porque sua força já havia minguado, como um ladrão que, sem oportunidade de roubar, finge ser homem de paz. Rashi explica que, apesar da proibição geral de um homem ficar a sós com uma mulher solteira, os Sábios permitiram excepcionalmente a Avishag permanecer junto a David, precisamente por sua fragilidade e idade avançada. O episódio ilustra, em carne viva, a mesma preocupação que fundamenta esta mishná: a dignidade do rei depende de que sua fraqueza e vulnerabilidade física nunca sejam expostas ao povo — e mesmo quando uma exceção pontual se fez necessária, ela permaneceu excepcional, sem abalar a regra geral de reverência que o cerca.